na Constituição as garantia de direitos fundamentais necessárias para instrumentalizar a paz social.
1.4 A PERSPECTIVA DE GUSTAVO ZAGREBELSKY SOBRE O ESTADO
[...] mudam as condições de validade das leis, dependentes já não somente da forma de sua produção senão também da coerência de seus conteúdos com os princípios constitucionais. A existência (ou vigência) das normas, que no paradigma paleo-juspositivista havia se dissociado da justiça, se dissocia agora também da validade, sendo possível que uma norma formalmente válida, e por conseguinte vigente, seja substancialmente inválida pelo contrataste de seu significado com normas constitucionais, como por exemplo o princípio da igualdade ou os direitos fundamentais.
109
Por seu turno, Gustavo Zagrebelsky afirma que “a idéia do direito que o Estado Constitucional alude não entrou plenamente no ar que respiram os juristas”110, pois o Estado Constitucional é freqüentemente apresentado como uma versão do Estado de Direito, entretanto “é aconselhável não se deixar seduzir pela continuidade da história e procurar, ao contrário, por às claras as diferenças”111.
O Estado Constitucional está em contradição com esta
“inércia mental” dos juristas práticos (principalmente dos juízes) da manutenção de um positivismo acrítico112. No Estado Constitucional “a lei, pela primeira vez na época moderna, vem submetida a uma relação de adequação, e portanto de
constituinte”. CANOTILHO, J. J. Gomes. Direito constitucional. 6. ed. Coimbra: Almeida, 1995.
p. 147 e 1123.
109 “[…] cambian las condiciones de validez de las leyes, dependientes ya no sólo de la forma de su producción sino también de la coherencia de sus contenidos con los principio s constitucionales. La existencia (o vigencia) de las normas, que en el paradigma paleo- iuspositivista se había disociado de la justicia, se disocia ahora también de la validez, siendo posible que una norma formalmente válida, y por consiguiente vigente, sea sustancialmente inválida por el contraste de su significado con normas constitucionales, como por ejemplo el principio de igualdad o los derechos fundamentales”. FERRAJOLI, Luigi. Pasado y futuro Del Estado de derecho. In: CARBONELL, Miguel. (org) Neoconstitucionalismo(s). p. 18.
110 “[…] la idea del derecho que el actual Estado constitucional implica no ha entrado plenamente en el aire que respiran los juristas”. ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 10.
111 “El propio Estado constitucional, que es la forma de Estado típica de nuestro siglo, es presentado con frecuencia como una versión particular del Estado de derecho. Esta visión no resulta necesariamente forzada, se consideramos la elasticidad intrínseca del concepto, aunque para una mejor comprensión del mismo es aconsejable no dejarse seducir por la continuidad histórica e intentar, por el contrario, poner en claro las diferencias”. ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 21-22.
112 ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 33.
subordinação, a um nível mais alto de direito estabelecido pela Constituição”113. O Estado Constitucional atual representa uma profunda transformação que inclusive afeta a concepção de Direito114.
Zagrebelsky acrescenta a esta problemática três situações que agravam a crise da idéia de código115: o desaparecimento das características clássicas da “lei”, como a generalidade e abstração; heterogeneidade do Direito no Estado Constitucional; e, contratualização da lei116, diagnosticando que
O século XX tem sido definido como o do ‘legislador motorizado’
em todos os setores do ordenamento jurídico, sem exclusão de nenhum. Como conseqüência, o direito tem se ‘mecanizado’ e
‘tecnificado’. As Constituições contemporâneas tentam remediar estes efeitos destrutivos da ordem jurídica mediante a previsão de um direito mais alto, dotado de força obrigatória inclusive para o legislador. O objetivo é condicionar e, portanto, conter, orientando- os, os desenvolvimentos contraditórios da produção do direito, gerados pela heterogeneidade e ocasionalidade das pressões sociais que se exercem sobre o mesmo117.
