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No início do documentário “O botão de pérola” (El Botón de Nácar), o diretor Patricio Guzmán afirma que a água tem voz e memória e que todos somos córregos (arroyos) de uma só água, de um só rio (GUZMÁN, 2015). Esse documentário, além do “Nostalgia da Luz”

(2010), do mesmo diretor, trata do tema desaparecimento e da busca pelos mais de 3 mil desaparecidos políticos da Ditadura Militar do General Augusto Pinochet (1973-1990), no Chile.

Há relatos de que na fase de “limpeza” da Guerrilha do Araguaia, restos mortais foram jogados também no Araguaia com o propósito de impossibilitar a sua localização. As águas, portanto, acolheram corpos repletos de histórias, experiências, resistências que tiveram encontro impiedoso com as forças do Estado ditatorial que calou vozes e desejos dissonantes da ordem imposta. O rio é o túmulo fluido de diversas vidas. Ele e as pessoas da região têm muito a dizer. E nesse percurso de pensar que há muito a dizer, e eu me propor a isso, a pesquisadora aqui em questão precisa passar pelo processo anterior de autorização para poder falar. A gagueira na fala, a língua menor e a literatura menor na escrita (Deleuze, 1997;

Deleuze e Guattari, 1995a; Deleuze e Guattari, 1977), são jeitos de se expressar transgredindo normas instituídas. Mesmo não tendo a “sabença” dos considerados eruditos da língua normativa e a apropriação de sua gramática, algo está por aí grávido por dizer, como afirma Patativa do Assaré; e Manoel de Barros nos encoraja a retroceder.

Carrego meus primórdios num andor.

Minha voz tem um vício de fontes.

Eu queria avançar para o começo.

Chegar ao criançamento das palavras.

Lá onde elas ainda urinam na perna.

Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.

Quando a criança garatuja o verbo para falar o que Não tem.

Pegar no estame do som.

Ser a voz de um lagarto escurecido.

Abrir um descortínio para o arcano.

(Manoel de Barros)

Uma questão nos conduz nesse momento: como me apropriar da potência de escrever sendo de fora de grandes palácios, porém estando dentro de um templo que se coloca como produtor de conhecimento com pretensões a determinar como o outro deve estar no mundo?

Escrever nas margens e pelas margens afirmando esse lugar como rico em sua multiplicidade,

54 que não se quer homogêneo, é um desafio estimulante e assustador ao mesmo tempo. A escrita pela margem precisa estar acompanhada da percepção de como funciona o sistema capitalista globalizado que se efetua fazendo funcionar a sua máquina produtora de

“Verdades”. Considerar a existência de algo pela condição dele ser capaz de passar pelos seus mecanismos de formatação, é um dado que nos aponta para a força desse sistema em produzir subjetividades. Galeano (2016), em alguns de seus contos, aponta para o dispositivo ‘meios de comunicação’ (além da TV, jornais e rádios, citados pelo autor, podemos acrescentar a academia) que funciona como o espelho, o refletor da verdade. O que não passa por esses meios simplesmente não existe. Em um dos contos, ele fala de Alma de Agosto que, sob tortura, confessou ter assassinado duas mulheres. Mesmo diante das diferentes versões que dava após o flagelo das sessões de tortura, de ser cega, algumas entrevistadas que a conheciam e gostavam dela, diziam acreditar na culpa de Alma porque os jornais e rádios afirmavam isso. O que passa por esses meios, adquire nível de realidade. Tem-se dificuldade de perceber que o conteúdo veiculado na televisão – e nos seus similares – é o que se almeja ver acontecer, caminhando lado a lado com a produção de impotência diante de versões cuidadosamente postuladas. A todo tempo esses meios vão mostrando o que vale e o que não vale para o sistema dominante. O que não vale é diariamente apontado como desviante que deve ser eliminado, “que não pode” às vistas do pensamento colonizador.

O colonialismo visível te mutila sem disfarce: te proíbe de dizer, te proíbe de fazer, te proíbe de ser.

O colonialismo invisível, por sua vez, te convence de que a servidão é um destino e a impotência a tua natureza: te convence de que não se pode dizer, não se pode fazer, não se pode ser (GALEANO, 2016, p. 157).

