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A escolha pelos jornais A Voz da Raça e o Quilombo advém da importância que os mesmos possuíam para a difusão das ideias de seus componentes e colaboradores. Esses periódicos eram estratégicos para as atividades políticas, econômicas e sociais desses movimentos, refletindo, em grande medida, os debates pertinentes à comunidade negra da

época e do contexto na qual estava inserida. O historiador Flávio Gomes destaca a importância da imprensa negra:

A opinião por ela veiculada produz e reproduz valores, o que é certamente uma das mais importantes funções desses periódicos. O humor e a crítica são dirigidos principalmente à “classe” que o jornal representa. É também uma função educativa, na medida em que os jornais são porta-vozes dos seus valores culturais e morais (GOMES, 2010, p. 40).

A questão dos valores é de suma importância para esse trabalho, pois é primordialmente através deles que será possível explorar os significados da virilidade, da masculinidade, suas conexões com a raça e com as temáticas abordadas nos capítulos.

Destaca-se nesses jornais o negro como intérprete principal da realidade brasileira, de proposições para a resolução de suas demandas e desafios. É por meio dessa interpretação que o diálogo com valores associados ao masculino pôde ser desenvolvido. Além dessas fontes, a pesquisa se debruçará sobre outras, quais sejam, as memórias, biografias e produções intelectuais de alguns desses homens, a fim de contextualizar os movimentos e algumas de suas perspectivas. Esse material se apresenta como um terreno fértil para um melhor entendimento sobre as influências dos valores, perspectivas, ideologias, pretensões e interlocutores na composição das masculinidades desses indivíduos.

O acesso ao periódico A Voz da Raça foi obtido através do site da Universidade de São Paulo (USP), voltado para a imprensa negra paulista. Ao todo, são setenta jornais escaneados entre os anos de 1933 e 1937. No caso do Quilombo, estes foram cedidos gentilmente por Elisa Larkin Nascimento através do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (IPEAFRO) situado no Rio de Janeiro, ao todo são dez edições digitalizadas de 1948 a 1950.

Como estratégia metodológica de análise do material supracitado, utilizou-se as próprias palavras, termos e expressões empregadas nos jornais, procurando com isso obter os valores que remetessem ao “universo masculino da forma que eles eram empregados. Para isso foi adotado um critério básico: a partir da leitura dos jornais foi selecionado os textos que, direta ou indiretamente, versassem sobre homens e/ou adotassem para se referir a eles, um vocabulário associado especificamente aos significados informados por esse universo, para daí realizar as análises.

Assim, matérias que apesar de discorrerem sobre homens fossem demasiadamente

“técnicas” e/ou meramente informativos, isto é, que porventura trouxessem basicamente dados biográficos, datas, trabalhos, cargos etc. não oferecendo maiores características dos indivíduos e situações para análise foram descartadas. Outro ponto é que nossa intenção não foi esgotar todas as aparições desses trechos nas 80 edições dos jornais (10 do Quilombo e 70

do A Voz da Raça) por duas razões principais: 1) A redação provavelmente ficaria cansativa com muitos excertos ao longo texto. 2) Repetitiva por esgotar-se a variedade das características conferidas aos personagens e, portanto, das próprias análises. Dessa maneira foram perscrutadas aquelas de maior “representatividade” para nosso estudo, ou seja, que fossem quantitativa e/ou qualitativamente mais expressivas quanto aos critérios elencados anteriormente. Ao todo foram analisadas trinta e cinco figuras, dezenove do A Voz da Raça e dezesseis do Quilombo.

Quanto à forma escolhida para apresentar os trechos, foi decidido exibi-los como figuras no corpo do trabalho e ao lado, ou abaixo (dependendo da diagramação) transcrever as passagens emblemáticas para exame. A transcrição foi necessária devido a parte dos trechos serem ilegíveis (ou quase isso), principalmente do A Voz da Raça, ou pela necessidade de reduzi-los, o que também inviabilizaria a leitura. Outra questão é que a transcrição, na maioria das vezes, não foi na íntegra, mas apenas as partes que consideramos as mais relevantes e que foram realmente fruto de exame. Além da figura no corpo do texto, também foi disponibilizado em notas de pé de página um link direto para o periódico que a contivesse.

Em relação aos temas das seções, eles foram escolhidos a partir da recorrência que eles apareciam nos periódicos em consonância com os objetivos da investigação.

Concomitantemente a essa estratégia nos debruçamos sobre as ideias, valores e normas de gênero e raça vigentes nos respectivos períodos estudados, na tentativa de apreender os conceitos mais próximos possíveis de seus contextos e seus significados conjunturais. Através dessa pequena exposição é possível notar que será fruto de nossa análise não só os periódicos, mas também, de forma mais concisa, para compor o cenário histórico, o debate que estava sendo travado sobre identidade (o caráter) nacional e os lugares sociais que negros e brancos, homens e mulheres deveriam ocupar nesse processo.

Essa abordagem foi necessária não só para contextualização, mas principalmente para trazer os interlocutores desses movimentos para o debate, visto que a constituição desses discursos são relacionais, ou seja, respondem, contestam ou endossam determinados entendimentos correntes sobre qual o papel que os grupos socio-raciais e de gênero deveriam ocupar no projeto nacional da primeira metade do século anterior. Esse tipo de tratamento se mostra um desafio, uma vez que a discussão sobre masculinidade, assim como o próprio conceito não estava colocado naquele período, pelo menos não da maneira como conhecemos.

Quanto à virilidade, apesar de ser um conceito mais antigo, usualmente, sua forma de aparecer é através de sinônimos, expressões e palavras de sentido semelhante, apesar do esforço dos estudiosos terem nos fornecido algumas orientações importantes para detectá-la.

Portanto, dificilmente encontraremos tais palavras, nesse contexto, mas sim termos que possam remeter às ideias de virilidade, masculinidade, ou seja, às características socialmente atribuídas aos homens. De todo modo, nossa intenção é abordar os sujeitos sociais dos discursos de forma contextualizada, integrando os elementos textuais como as posições sociais e os interesses envolvidos entre os interlocutores e as ideologias subjacentes.

2 CONTEXTUALIZANDO A FNB E O TEN

Como o próprio nome do capítulo diz, seu objetivo é contextualizar os dois movimentos que serão investigados no decorrer do trabalho, para com isso oferecer uma contextualização histórica dos acontecimentos que os cercaram, introduzir algumas informações sobre suas estruturas organizacionais e seus objetivos, além de conectar suas imprensas com processos sociais anteriores que remetem à noção de “imprensa negra”. A intenção é considerar as circunstâncias gerais nas quais os discursos dos homens da FNB e do TEN foram produzidos. Indicando subsídios necessários para a inteligibilidade dos fenômenos socias alvo de nossas preocupações, e que serão frutos de análises mais detidas nos próximos capítulos, mas que aqui, em certos aspectos, já são adiantadas.