3. METODOLOGIA
3.3 A pesquisa qualitativa e a problemática do sujeito drogadicto institucionalizado
respondido no bloco anterior. Em boa parte das entrevistas, no entanto, a utilização deste terceiro bloco não foi necessária.
A pesquisa não-diretiva, cuja entrevista semiestruturada compõe o arcabouço de técnicas possíveis, privilegia o sujeito como elemento fundamental para compreendê-lo em suas vivências e fenômenos. Na entrevista semiestruturada a presença do entrevistador é consciente e atuante. Aspectos como este, favorecem não só a descrição dos fenômenos sociais, mas também sua explicação e compreensão (TRIVINOS, 1987).
De acordo com Manzini (1990; 1991), a entrevista semiestruturada tem como uma de suas vantagens o fato de propiciar o alcance de informações de forma mais livre, não havendo um padrão de respostas pré-estabelecidas, que pudessem de alguma forma, condicionar ou induzir as respostas.
Este tipo de entrevista pode favorecer pesquisadores menos experientes, no sentido de cuidar para que os temas necessários à sua investigação sejam abordados na fala do entrevistado, o que poderia não ocorrer numa entrevista não estruturada, pela falta de perguntas previamente organizadas (MINAYO, 2010).
Manzini (1990; 1991) também destaca a importância do roteiro com perguntas principais no referido tipo de entrevista. No entanto, o autor adverte que a mesma estará focada não apenas no roteiro, mas também a uma série de outras questões que cercam as circunstâncias do momento em que a entrevista é aplicada.
Sobre esta percepção do pesquisador a respeito das circunstâncias do campo de pesquisa, pode-se afirmar que a presença ativa no contexto da pesquisa é, inclusive, uma questão de ética. Isto porque um dado analisado fora de seu contexto pode ficar empobrecido em seu significado, fazendo com que a validade da pesquisa qualitativa seja questionada (VICTORA, 2011).
3.3 A pesquisa qualitativa e a problemática do sujeito drogadicto
ao aplicarmos a mesma metodologia na mesma classe de sujeitos, mas que estivessem em ambiente e circunstâncias diferentes, certamente chegaríamos a outras conclusões e descreveríamos situações bem diversas. A aplicação de entrevistas em sujeitos drogadictos ainda em uso contínuo da droga reservaria nuances bem específicas em função de muitas variáveis, dentre elas o local onde colheríamos tais entrevistas e o seu entorno. Ou ainda, se aplicássemos o mesmo instrumento em sujeitos drogadictos em tratamento, mas que ao invés de internos em uma instituição estivessem sendo acompanhados em suas casas por suas famílias, de certo que as circunstâncias que envolveriam a pesquisa também seriam de outra ordem.
Nosso alvo de pesquisa era o sujeito drogadicto institucionalizado e este termo merece aqui uma elucidação. Não era nosso interesse discutir o conceito de Institucionalização24. Antes, nos apropriamos da palavra institucionalizado para caracterizar a situação do sujeito sobre o qual desenvolvemos nossa investigação.
Não se trata de um sujeito drogadicto das ruas e cracolândias, nem de um sujeito drogadicto que mantém a drogadição dentro de sua casa com a presença de familiares e muito menos daquele que vivencia um processo de desintoxicação por meio de um tratamento hospitalar. O contexto de nossa pesquisa foi o de uma instituição de caráter filantrópico que recebe sujeitos drogadictos com o objetivo de recuperação. Este cenário tão específico reservou-nos situações que descrevemos a seguir.
