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A perspectiva instrumental e individualista da consciência e o plano

No documento CONSCIÊNCIA PEREGRINA: (páginas 129-132)

3.2 A peregrinação da consciência em seus vários aspectos até se assumir

3.2.1 A consciência teologal na perspectiva pré-convencional

3.2.1.2 A perspectiva instrumental e individualista da consciência e o plano

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históriasque registram as compreensões e sentimentos intuitivos da criança no tocante às condições últimas da existência159.

No entanto, por outro lado, há o perigo de que a imaginação infantil seja permeada de imagens irrestritas de terror, destrutividade ou exploração, consciente ou não, tornando-se prisioneira de tabus, expectativas morais irreais ou doutrinárias.

3.2.1.2 A perspectiva instrumental e individualista da consciência e o plano mítico-literal

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boa autoestima, torna a criança mais alegre, mais leve, mais relacionável. Quando a situação caminha na direção oposta, o resultado é comportamento deprimido que, via de regra, se manifesta como baixa energia, afetando o desempenho na escola e em outros lugares.

Quando se pensa em termos do desenvolvimento da consciência, é importante destacar, além da formação do autoconceito e da autoestima, o modo como a criança desenvolve a capacidade de se autorregular ou como ela conduz a si mesma. Na verdade, esse processo é dividido com os pais. Nas fases anteriores, a supervisão da família é muito mais intensa, diminuindo na medida em que a criança aprende a andar com as próprias pernas.

Mas, ainda assim, há necessidade de supervisão e de acompanhamento. É por isso que se diz que o processo que se vive aqui é o de uma corregulação: os pais supervisionam, mas as crianças tomam decisões o tempo todo. Trata-se de um momento de transição em que a relação consigo mesma diante das pressões da vida coletiva refletirá os aspectos sociais do autoconceito e da autoestima em formação na vida da criança.

À medida que começam a coordenar o que querem com o que a sociedade exige, as crianças têm mais chance de prever como as outras pessoas irão reagir ao que elas fazem ou de aceitar um lembrete dos pais de que os outros terão uma opinião melhor delas se elas se comportarem de outra forma161.

A formação da autoestima e do autoconceito somados ao processo de corregulação são elementos importantes no desenvolvimento psicológico, social e moral nesse período, que, talvez, por isso mesmo, apresente tantas nuances interessantes, que tem recebido, também, alguns outros nomes. Por exemplo, moralidade do intercâmbio ou período hedonista relativista. No caso de ser chamado de hedonista relativista, isto se dá “porque a ação moralmente correta é definida em termos de prazer ou da satisfação das necessidades da pessoa”162. Em outras palavras, para os que se encontram nesse estágio o mais correto e o mais justo é agir de modo a satisfazer às próprias necessidades.

Quando chamado de moralidade do intercâmbio, isto se dá porque a criança acredita que

a melhor forma de resolver os conflitos é através de intercâmbios instrumentais diretos e concretos, tratando os interesses de cada indivíduo de forma estritamente igual. A ideia de justiça como intercâmbio que caracteriza este estágio se reflete na máxima “faz aos demais o que eles fazem a ti ou esperas que te façam”163.

161 PAPALIA; OLDS, Desenvolvimento humano, p.284.

162 BIAGGIO, Angela M. Brasil. Lawrence Kohlberg: ética e educação moral. São Paulo: Moderna, 2002. P. 25.

163 DIAZ-AGUADO, MEDRANO, Construção moral e educação, p. 30.

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Já se observa aqui um certo grau de abertura ao outro na expectativa de fque haja um acordo em termos de um intercâmbio de benefícios. Em outras palavras, posso fazer algo pelos outros desde que haja algum grau de recompensa. Nesse caso, verifica-se que o foco da ação moral não é resultado de lealdade ou solidariedade, mas uma questão de reciprocidade mercantil: “desde que eu receba algum benefício, atenderei à sua necessidade”. A regra aqui deve ser seguida quando for do interesse imediato de alguém. Em primeiro lugar, você avalia como satisfazer suas próprias necessidades e, depois, tenta reconhecer se cabe às outras pessoas terem também seus interesses atendidos. Aqui o que vale em termos de reciprocidade e igualdade é a “Lex Talionis”, ou seja, “olho por olho, dente por dente”.

A consciência, nesse estágio do desenvolvimento, apresenta características que revelam a presença de alguns sinais do que estamos chamando de consciência teologal. Ao tipo de conhecimento e atitudes morais que correspondem a esse período, Fowler denominou de mítico-literal164. O mito aqui é entendido, primeiramente, a partir do seu sentido etimológico, como “palavra”, “o que se diz”, “narrativa”165. Ele refere-se a um modo de consciência que predominou nas sociedades tribais, exerceu influência significativa nas civilizações da Antiguidade e está presente ainda hoje como uma expressão fundamental do viver humano. Trata-se muito mais de um modo de compreender a realidade. Nesse caso, não deve ser visto como uma lenda ou como pura fantasia, mas como verdade. Não a verdade lógica da ciência ou racionalidade demonstrativa. A verdade do mito

resulta de uma intuição compreensiva da realidade, cujas raízes se fundam na emoção e na afetividade. Nesse sentido, antes de interpretar o mundo de maneira argumentativa, o mito expressa o que desejamos ou tememos, como somos atraídos pelas coisas ou como delas nos afastamos166.

´ É desse olhar sobre a realidade que se constitui a consciência mítica. Ela é marcada pela ingenuidade, desprovida de problematização e supõe a aceitação tácita dos mitos e das prescrições rituais.

As percepções que uma criança começa a elaborar a respeito daquilo que a cerca e para o qual ela não consegue encontrar uma explicação racional é o que se pode chamar de mistério. O mistério é algo que não podemos compreender, aquilo que é inacessível à razão, que depende de fé. Diante desse espanto diante do mundo, dos enigmas da existência que precisam ser decifrados, a criança começa a assumir para si as histórias, crenças e costumes

164 FOWLER, Estágios da fé, p. 118.

165 ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando. São Paulo: Moderna, 2009.

p. 26.

166 ARANHA; MARTINS, Filosofando, p. 27.

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de sua comunidade, apropriando-se delas de forma literal. É uma fase marcada por uma compreensão antropomórfica da realidade “na qual se configura a capacidade da narrativa, da história, do drama, como formas de dar sentido às próprias experiências”167.

A compreensão que demonstram a respeito das regras e das atitudes propriamente morais se dá no mesmo contexto. Falar de uma percepção mítico-literal da realidade nos remete à capacidade de a criança começar a narrar a própria experiência, aprendendo passo a passo a ligar as suas experiências na busca de um sentido, sobretudo através de histórias.

Essas histórias lhe fornecem imagens, símbolos e exemplos para os vagos, mas poderosos impulsos, sentimentos e aspirações que começam a se formar dentro dela. Nesse período da vida, ela é capaz de se apropriar das histórias ricas que ouve e a recontá-las e, mais do que isso, é capaz de criar suas próprias histórias que possibilitam que conserve, comunique e compare suas experiências e significados.

No documento CONSCIÊNCIA PEREGRINA: (páginas 129-132)