No percurso de uma pesquisa, talvez a escolha mais difícil seja a definição do referencial teórico-metodológico, uma vez que essa decisão precisa levar em conta: a questão investigada, as contribuições que uma determinada teoria pode oferecer para compreender o objeto de estudo, as crenças do pesquisador, a coerência entre as matrizes que sustentam as discussões teóricas e os caminhos da análise.
Em função do nosso objeto de estudo, optamos pela pesquisa qualitativa, que, além de utilizar vários métodos e instrumentos, ―reflete uma espécie de diálogo entre os investigadores e os respectivos sujeitos, dado estes não serem abordados por aqueles de uma forma neutra‖
(BOGDAN; BIKLEN, 1998, p. 51). Buscamos ancorar nossos passos de investigação em referenciais que assumem como cerne o entrelaçamento das dimensões cultural, histórica e semiótica na compreensão dos fenômenos estudados. Nesse sentido, assumimos, como aporte teórico-metodológico fundamental, o diálogo entre as produções teóricas de Ball (1992, 1994), em especial a abordagem do ciclo de políticas, pelos insumos que essa dispõe para analisar uma política de Educação, inter-relacionando às dimensões macro e microestruturais, o global e o local, os processos de elaboração e implementação com a matriz histórico- cultural e semiótica dos processos humanos (VYGOTSKY, 1987, 1988) e o dialogismo de Bakhtin (2011). Nesta pesquisa, investigamos processos, instâncias mediante as quais, segundo as próprias co-pesquisadoras, foram se constituindo modos de ser e fazer específicos de sua pessoa-profissional com relação à organização do espaço na educação infantil.
As ideias de Vygotsky e Bakhtin são pertinentes na construção dos dados, das análises e reflexões desta pesquisa porque os dois autores, cada um ao seu modo, concebem a linguagem como um artefato social que se configura através de um processo de comunicação.
Tal processo emerge de uma teia de interações e considera a dialeticidade Eu-Outro na constituição dos sujeitos sociais e a produção de sentidos sobre os objetos.
Para Vygotsky, o conceito de ―social‖ faz referência a relações dinâmicas de constituição histórica da condição humana, quanto ao modo de operação peculiar dessa condição, qual seja, a operação mediada por signos, especialmente a linguagem. De acordo com as concepções do autor, pela operação com signos, é possível a conversão das relações sociais entre pessoas em funções intrapessoais e, consequentemente, a produção de
―sentidos‖.
Bakhtin recupera e explicita a singularidade e a totalidade da linguagem, defende a unicidade do sujeito, a unidade do mundo no particular, ao salientar a diferença de lugares ocupados por cada sujeito, ao compreender a totalidade nas múltiplas vozes que participam do diálogo da vida.
Em Vygotsky, os sentidos são significados pessoais, como transformação do social, parte da subjetividade, subjetividade esta que é construída/reconstruída ao longo da vida e que é apropriada pelo sujeito nas várias significações partilhadas nas relações sociais (SANTOS;
VASCONCELLOS, 2014).
Em Bakhtin, os sentidos são formados a partir da situação histórica em que o enunciado é proferido. O sentido é o presente, é o que ocorre agora. A formação histórica escolar e de vida das copesquisadoras em estudo são reveladores dos sentidos que atribuem e dos significados que partilham sobre o espaço com/para as crianças.
Na perspectiva dos dois autores, a transformação dos sentidos está intrinsecamente relacionada às transformações sociais e históricas, porém, para Bakhtin, a significação dependerá da contextualização para ganhar sentido, que, a partir das contradições, retorna com um novo formato apreciativo das coisas. Tais mudanças, no entanto, correspondem a uma instabilidade de identificação de sentidos.
Assim, o processo de transformação/reorganização do espaço é algo real quando as copesquisadoras reavaliam suas práticas e os sentidos a elas atribuídos, a partir dos encontros temáticos e das intervenções em que adicionam outros sentidos para si, dos olhares das crianças, dos espaços e dos materiais utilizados.
