Ora, há ainda dois aspectos importantes a serem observados aqui: (1) se Sócrates foi acusado e considerado culpado de cometer injustiça, assim o foi pelos homens e ele tem a consciência tranquila de que não cometeu injustiça, ao menos não voluntariamente; ao passo que estes mesmos que o acusaram e o condenaram e a quem agora se dirige são os que cometem, de fato, injustiça, apesar de não terem consciência disto, pois quem os julga e condena não são outros homens, mas a verdade; e (2) se até então Sócrates reiterava que não sabia se a morte era um bem ou um mal (29a,b; 37b), agora já sabe, ao menos, que esta não é um mal, já que a contrapõe à maldade. Por isso, talvez, mostre-se tão resignado com o veredicto: “Talvez estas coisas tivessem de ser assim (39b: Tau~ta me_n pou i1swv ou3twv kai_
e1dei sxei~n) e suponho que elas são na devida medida (39b: kai_ oi]mai au0ta_ metri/wv e1xein)”, afirma. Esta é a tranquilidade de quem não temia a morte; de quem tinha a convicção de que não cometera injustiça. Mas, como veremos a seguir, é também a convicção de Platão, que sabia que o prâgma socrático, que ele considerava um bem a cada particular e a toda a cidade, não findaria com a morte de Sócrates.
refutarão, os que eu até agora continha, embora vós não percebêsseis, e serão tanto mais difíceis quanto mais jovens são, e mais vos irritareis (39d: Plei/ouv e1sontai u9ma~v oi9 e0le/gxontev, ou3v nu~n e0gw_ katei~xon, u9mei~v de_ ou0k h0|sqa/nesqe: kai_ xalepw/teroi e1sontai o3sw new/teroi/ ei0si, kai_ u(mei~v ma~llon a0ganakth/sete)”. Esta a profecia: outros e muitos outros tais como Sócrates, e ainda mais difíceis e irritantes. Por certo, para aqueles não haveria castigo maior.
Assim, Platão prediz a continuidade do prâgma socrático. Na Apologia, a arkhé deste prâgma é introduzida por um mánteuma, a resposta do oráculo, e a continuidade deste prâgma é, por sua vez, introduzida por meio de um khresmós, uma profecia. E, se a Pítia deu a resposta que iniciou esta revolução, Sócrates se torna agora, ele próprio, oráculo do deus, e prediz a continuidade de seu prâgma. No entanto, temos aqui dois, ao menos aparentes, paradoxos.
Primeiramente, se Sócrates havia dito aos juízes que se o matassem não encontrariam outro
“tal como ele” (30e-31a), como então profetiza, agora, uma multidão de outros como ele? Em segundo lugar, se Sócrates tanto enfatizara que nunca tivera discípulos, nem tinha sido mestre de ninguém (33a,b), de onde viriam, então, tantos como ele?
Analisemos o primeiro paradoxo. Haveria ou não outros tais como Sócrates? Para Reeve, o que Sócrates enfatizara na primeira passagem era que não encontrariam outro assim como ele, “agarrado à cidade”, o que não significa que a cidade não encontraria outros que examinassem assim como ele265. Discordamos que esta seja a chave de interpretação, pois, apesar de não repetir agora a expressão anterior, Sócrates afirma que estes que virão após ele serão mais difíceis e mais irritantes. Então, como fariam isso se não estivessem, também estes,
“agarrados” à cidade, assim como aquele miopós que eles imitariam? Como sair, então, desta aporía? Bem, podemos aventar duas hipóteses. A primeira se sustentaria na economia da Apologia. Como a negação de “encontrarem outro tal como ele” aparece em seu primeiro discurso, é possível pensar que Sócrates tivesse ainda a intenção de convencer os juízes de sua própria importância para a cidade e, assim, salvar-se. Já a afirmação, de que após sua morte viriam muitos outros que examinariam assim como ele, ocorre após sua condenação; portanto, nada mais teria a perder, poderia expor o que já sabia, mas não pudera falar. Pois, se tivesse dito antes, estaria, automaticamente, assumindo sua culpa no tocante à corrupção dos jovens.
No entanto, esta hipótese nos parece pouco coerente com o apelo à verdade tão recorrente ao longo de seu discurso de defesa e, principalmente, com as muitas demonstrações de ter, de fato, usado argumentos que lhe comprometiam, como por exemplo, a intenção de refutar o
265 REEVE, 1989, p.154.
oráculo e a exposição de sua polüpragmosúne. Passemos, então, à segunda hipótese: não há paradoxo, Sócrates não se contradiz. Se estes que virão são os que ele até então continha (katei~xon), significa que ele os conhece, sabe de quem fala e, dentre estes, não há nenhum como ele. Apesar de serem mais jovens, mais difíceis e mais irritantes, portanto cada qual um excelente miopós, ainda assim não seriam o que Sócrates era para a cidade: dósin, dádiva do deus à pólis. Naquela ocasião, dizia então Sócrates aos juízes: “não falheis em relação à dádiva do deus à vós, condenando-me. Pois, se me matardes, não achareis outro tal como eu ...
consagrado à cidade pelo deus” (30e). Ora, esta nos parece a hipótese mais plausível, pois é coerente com o comissionamento divino do Sócrates platônico. Em suma, não haveria aporía porque não haveria outro como ele, viriam outros que dariam continuidade ao seu prâgma, mas ainda que terríveis, não seriam como ele. Arrogância, presunção, ou piedade? No Sócrates platônico da Apologia os três atributos andam sempre juntos. Em suma, acate-se uma ou outra hipótese, o fato é que a morte de Sócrates seria um estopim, o elemento deflagrador de uma série de indivíduos congêneres em relação ao élenkhos socrático.
