5 ANÁLISE DA INTERVENÇÃO PEDAGÓGICA
Este capítulo apresenta a análise da intervenção pedagógica realizada na creche pesquisada e tem por base a abordagem histórico-cultural sobre a relação ambiente e práticas educativas. Partimos do pressuposto de que a intervenção ―são sempre criações particulares de cada processo de interação entre os pesquisadores e os participantes, considerados como autores na ação e autores na reflexão‖ (FERREIRA, 2007, p.19).
Nesse sentido, juntas, pesquisadora e copesquisadoras, tivemos voz e espaço via
―formação em serviço‖ para relacionar a organização do ambiente/sala do berçário e a prática pedagógica das professoras. As ações co-construídas possibilitaram a ―reflexão crítica sobre o planejamento, a organização e a transformação dos arranjos espaciais de modo a atender os interesses e as necessidades de desenvolvimento das crianças‖ (MOREIRA, 2011, p. 79).
Como esclarecido na introdução e no capítulo 2, que discute a metodologia, esta fase da pesquisa segue as etapas desenvolvidas por Moreira (2011). Como o da referida autora, embora com atividades diferentes, a metodologia de nossa pesquisa foi planejada em etapas sucessivas e relacionadas. Para uma melhor compreensão do processo de organização e transformação dos ambientes do berçário, detalharemos cada etapa discutindo as análises feitas a partir dos métodos e instrumentos utilizados na construção dos dados.
Na primeira etapa (dia 23 de julho de 2014), apresentamos o projeto de tese a toda unidade: diretora37, vice-diretora, coordenadora pedagógica e dez professoras. Nesse encontro apresentamos os objetivos, questões e perspectivas metodológicas da pesquisa. Tínhamos por objetivo informar, ouvir e obter a adesão voluntária das que passariam a ser copesquisadoras.
Na oportunidade, demonstramos o nosso interesse em realizar uma pesquisa-intervenção, mais especificamente na sala do berçário, seguindo, assim, a linha do estudo maior do grupo de pesquisa NEI&PE/PROPED/UERJ38 (VASCONCELLOS 2006, MOREIRA;
VASCONCELLOS, 2011).
Adaptamos o projeto de pesquisa para a apresentação em PowerPoint (Apêndice D).
Destacamos nosso desejo de que as educadoras do berçário participassem como copesquisadoras, partilhando experiências refletindo conosco os procedimentos metodológicos, as teorias e as análises de documentos oficiais que versam sobre o espaço da educação infantil. Apresentamos os aspectos mais importantes do projeto, dividindo-o em oito partes: justificativa, referencial teórico, estudos sobre o tema, definição de conceitos (arranjo espacial, espaço nas políticas, ciclo de política, teoria histórico cultural, dialogismo de Bakhtin), questões de estudo, objetivos, metodologia e importância da pesquisa.
Explicitamos que o nosso foco era trabalhar com as professoras39, na perspectiva da formação em serviço, propondo e mediando reflexões sobre a organização e o planejamento do espaço. A reorganização espacial seria o resultado da ressignificação dos ambientes feita pelas copesquisadoras junto com a pesquisadora.
Esta opção metodológica, para nós, foi o melhor caminho por possibilitar a reflexão e reelaboração dos espaços/ambientes da creche a partir do trabalho pedagógico desenvolvido pelas educadoras na sala do berçário. Ela nos possibilitou aprofundar conhecimentos teórico- práticos básicos, através da discussão e análise em grupo na busca de sugestões viáveis para superar os problemas da organização do espaço no cotidiano daquela unidade para a primeira infância. Mostramos, às copesquisadoras, que o nosso trabalho se daria a partir de ―Encontros Temáticos‖ 40, que nos possibilitariam conhecer e discutir a prática de planejamento e
37 A diretora, prof.ª Gisele Inácio, já havia trabalhado conosco durante dois anos – 2012/2013 – numa atividade de extensão – projeto de contação de histórias intitulado ―Era uma vez...‖ pela Universidade do estado do Rio Grande do Norte.
38 Núcleo de Estudos da Infância-Pesquisa e Extensão do programa de Pós Graduação em Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, do qual fazemos parte como aluna de Doutorado.
