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110 Uma das características da HO é funcionar como um instrumento a facilitar o estudo de fatos históricos recentes, portanto, trabalhar com versões de sobreviventes ainda vivos. Isso é interessante tanto para aos que relatam, pois podem contestar o que fazem com os seus relatos e podem reafirmá-los e beneficiar-se das ressignificações que produzem no ato de lembrar e compartilhar (ocupam posto de protagonismo); bem como para os pesquisadores que podem dividir responsabilidades, assim como transformações provocadas pelo encontro com as fontes históricas vivas. Trabalhar com esse tipo de fonte traz consigo implicações éticas específicas para os pesquisadores adeptos desse modo de conhecer. O que fazer com o material cedido por uma testemunha-sobrevivente viva? Ela pode reclamar a legitimidade ou não do que fizeram com o conteúdo confiado a alguém. Todo e qualquer historiador deveria ter o mesmo compromisso ético com as fontes trabalhadas, todavia, com a fonte contemporânea a ele, talvez seja necessário algo a mais, como uma espécie de parceria que busca afirmar o protagonismo dos informantes e certa fidelidade aos que cedem certa versão histórica. “De acordo com a forma que produzimos nossas atividades, também reafirmamos a ordem preexistente do mundo ou ajudamos a criar novos mundos” (PATAI, 2010, p. 28).
Entende-se que o pesquisador adepto desse modo, a priori, está disposto a, mais efetivamente, construir algo a quatro ou mais mãos – dando os devidos créditos – respeitando os sentidos historicamente e coletivamente construídos, pois está comprometido com a afirmação de certos mundos.
Para essa autora norte americana, em seu trabalho sobre a vida de mulheres brasileiras comuns, não há vidas sem sentido e nem histórias de vida sem significações. O que há são histórias de vidas com as quais não nos preocupamos, não legitimamos como importantes.
“Pode o subalterno falar?”, interroga a escritora indiana Gayatri Chakravorty Spivak (2010).
Subalterno é entendido por ela como aquele que pertence às “camadas mais baixas da sociedade constituídas pelos modos específicos de exclusão dos mercados, da representação política e legal, e da possibilidade de se tornarem membros plenos no estrato social dominante” (ibidem, p.12). O sujeito ocidental capitalista se faz dominante expropriando do objeto subalternizado saberes e capacidade de se perceber inserido numa realidade singular e, no lugar, impõe a sua marca produtora de invisibilização. Ou seja, subalterno é aquele colocado na margem e, por todas as condições que acompanham habitar esse território, a sua voz não pode ser ouvida. A condição de subalternidade já lhe retira a possibilidade de ser ouvido e ser visto como alguém que tem algo a dizer. Aqueles, cuja condição social lhe assegura privilégios, se põem a falar (em língua dominante) por e sobre o que é jogado à
111 margem, silenciando-o (não podendo dizer da sua versão da história, do que e de como certos eventos lhe atravessam). Desse modo, manter a postura de falar sobre o outro implica em mantê-lo subalternizado.
Ribeiro (2017) aponta que já em 1851, a ativista negra nova-iorquina nascida em cativeiro, Sojourner Truth, já levantava questionamentos a respeito da universalização da categoria mulher. Questionava qual tipo de mulher os movimentos feministas de seu tempo se referiam ao lutar por direitos iguais. Os direitos pelos quais lutavam as mulheres brancas não condiziam com a realidade das mulheres negras, pois a elas sempre fora exigido executar atividades pesadas e fora de casa e sequer eram reconhecidas como gente. Pouco ou nada sabemos das histórias de resistência das mulheres negras, elas não tiveram/tem nada a dizer?
Ou o pensamento e produção delas, vindos de longa data, foram intencionalmente ocultados/silenciados? A quem e ao quê tem interessado a invisibilização do seu pensamento?
Nos moldes tradicionais de produzir conhecimento essas mulheres não são ouvidas. A priori, entendiam que nelas (mulheres, negras, pobres) não havia atos heroicos dignos de serem historicizados porque as suas vidas (feitas subalternas) não importavam. Repito, nem sequer haviam alcançado o patamar de serem consideradas pessoas.
“A narrativa mostra a complexidade do acontecimento. É a via privilegiada para chegar até o ponto de articulação da História com a vida quotidiana” (BOSI, 2003b, p. 19). O modo de fazer história menor se interessa pelas pessoas comuns, pelo cotidiano experienciado ao longo e após certo acontecimento significativo, pelos sentidos dados por esses terminais do acontecido. A historiografia oficial se interessa pelos heróis e grandes lideranças (geralmente masculinas e brancas), nós pela gente comum que viveu o cotidiano do enfrentamento e da sobrevivência, à revelia do que era decidido na Casa Grande. Lançar mão de fontes orais, nesse sentido, é priorizar epistemologias que embasam a vida de pessoas e modos que nos interessam; é apostar na realização de uma história com rostos, cores, cheiros concretos; é apostar numa história composta por múltiplas dimensões dos viventes, com relação direta com os seus modos de operar no tempo. A partir de uma escolha política e ética, nela e através dela, queremos por em relevo o cotidiano, o que se passa na cozinha, no quintal da casa, no contexto e após determinado acontecimento. Na conversa cotidiana que se dá no encontro, não há grandes preocupações com a precisão do que é compartilhado. O vivido é compartilhado de maneira fluida e do encontro de vozes se tem uma ampliação de visões e transformação de sentidos sem que se atente previamente para constatação de veracidade (MIDDLETON, BROWN, 2006). O que se passa no cotidiano não diz de evoluções, mas das
112 pequenas lagoas que se formam quando da vazante do rio; dos saberes localizados na contramão das generalizações próprias de determinados modos de fazer ciência. Portelli (1997a) diz que o material final da entrevista é resultado do trabalho do narrador e de quem entrevista; nesse sentido, Rodrigues compõe:
aquilo que os depoimentos colhidos comportam de eloqüência, segredo, oficialismo, omissão, imprecisão, envolvimento ou distorção encontra-se em uma relação complexa, transformável, tanto com as histórias e mitos aceitos quanto com as circunstâncias da situação de entrevista – relação entrevistador-entrevistado, pergunta disparadora, reações do pesquisador, objetivos declarados (e supostos) da investigação etc. Neste sentido, a memória nem é social-coletiva nem individual- psicológica: é uma composição ou, voltando a apelar aos termos de Deleuze e Guattari, um agenciamento de enunciação. O relembrar se faz, portanto, acontecimento formado de elementos heterogêneos (RODRIGUES, 2004, p. 38).
