A globalização econômica, por certo, não é fato episódico ou fugaz, o que torna mais preocupantes suas conseqüências negativas. Apesar do otimismo, enxergando-se superações de desigualdades mundiais, a exemplo da divisão entre primeiro mundo e terceiro mundo, ou a realização de um sistema racional que leve ao bem-estar de todas as regiões do globo, determinado pelos interesses dos habitantes, até agora, o que se vê é o crescimento da concentração de poder empresarial, em escala planetária impressionante, no qual os valores hegemônicos são ditados pelos interesses das grandes empresas, com força econômica superior ao da maioria dos países. A repercussão no campo jurídico é aguda, revelando perplexidades e dificuldades ainda não totalmente apreensíveis, pois está em jogo o próprio Estado nacional e o direito que se desenvolveu em seu seio, nos últimos séculos. Todavia, a globalização econômica não está vindo amparada pela globalização política, revelando a inexistência de ordem jurídica internacional suficientemente forte para contê-la em limites razoáveis.
ou nenhuma manifestação física. Esses novos elementos da economia, as tecnologias de informação e comunicação; a propriedade intelectual (não apenas patentes e direitos autorais, mas também marcas, capacidades de oferta de serviços de consultoria conforme o cliente etc.); bibliotecas e bases de dados eletrônicos (incluindo novas mídias, vídeos de entretenimento etc.) e biotecnologia (bibliotecas e bases de dados, produtos farmacêuticos), caracterizam uma nova propriedade que corresponde a sistemas de gestão e manipulação de conhecimentos e equivale a produtos cujas propriedades físicas (intangíveis) são similares às do próprio conhecimento.
A globalização é o ápice visível, neste tempo histórico, do desenvolvimento capitalista e de sua irracionalidade.
Irracional porque projeta um deslocamento crescente dos valores mercantis face aos fundamentos econômicos, registra uma sociabilidade cada vez mais problemática, e transforma as noções articuladas de território-patrimônio e Estado-Nação.328
Assim, o Estado nacional, como forma suprema da institucionalidade, é constantemente superado pela velocidade das transformações. A propriedade assume características transnacionais não sendo possível definir seus contornos e nem tão pouco seus limites.
Observa-se uma rede de mercado mundial em produtos, tecnologia, dinheiro e finanças, coexistindo com uma globalização dos negócios, da qual são obrigadas a participar até empresas pequenas, sob pena de serem eliminadas pela concorrência.
Isto implica em uma redefinição da territorialidade econômica a partir dos interesses mundiais. Aqui, o território nacional é suprimido, a não ser que de interesse global, pois a empresa globaliza-se e suprime seus
328 BRAGA, José Carlos de Souza. Economia e Fetiche da Globalização Capitalista.
Disponível em www.eco.unicamp.br/artigos/artigo60.htm. Acesso em 02/10/2006.
vínculos nacionais. Na economia do país, de maneira geral, diminui as empresas de propriedade nacional e neste sentido, desnacionaliza o patrimônio.329
Portanto, neste sentido, o surgimento de outra territorialidade econômica em que o espaço e o mercado nacionais estão subordinados ao espaço e mercado globais é resultado da concorrência intercapitalista, liberta de entraves regulatórios. As grandes empresas líderes deste processo são multifuncionais, multisetoriais e multinacionais. Isto é, ocupam-se ao mesmo tempo das funções produtivas, comerciais e financeiras; alocam seus investimentos em diferentes produtos, confeccionados desde o bem de consumo descartável até o bem de capital mais sofisticado; atuam em diferentes mercados nacionais utilizando-os, porém, segundo sua estratégia para o mercado global. Com a globalização, agora sim, é para valer: o capital não tem pátria.330
Nota-se assim uma interdependência patrimonial, ou seja, uma interdependência na propriedade dos países mais ricos, sendo que seus bens, tanto públicos como privados, talvez ocorrendo até uma superação dos termos, estruturam uma riqueza transnacional.
Oportuno salientar as considerações de Cruz331, para quem “quando se fala em integração supranacional está se falando de algo muito além de mera cooperação”. E ainda, “a globalização econômica já começou a produzir sérios estragos em comunidades menos consistentes”.
329BRAGA, José Carlos de Souza. Economia e Fetiche da Globalização Capitalista.