Um dos pressupostos de uma abordagem qualitativa, em seus mais variáveis métodos, é o contato mais intenso com o campo de pesquisa. Para Deslandes (2005), a ideia de ida ao campo tem nos estudos da antropologia suas raízes, ela
24 O conceito ao qual nos referimos é o de Institucionalização, central nas discussões do campo da Análise Institucional, implica raciocinar em termos de duração, temporalidade e historicidade dos processos. Em termos práticos temos a análise dos processos de institucionalização com referência à sua história. Para um aprofundar-se no referido conceito, sugerimos a leitura de Análise institucional e pesquisas sócio-históricas: estado atual e novas perspectivas, de Antoine Savoye, publicado na revista Mnemosine, v. 3, n. 2, 2007. Ou a versão online, disponível em:
<http://www.mnemosine.com.br/mnemo/index.php/mnemo/article/view/275/417>. Acesso em: 17 abr. 2013.
representa ir ao campo para visualizar, escutar, perceber, dialogar. Desta forma, o contato com o campo de pesquisa, por ocasião da aplicação das entrevistas, apontou-nos situações que favorecem a uma compreensão da rede de significados que atuam a todo instante e que, não necessariamente, tomam parte na fala dos sujeitos entrevistados. Tais circunstâncias ficam no entorno das entrevistas, mas estão diretamente relacionadas ao universo do fenômeno que se intenciona investigar. Algumas destas circunstâncias são apenas para serem observadas, silenciosamente, outras exigem do entrevistador uma resposta em termos de um comportamento concreto. É neste sentido que descrevê-las e buscar uma compreensão das mesmas poderão servir de apoio metodológico para pesquisas futuras e para pesquisadores que recém-despertados ao interesse pela investigação qualitativa, precisarão de referenciais.
Lembremo-nos mais uma vez que o fenômeno investigado é a relação entre Drogadição e Vontade livre, contando com o método das entrevistas semiestruturadas para apoio da elucidação da temática. Além dos dados obtidos e analisados na próxima parte, identificou-se uma riqueza de informações que foram registradas, ainda que nem sempre formalmente, mas que não aparecerão nas transcrições das entrevistas, porque também não têm origem na resposta de nenhuma das perguntas que foram feitas ao longo das entrevistas. São situações externas ao diálogo em si, no momento exato da entrevista. São informações dadas pela percepção do ambiente e dos fenômenos que nele aconteciam, como: o contato com funcionários, conversas com a direção, imprevistos e até questões de ordem clínica.
Um dos desafios que enfrentamos no trabalho de campo foi a política de contenção da abstinência pela medicalização das internas. Ao chegarem à instituição, o primeiro passo é o atendimento por um psiquiatra, a fim de verificar que medicamentos poderão ser administrados em casos agudos na primeira fase de privação da droga, ou outros medicamentos que precisarão ser utilizados de maneira contínua. Todavia, quer em função da tentativa de controle da ansiedade proveniente a fase abstêmia, ou em função de uma tentativa de regulação do sono, por exemplo, o resultado desta medicalização sobre o comportamento de algumas adictas ao longo do dia é de entorpecimento.
Foi o que aconteceu quando da primeira tentativa de entrevistar Flaviana 25. Uma das assistentes responsável por conduzir as internas até o local das entrevistas informou-nos da impossibilidade que ela percebia dessa entrevista seguir o seu termo. Na noite anterior, Flaviana alternara entre alucinações e crises compulsivas de choro, o que levou às assistentes administrarem a medicação extra prescrita para estas situações. Flaviana estava, grosso modo, dopada, e suas palavras tropeçavam uma na outra. A aparência era de extrema necessidade de dormir e, desta forma, entendemos que a entrevista deveria ser remarcada.
Verificamos a possibilidade de outra interna ocupar o horário que ficou vago nas entrevistas daquele dia, e obtivemos êxito. Após duas semanas conseguimos proceder à entrevista de Flaviana, que estava lúcida e respondendo fluentemente às perguntas que eram feitas.
A entrevista de Viviane também foi marcada pela questão da medicalização.
