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A preparação do Projeto

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 62-65)

5 A PRÁTICA DO PROJETO INTERDISCIPLINAR

Este capítulo pretende explicar a escolha metodológica que encaminha esta pesquisa e, ainda, o percurso traçado anteriormente até que chegássemos a entender as razões da escolha de suscitar um Projeto com a turma 1503, quinto ano do Ensino Fundamental, desde a sua escolha temática, preparação, tempo de implementação – cronograma – até os apontamentos fundamentais de seu fazimento. A ideia de se trabalhar com um Projeto foi gestada em função da necessidade de implementar uma ferramenta pedagógica que pudesse dar conta de repropor a forma de pesquisar com os discentes em sala de aula, mudando, portanto, a forma da aula tradicional. Nossa intenção inicial era dialogar com Ole Skovsmose no sentido de construir uma prática pedagógica ligada à Matemática, mas não só a ela, que pudesse ressignificar o processo de construção de conhecimentos em nossa prática cotidiana, transformando, por exemplo, um modelo de resolução matemático em ferramenta para interpretação da realidade social e política na qual o grupo (e cada discente) está inserido. Numa linha de continuidade, percebemos, no decorrer do curso de mestrado e no processo para a qualificação desta pesquisa, que a ferramenta pedagógica que havíamos pensado poderia ser de grande valia para uma análise de natureza acadêmica condizente com as perspectivas teóricas que já havíamos levantado e servindo, portanto, como uma prática a ser analisada no contexto de nossa pesquisa final.

necessidade de abordar questões que afetem seus cotidianos enquanto potência política, entendeu-se ser um Projeto o modelo de pesquisa ideal para a construção de conhecimentos que afetem a realidade imediata desses discentes e que os levem não somente à condição de interlocutores conscientes das diversas políticas públicas inseridas no espaço escolar, mas também a poder interferir, dentro de certos limites, nos resultados dessas mesmas políticas.

Noutras palavras, a opção de se trabalhar com Projeto se deu pelo fato de que ele objetiva desvelar algo que afete dada comunidade e que tal conhecimento serve de possibilidade de interferência do grupo em questão na realidade em que está inserido, o que o faz ser uma ação dentro desta mesma comunidade. Partindo dessa consideração e de que, além disso, também se caracteriza por ser o desenvolvimento de uma pesquisa com característica de intervenção com intenções resolutivas de dado problema ou mais, enquadramos tal ferramenta pedagógica, na esteira de Thiollent (2005), no rol da pesquisa-ação: “[...] Nossa posição consiste em dizer que toda pesquisa-ação é de tipo participativo: a participação das pessoas implicadas nos problemas investigados é absolutamente necessária”. (p. 17).

De um momento específico – uma conversa com a turma - em que se problematizou a relação dos discentes com a comida e com o refeitório, foram suscitados vários questionamentos e percepções. Desse momento, aferimos o seguinte:

 a ausência de percepção do significado da política pública merenda escolar;

 falta de percepção discente de suas formas de alimentação para além da comida ingerida na escola;

 falta de percepção do trabalho envolvido no fazimento e distribuição da comida a que os discentes têm acesso;

 casos de obesidade e desnutrição na turma;

 falta de percepção do funcionamento da comida no corpo;

 percepção pouco clara da função da atividade física correlacionada à alimentação;

 pouca reflexão de quais saberes e ciências que são envolvidas em situações ordinárias e cotidianas como, por exemplo, a merenda escolar;

 vaga percepção dos valores e do custo de funcionamento das políticas públicas, no caso, a própria merenda;

 o sentido econômico da política pública no intervalo de tempo em que se está na escola de horário integral, dentre outros.

Entendemos, então, a importância de trazer à baila para o discente o conhecimento do funcionamento da política pública merenda escolar para além de serem servidos no horário de comer; significando, dentre outras coisas, a percepção dos gastos de dinheiro público e a forma como esse está sendo utilizado para tal consecução, desvelando um universo de intenções, fazeres e saberes que permeiam uma política estatal.

Por se tratar de um Projeto e de todas as possibilidades que ele abre, mostrou-se igualmente viável ser a investigação da merenda escolar - como política pública a ser entendida, desvelada e percebida - uma temática capaz de produzir a construção de questões interdisciplinares e de natureza Matemática para o entendimento de sua dinâmica e de seus fazeres.

A partir do entendimento da natureza do Projeto e de suas possibilitações, discutiu-se com os discentes sobre o tema proposto - sob certo sentido, induzido- e, então, problematizamos algumas visões sociais mais comuns sobre como é entendida a merenda escolar, utilizando-nos da seguinte fala: “vai para a escola só para comer merenda!”. Essa fala é amplamente reproduzida em diversos contextos sociais, inclusive os dos próprios discentes, e deriva de desconhecimento de todas as etapas necessárias ao processo de aprendizagem de qualquer pessoa: dormir, nutrir-se, ter saúde e higiene adequadas e a possibilidade de travar contato com conhecimentos de diversos tipos através de diversas metodologias, ou seja, dentre outras coisas aqui citadas, o que deve estar claro é que comer é parte integrante do processo de escolarização, além de Direito Social e Humano.

Pautamos as discussões partindo da percepção de que discentes pertencentes a realidades sociais nas quais podem optar por uma educação privada não são entendidos por parcelas da população como pessoas que apresentem dificuldades semelhantes em relação à inserção social no contexto escolar por serem desatentos ou bagunceiros ou quaisquer outras demandas, pois podem pagar não só a escola, mas também por todos os demais Direitos e processos que fundamentam e possibilitam o processo de aprendizagem - o discente da escola

particular pode pagar pelo que come, por exemplo -, mas os discentes da escola pública, se enquadrados nesses qualificativos, serão vistos de outra maneira. Então, iniciamos os questionamentos e apontamos a importância da discussão relativa à merenda.

Partimos da demanda real que se nos apresentava e dos parâmetros gerais indicados por Freire, entendendo que a ideia de uma educação comprometida com uma mudança social libertadora requer a construção de ferramentas para a compreensão do conhecimento técnico, o qual é muitas vezes utilizado com o fito de obscurecer realidades econômicas e sociais. Sendo assim, algo tão cotidiano e prosaico como comer na escola permanece obscurecido pelo fato de não se abordar o tema pensando-o como política pública, como Direito Social, como assunto a ser discutido e debatido pela comunidade na qual tal política pública funciona, pois como nos ensinou Paulo Freire:

Não basta saber ler mecanicamente que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho. (1991, Orelha do livro).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 62-65)