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A militância de Antônio Baiano

Quantos caminhos se tem que andar Antes de tornar-se alguém?

Quantos dos mares temos que atravessar Pra poder, na areia, descansar?

Quantas mais balas perdidas voarão Antes de desaparecer?

(Zé Ramalho, 2008)

A vida de Antônio Baiano foi marcada, desde cedo, pelo sofri- mento, pela luta e pelo amor ao próximo. Desde criança ele percebia a divisão de classes e essa desigualdade o incomodava.

Desde pequeno, eu já percebia a divisão de classes e isso me incomodava. Quando fui morar em Goiânia, em 1982, eu fi- cava intrigado ao ver tantas pessoas que moravam nas ruas de Goiânia. Era uma pergunta que eu fazia sempre: por que uns com tantos e muitos sem nada? Por que, enquanto uns desper- diçam alimentos, outros comem do lixo? Indo para o seminá- rio em 1984, ali nos estudos da teologia, eu tive a resposta: é a exploração, a ganância e a injustiça que geram um mundo desigual. No Ensino Fundamental, eu já participava do Cen- tro Cívico Estudantil de Orizona, no colégio Polivalente, e, depois, no Ensino Médio, participei das lutas estudantis em Goiânia. A luta do passe livre no transporte coletivo, a meia entrada nos cinemas...(Excerto da entrevista com Antônio Pe- reira de Almeida, realizada em 14/03/2019)

A militância surge na trajetória de Baiano devido à sua vivência, ao seu olhar crítico, ao seu conhecimento bíblico, à sua necessidade de fazer a diferença, à sua não aceitação da desigualdade, ao sonho de ver todos tendo seus direitos respeitados, e com condições de ser gente, de viver como gente. Militante junto àqueles que Cristo tanto acolheu e defendeu: os pobres, os famintos, os desvalidos, os migrantes, os menos favorecidos financeiramente, porém, ricos de alegria, sabedoria e luta.

A formação no seminário contribuiu muito para que ele se tor- nasse um militante. Os estudos da Bíblia e o novo olhar adquirido trans- formaram a forma de agir de Baiano. Ao deixar o seminário, ele deixa o desejo de ser padre, mas não deixa o desejo de viver em comunidade e de defender a formação dos movimentos sociais, porque sabia da im- portância da união de pequenos grupos, da partilha da oração e dos problemas, da necessidade de criar e fortalecer laços.

Após minha saída do seminário, em 1987, comecei a me de- dicar aos trabalhos de formação de jovens e animadores das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Passei também a tra- balhar no Centro Promocional Campo Formoso, atividade mantida pelo Centro Social Rural de Orizona. Neste centro promocional, eram acolhidas cerca de sessenta crianças e adolescentes em situação de rua. Ali eu pude experimentar a miséria em que vive o nosso povo, escondido nas periferias até das pequenas cidades. Esses fatos me fizeram contrapor ao poder político local, que negava direitos a essas crianças, por não terem aplicado um recurso público na construção de um espaço para instalação de uma Marcenaria. O prefeito da época ameaçou me prender por eu ter dito em público que ele estava desviando dinheiro público. Foi a partir desse momen- to que decidi me filiar ao Partido dos Trabalhadores (PT). O único partido até os dias atuais... (Excerto da entrevista com Antônio Pereira de Almeida, realizada em 14/03/2019)

A luta social e o contato com o povo da periferia (mesmo nas cidades pequenas) despertaram em Baiano o desejo político, da mili-

tância política, e, por isso, ele resolveu filiar-se ao PT (Partido dos Tra- balhadores). Antônio Baiano se depara com as crianças em situação de rua, de miséria, e luta junto aos políticos para que essa situação mude.

Bogo (2003, p.43) fala sobre essa ousadia: “A ousadia, juntamente com a justeza das propostas, é que levam a salvar milhares de miseráveis da exclusão. Crianças desnutridas renascem, famílias se reconstituem, de- senvolvendo valores e criando perspectivas positivas para o futuro”.

Mas, o ponto chave de sua militância é a formação (preparação de jovens e grupos, por meio do estudo da biblía, de textos e por meio da música). Trabalhou voluntariamente como formador de jovens religio- sos dentro da Pastoral da Juventude e como formador das CEBs, dois polos de atuação junto ao povo, aos grupos, à realidade. Um dos ins- trumentos usados nos encontros de formação foi a música. Não apenas a música religiosa, mas também a da MPB e as músicas de sua autoria.

Sua vivência e sua formação religiosa nunca o distanciaram das suas raízes, sendo que, a partir do ano de 1989, ele uniu seus conheci- mentos religiosos à filosofia dos movimentos sociais de luta pela terra, tornando-se, a princípio, um formador bíblico, e, posteriormente, um militante pela luta social. Assim o compositor relata:

Em 1989 fui convidado a trabalhar como agente de pastoral na Comissão Pastoral da Terra (CPT- Goiás). Inicialmente meu trabalho seria dar uma contribuição bíblica para a equipe e junto às lideranças dos movimentos sociais, das comunida- des rurais. Mais tarde fui me envolvendo na luta direta dos assalariados rurais, na luta dos agricultores familiares, que à época, eram chamados de pequenos agricultores ou pequenos produtores rurais. Nesse período também conheci a chamada

“agricultura alternativa”, que visava produzir sem usar agro- tóxicos ou adubação química. Passei a acompanhar as lutas pela terra junto à FETAEG (Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Goiás) e ao MST (Movimento dos Sem Terra). Neste caminho também encontrei a Educação do Campo, através das EFAs (Escolas de Famílias Agrícolas). (Ex- certo da entrevista com Antônio Pereira de Almeida, realizada em 14/03/2019)

A luta direta dos assaliariados, a luta de classes por seus direitos, direitos tão defendidos por Marx. As lutas de classes existem e têm gran- des consequências dentro da sociedade. Segundo Konder (2008, p. 32):

As lutas de classes assumem formas extraordinariamente va- riadas: às vezes, são fáceis de ser reconhecidas, são mais ou menos diretas; às vezes, contudo, elas se tornam extremamen- te complexas e não cabem en interpretações simplistas. Nas sociedades capitalistas, as lutas de classes tendem a assumir formas políticas cada vez mais complicadas.