Diferente do caso anterior, Viviane atendeu prontamente o chamado da assistente para o momento da entrevista. Ao iniciarmos percebemos que a entrevistada estava lúcida e desperta, no entanto, o curso do seu pensamento apresentava-se de maneira lenta. Viviane pensava por minutos antes de dar uma resposta, e quando se sentia pronta falava com vagareza cada palavra. Havia coerência no que era dito, os fatos eram narrados dentro de uma ordem lógica, o que nos indicava que não havia uma alteração do raciocínio, ou uma interrupção dos sentidos que impedisse que ela se mantivesse acordada para pensar e articular as palavras como nos pareceu acontecer com outra interna, Maura. Infere-se que o caso era de uma lentificação do pensamento, o que foi confirmado pela assistente, que afirmou que recentemente Viviane havia iniciado o uso de medicamentos para depressão. A entrevista conseguiu seguir até o fim, no entanto, o tempo de duração da mesma foi bastante diferente do previsto. De acordo com o cronograma, neste dia deveríamos ter aplicado ao menos quatro entrevistas, o que não foi possível acontecer em função do tempo que dedicamos à entrevista de Viviane.
25 As entrevistadas citadas estão identificadas por um nome fictício.
A rotatividade das internas na instituição consistiu em outro fator que permeou a aplicação das entrevistas no referido contexto. Numa conversa com a direção entendemos que nove meses é o tempo estimado para o processo de recuperação do dependente químico naquela instituição, mas dependia inteiramente do sujeito a decisão de manter ou interromper o tratamento ao longo do processo. O fato é que nem todas as internas conseguem seguir este período até o final.
Percebemos que o número de internas que interrompe o tratamento retornando às drogas é grande. No início da pesquisa contávamos com o número de dezoito internas que se predispuseram a participar das entrevistas. Ao longo das semanas várias delas foram deixando a comunidade e esse número caiu consideravelmente.
De maneira prática este aspecto causava certa instabilidade no ambiente, uma vez que não era possível prever se as pessoas que havíamos encontrado numa semana, nas instalações da comunidade, conseguiriam manter-se no tratamento durante a semana seguinte. Em vários momentos ao solicitarmos a assistente que nos trouxesse esta ou aquela interna, recebíamos a notícia de que estas haviam deixado a comunidade. Em função desta problemática, em certa ocasião, das três entrevistas agendadas para o mesmo dia, apenas uma delas foi realizada, gerando a necessidade de substituições e trocas entre as internas presentes, a fim de não perdermos o dia de trabalho no campo de pesquisa.
Após a segunda semana em que fatos como este aconteceram, pedimos à direção que nos permitisse chegar mais cedo e sair mais tarde no dia que foi disponibilizado para fazer as entrevistas. Isso nos possibilitou ampliar de dois para cinco o número de entrevistas que normalmente realizávamos ao dia. Ao mesmo tempo em que as baixas iam acontecendo, novas mulheres chegavam à instituição, fazendo com que recorrentes vezes fizéssemos todo o processo de apresentação da pesquisa e o convite para que as novas internas aderissem à mesma. Desta forma fomos conseguindo manter o número de sujeitos de pesquisa, mesmo diante da alta rotatividade.
As crises de abstinência tinham em seu grupo de sintomas, episódios de extrema ansiedade e, às vezes, crises depressivas. Algumas entrevistas aconteceram exatamente nestes momentos fazendo com que o curso das perguntas fosse conduzido de maneira a suportar a angústia presente e manter uma possibilidade de que a entrevista seguisse até o final.
Foi o que aconteceu na entrevista de Jô, que chegou à sala chorando compulsivamente. Antes de ligarmos o gravador, foi oferecido a ela à possibilidade de deixar para outro dia a entrevista, ao que ela respondeu negativamente. Durante os primeiros trinta minutos da conversa, Jô tremia, soava as mãos e chorava, sem conseguir falar uma frase que não fosse aos prantos. A todo instante Jô repetia a ideia fixa de ir embora. Conseguia falar de si, em função das perguntas que eram feitas, mas em certo momento seu discurso era interrompido pela ideia fixa: “mas eu quero ir embora, eu quero ir embora!”. Em certa altura da entrevista, Jô começou a acalmar-se, parou de tremer e já conseguia conversar sem chorar. Quando se percebeu mais tranquila, contou-nos que na noite anterior não havia tomado o remédio para dormir porque entendia que não precisava mais, que a crise de abstinência já estava passando, todavia percebeu que sua intuição estava equivocada. Agradeceu por termos mantido a entrevista mesmo diante de sua crise e disse que estava sentindo-se melhor.