2006.
330 BRAGA, José Carlos de Souza. Economia e Fetiche da Globalização Capitalista.
2006.
Bastaram as reações de sociedades alijadas do processo de mundialização do capitalismo para que uma grave crise estrutural e conjuntural se instalasse. Há prenúncios de crises de crescimento, de energia, de degradação ambiental, por mais paradoxal que possa parecer, econômica.332
O que se observa, diante do acelerado processo de internacionalização da economia, é certa dificuldade de reconhecer indivíduos. Mesmo acontece com a propriedade que passa a ser impessoal, ou seja, não chega-se ao verdadeiro proprietário, pois este pode estar do outro lado do mundo ou ser uma ficção jurídica.
O mundo assiste a processos integradores das bases de produção em nível internacional, sem precedentes na história.
Consideram-se como a continuidade de um processo histórico de tendência secular em que impérios, desde a Antigüidade, expandem-se criando sistemas extrafronteiras, "porções do planeta" que formam um todo econômico.333
No entanto, diferentemente das antigas formas de imperialismo, em que nações ou impérios tinham domínio localizado sobre suas colônias, obtido em geral através do poderio econômico e militar, vemos a disseminação de um poder transnacional que praticamente independe da organização política na forma de nações e Estados, ainda predominante: o poder do capital financeiro e produtivo, desnacionalizado, ditando as regras e os modelos de organização e administração para grande parte das nações do
331 CRUZ, Paulo Márcio. Soberania, Estado, Globalização e Crise. 2004. p. 64.
332CRUZ, Paulo Márcio. Soberania, Estado, Globalização e Crise. 2004. p. 67.
333 IANNI, Octavio. Teorias da globalização. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995.
p. 57
mundo.334
As grandes transformações que caracterizam a representação do mundo atual como processo de globalização são resultado do predomínio do capital financeiro sobre o produtivo: "[...]
trata-se da irrefreável inundação da economia por um capitalismo financeiro que aufere mais lucros na movimentação de capitais do que no investimento produtivo [...] hoje mais de US$ 1 trilhão muda de mãos todos os dias, sem que tais movimentos correspondam em sua essência ao comércio de bens e serviços"335.
Uma forma de se entender o que está se passando é focalizarmos o movimento de deslocalização da produção. A competição internacional faz com que as grandes empresas tenham interesse em diminuir o custo de seus produtos. A flexibilidade das tecnologias lhes permite descentralizar a produção e acelerar a produtividade. Diante da concorrência global, as grandes firmas fragmentam o processo de produção, fabricando, em lugares distantes, as peças que serão montadas posteriormente, isto implica um conjunto de transformações.336
Assim é que Ianni337 identifica por metáfora da globalização: a aldeia global e sugere a idéia de que o mundo transformou-se em uma só comunidade.
E, sendo a propriedade “[...] a província do direito privado mais sensível às influências de evolução social”338não ficou à
334 IANNI, Octavio. Teorias da globalização. 1995. p. 59
335 TOURAINE, Alain. A desforra do mundo político. Folha de S. Paulo. Caderno Mais,16/6/1996, p. 5.
336 ORTIZ, Renato. Mundialização e cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 27
337 IANNI, Octavio. Teorias da globalização. 1995. p. 16
338 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de direito civil – direitos reais. 2004. p. 8
margem de tais transformações.
Percebe-se novas reflexões acerca da propriedade, com um foco bem mais amplo, para além dos personagens codificados tradicionais. Sendo ela, juntamente com o contrato o mecanismo do mercado.339
Grosso modo, penso que as sociedades complexas contemporâneas se integram até certo ponto, através de três veículos ou mecanismos. O ‘dinheiro’ enquanto veículo está, por assim dizer, institucionalizado no mercado; o poder enquanto veículo está institucionalizado nas organizações; e a ‘solidariedade’ é gerada pelas normas, pelos valores e pela comunicação.340
Percebidas as sociedades complexas contemporâneas, formando uma comunidade global, refletidas na nova visão de propriedade transnacional, fica obstaculizada a determinação de limites quer sejam de natureza externa, como o os decorrentes dos direitos de vizinhança e regulamentos administrativos, ou de natureza interna.
