DE KARL MARX
3.2. A PERSPECTIVA DA REVOLUÇÃO EM MARX E COMTE
postulava a intervenção do Estado na economia às luzes de uma sociologia aplicada que seria uma física social ao estado e ao governo. Portanto, o governo deveria intervir no mercado da mão-de-obra e regular a vida econômica. Para que a divisão do trabalho não conduzisse a dissolução social, o governo deveria enfrentá-la por meio de uma ação organizada (MORAES FILHO, 1956). Com efeito, Comte ressalta que a função do governo é a de regularizar toda hierarquia espontânea nascida no interior das sociedades, pois quando a divisão do trabalho torna-se mais complexa e heterogênea pode acarretar deteriorações e dissensões no meio social (COMTE, 1972).
Considerando toda ênfase da sociologia marxista aos fenômenos econômicos, a crítica de Karl Marx ao liberalismo econômico foi bem mais severa que a de Comte. Ellen Meiksins Wood (2010) argumenta que o liberalismo é uma concepção moderna moldada em formas pré-modernas e pré-capitalistas de poder. Ele deixa livre toda nova esfera de dominação e coação gerada pelo capitalismo, sua migração de poderes próprios do Estado para a sociedade civil e para a propriedade capitalista (WOOD, 2010). A autonomia do Estado liberal está intrinsecamente relacionada com a liberdade jurídica, com a igualdade entre os homens livres, e com o câmbio econômico entre produtores expropriados livres e proprietários que usufruem de domínio exclusivo dos meios de produção que lhes garante autoridade sobre os produtores (WOOD, 2010). Em A ideologia alemã, Marx salienta a relação do Estado com a propriedade e os interesses burgueses. Com o advento do capital moderno, pleiteado pela indústria e pela concorrência, a propriedade privada abandona sua acepção comunitária e exclui toda intervenção estatal sobre o seu desenvolvimento. Por intermédio desta emancipação da propriedade privada em relação aos vínculos comunitários, o Estado obteve uma existência particular a par da sociedade civil, mas figurou- se num mecanismo de organização que a burguesia se apropria para assegurar sua propriedade e seus interesses econômicos (MARX; ENGELS, 2009).
materialmente (relações de produção, capital e propriedade) e espiritualmente (modos de pensar da burguesia e de movimentos sociais até então), pois a auto-emancipação do proletário pela revolução eclode não só na transformação das circunstâncias como do próprio sujeito (DEO, 2014). No Manifesto comunista, Marx assevera que a revolução comunista supera radicalmente com as relações tradicionais de propriedade e com toda ideologia vigente, possibilitando a elevação do proletariado:
A revolução comunista é a ruptura mais radical com as relações tradicionais de propriedade; não admira, portanto, que no curso de seu desenvolvimento se rompa, do modo mais radical, com as ideias tradicionais. (...)
O proletariado usará sua supremacia política para arrancar, pouco a pouco, todo capital da burguesia, para centralizar todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto é, do proletariado organizado como classe dominante, e para aumentar o mais rapidamente possível o total das forças produtivas.
Isso naturalmente só poderá ser realizado, a princípio, por intervenções despóticas no direito de propriedade e nas relações de produção burguesas, isto é, pela aplicação de medidas que, do ponto de vista econômico, parecerão insuficientes e insustentáveis, mas que, no desenrolar do movimento, ultrapassarão a si mesmas e serão indispensáveis para transformar radicalmente todo o modo de produção (MARX; ENGELS, 2017, p. 39-40).
A revolução marxista pressupõe a dissolução violenta tanto da burguesia como da antiga classe proletária como meio de converter totalmente o modo de produção. Tal ruptura radical incide também na superação da própria divisão de trabalho da sociedade capitalista cuja hierarquia permite classes de indivíduos diferenciados que ocupam posições superiores no processo produtivo da riqueza social e o movimento contraditório da acumulação de capital nas mãos de poucos (DEL ROIO, 2014). É propício inserir também a leitura de Alfred Schmidt a respeito dessa ruptura revolucionária. Para ele, Marx procurou rastrear historicamente a lei do movimento econômico da sociedade moderna em duas dialéticas: a passagem da era feudal para a burguesa, e a passagem desta para socialista que assume uma forma catastrófica, pois a ênfase recai mais sobre esta (SCHIMIDT, 2005).
Já em Comte, a prerrogativa da revolução só pode ser validada quando ela for o último recurso para romper com uma ordem retrógrada e repressora. Gustavo Biscaia de Lacerda (2019) ressalta que o termo revolucionário na teoria positivista significa transitório na ordem temporal e espiritual, isto é, concebido para uma circunstância específica e não se deve esperar nele uma permanência constante. A revolução encerra-se com a reorganização das opiniões e dos costumes (LACERDA, 2019). Na sua Política Positiva, Comte salienta o caráter efêmero, mas necessário da revolução para emancipar a sociedade de uma tirania absoluta que impede as reações sociais espontâneas:
Sem admitir o dogma metafísico da soberania popular, o positivismo se apropria sistematicamente de tudo o que ele contém de verdadeiramente salutar, não só quanto aos casos excepcionais como sobretudo em relação à existência normal, afastando os imensos perigos inerentes à sua aplicação absoluta. No uso revolucionário, sua principal eficácia consiste em justificar o direito da insurreição, o qual a Política Positiva representa como recurso extremo, indispensável a toda sociedade, a fim de não sucumbir à tirania que resultasse de uma submissão absoluta. Sob o ponto de vista cientifico, deve-se considerá-lo como uma crise reparadora, ainda mais necessária à vida coletiva do que individual, conforme a lei biológica de que o estado patológico se torna mais freqüente e mais grave à medida que o organismo for mais complicado e mais imanente (COMTE, 1979, p. 52).
Reiterando o que foi posto anteriormente, a revolução no positivismo ilustra uma medida drástica a ser tomada por todo conjunto social quando estiver submetido a uma ordem eminentemente opressora incapaz de conceder qualquer dispositivo reparador para sanar os males sociais. Nota-se que, embora não de forma patente, a revolução ou insurreição em Comte, assim como em Marx, conota uma passagem catastrófica de uma condição social que desfigura uma sociedade para outra que pode proporcionar novas relações sociais. Contudo, existem duas diferenças fundamentais entre suas sociologias em relação à questão revolucionária: primeiramente, elucidando a efemeridade da revolução no positivismo, ela não pode se tornar, segundo a análise comteana, um hábito numa sociedade. De fato, ela só pode ser admitida como concessão contra uma ordem temporal repressora que materialmente e espiritualmente impede o progresso linear de uma sociedade. Em Marx, a revolução é assumida como o caráter normal de uma sociedade.
Logo no início do Manifesto, ele nos adverte que a luta de classes com seus antagonismos representa a “história de todas as sociedades até hoje existentes” (MARX; ENGELS, 2017).
Em síntese: enquanto em Marx o termo “revolução” significa um mecanismo efetivo e inerente a toda sociedade em seu curso histórico; em Comte, esse vocábulo denota uma reação política extraordinária, que é necessária para assegurar a autonomia da sociedade civil diante do despotismo desenfreado. Outra diferença que pode ser levantada é o fato de que em Marx a insurreição será engendrada apenas pelo proletariado como protagonista, enquanto para Comte a práxis insurrecional pode ser efetuada por qualquer classe que esteja na condição oprimida, exceto aquela que se deleita nos mecanismos de poder. Entretanto, Comte vai conferir uma atenção especial aos proletários como atores contribuintes no término do movimento revolucionário mesmo com perspectivas e soluções divergentes da sociologia marxista. É o que o tópico seguinte vai abordar.