Ele não é a “filmagem da realidade”, mas “a verdade da filmagem”. Ou seja, diz do interesse, da situação, do momento, do como se deu e de todos os meios usados para contar aquela história (COUTINHO, 1997).
A subjetividade do falante é um dos elementos que as fontes orais oferecem ao historiador. Um dos recursos oferecidos por essa aposta metodológica é o de historicizar a dimensão subjetiva da memória (RODRIGUES, 2004) Nas palavras de Portelli (1997b):
“Fontes orais contam-nos não apenas o que o povo fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e o que agora pensa que fez.” (ibidem, p. 31). As memórias de pessoas comuns também são passiveis de historização e dizem do ponto de vista dos que experimentam cotidianamente os efeitos de práticas sociais e como se fazem protagonistas de sua vida, de sua própria história e que sentidos dão aos acontecimentos e à própria vida. É, portanto, um ponto de vista parcial sem pretensões a afirmar-se como Verdade absoluta, linha dura inflexível. A memória oral traz pontos de vista contraditórios e aí está a sua riqueza;
alarga visões, faz a História Monumento tornar-se História Cotidiana em Devir, cuja composição é de múltiplas perspectivas, rostos, vozes, forças em disputa, sem anulação das vozes discordantes; sugere mais que afirma, caminha em curvas (BOSI, 2003a); busca, na contramão positivista, dar relevo ao que também entende como versão histórica e questiona pontos de vista oficiais oniscientes que constroem memórias com pretensões a eternizar-se e a construir mundos e subjetividades segundo seus objetivos para “melhor” governar.
A HO
ressaltou a importância de memórias subterrâneas (...) Se opõe à “Memória oficial”
(...) ela acentua o caráter destruidor, uniformizador e opressor da memória coletiva nacional (...) essas memórias subterrâneas que prosseguem seu trabalho de subversão no silêncio e de maneira quase imperceptível afloram em momentos de crise em sobressaltos bruscos e exacerbados. A memória entra em disputa (POLLAK, 1989, p. 4).
113 Nesse sentido, com a prática da HO é possível apontar e contestar os limites gerados pelo controle das lembranças, sendo possível emergir nova conceituação para a memória que
“ganha a feição de um deserto de areias moventes que, a cada ventania provocada pelos dispositivos em ação, revela paisagens distintas” (RODRIGUES, 2004, p. 30)
Nesse tempo de banzeiro, de produção de crises para reafirmação de lugares de protagonismos e subalternidade/assujeitamento, a HO é uma forte aliada do movimento de recordar certas memórias soterradas e evidenciá-las no campo da disputa. Historicamente – e temos visto isso se acirrar -, a memória tem estado em disputa entre campos de forças que querem conservar um modo de funcionamento social hierárquico e excludente, e por forças que querem se insurgir contra a ordem imposta afirmando modos de vida mais múltiplos e horizontais. Narrativas conciliadoras e triunfantes oficiais têm sido implantadas pelo Estado à revelia e visando calar vozes instituintes e resistências desejantes de afirmação de certos modos de estar no mundo. A serviço do que, de quem essas forças dos palácios atuam? O que pretendem e o que elas têm produzido? O Manelão, no relato exposto no início desse trabalho, diz de ter ficado marcado na localidade em que morava; como que tivessem colocado uma mancha nele e, com efeito, parte da população o via como se fosse um demônio.
O meio de transporte escolhido por nós para o percurso dessa escrita-vivência é a canoa, árvore manualmente e cuidadosamente transformada em embarcação (e não o helicóptero de grandes olhos usado para atocaiar pessoas no Araguaia com sobrevoos rasantes e “amedrontadores”). Nela e com ela se transita a passos lentos e respeitando o fluxo das águas, no entanto (sem ser demérito por isso), não é possível visualizar a sua profundidade e composições. A água é turva e com ela aprendemos a conviver causando mais ou menos danos. O que não é visto com nitidez é geralmente destruído por atos predatórios; pelas águas turvas, que nunca vão se deixar conhecer totalmente, nos deslocamos modificando-nos ao longo do percurso. O que pertence ao rio nada pode ser descartado. Uma parte diz da relação com um todo em sintonia. A processualidade do rio nos interessa, as pessoas com todas as suas dimensões e potências (vidas em devir) nos interessam; o cotidiano com seu conteúdo vivo é a nossa matéria-prima. Embora a escrita não dê conta de toda a multiplicidade presente na oralidade e na vida das pessoas, intentamos um texto vivo. A memória que disputamos se aproxima mais dos saberes da vida presentes nas ruas, do que acontece do encontro casual entre as pessoas, do que daqueles que estão presentes na academia com seus rompantes de objetividade e assepsia. O essencial para nós é o que nos toca; é, assim, do campo do sensível que nos mobiliza para uma direção e não para outra.
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