2. O PROBLEMA DA VONTADE LIVRE
2.1 Immanuel Kant e o Incompatibilismo Libertarista
Filósofo da cidade Königsberg, no norte da Alemanha, local onde nasceu e morreu, Immanuel Kant (1724-1804), é uma das personalidades de destaque da filosofia européia, e representa neste trabalho a perspectiva libertarista da abordagem incompatibilista da vontade 11. De acordo com esta linha de pensamento a independência do homem em relação aos objetos da natureza ocorre pela capacidade do mesmo de autolegislar12 e exercer a autonomia da vontade.
Segundo Kant os homens possuidores de uma personalidade moral podem ser reconhecidos como moralmente responsáveis pelas suas ações, livres e racionais, submetidos tão somente às leis que a própria razão lhes dá. Então se
11 Dados extraídos do texto produzido na Oficina Internacional de Educação da UNESCO no ano de 1993. Foi posteriormente publicado na Perspectivas: Revista trimestral de Educación Comparada, v. 23, n. 3/4, em 2001.
12 Este conceito foi desenvolvido por Kant na obra Fundamentação da Metafísica dos Costumes (2007).
pode dizer que o homem é livre, uma vez que está limitado apenas pela lei que ele estabeleceu diante de si mesmo (CRISTOVAM, 2011).
Kant não abandona de todo a ideia da causalidade. O filósofo reconhece a existência de uma causalidade natural e uma causalidade da liberdade. Para que a primeira exista, deve haver inevitavelmente a segunda. Para Kant a ação causal terá de ter um início e este ocorrerá em função da causalidade da liberdade. Sem uma origem na liberdade, a ação causal haveria de engendrar-se num quantum infinito de efeitos e causas que não se é possível prever (MACEDO, 1978).
Se estivermos certos ao afirmar que o libertarismo de Kant não nos permite banir de todo a ideia de causalidade, o que é feito em sua teoria é dar-lhe uma outra conotação. Haverá uma causa universal para a ação do homem, qual seja a vontade de ser ele mesmo seu legislador por meio da razão. Dirá o incompatibilista em questão
Dado que o conceito de causalidade implica em si o de leis, segundo as quais alguma coisa, que chamamos efeito, deve ser produzida por alguma outra coisa que é a causa, a liberdade, embora não seja propriedade da vontade que se conforme com leis naturais, nem por isso está fora de toda lei: pelo contrário, ela deve ser uma causalidade que age segundo leis imutáveis, mas leis de peculiar espécie, pois, de outro modo, uma vontade livre seria um absurdo [...] Em que pode, pois, consistir a liberdade da vontade senão numa autonomia, ou seja, na propriedade que o querer tem de ser para si mesmo sua lei? (KANT, 2007, p. 94).
Desta forma, supor uma vontade causada e anteriormente determinada não será possível para o libertarista que acredita que o único paradigma básico para todas as leis morais e, consequentemente, para os deveres correspondentes a esta, é a autonomia da vontade (KANT, 2005). Falar em autonomia da vontade é falar na autonomia da razão prática, que é expressa como uma lei moral. Por meio desta autonomia da vontade e em função da lei da moral, que é a própria razão, é que somos considerados livres. Esta é a centralidade da teoria indeterminista de Kant: a razão e a autonomia (ZATTI, 2007).
Parece-nos que, para Kant, as leis externas ao indivíduo13 têm menos valor em relação às leis racionais, ou seja, as leis da razão pura implicadas no livre arbítrio. Assim a
[...] liberdade, à qual se referem às leis jurídicas, pode ser tão somente a liberdade na prática externa; mas aquela liberdade à qual se referem às segundas leis (leis morais) deve ser a liberdade no exercício exterior e interior do arbítrio, quando está determinado pelas leis racionais (KANT, 1993, p. 23).
Se diante de seu livre arbítrio o homem deixar de fundamentar-se pela razão e fundamentar-se por algo externo ou contrário à razão, esta ação não poderá ser considerada autônoma. A ação autônoma só se permite guiar pela lei universal, que é a própria razão (ZATTI, 2007).
Segundo Macedo (1978), Kant define a liberdade enquanto espontaneidade absoluta das causas, capaz de começar por si mesma uma série de fenômenos14.
Entendo, por liberdade, em sentido cosmológico, a faculdade de começar de si mesmo um estado cuja causalidade, não é subordinada por sua vez, segundo a lei da natureza, a uma outra causa que a determina quanto ao tempo. A liberdade é, neste sentido, uma ideia transcendental pura que, primeiramente, nada contém tomado da experiência e da qual, em segundo lugar, o objeto não pode ser dado de um modo determinado em nenhuma experiência [...] (KANT, 2009, p. 355).
A liberdade kantiana implica que existe uma independência da vontade de qualquer lei que não seja a lei moral, ou seja, a lei da própria razão. A autonomia consiste no fato do homem poder escolher agir por dever à sua lei moral (ZATTI, 2007).
A este respeito poderíamos indagar acerca da vida social, sobre como a mesma sucederia se pelas leis internas, racionais, o arbítrio levasse o indivíduo a uma ação repudiada pelo meio. Kant nos responde que o homem age socialmente pelo uso de seu livre arbítrio, buscando conciliar sua liberdade à liberdade alheia,
13 Ao contrário da denominação determinista de sujeito, a concepção do homem na da fenomenologia é a de um indivíduo, no sentido de não estar sujeito à, ou ser sujeito à, antes este homem tem uma unidade em si mesmo, por isso não dividido, indivíduo.