Por isso, compreender a produção de sentidos próprios a partir da aproximação das perspectivas de Vygotsky e Bakhtin implica assumir, teoricamente, que cada enunciado se distingue não só por seu conteúdo, mas também pelos significados partilhados e por novos sentidos produzidos por cada sujeito envolvido no processo. A definição dos sentidos, neste trabalho, pressupõe a existência de embates discursivos, ou seja, nosso discurso incorpora as palavras do outro (nossas interlocutoras).
Nessa perspectiva, na análise e interpretação dos dados, bem como na construção desta tese, fundamentadas em Bakhtin (2003), tentamos articular, no diálogo, vozes nossas com as palavras alheias – das interlocutoras, das copesquisadoras e dos teóricos. Para o autor, no processo da compreensão ativa dos enunciados, as palavras dos outros ou alheias vão se tornando minhas próprias palavras quando retiramos as aspas e as incorporamos, gradativamente, ao nosso discurso.
Próximo a Bakhtin, Vygotsky defende o conceito de internalização como processo de aprendizagem que vai mais além do que identificar aspectos semelhantes ou contrários da palavra do outro, mas se insere no discurso do sujeito de forma dialética e dinâmica.
Entendemos que a fala assume papel central e, através dela, os significados podem ser partilhados e atualizados, uma vez que não há palavras que não estejam carregadas de significação. De acordo com Vygotsky (1998, p. 47):
O significado pertence não só ao domínio do pensamento mas ao domínio da fala...
Uma palavra sem significado já não pertence ao domínio da fala. O significado da palavra é fala ou pensamento? É ambos ao mesmo tempo; é uma unidade de
pensamento verbal... Nosso método deve basear-se na análise do aspecto significativo da fala: deve ser um método para se estudar o significado verbal.
Nesse sentido, analisamos o ciclo de políticas com o apoio das referidas abordagens.
Por isso, é uma pesquisa dialogada, ou seja, refere-se aos sentidos construídos na pesquisa ao longo de sua trajetória. ―Concebendo a intervenção no interior da perspectiva histórico- cultural como mudança no processo, transformação e ressignificação dos pesquisados e do pesquisador, ação mediada e compreensão ativa‖ (FREITAS, p. 19). Concepções que se realizam e concretizam no ―encontro do eu com o outro‖. Um método reflete sempre o olhar, a perspectiva que se tem das questões a serem estudadas (VYGOTSKY, 1991). Isto está dentro da mesma concepção do ciclo de políticas de Ball (2011) quando aponta as hipóteses como questões, porque possibilitam os vários olhares e múltiplas possibilidades de compreendê-las.
Nesta perspectiva, Vygotsky (1987, 1988) e Bakhtin (1997, 2006) compreendem, cada um à sua maneira, as interações sociais e o signo como mediadores da constituição do sujeito.
De acordo com Vygotsky (1987, 1988), o homem se constitui na cultura quando, uma vez inserido em práticas sociais, realiza experiências com seus pares e as internaliza através da linguagem, produzindo/interpretando significações e sentidos. Bakhtin (1997) enfatiza o signo como elo entre o homem e o mundo exterior na constituição da consciência.
Ao assumirmos essas perspectivas teórico-metodológicas, orientamo-nos por alguns de seus princípios das ações investigativas. Segundo Freitas (2002, p.28)
Trabalhar com a pesquisa qualitativa numa abordagem sócio-histórica consiste pois, numa preocupação de compreender os eventos investigados, descrevendo-os e procurando as suas possíveis relações, integrando o individual com o social. [...]
Trata-se, pois, de focalizar um acontecimento nas suas mais essenciais e prováveis relações.
Na segunda parte deste trabalho, ao analisarmos, no ciclo de políticas, a reverberação na prática das políticas oficiais para educação infantil, procuraremos recorrer a uma abordagem metodológica que privilegie, na construção dos dados, a atenção aos momentos interativos dos sujeitos que fazem essa política acontecer. Encontramos na abordagem histórico-cultural proposições de ordem epistemológica e metodológica, que enfatizam, no desenvolvimento humano, processos que dependem tanto do indivíduo nas/das relações que estabelece, quanto do meio físico e social em que se encontra.