Antônio Baiano concretiza essa teoria marxista por meio de suas ações junto ao movimento dos trabalhadores rurais e de outros movi- mentos sociais. O modelo econômico tenta destruir as lutas e conquis- tas, mas há os que resistem. Bogo (2003) salienta que:

O modelo econômico engole parte das conquistas históricas, mas não engole a motivação, a consciência e a solidariedade entre os trabalhadores que ousam desafiar as dificuldades com o objetivo de vencer. (BOGO, 2003, p. 44)

Antônio Baiano ressalta sua luta direta junto aos assalariados ru- rais, Konder (2008) ressalta que:

A força do trabalho do ser humano – é claro – nã pode dei- xar de ser arrastada nessa onda; ela também se transforma em mercadoria e seu preço passa a sofrer as pressões e flutuações do mercado. Os trabalhadores, além de viverem sob a ameaça da perda do emprego, são obrigados a se organizar e a lutar para defender seus salários; e o fato de tomarem consciência de que já existe alternativa socialista e de que a organização da produção poderia ser diferente é um fato que só pode agravar o mal estar que sentem no trabalho. (KONDER. 2008, p. 34)

Uma luta incessante, uma luta que vai contra o poder opressor, que não quer se igualar às classes sociais menos favorecidas. Outro pon- to importante na fala de Baiano é a preocupação com o meio ambiente, ao ter contato com a agricultura alternativa, que não usa agrotóxico, res- saltando essa técnica sustentável. Sobre agricultura alternativa, Petersen (2012) explica que:

... as agriculturas alternativas podem ser defnidas como sis- temas sociotécnicos desenvolvidos em resposta a bloqueios sociais, econômicos e/ou ambientais encontrados na agricul- tura convencionalmente praticada em contextos históricos defnidos. Dependendo das condições políticas e institucionais vigentes, esses sistemas técnicos alternativos podem perma- necer como opções subvalorizadas pela sociedade ou podem suplantar os padrões convencionais de produção. (PETER- SEN, 2012, p. 42)

A partir de então, sua militância, iniciada no Ensino Fundamental, continua através da militância política e da sua inserção na Comissão Pas- toral da Terra (CPT). Tentando contribuir com o seu povo, e atuando junto ao seu partido, ele se candidata a vereador, vice- prefeito, deputado estadual, e atua, por muitos anos, na CPT, realizando um trabalho missionário, tanto junto às igrejas quanto junto aos assentamentos e comunidades rurais.

Iniciei minha militância no movimento estudantil, como já disse antes, no Centro Cívico, quando fazia o Ensino Funda- mental, em Orizona, depois, no Grêmio estudantil, no Colégio Rui Barbosa, em Goiânia. E nesse tempo fui filiado ao PT sem ter muita clareza do que significava aquilo. Só em 1987 que percebi o que significava estar neste partido político. No PT fui candidato a vereador em 1988, sendo proclamado eleito, mas depois com a recontagem de votos perdi por quatro vo- tos, ficando como primeiro suplente. Fui candidato a vereador mais uma vez, apenas para contribuir com o partido, mas nem fiz campanha por estar envolvido em outras atividades esta- duais. Fui candidato por três vezes a deputado estadual, sendo

que, na melhor votação, fui diplomado como terceiro suplen- te. Fui vice-prefeito de Orizona e vereador suplente novamen- te. Na CPT trabalhei por onze anos consecutivos, atuando nas várias regiões do estado de Goiás, ora nas igrejas, ora nos as- sentamentos e comunidades rurais. Uma experiência que me possibilitou conhecer o CEBI - Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos, do qual faço parte até hoje, e também conheci o Cur- so de Verão do qual atuei por longos anos, contribuindo com animação e assessorias. Esse espaço de formação está sediado em Goiânia e contou com apoio da Arquidiocese de Goiânia ao longo dos anos, e atualmente é coordenado pelo Espaço Cultural Cara Vídeo. (Excerto da entrevista com Antônio Pe- reira de Almeida, realizada em 14/03/2019)

A luta social e a luta ambiental, tornaram-se duas vertentes de sua ação, dois rumos tomados a partir de suas experiências e de suas vivên- cias. A militância é resumida por Baiano na seguinte definição:

A partir do momento em que você tem uma causa, uma ra- zão para lutar pela libertação, você já se constitui um mili- tante. Ser militante é ter causa, compreender que a realidade em que vivemos está permeada de injustiças, de desamor e de destruição de nossa casa comum. Ao trilhar os caminhos da militância, nossos horizontes vão se abrindo para novas ações.

Hoje já é consenso de que nossa luta tem que passar pela sus- tentabilidade de nosso planeta. Sustentabilidade entendida como ambiental, social e econômica. (Excerto da entrevista com Antônio Pereira de Almeida, realizada em 14/03/2019) O militante Antônio Baiano luta pela libertação de seu povo e pela preservação do meio ambiente, autor de músicas que denunciam a des- truição da natureza. Homem atuante e persistente. Ser militante é o ato de ir ao encontro do outro, principalmente, dos menos favorecidos. É, junto com eles (classe social menos favorecida), lutar por iguadade so- cial, justiça social, sonhar e lutar juntos.