Algo similar aconteceu com Elaine, mas o final da crise de abstinência não foi o mesmo. A entrevista começou a ser gravada com o aceite da interna, contudo ela não conseguia se ater às perguntas. Seu discurso, marcado também por muito choro, repetia o desejo de ir embora por causa dos filhos. Falava do quanto havia magoado a mãe, agredido a mãe, contou-nos, em detalhes, o momento em que a esfaqueou por causa do crack. Não nos parecia ser possível ou recomendável introduzir as perguntas do roteiro, uma vez que sua crise só piorava. Optamos por manter uma atitude de escuta respeitosa em seu desabafo descontrolado e, quando possível, ressaltava-se a importância de seguir o tratamento para reaver a vida que tanto gostaria de retomar. Ao percebermos que a crise durava mais tempo do que se imaginava, desligamos o gravador e passamos a investir na tentativa de acalmar a interna e ajudá-la a voltar para o alojamento. Agendamos uma nova tentativa de entrevista para a semana seguinte, mas ela não estava mais lá. A crise de abstinência que presenciamos no ato da entrevista, culminou na interrupção de seu tratamento.
Houve ainda outra situação, destas que selecionamos para registrar no presente trabalho, que nos remete aos prejuízos permanentes que o uso prolongado de álcool ou drogas pode causar. Trata-se das lesões cerebrais recorrentes em sujeitos drogadictos que fizeram uso crônico e em grandes quantidades de certas
drogas. No dia da apresentação da pesquisa, todas as internas foram levadas a uma sala de convivência, onde a exposição dos objetivos e da metodologia da pesquisa foi feita. Ao final, fizemos o convite à adesão na pesquisa e distribuímos os termos de livre consentimento para que pudessem ser lidos e assinados. Todas assinaram, e em função deste aceite preparamos o cronograma de entrevistas.
Maria Flor assinou o termo, e foi uma das primeiras na ordem do referido cronograma. Contudo, quando solicitamos a assistente que nos trouxesse a interna, a mesma hesitou. Explicou-nos que não acreditava que fosse possível uma entrevista com esta interna, uma vez que ao chegar à instituição trazida por um órgão religioso, Maria Flor recebeu o diagnóstico de demência do serviço de psiquiatria que as atende. Segundo a assistente, a interna afirma não lembrar-se de nada sobre seu passado, suas frases na maioria das vezes não fazem sentido e seu comportamento emocional assemelha-se ao de uma criança de sete anos.
Entendemos que Maria Flor foi acolhida na comunidade, em função da drogadição, mas o crack e o álcool já haviam devastado seu cérebro. Neste caso optamos pela não realização da entrevista.
Podemos afirmar que, mesmo em um ambiente tão propício a problemáticas como estas descritas, a maioria das internas foram capazes de fornecer informações importantes sobre o objetivo principal da pesquisa que era realizada.
Percebemos que algumas situações podem prejudicar, e em alguns casos até impedir, a aplicação das entrevistas e que estas podem ser previstas, à medida do possível, a fim de serem administradas.
Além do que foi apresentado até aqui, poderíamos discorrer sobre os efeitos positivos que a fala propiciada pela entrevista exerceu sobre algumas das entrevistadas, indicando o caráter terapêutico que a mesma pode ter. Mas esta discussão deixaremos para produções futuras, objetivando na próxima parte uma análise das entrevistas com foco nas questões que implicam a drogadição e a vontade.