14 Em sua obra, Prolengomenos da Metafísica Pura (1974), Kant também define a liberdade como a faculdade de iniciar por si um acontecimento. Esta mesma concepção pode ser vista em filósofos como Aristóteles, S. Agostinho, S. Tomás, Duns Escoto, Ockan, Leibniz e Maine de Biran (MACEDO, 1978).
“segundo uma lei universal” (KANT, 1993, p. 46). Esta lei universal aqui referida é a lei da razão, à qual todos os homens estão sujeitos, assim a liberdade do arbítrio de cada um não correrá em separado das leis da própria razão que rege a todos. Ser livre é neste caso possuir o livre uso do arbítrio segundo uma lei geral e universal da razão (CRISTOVAM, 2011).
Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, Kant (2004, p. 421) exprime o imperativo categórico que estabelece o seguinte: “Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que se torne lei universal”. Por este princípio o agente pode tomar sua decisão sobre uma ação avaliando se a mesma é moralmente permissível ou não. Segundo Rachels (2006), de acordo com tal imperativo kantiano, para agirmos, devemos nos questionar sobre a regra implicada nesta ação, ponderando se a mesma poderia ser utilizada por todos e em todas as situações, o que faria desta uma lei universal. Se assim o for, então a ação é considerada moralmente aceita, se não, este ato não é moralmente aceito, devendo, portanto, ser evitado (RACHELS, 2006).
Zanella (2010) afirma que para Kant a vontade livre e a vontade submetida à lei moral são a mesma coisa, uma vez que o agente só é considerado livre quando segue a lei moral, que por sua vez, reportando-nos ao imperativo categórico, implica sua submissão a uma necessária universalidade das regras máximas da ação. Ou seja, o homem é livre quando se pergunta se a lógica que rege sua ação poderia ser também replicada por outrem, em outras circunstâncias, escolhendo desta forma, as ações que não ferem tal imperativo. Se ao invés disso, escolher ações moralmente não aceitas, sua ação não alcançará o status de autônoma, mas será qualificada como heterônoma (ZANELLA, 2010).
Um importante aspecto da teoria Kantiana é a tese de que existem no homem duas vontades. Se fôssemos somente seres racionais a tese Kantiana não se aplicaria. No entanto, somos influenciados por outros motivos que não a legislação da razão, sendo possível falar de uma vontade legisladora (da razão) e uma vontade arbitrária. Dito desta forma o livre arbítrio seria uma variação da vontade humana, a liberdade que pressupõe inclusive o arbítrio à própria vontade. Sendo assim, nos seria possível desejar fazer algo, que pelo escrutínio da razão não decidiríamos fazer, mas arbitrando contra a vontade da razão em função da vontade do arbítrio fazemos (MACEDO, 1978).
Tomemos uma ação por análise: um sujeito comete um delito 15, neste caso, o de falsidade ideológica ao assinar uma folha de cheque que não lhe pertencia, com finalidade de saldar uma dívida. Poder-se-ia explicar tal ação em função de todos os determinantes anteriores que cercaram esta escolha. O sujeito em questão, desempregado há mais de um ano, com filhos pequenos para cuidar e uma ação de despejo domiciliar. Além disso, o fato de que em sua história de vida, já havia visto seus familiares envolvidos em situações similares terem conseguido sair ilesos à lei. Estes argumentos poderiam ser utilizados para explicar que causalmente ao sujeito só caberia fazer o que fez.
Ocorre que o libertarismo, enquanto uma outra opção de explicação da agência humana, diria de forma diferente. Em última instância, o homem, livre que é, não está submetido de maneira cabal à sua experiência sensível, podendo transcender à uma perspectiva inteligível. O homem, dirá o libertarista, está para mais além do que suas condições de tempo e espaço, podendo ter consciência de sua existência por meio da razão. No exemplo citado o sujeito, diante de todas estas variáveis de possível determinação, poderá escolher fazer outra coisa que não burlar uma lei assumindo a vigência de uma lei moral interna que o guiará. No entanto, ainda que o mesmo decidisse fazer exatamente o que fez, não será o caso de que não poderia ter feito de outra forma, será apenas que, pelo exercício de seu livre arbítrio, o fez desta maneira.
Na explicação Kantiana os elementos externos que parecem limitar a ação do homem, na verdade não são em si os que determinam a ação do homem. O que ocorre é que o homem, pelo exercício da razão, tem a sua vontade movida a fim de evitar as sanções decorrentes de sua ação. Assim sendo, são os próprios indivíduos os seus limitadores, eles mesmos é que estabelecem suas leis, e só pelas leis que o próprio indivíduo se impõe é que ele estaria limitado (CRISTOVAM, 2011).
15 Em sua obra A Crítica da Razão Prática (2005), Kant se detém por longas páginas a analisar um caso em que o sujeito comete um roubo. Tais exemplos parecem corroborar a imagem de como na prática os conceitos podem ser experienciados.
Sob este aspecto o ser racional pode em toda ação ilegal por ele feita ainda que, como fenômeno, seja ela suficientemente, determinada no passado e como tal inevitavelmente necessária, dizer com razão, que poderia não fazê-lo, porque pertence, com todo o passado que a determina, a um único fenômeno, o caráter, que se dá a si mesmo e segundo o qual atribui-se a si mesmo como a uma causa independente de toda sensibilidade, a causalidade destes fenômenos (KANT, 2005, p. 97).
O que se diz sobre o livre arbítrio nestas questões práticas cotidianas é que não haverá motivo determinante que não tenha sido anteriormente eleito pela razão, pela autonomia da vontade. Quer em situações ilícitas, quer em atos passionais e impulsivos, em um dado momento houve uma admissão consciente do sujeito de que estas eram as ações mais viáveis e preferíveis.