Sem questionar que a função social resulta em medida de exercício da propriedade privada, não se podendo afirmar que esta é absoluta, o foco transnacional da mesma, dificulta estabelecer seus limites e contornos.
Paradoxal, pois enquanto pacífico o caráter social da propriedade, quer privada ou pública, essa nova modalidade, transnacional, fica além de qualquer regulamentação. Assim é que
339 HABERMAS, Jürgen. A ética da discussão e a questão da verdade. 1ª ed. São Paulo:Martins Fontes, 2004. p. 38-40
340 HABERMAS, Jürgen. A ética da discussão e a questão da verdade. 2004. p. 38-40
A construção, fundamental para a compreensão das inúmeras modalidades contemporâneas de propriedade, serve de moldura para uma posterior elaboração doutrinária, que entrevê na propriedade não mais uma situação de poder, por si só e abstratamente considerada, o direito subjetivo por excelência, mas uma situação jurídica subjetiva típica e complexa, necessariamente em conflito e coligada com outras, que encontra sua legitimidade na concreta relação jurídica na qual se insere. Cuida-se de tese que altera, radicalmente, o entendimento tradicional que identifica na propriedade uma relação entre sujeito e objeto, característica típica da noção do direito real absoluto, expressão do máximo senhorio sobre a coisa – formulação incompatível com a idéia de relação intersubjetiva.341
A partir dessas considerações, em que a relação entre sujeito e objeto se altera, podem ser observados exemplos como os atuais créditos de carbono livre.
Quanto aos créditos de carbono, este mercado tem sua origem no chamado Protocolo de Quioto – documento firmado em 11 de dezembro de 1997, naquela cidade japonesa. O tratado estabelece que os países industrializados reduzam, entre 2008 e 2012, as emissões de gases que provocam o efeito estufa (CO2 ou gás carbônico, metano e outros) em pelo menos 5,2% abaixo dos níveis registrados em 1990. Esta redução equivale a aproximadamente 700 milhões de toneladas de gases por ano. Reduzir emissões de gases significa, principalmente, a contenção do crescimento industrial, o que pode gerar retração das diferentes economias dos países
341 TEPEDINO, Gustavo. Contornos constitucionais da propriedade privada.1997, p.346.
desenvolvidos.342
Este instrumento, previsto no Protocolo de Quioto, estabelece que os países desenvolvidos, caso não consigam ou não desejem cumprir suas metas de redução de emissão de gases, podem comprar dos demais países títulos conhecidos como créditos de carbono.
Entretanto, este mecanismo poderá acabar se transformando em uma licença para poluir. Ou seja: os países ricos, que têm dinheiro, vão ao mercado comprar esses créditos e, em conseqüência, sentem-se desobrigados a despoluir.
A poluição não tem fronteira, o gás emitido em um continente afeta toda a terra, o limite externo da propriedade, representado aqui pelo direito de vizinhança, fica visivelmente distorcido, desconsiderado. O vizinho quem é? A que distância está da indústria poluidora?
Considere-se também que a compensação fica difícil de ser mensurada. A indústria poluidora, ou país desenvolvido, que não pode limitar seus lucros em razão de não poluir, compra, é proprietário de créditos de carbono livre. O CO2 é o gás poluidor, principal responsável pelos danos à camada de ozônio e aquecimento da terra. Os créditos permitem aos países lançarem tal gás na atmosfera, pois em países longínquos têm esses créditos. Como estabelecer a titularidade sobre esse bem?
E ainda, e os países poluidores que não assinarem ao Tratado de Quioto, assim manifestando o desinteresse em tais créditos?
342 BRAZIL, Carlos. Efeito Estufa + Protocolo de Quioto = Mercado de Carbono. Disponível em www.analisefinanceira.com.br/artigos/efeitoestufa-nmc.htm. Acesso em 03/10/2006.
São Paulo - Representantes de movimentos sociais, sindicalistas e ambientalistas manifestaram-se diante do Consulado Geral dos Estados Unidos, comemorando a entrada em vigor do Tratado de Quioto e protestando porque esse país não aderiu ao acordo. Eles entregaram uma carta endereçada ao presidente George W. Bush. E de um carro de som simulando a arca de Noé, manifestantes do Greenpeace arremessaram uma bóia com a inscrição Kyoto Protocol, que um ator, representando Bush, se recusava a pegar.
