No intuito de realizar ações que pudessem contribuir para mitigar alguns dos problemas encontrados, de provocar novas reflexões sobre as questões raciais na turma, ao mesmo tempo, angariar seu interesse em participar ativamente nesse processo, o projeto de intervenção foi concebido com base nos pressupostos da pesquisa-ação, que Tripp (2005) define como:
’[...] uma forma de investigação-ação que utiliza técnicas de pesquisa consagradas para informar a ação que se decide tomar para melhorar a prática’, e eu acrescentaria que as técnicas de pesquisa devem atender aos critérios comuns a outros tipos de pesquisa acadêmica (isto é, efrentar a revisão pelos pares quanto a procedimentos, significados, originalidade, validade, etc.)” (TRIPP, 2005, p. 445).
Considerando que a investigação-ação permite a proximidade necessária para a vivência dos problemas analisados e de seus efeitos no aprendizado dos estudantes e, assim, elaborar estratégias para intervir de maneira adequada em cada situação, esta metodologia mostrou-se muito adequada aos objetivos deste trabalho, o que veio a se confirmar ao longo da pesquisa.
Como qualquer processo de investigação-ação, a pesquisa-ação segue um ciclo de aprimoração da prática no qual se intercalam, sistematicamente, ações empíricas e a investigação sobre a prática (TRIPP, 2005). É durante o processo que se aprende sobre a prática e sobre a investigação em si, pois o planejamento e sua implementação são descritos e avaliados com o objetivo de melhorar a prática num aprendizado contínuo e concomitante à investigação. Entretanto, esse tipo de pesquisa distingue-se da prática, apesar de ser pragmática e da pesquisa centífica tradicional, uma vez que “ao mesmo tempo que altera o que está sendo pesquisado, é limitada pelo contexto e pela ética da prática” (Idem).
Geenwood e Levin (2006) também defendem um tipo de pesquisa em que teoria e prática se associem para “uma interação contínua entre as pessoas e seu ambiente”, e na qual as ações se desenvolvem de acordo com o projeto do pesquisador, em busca dos resultados esperados, considerando a importância de todas as contribuições dos participantes. Segundo eles, a pesquisa-ação mostra-se muito propícia à produção de conhecimento útil à pesquisa social e vem a ser um importante instrumento nos “processos democráticos da sociedade” (Idem, p.101).
Para os autores, a pesquisa-ação trata-se de:
[...] uma intervenção na qual há uma co-produção de conhecimentos entre os participantes e os pesquisadores por meio de processos comunicativos colaborativos nos quais todas as contribuições dos participantes são levadas a sério. Os significados construídos no processo de investigação conduzem à ação social, ou ainda essas reflexões sobre a ação levam à construção de novos significados [...] concentra-se no contexto; seu objetivo é resolver problemas da vida real em seu contexto. (GREEWOOD E LEVIN, 2006, p.102)
Os pressupostos da pesquisa-ação oportunizaram a construção coletiva de conhecimentos sobre o próprio contexto do lócus da pesquisa, a sala de aula, identificando problemas e agindo sobre eles, na tentativa de introduzir o estudo das questões étnico-raciais no ensino de Língua Portuguesa. No decorrer da aplicação da pesquisa, ficou evidente o papel determinante da interação e da participação dos
alunos nas atividades propostas, para que elas resultassem em uma aprendizagem significativa. Inicialmente, alguns alunos resistiam ao debate sobre essa temática, como se não houvesse mais nada a ser dito ou pensado sobre o assunto, o que é compreensível, justamente por tocar numa ferida que permanece aberta, de modo que, por diversas vezes, esse desinteresse foi um obstáculo à realização das atividades.
O conhecimento das teorias aqui descritas descortinou alguns dos mecanismos e origens dos problemas, possibilitando elaborar de forma mais assertiva o projeto de intervenção e pôr em prática ações de estímulo à leitura que contribuíram para abrir seus olhares às questões raciais de forma crítica e para que alguns começassem a descobrir sua identidade negra, outros, para ratificarem um sentimento que já os inquietava, despertando seu interesse sobre o tema ao ponto de trazerem suas contribuições para os debates em sala de aula. O amadurecimento dos alunos enquanto leitores enriqueceu os debates, à medida que iam se apercebendo de sua capacidade de interagir com o lido e ganahando segurança para expor seus pensamentos e opiniões. Essa disposição para o diálogo nos permitiu delinear novos caminhos para ações futuras, o que nos alinha ao pensamento de Tripp, apresentado anteriormente.
