• Nenhum resultado encontrado

Lev Semyonovich Vygotsky (17/11/1896-11/06/1934)

No documento CONSCIÊNCIA PEREGRINA: (páginas 39-42)

1.2 As múltiplas formas que a consciência assume em sua peregrinação

1.2.3 Consciência social

1.2.3.1 Lev Semyonovich Vygotsky (17/11/1896-11/06/1934)

A primeira coisa a se dizer a respeito da consciência social em Vygotsky é que ele foi pioneiro na elaboração do conceito de que o desenvolvimento da consciência e do percurso

29WILHEIM, Joanna. O que é psicologia pré-natal. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1997, p. 19.

30 Ibidem, p. 20.

31 FRANCO, Maria Laura Puglisi Barbosa. Representações sociais, ideologia e desenvolvimento da consciência.

Cadernos de pesquisa. São Paulo: Scielo vol. 34 no.121 Jan./Apr. 2004, p. 180.

40

intelectual das crianças ocorre em função das interações sociais e do contexto no qual elas vivem. Ele era um pensador complexo, cuja formação intelectual passou por sua participação da Revolução Russa de 1917, pelo estudo das obras de Karl Marx e Friedrich Engels, pelas proposições teóricas do materialismo histórico e dialético, pelos conhecimentos científicos e filosóficos disponíveis em seu breve tempo de vida – faleceu com apenas 37 anos em função da tuberculose e por meio dos seus próprios trabalhos experimentais. Ele se tornou mais conhecido como um psicólogo educacional cuja elaboração teórica é identificada como teoria histórico-cultural. Ela sugere que a interação social leva a um processo de mudança passo a passo no comportamento e pensamento da criança que pode variar grandemente dependendo da cultura onde se vive. Basicamente a teoria de Vygotsky sugere que o desenvolvimento depende da interação com pessoas e as ferramentas que a cultura fornece para que cada indivíduo venha a formar a sua visão de mundo.

Ele acreditava que uma das características mais marcantes do ser humano era o que chamava de sociabilidade primária. Hoje em dia, pode-se afirmar, que essa

tese tem quase o estatuto de fato científico estabelecido em razão da convergência de duas correntes de pesquisa: de um lado, as pesquisas biológicas do tipo, por exemplo, das relativas ao papel da sociabilidade na antropogênese, ou daquelas sobre o desenvolvimento morfofuncional do bebê (está cada vez mais demonstrado que as zonas cerebrais que regem as funções sociais, como a percepção do rosto, ou da voz humana, conhecem uma maturação precoce e acelerada); de outro lado, as pesquisas empíricas recentes sobre o desenvolvimento social da primeira infância provam abundantemente a tese da sociabilidade primária e precoce32.

É nas relações que estabelece com o mundo que a cerca que a criança desenvolve as bases de sua consciência. O adulto tem um papel importante nesse processo e é, através dele, que a criança se envolve em suas atividades. Tudo o que se refere ao comportamento infantil está enraizado no social. Desse ponto de vista, um bebê é um ser social por excelência, o que é fundamental para o seu processo de desenvolvimento e mesmo de sobrevivência. Em outras palavras, a sociabilidade da criança é o ponto de partida de suas interações sociais com o seu entorno.

É nesse sentido que para Vygotsky, a consciência é sempre socialmente mediada. Ela se constrói a partir da relação da criança com o meio e, um pouco mais adiante em seu processo de desenvolvimento, da pessoa consigo mesma. Ela não é um sistema estático ou

32 IVIC, Ivan. Lev Semionovich Vygotsky. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Massangana, 2010, p. 15.

41

mecanicista, mas se relaciona com o desenvolvimento da conduta voluntária, com o processo de criação de um sentido, de uma interpretação do mundo.

No que se refere à tomada de consciência, ela se dá com respeito ao meio, ao próprio eu e às vivências subjetivas. Trata-se, sobretudo, de uma relação ativa de compreensão ou conhecimento com relação ao meio social, que se traduz em uma consonância entre os fatos internos ou externos ao sujeito e sua representação. Esse processo se dá no desenvolvimento infantil em momentos distintos. Ele tem seu início em um estado de indiferenciação de atrações, afetos e sensações. Após o nascimento,

o psiquismo vai conhecendo os estímulos que influem sobre ele, diferenciando coisas e pessoas, separando o subjetivo e o objetivo: no bebê pequeno, existiriam ainda manifestações muito primitivas de estados conscientes – a ideia de tomada de consciência é empregada nos mais variados contextos da obra de Vygotsky, dos níveis mais simples aos mais complexos daontogênese. Um dos exemplos deste uso: o autor assinala que o bebê precisa tomar consciência de que alguém cuida dele para poder engajar-se no processo de comunicação emocional (atividade fundamental do primeiro ano de vida) 33.

Além disso, pode-se pensar em tomada de consciência motivacional, termo que se ; associa com a ideia de liberdade em Vygotsky, que aparece na livre eleição entre diversos motivos, nas situações de decisão em geral, seja com relação à vida prática, seja diante de sérios conflitos éticos.

Uma outra forma de tomada de consciência refere-se às operações semióticas e conceituais. A partir de estudos experimentais sobre o desenvolvimento do pensamento verbalizado, Vygotsky afirmou que

tomar consciência de uma operação significa transportá-la do plano da operação ao plano da linguagem, recriá-la na imaginação para que seja possível exprimi-la em palavras. Na tomada de consciência, o processo de atividade é destacado da atividade geral da consciência, tornando-se, ele mesmo, um objeto de consciência, ou seja, apreendem-se os próprios processos psíquicos por meio da generalização e sistematização dos conhecimentos já existentes34.

Na medida em que a consciência se amplia, ela se apropria não mais apenas dos objetos que a cercam, mas daquilo que eles representam e daquilo que os representa. Isso se dá pela mediação do conceito, em que

33 TOASSA, Gisele. O conceito de consciência em Vygotsky. Psicologia USP, São Paulo, vol.17 n. 2, p. 73, 2006.

34 VYGOTSKY, L. S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

42

o objeto deixa de ser um estímulo em particular para ser conscientemente representado por uma síntese para Vygotsky, há então níveis mais abstratos de tomada de consciência (de percepção dos próprios sistemas semióticos), que são um tipo de meta-relação com a realidade, mediados especialmente por uma história de apropriação significativa dos conceitos científicos; nesta meta-relação podemos identificar uma relação com as conquistas do gênero humano e com as experiências individuais da pessoa35. Nesse processo de ampliação da consciência, ela chega a passar pelos portões dos conceitos científicos.

Tais conceitos são mediados por outros conceitos, de modo que o objeto é colocado num sistema hierárquico de inter-relações semióticas; daí a possibilidade de que seja apreendido e transferido para outros campos do pensamento e de conceitos anteriormente não relacionados a ele. Esta ideia de transferência da informação entre sistemas lembra a primeira conceituação de consciência na obra de Vygotsky36.

O fato é que, segundo Vygotsky, a consciência se desenvolve como um processo integral. A cada nova etapa do seu processo de desenvolvimento ela se modifica resultando em diversos graus de tomada de consciência.

No documento CONSCIÊNCIA PEREGRINA: (páginas 39-42)