A escrita nas margens, assim, caminha na direção de afirmar o que se pode dizer, fazer e ser do dito marginal. Aponta mais para a potência do desvio que para a linearidade violenta do instituído.

Dos medos de me expressar há algo que diz mais de uma rede social complexa de lidar com um acontecimento que incidiu sobre uma comunidade, que das minhas experiências pessoais. Quando sai de casa a minha mãe me orientou a não me meter com questões de terra (motivo pelo qual muito se matava e morria na região). Quando voltei um ano depois, tinha uma camisa de cor vermelha com dizeres sobre direitos da juventude e ela prontamente me indagou sobre aquela camisa cor de sangue. Isso parece paradoxal com a ação dela e da minha avó que me conduziram ao meu primeiro trabalho, como secretária do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da cidade. Ao mesmo tempo em que queriam me preservar de riscos, me aproximaram da questão da terra. A vontade de dizer, assim, anda de mãos dadas com a

55 possibilidade/sensação e certeza de repressão e de morte. No entanto, para o pequeno agricultor, a conquista da terra só é possível através do grito e da imposição do corpo (frágil/forte) no território que passa a ser inimigo por causa da invasão de grileiros, com apoio direto do Estado.

A região banhada pelo Rio Araguaia foi e continua sendo um lugar que atrai muitas pessoas. Em sua proximidade as terras são mais férteis, a água é de fácil acesso, a locomoção é facilitada e ele é fonte de alimento, renda e lazer. A minha família cresceu na beira desse rio, nele lavávamos roupa, nos banhávamos, brincávamos e dele nosso pai trazia uma infinidade de peixes após longas pescarias. Senhores e senhoras pescavam à noite e, de casa em casa, vendiam peixe pela manhã. Ele representa vida, no entanto, o perigo também está presente! Embarcações afundam quando desavisados não compreendem os seus sinais, pessoas se afogam nele (minha avó dizia: cuidado que água não tem cabelo...) e ficam cegas (esse é um grande mistério, o que haveria na água que provoca a cegueira em alguns? Foi mesmo a água responsável pelas cegueiras?).

Há práticas sociais que não nos damos conta de sua ação, que não estão na parte visível do iceberg, mas que vão produzindo efeitos sobre as nossas vidas e isso também não é de fácil percepção e, por vezes, vamos seguindo às cegas. Colocam-nos desde cedo que precisamos batalhar para conseguir algo na vida porque nada nos é dado gratuitamente.

Nascendo pobre, no interior da região Norte do país, possuir algum bem é sinal de merecimento pela quantidade de trabalho realizado: desde cedo trabalhar com os pais para aprender, trabalhar de doméstica, capinar quintal, ser peão nas fazendas, trabalhar em lojas, mercados sem nenhuma espécie de vínculo empregatício e carga horária definida. Aprender a ler e a escrever era estimulado e chegar ao atual ensino médio era o suficiente para os mais estudiosos. Casar-se e ter filhos eram sinais de um destino cumprido. Somos jogados num movimento impulsionado pela necessidade de sobrevivência mais que de criação de um modo singular de existência. No entanto, não quero dizer que esse estilo de vida tenha menos valor que outros: digo que há uma limitação de escolha que possibilita a exploração e a submissão.

Acompanhando isso, há a produção subjetiva de que “os bons de condição” têm mais direitos, autoridade, inteligência e os demais estão ali para o seu serviço. Não é difícil se chegar a lugares estabelecidos como de acesso direto para “os de condição” e ter-se a sensação desconfortável de estar ocupando um espaço que não é seu. A academia, por exemplo, é colocada como um lugar que instrumentaliza seres privilegiados de antemão para pensar, teorizar e, em certa medida, determinar sobre a vida dos ditos nascidos para a subalternidade.