O autor relata que a pesquisa-ação “foi considerada um termo geral para quatro processos diferentes: pesquisa-diagnóstico, pesquisa-participante, pesquisa-empírica e pesquisa-experimental”, sendo posteriormente aplicada em diferentes campos, tais como a política, a administração, o desenvolvimento comunitário, a agricultura e os negócios bancários, entre outros, assumindo, em cada um deles, particularidades diversas na forma de se conduzir o processo de investigação. (TRIPP, 2005, p. 445).
Ele considera que “ a pesquisa-ação educacional é principalmente uma estratégia para o desenvolvimento de professores e pesquisadores de modo que eles possam utilizar suas pesquisas para aprimorar seu ensino e, em decorrência, o aprendizado de seus alunos” (Idem) e afirma que, mesmo dentro da educação, surgiram variedades distintas de pesquisa-ação, quer relacionadas à técnica, ao desenvolvimento profissional do professor ou à crítica social, o que possibilitou descrevê-la como uma categoria de atividades.
Dentro dessa linha de raciocínio, é importante ressaltar que a escolha da pesquisa-ação foi um fator de crescimento profissional, justamente por possibilitar investigar e buscar soluções factíveis para questões que já me instigavam, bem como
favoreceu uma maior aproximação dos meus alunos, ao me permitir vê-los não como objeto de pesquisa, mas como companheiros de trabalho e sujeitos das ações do estudo em tela. Suas contribuições foram fundamentais para a refacção dos planos de aula, buscando levar para as aulas oportunidades de enfatizar a importância de seus saberes e pontos de vista no processo de ensino e aprendizagem.
Tripp (2005) enfatiza a importância da prática e do contexto na metodologia da pesquisa-ação, na qual o pesquisador considerará a qualidade do trabalho que realiza no dia a dia como ponto de partida para o início da investigação, buscando compreender a prática, no intuito de obter o aprimoramento não só de seu próprio trabalho como também melhorias para seus colaboradores. Concordando com Tripp, Engel (2000) reforça o papel agregador da pesquisa-ação, que a distingue entre outras metodologias:
A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa participante engajada, em oposição à pesquisa tradicional, que é considerada como ‘independente’, ‘não-reativa’
e ‘objetiva’. Como o próprio nome já diz, a pesquisa-ação procura unir a pesquisa à ação ou prática, isto é, desenvolver o conhecimento e a compreensão como parte da prática. É, portanto, uma maneira de se fazer pesquisa em situações em que também se é uma pessoa da prática e se deseja melhorar a compreensão desta. (ENGEL, 2000, p.182)
Tais características realmente são visíveis no processo da pesquisa-ação, especialmente no que tange à necessidade de que todos os sujeitos da pesquisa estejam envolvidos nele. Ainda que não tenhamos obtido a unanimidade, foi possível observar uma interação muito mais rica quando se conseguia captar o interesse de maior número de alunos.
De fato, ao se sentirem parte da investigação, os alunos assumiram a postura de pesquisadores e se sentiram à vontade para trazerem suas contribuições, ainda que tímida e lentamente, e que não tenha observado o mesmo efeito na totalidade dos participantes. Da mesma forma, o processo de aplicação da intervenção foi trazendo oportunidades de modificar e aprimorar algumas concepções minhas, tanto em relação ao ensino de leitura quanto à abordagem das questões étnico-raciais. A literatura nos fornece material riquíssimo para esse debate, entretanto, é necessário ter conhecimentos mais sólidos acerca do contexto africano, do continente, de sua cultura e suas peculiaridades, a fim de se explorar de forma mais ampla toda essa riqueza.
Engel (2000) também destaca o fato de a pesquisa-ação permitir a atuação do pesquisador sobre determinada situação no intuito de modificá-la ao longo do processo, que é cíclico. Os resultados são avaliados, verifica-se a validade dos procedimentos adotados na resolução dos problemas anteriormente diagnosticados e, dessa forma, obtém-se a melhoria das condições cotidianas. Esse caráter autoavaliativo da pesquisa-ação permite que o trabalho seja reformulado mesmo durante seu desenvolvimento, sendo reajustado de acordo com as necessidades identificadas.