Mas, chegamos assim, ao segundo paradoxo. Como interpretar esta passagem no contexto de um discurso no qual o Sócrates platônico reitera que nunca teve discípulos e que nunca ensinou nada a ninguém? Se ele não ensinava, de onde viriam, então, estes que examinariam assim como ele? Para Nunes, “estas são palavras mais de poesia do que de verdade, que dificilmente Sócrates poderia ter pronunciado, pois em toda sua defesa não se cansa de afirmar que nunca tivera discípulos nem ensinara coisa alguma”266; seriam, portanto, palavras de um Platão entusiasta e que iniciava sua Academia. Certamente. Obviamente nossas hipóteses tentam responder ao aparente paradoxo na economia da Apologia. Se acolhermos a hipótese, muito provável, de que este terceiro discurso seja totalmente fictício, a resposta é simples: como Platão teria escrito a Apologia alguns anos após a morte de Sócrates, conhecia, a começar por si mesmo, aqueles que dariam continuidade à filosofia socrática.
Nesta perspectiva, não foi Sócrates que predisse o futuro, mas Platão que anunciou seu presente. Em última instância, isto é, no que diz respeito à palavra escrita, são todas palavras de Platão. Mas, como compreender estas palavras de Platão? Por que ele se esforça tanto para justificar que Sócrates não é mestre, nem tem discípulos e agora anuncia a continuidade do prâgma socrático? Como entender este paradoxo?
Parece-nos que também este é apenas um aparente paradoxo. Basta nos lembramos que Sócrates deixa claro que os jovens mais ociosos e mais ricos, por si mesmos ou seja, por
266 NUNES, 1973, p.40.
vontade própria, regozijavam-se em ouví-lo examinar os homens e frequentemente o imitavam, pondo-se a examinar outros (23c). Devemos nos lembrar, também, que Sócrates deixa claro que nunca recusou ninguém, seja jovem, seja velho, que desejasse lhe ouvir e lhe observar enquanto examinava (33a). Portanto, como já dissemos anteriormente: do ponto de vista dos investigados, Sócrates era sim um mestre e tinha discípulos; ainda que, de seu próprio ponto de vista, não fosse mestre e tivesse apenas ouvintes. Estes já o imitavam, o que aliás ele alega ter aumentado o ódio contra ele (23c). Por que agora afirma que até então os continha, não sabemos. Talvez para não agravar ainda mais sua situação. Se os continha ou não, o fato é que agora não mais os poderia conter. Portanto, aqueles que o condenaram teriam se equivocado completamente ao supor que sua morte poria fim àquela ocupação que tanto os injuriava. E continuariam a se equivocar caso procedessem do mesmo modo com estes novos tipos de Sócrates que surgiriam, posto que, sendo tantos, não poderiam matar a todos e apenas criariam mártüres do élenkhos socrático.
O Sócrates da Apologia tem plena consciência disto e não se furta a lhes mostrar o absurdo lógico e moral em que incorreriam em tal empreitada. "Com efeito, se supondes que, matando homens, impedireis alguém de vos repreender porque não viveis retamente, não pensais bem; pois esta saída não é nem copletamente possível, nem bela (39d: Ei0 ga_r oi2esqe a0poktei/nontev a0nqrw/pouv e0pisxh/sein o0neidi/zein tina_ u9mi~n o3ti ou0k o0rqw~v zh~te, ou0 kalw~v dianoei~sqe: ou0 ga_r e0sq 0au3th h9 a0pallagh_ ou1te pa/nu dunath_ ou1te kalh/)”. E conclui seu discurso aos que votaram contra ele, aconselhando-os a buscar uma saída que é
“tanto mais bela, quanto mais fácil (39d: e0kei/nh kai_ kalli/sth kai_ r9a/|sth)”, a saber: ao invés de “suprimir os outros (39d: tou_v a1llouv kolou/ein)”, “preparar-se a si mesmo de modo que seja o melhor possível (39d: e9auto_n paraskeua/zein o3pwv e1stai w9v be/ltistov)”. Afinal, assim não mais temeriam ter de dar respostas sobre suas vidas, motivo pelo qual teriam condenado Sócrates à morte. Mas basta de palavras aos que o condenaram. Dirigir-se-á, então, aos que votaram a seu favor.
2 AOS JUÍZES QUE VOTARAM POR SUA ABSOLVIÇÃO
O Sócrates de Platão se dirige então, de bom grado (h9de/wv), aos que votaram a seu favor (a0poyhfi/zomai) no intuito de discorrer sobre o resultado deste processo (39e:
dialexqei/hn u9pe_r tou~ gegono/tov toutoui6 pra/gmatov), isto é, sobre sua condenação à morte. Então, Sócrates pede aos juízes, ou Platão pede aos leitores: “permanecei comigo neste momento (39e: moi...paramei/nate tosou~ton xro/non)”. Medrano, com grande sensibilidade,
interpreta este imperativo, parameínate moi, “este 'ficai comigo' ante às portas da morte”267, como um reflexo da filosofia como thanátou meléte, isto é, do cuidado da morte, da atenção do filósofo ao exercício de morrer, tal como aparece no Fédon (81a). Permaneçamos, então, também nós, com Sócrates; aprendamos, com ele, a morrer.