113 “La ley, por primera vez en la época moderna, viene sometida a una relación de adecuación, y por tanto de subordinación, a un estrato más alto de derecho establecido por la Constitución.”
ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 34.
114 “Sin embargo, si de las afirmaciones genéricas se pasa a comparar los caracteres concretos del Estado de derecho decimonónico con los del Estado constitucional actual, se advierte que, más que de una continuación, se trata de una profunda transformación que incluso afecta necesariamente a la concepción del derecho”. ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p.
34.
115 Bobbio afirma que as críticas de Bentham à common law “impeliram o movimento iluminista a polemizar contra o sistema de direito então vigente e propugnar pela codificaçã”. Austin, descrevendo historicamente a lei, menciona que esta “se torna a única fonte da produção jurídica do direito e disciplina, sistemativamente, com normas gerais e abstratas, todas as relações sociais: a legislação culmina assim na codificação. […] a codificação elimina os equívocos e as ambigüidades e, portanto, torna impossíveis as controvérsias fundadas em meras imprecisões interpretativas”. BOBBIO, Norberto. O Positivismo Jurídico. p. 99-116.
116 ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 36-38.
117 “El siglo XX ha sido definido como el del ‘legislador motorizado’ en todos los sectores del ordenamiento jurídico, sin exclusión de ninguno. Como consecuencia, el derecho se ha
‘mecanizado’ y ‘tecnificado’. Las Constituciones contemporáneas intentan poner remedio a estos efectos destructivos del orden jurídico mediante la previsión de un derecho más alto, dotado de fuerza obligatoria incluso para el legislador. El objetivo es condicionar y, por tanto, contener, orientándolos, los desarrollos contradictorios de la producción del derecho, generados por la heterogeneidad y ocasionalidad de las presiones sociales que se ejercen sobre el mismo”
ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 39.
Destaca-se, portanto, que a lei deve estar submetida a um conjunto de princípios e valores constitucionais superiores, cedendo espaço à Constituição118.
Entretanto, não é possível conceber o Direito no Estado Constitucional como uma transposição da velha ordem conceitual, numa mecânica de unificação de cima para baixo, por meio da força jurídica hierarquicamente superior que se desenvolve unilateral e dedutivamente a partir da Constituição, invadindo todas as demais e subordinadas manifestações do Direito, pois seria apenas a proposta de um novo esquema que simplesmente substitui a soberania concreta do soberano que se expressava na lei, por uma soberania abstrata da Constituição119.
O que caracteriza o Estado Constitucional atual, segundo Zagrebelsky, é, antes de tudo, a separação entre os distintos aspectos ou componentes do Direito que no Estado de Direito do século XIX estavam unificados ou “reduzidos” na lei120. Assim, o autor propõe algo que chamou de
“ductilidade constitucional”121 que é representado pela coexistência entre valores e princípios em que necessariamente uma Constituição deve se basear, mas não com caráter absoluto e sim compatível com os demais que devem ser reconhecidos numa sociedade plural.
118 “La ley, un tiempo medida exclusiva de todas las cosas en el campo del derecho, cede así el paso a la Constitución y se convierte ella misma en objeto de medición. Es destronada a favor de una instancia más alta. Y esta instancia más alta asume ahora la importantísima función de mantener unidas y en paz sociedades enteras divididas en su interior y concurrenciales”.
ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 40.
119 ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 40.
120 ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 40.
121 “En italiano, el calificativo mite se predica de aquello que es manso, tranquilo, aplacible. Se ofrecen por ello varias posibilidades para su traducción, entre las que se encuentran, además de las ya citadas, las de sosegado, dulce, calmoso, comprensivo. He escogido, sen embargo, el término «ductilidad» para traducir el original italiano mitezza. «Dúctil», en la lengua castellana, además de su significado original, se utiliza en sentido figurado para indicar que algo o alguien es acomodadizo, dócil, condescendiente, por lo que me parece que se ajusta bien al significado que el autor ha querido transmitir con el término mite, aunque también sea consciente de lo llamativo que puede resultar. Desde luego, la elección no es incontestable, pues no deja de ser heterodoxo en el contexto jurídico llamar «dúctil» al derecho, pero lo mismo sucede con la utilización del término mite en la cultura jurídica italiana”. GASCÓN, Marina. Nota do Tradutor. In:
ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 19.