39 O grupo de professoras da creche é composto totalmente por mulheres.
40 Diferente das sessões reflexivas que são contextos onde são criadas oportunidades temáticas para aa discussão, os encontros temáticos, trazem temas já definidos pela pesquisadora.
utilização do espaço e também construir com o grupo as intervenções que seriam realizadas no berçário.
A diretora relembrou nossa parceria anterior, através da atividade de extensão – projeto de contação de histórias ―Era uma vez...‖ –, que desenvolvemos no antigo espaço da creche, nos anos de 2011 e 2012, em que, semanalmente, junto com os alunos do sexto período do curso de pedagogia do CAP/UERN, realizávamos atividades diversificadas de contação de histórias. Ela destacou como ―significativas e importantes‖ as contribuições da atividade para o gosto e prazer da literatura com crianças.
Enfatizou, também, que se preocupava com a estruturação das salas e que, através dos recursos do ProInfância, foram adquiridos alguns brinquedos para a creche, na medida do possível, considerando os interesses das crianças e as solicitações das educadoras.
A calorosa aceitabilidade da direção à nossa pesquisa permitiu-nos que seguíssemos para a próxima etapa, iniciando o diálogo com as professoras. Este momento marca a oficialização de nossa interlocução com os profissionais da creche, especialmente as educadoras do berçário, de quem obtivemos adesão à pesquisa via TCLE – Termo de Conhecimento Livre e Esclarecido. Neste dia, entregamos a elas uma câmera fotográfica para que fossem registrados os ambientes da creche que mais chamassem atenção. Esclarecemos que poderiam ser fotografados, tanto ambientes que apresentassem dificuldades ou que apontassem possibilidades.
Segundo Cunha (1986), pesquisas desenvolvidas com e na coletividade implica em
―trabalhar na mesma obra‖. Nesse sentido, as professoras apresentaram grande interesse principalmente, porque não seriam sujeitos passivos, mas seriam copesquisadoras. Como enfatizou a copesquisadora Jucélia:
Essa pesquisa parece que é diferente das outras, porque às vezes vem estudante observar a gente, anotam, observam e não sabemos o que, as vezes tenho medo de estar fazendo algo errado, mas eles não falam nada, vão embora e não voltam pra ajudar a gente a melhorar (Registro de diário de bordo, data: 23/07/14).
O fragmento destaca que propusemos uma metodologia entendida a partir da reciprocidade, quando seria necessário um diálogo permanente no desenvolvimento da investigação.
Enfatizamos a importância do trabalho em grupo, com base na abordagem histórico- cultural, perspectiva teórica que destaca que a criação de sistemas simbólicos depende da vida
em sociedade, das práticas culturais nas quais os significados serão coletivamente construídos (VYGOTSKY, 1997).
Para este autor, ―as funções psicológicas superiores só são possíveis porque o ser humano nasce imerso em uma cultura determinada, que será, de algum modo, internalizada‖
(VYGOTSKY, 1997, p. 15). Nesse sentido, as enunciações das professoras do berçário trarão os sentidos pertinentes aos ambientes da Educação Infantil
É importante dizer que, pelo fato de ser o primeiro ano de funcionamento no espaço edificado pelo ProInfância naquele município, para nós, era interessante que esta pesquisa fosse mais um instrumento integrado às outras atividades que estavam acontecendo simultaneamente na creche41. É preciso demarcar que a nossa pesquisa foi o primeiro estudo realizado na unidade.
Logo, constatamos a restrita dimensão espacial da sala do berçário, ou seja, o espaço era pequeno em contraste à ampla estruturação física da creche. Aspecto que foi enfatizado pelas copesquisadoras através da análise das fotografias. Procuramos mediar a organização espacial das salas através de análises, reflexões e debates que pudessem auxiliá-las a inserir diferentes objetos e equipamentos, criando arranjos espaciais mais adequados e atraentes para as crianças.
Nesse sentido, se fez necessário conhecer, mais detalhadamente, a sala do berçário, a interação das crianças e observar como as professoras organizavam os espaços/ambientes e como compreendiam as implicações de suas intervenções nas interações das crianças.