56 O desconforto vai sendo entendido na medida em que seus agentes afirmam não querer ribeirinho ali, que a chegada desse tipo de gente pode rebaixar a qualidade de ensino, de que seria necessário aula de reforço para os despreparados... O modo de funcionar capitalístico e os resquícios do jeito colonizador de funcionamento, têm produzido a naturalização dessa lógica em que os detentores das máquinas de produção têm um lugar e os meios de produção de saber e se servem deles para determinar formas e lugares sobre quem passa a ser considerado inferior porque visto como faltoso de bens de produção. Principalmente se for negro, indígena e pobre, é entendido como desprovido de quaisquer virtuosidades. O processo de produção de subjetividade, no entanto, define essa camada social como perigosa, inimiga devendo ser disciplinada, controlada, combatida e, quando muito, passivamente como objeto de pesquisa para melhorar os mecanismos de controle e combate impetrados contra seus próprios corpos. Permanecer nesses espaços escrevendo sobre si é um trabalho de afirmação de um lugar de fala e de existência criadora que cotidianamente é sequestrada. É sair do lugar de objeto para tornar-se capaz de falar sobre si e de suas vivências. Grada Kilomba nos traz a dimensão de escrever desse lugar.

Às vezes eu temo escrever.

A escrita se transforma em medo, Para que eu não possa escapar de tantas Construções coloniais.

Nesse mundo,

Eu sou vista como um corpo que Não pode produzir conhecimento, Como um corpo fora do lugar.

Eu sei que, enquanto escrevo, Cada palavra escolhida por mim Será examinada,

E, Provavelmente, deslegitimada.

Então, por que eu escrevo?

Eu tenho que fazê-lo

Eu estou incrustada numa história De silêncios impostos,

De vozes torturadas,

De línguas interrompidas por Idiomas forçados e

Interrompidas falas.

Estou rodeada por Espaços brancos

Onde, dificilmente, eu posso adentrar e permanecer.

Então, por que eu escrevo?

Escrevo, quase como na obrigação, Para encontrar a mim mesma.

Enquanto eu escrevo Eu não sou o ‘Outro’

Mas a própria voz Não o objeto, Mas o sujeito.

Torno-me aquela que descreve E não a que é descrita

57 Eu me torno autora,

E a autoridade

Em minha própria história Eu me torno a oposição absoluta Ao que o projeto colonial predeterminou Eu retorno a mim mesma

Eu me torno: existo.

(GRADA KILOMBA , 2015)

Esse processo de produção de conhecimento colonial, de cima para baixo, vem legitimando espaços de saber-poder silenciando, marginalizando saberes outros e tirando grupos da condição plena de existência criadora. E são esses saberes outros, uma sabedoria considerada menor que pretendemos privilegiar nessa escrita.

Afirmar que os moradores do Araguaia serviram apenas de testemunhas para familiares, historiadores e documentaristas, me fez gaguejar. Um silêncio na escrita se instalou. Como fixar o olhar nas forças que estavam em jogo mais que nas ações pessoais dos fotógrafos que captaram as imagens para as quais os moradores apontavam e não para quem as apontavam? Deleuze (1997) afirma que mesmo sendo gago de nascença, existe algo a dizer.

A academia, lugar privilegiado de suposto saber – branco, elitista, colonizado -, por vezes carrega a pretensão de querer dar resposta para todos os desafios do mundo. É como se os laboratórios, simulando situações artificiais fossem capazes de resolver todas as questões.

Esquece-se, portanto, que as situações ali estimuladas são superficiais e separadas da vida. Os resultados são geralmente julgamentos teóricos dos que têm preguiça de se sujar de experiências encarnadas e que servem apenas ao ego academicista, carreirista de um modo de vida que segue apenas reproduzindo e apresentando representações de constantes à revelia das multiplicidades existentes. Ao fazer parte do meio acadêmico corremos o risco de naturalizar e reproduzir esse tipo de prática. A minha gagueira em parte é do receio de que isso aconteça.

Que o exercício de uma escrita acadêmica diminua/esvazie o valor de práticas de vida que foram fundamentais para a visibilização de um acontecimento. Eu quero compor com quem ousou furar o bloqueio da tirania do silenciamento, mas também apontar para as forças, produções de subjetividades que atravessam a todos, inclusive os parentes, militantes e amigos dos desaparecidos políticos no Araguaia.

A gagueira – desvio do modo formal da fala, do que é hegemônico – é caracterizada por repetições ao se falar. Cria-se aí um tempo de hesitação diante da palavra e, nesse intervalo, é produzido um desvio na linearidade da frase que leva à criação de novos sentidos.