Se, mediante uma palavra mais aproximada possível, quiséssemos indicar o sentido deste caráter essencial do direito dos Estados constitucionais atuais, talvez poderíamos usar a imagem da ductilidade. A coexistência de valores e princípios, sobre a qual hoje deve basear-se necessariamente uma Constituição para não renunciar a seus conteúdos de unidade e integração e ao mesmo tempo não se fazer incompatível com sua base material pluralista, exige que cada um de tais valores e princípios se assuma com caráter não absoluto, compatível com aqueles outros com os que deve conviver. Somente assume caráter absoluto o metavalor que se expressa no duplo imperativo do pluralismo dos valores (no tocante ao aspecto substancial) e a lealdade em seu enfrentamento (no referente ao aspecto procedimental). Estas são, ao final, as supremas exigências constitucionais de toda sociedade pluralista que queira ser e preservar-se como tal122.
A ductilidade constitucional está relacionada aos termos coexistência e compromisso, sendo que a visão da política que está implícita não é uma relação de exclusão e imposição pela força, mas sim a integração inclusiva através da rede de valores e procedimentos comunicativos123.
A convivência dúctil constituída sobre o pluralismo e as interdependências permite uma maior plenitude da vida coletiva e exige atitudes moderadas (uma aurea medietas), mas positivas e construtivas, e que podem manter-se com a consciência de quem sabe que este ideal corresponde a uma visão da vida e a um ethos de modo algum desprezíveis124. Há, desta forma, a necessidade de uma dogmática jurídica “líquida” ou “fluida” que possa conter os elementos do Direito constitucional de nossa época, ainda que sejam
122 “Si, mediante una palabra lo más aproximada posible, quiséramos indicar el sentido de este carácter esencial del derecho de los Estados constitucionales actuales, quizás podríamos usar la imagen de la ductibilidad. La coexistencia de valores y principios, sobre la que hoy debe basarse necesariamente una Constitución para no renunciar a sus contenidos de unidad e integración y al mismo tiempo no hacerse incompatible con su base material pluralista, exige que cada uno de tales valores y principios se asuma con carácter no absoluto, compatible con aquellos otros con los que debe convivir. Solamente asume carácter absoluto el metavalor que se expresa en el doble imperativo del pluralismo de los valores (en lo tocante al aspecto sustancial) y la lealtad en su enfrentamiento (en lo referente al aspecto procedimental). Éstas son, al final, las supremas exigencias constitucionales de toda sociedad pluralista que quiera ser y preservarse como tal”.
ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 14-15.
123 ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 15.
124 ZAGREBELSKY, Gustavo. El Derecho dúctil. p. 15.
heterogêneos, agrupando-os numa construção necessariamente não rígida que dê espaço às combinações que derivem não do direito constitucional, senão da política constitucional, em que o único conteúdo “sólido” que a ciência de uma Constituição pluralista deveria defender rigorosa e decididamente contra as agressões de seus inimigos é o da pluralidade de valores e princípios125.
Esta maleabilidade não reflete entretanto na concepção de Constituição flexível126, isto é, a ductibilidade está presente mesmo em Constituições rígidas. A rigidez constitucional, que sobressalta como característica do Estado Constitucional e tem seu maior expoente através das constituições escritas, não impede a recepção da dogmática dúctil de Zagrebelsky.
1.5 A FUNÇÃO CONSTITUCIONAL DE GARANTIA DOS DIREITOS