Vygotsky e Bakhtin concebem seus estudos ―baseados na abordagem materialista dialética da análise da história humana [...]‖, tendo como ―elemento-chave‖ a dialética, na
medida em que ―a abordagem dialética, admitindo a influência da natureza sobre o homem, afirma que o homem, por sua vez, age sobre a natureza e cria, através de mudanças provocadas por ele na natureza, novas condições naturais para sua existência‖ (VYGOTSKY, 1988, p. 69-70). Diferentemente das abordagens naturalísticas – a natureza e as condições naturais afetam e determinam o homem e o desenvolvimento histórico do mesmo modo que o homem afeta a natureza.
Para Vygotsky (1988, p. 71), é importante estudar os processos e não os objetos, resultados e produtos, pois ―[...] a tarefa básica da pesquisa obviamente se torna uma reconstrução de cada estágio no desenvolvimento do processo [...]‖. Nessa tarefa, considerar a dimensão histórica bem entendida não significa estudar os fatos passados, mas ―[...] o curso de transformação que engloba o presente, as condições passadas e aquilo que o presente tem de projeção do futuro‖. (GÓES, 2000, p. 13).
Entendemos ser perceptível a importância de um processo investigativo em que as copesquisadoras, além de terem algo a dizer, também ajam como agentes na realidade vivenciada: possuem voz e vez. Investigadora e copesquisadoras se tornam sujeitos em interação e colaboradoras no processo investigativo, possibilitando, assim, a construção de uma relação entre sujeitos que difere de uma interação sujeito-objeto. ―Isto significa dizer que nosso interesse não residiu em realizar uma pesquisa sobre os educadores da creche, mas sobretudo com eles‖ (MOREIRA, 2011, p. 75).
No percurso metodológico, discutimos com as copesquisadoras as etapas do estudo, possibilitando-as sugerir diversas situações em que o ambiente pudesse ser fotografado e, futuramente, ser analisado. Nessa perspectiva, o estudo assumiu um caráter de co-construção.
As educadoras analisaram suas próprias atividades e criaram situações que propiciaram questionamentos sobre a utilização do espaço por elas e delas com as crianças. Nesse sentido, conciliou a construção de novos saberes e a formação continuada.
No diálogo em que buscamos aproximar as concepções de Vygotsky, Bakhtin e Ball, ressaltamos que a política, para Ball, não é feita e nem finalizada no momento legislativo e os textos precisam ser lidos em relação ao tempo e ao local específico da sua produção. Os três autores trabalham na incompletude, não na determinação. O ciclo de política de Ball dá ideia de circularidade, não há começo nem fim, e Vygotsky também discute os sentidos e significados de acordo com o tempo sócio-histórico de cada indivíduo.
Em contraposição à visão de política como coisa, Ball (1992) a concebe como sendo, ao mesmo tempo, processos e resultados. Assim, possibilita pensar o processo político como não linear e não estruturado em etapas que vão desde a resolução de determinadas agendas até
a sua implementação nos espaços para os quais se destinam com fins de obter certos resultados.
A opção por este referencial teórico-analítico trouxe a necessidade de rever conceitos, de tentar romper com os ranços de interpretações maniqueístas, lineares e hierárquicas comuns à pesquisa das políticas educacionais e das Ciências Humanas e Sociais em geral. Isso já foi denunciado nos debates sobre a crise dos paradigmas que assola esse campo na atualidade (BRANDÃO, 1995). Nossas poucas certezas de pesquisadora em formação foram desestabilizadas, exigindo novas leituras e disposição para tentar (des)construir caminhos de investigação em interlocução com os autores que nos acompanharam durante a pesquisa.
Quando aceitamos esse desafio, não assumimos tal abordagem como ideal, sem limitações, como sendo uma nova verdade, sem possibilidades de contestação. O próprio Ball (1992) admite a continuidade de sua construção e faz revisões esporádicas à sua formulação.
Buscamos, como sinaliza Caligaris na epígrafe inicial deste capítulo: ―deslocar-se para um lugar onde possamos descobrir que há, em nós, algo que não conhecíamos até então‖.