Quando se dá vazão à hesitação, se abre ao processo de criação de sentidos que acontece no

58 seu decorrer. Com isso, a ideia de finalidade não tem razão de existir. Há aí uma duração do intervalo de indeterminação, no dizer de Bérgson (1990). No processo de fala um tempo de hesitação se impõe e o conteúdo planejado é ocupado por um vácuo que resulta num outro ritmo e conteúdo. Estamos falando, portanto, de um tipo de repetição que tem efeito de criação de sentido, que não diz de nostalgia, mas que proporciona um salto que destoa do usual e o despontar do diferente, do singular.

O desvio (o que não é linear, o engasgo, a gagueira, a guerrilha contada por pessoas destituídas de dignidade de dar sentido às suas experiências) por vezes é entendido como um tique, um erro a ser categorizado num estilo considerado de menor valor, subalterno, não digno de apreço. A gagueira muitas vezes é vista como desvio a ser descartado, e não como constância – geralmente privilegiada pelos modelos científicos e posteriormente transformada em representação, em “Verdade”. A Guerrilha do Araguaia já foi contada sem gagueira quando noticiada pelo Estado e anulou a voz dos militantes, moradores e enalteceu as forças militares. De um modo diferente, militantes, na ânsia de saber e recuperar/construir uma certa hombridade dos seus companheiros mortos e desaparecidos também, contaram o acontecimento sem considerar a experiência e a situação dos moradores.

Podemos perceber, assim, que a repetição das histórias, o não silenciamento, é uma gagueira no sentido de durar algo que não foi “reparado”? Poder causar essa descontinuidade contribui na direção de parar um contínuo que se faz acreditando linear e que a versão do instituído é suficiente para dar conta do que precisa ser registrado? Por vezes afirmamos ser ressentido o movimento de revisitar com frequência uma certa história, certas marcas, e voltar a sentir o que esse contato provoca. No entanto, esse deslocamento pode ser vital frente a uma situação em que não há instrumentos suficientes para se ver um acontecimento que extrapola a capacidade de entendimento e de sustentação. Aqui há uma diferença importante: se revisita o acontecimento não para justificar ações ou a falta delas, mas para tentar pensar, dar sentidos, desfazer nós para que se libere a vida no sentido de produzir outras experimentações e marcas.

Deleuze (1997) se coloca a questão de como pensar também a gagueira da língua. A língua menor – língua não hegemônica, dotada de devir potencial de criação e de variação – pode ser entendida como uma gagueira da língua? A gagueira como conceito se refere à fala.

Ao escrever, de acordo com as regras formais da língua (maior), tendemos a eliminar a gagueira, as repetições, os vícios, os erros e a produzir uma escrita sem sussurros, gritos, silêncios, suspiros... Desse modo, vamos deixando de fora multiplicidades enquanto

59 perseguimos as regras dos textos acadêmicos, os modos “puros” de se fazer História. A oralidade vai perdendo espaço à escrita requintada dos nobres salões coloniais que tratam a língua mais como código do que como fluxo, que marginaliza mais que inclui. Como inverter essa lógica e passar a tratar a escrita como fluxo? Deleuze nos ajuda nessa árdua tarefa apontando que os sentidos (provisórios) vão se dando na experimentação. Portanto, é necessário que se vivencie um uso menor da língua maior – do seu modo de pensar colonizador –, que a minorize desequilibrando-a continuamente, fazendo variar os modos de pensar dessa língua em cada um dos seus termos; que se produza, no dizer desse autor, um desequilíbrio gramatical onde não é uma sintaxe formal que regula a língua, mas uma sintaxe em devir fazendo nascer a língua estrangeira dentro da própria língua; uma língua maior regulada por uma sintaxe em devir pode ser território em que os negros, os indígenas, favelados, mulheres, pessoas trans possam falar sobre as forças que lhes atravessam, que uma moradora do Araguaia fale sobre as experiências de sua gente dentro de uma instituição que historicamente resguarda e reproduz práticas que prezam pelo hegemônico em detrimento e asfixiando múltiplos saberes e formas de vida. Tratar a escrita como fluxo que fura com as barreiras do hegemônico, nos coloca em contato com modos de vida que foram sendo deslegitimados, descaracterizados no processo de acoplamento à cultura americana, europeia... e do seu modo de fazer ciência. É nos ligar a práticas que nos levaram a considerar como inferior sabedorias dos nossos povos e afirmá-las como epistemes.

Esse movimento de levar o modo de pensar menor para o maior não deve ser confundido com a tentativa de fazer o menor, dominante. Em “Kafka, por uma literatura menor”, Deleuze e Guattari (1997) indagam: “Como tornar-se o nômade e o imigrado e o cigano de sua própria língua? Kafka diz: roubar a criança no berço, dançar na corda bamba”

(p. 30). Um convite, portanto, a sair do conforto das regras, experimentar diferentes estímulos sonoros, reinventar/reinventar-se e criar na necessária corda bamba, sem a intenção de finalidade e necessidade de estabelecer verdades absolutas.

Deleuze e Guattari falam de língua menor, linguagem menor e literatura menor. A questão maior ou menor não se refere à quantidade e nem ao valor, mas em relação ao que é estabelecido como regra. Uma língua não é considerada menor porque é usada pelo menor número de pessoas ou o seu uso seja menos constante, ela é reconhecida como menor porque não se encaixa nos padrões dominantes que geralmente é branco/masculino/adulto... Para Deleuze e Guattari (1995a), minoria é um subsistema fora do sistema dominante e maioria é um sistema homogêneo e constante. Esses autores afirmam que não há dois tipos de língua,

60 mas dois usos, dois tratamentos possíveis de uma mesma língua: para torná-la hegemônica ou para fazê-la multiplicar (possibilidades de diversas vozes e modos de estar no mundo). Uma não se mede pela outra, não a tem como parâmetro, a variação da língua menor está em sua riqueza de práticas mais que em relação à língua maior. O problema não está em distinguir língua maior e língua menor, mas em colocar a língua maior em devir. O problema está em fazê-la banzeirar, em desterritorializá-la, em colocá-la em estado de devir em que todos perdem os lugares pré estabelecidos; entrar em devir mútuo onde não cabem lugares definidos e separados a priori. Não se pesquisa estabelecendo e mantendo separados/intactos sujeito e objeto. Não se pesquisa afirmando-se ‘como cachorro’ e permanecendo-se ‘como homem’.

Pelo contrário, se entra num estado de agenciamento mútuo que não cabe diferenciação se é homem ou cão. Deste modo, não é mais língua maior ou menor, é uma língua dotada de variações e vozes (DELEUZE E GUATTARI, 1977).

Fazer a língua maior entrar em devir minoritário – desterritorializar a língua hegemônica – é entrar no domínio que não é o da dominação, mas de potências de devir que pertencem a outros modos de existência. A variação e a experiência são o que constitui esse devir que também tem a marca da autonomia. É, desse modo, um devir minoritário, autônomo. A força dos autores ditos “menores” está em fazer uso da língua maior inserindo nela inconstâncias, multiplicidades na medida em que coloca nela sua própria língua. Desse modo, a torna estado de variação contínua, em fuga, e rompe com as fronteiras que alimentam a ideia de uma ser qualitativamente superior à outra. Língua menor é linha de fuga, é força do estrangeiro, do bastardo em sua própria língua, sem o ideal de tornar a menor em maior (majoritária, dominante, padrão). O devir minoritário é autônomo, não pertence aos domínios do poder e da dominação.

As minorias devem ser consideradas como “germes, cristais de devir, que só valem enquanto detonadores de movimentos incontroláveis e de desterritorializações da média ou da maioria” (Deleuze e Guattari, 1995a, p.53). Nesse entendimento, a experimentação ocupa lugar privilegiado. Através dela é possível experimentar o acontecimento como algo que irrompe com o dado, produz vazios propícios à criação e novos sentidos. Uma literatura é considerada menor na medida em que permite ser vazada por um máximo de multiplicidade possível, por incontáveis modos de expressão que privilegiam o “desvio”, a repetição e as discordâncias. São sons que soam como barulho, sem muita coesão – impossível de ser caracterizada como música pronta/acabada –, mas provoca ação de levantar a cabeça ao seu ritmo alargando-se a novas conexões, novas significações das lembranças do Araguaia, por