O protocolo de Quioto nasceu da Convenção Sobre as Mudanças Climáticas, assinada durante a Eco-92, reunião realizada no Rio de Janeiro. A meta é diminuir as emissões dos gases responsáveis pelo efeito estufa.
Segundo Rubens Born, diretor do Instituto para o Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz Vitae Civilis, que organizou a manifestação, as entidades lamentam a ausência dos Estados Unidos no protocolo, porque o país é responsável por 25% da emissão dos gases. "Queremos lembrar que tanto os países ricos quanto aqueles em desenvolvimento têm que começar a proteger o clima da Terra, implementando programas de energia renovável, diminuindo o desmatamento. Ou seja, há responsabilidades."
Para os ambientalistas o Protocolo de Quioto é o primeiro e modesto passo com o objetivo de reverter os prejuízos climáticos, mas é a única medida existente e já conseguiu reunir 140 nações. A meta global para a redução dos gases é de 5%, embora os cientistas, segundo Born, recomendem corte de 60%. "Essa meta estabelecida já está comprometida pela recusa dos Estados Unidos em aderir ao protocolo. Isto é imoral e injusto com os outros países que terão que adaptar sua economia e sistema de transporte, entre outros. Os
Estados Unidos se beneficiarão sem fazer nada", afirmou Born.343
Percebe-se que são mais questionamentos que considerações, dada a atualidade do tema e pouca discussão.
Outro exemplo interessante em relação aos limites externos da propriedade transnacional é a problemática do lixo, especificamente, os pneus usados344.
A União Européia aprovou a legislação (Landfill Directive - 1993/31/EC) que proíbe o estoque e o descarte de pneus usados em aterros após julho de 2006, mais de 80 milhões de pneus que eram jogados por ano em aterros carecem agora de nova destinação.
Está claro que a União Européia considera a exportação de pneus reformados uma solução para evitar o descarte e tratamento dentro de tal lixo em suas fronteiras, resolvendo o problema.
Assim, concomitantemente, estão em tramitação no Brasil dois Projetos de Lei, Plenário do Senado N.º 216 de 2003 e Projeto de Lei da Câmara do Deputados N.º 203 de 1991, para liberar e regularizar a importação de pneus usados da União Européia.345 Apesar de o Brasil, como vizinho indiferente, permitirá ser o quintal para jogar o lixo.
Visível perigo, pois a destinação de pneus usados representa um sério perigo à saúde pública, já que quando estocados, oferecem condições perfeitas para a reprodução do mosquito que transmite a dengue, além de significar riscos de disseminação da febre
343 Disponível em www.radiobras.gov.br/materia=216230_i_2004.php. Acesso em 02/10/2006.
344 Disponível em www.justicaambiental.org.br/_justicaambiental.php?id=1062. Acesso em 02/10/06.
345 Disponível em www.justicaambiental.org.br/_justicaambiental.php?id=1062. Acesso em 02/10/06.
amarela, malária e outros problemas relacionados. A incineração, outra forma de destinação, aumenta os riscos à saúde ao contribuir para o desenvolvimento de doenças como o câncer, lesões cerebrais, anemia, disfunções endócrinas, asma e diabetes.
Ongs ambientalistas e movimentos sociais se mobilizaram contra a importação de pneus no dia 4 de setembro em frente ao congresso nacional. Representantes do Fórum Brasileiro de ONG's e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS) e a Rede Brasileira pela Integração dos Povos (REBRIP), junto com o apoio de várias outras entidades e movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) se mobilizaram ontem, dia 4 de setembro, em frente ao congresso nacional em Brasília. Ao mesmo tempo, em Genebra na Suíça, representantes do governo brasileiro se reuniam na OMC com representantes da União Européia para tratarem do problema. A UE acusa o Brasil de não respeitar os acordos de livre comércio e o Brasil coloca a problemática ambiental que os pneus usados (resíduos muito perigosos ao equilíbrio ambiental) podem causar ao país.O que é lixo para a UE pode ser matéria prima para o Brasil? Seria essa a divisão internacional do trabalho e da produção?346
A globalização atinge também o destino de lixo corriqueiro, como embalagens. Apesar dos países ricos difundirem pensamentos ecológicos o lixo deles pára nas praias da costa brasileira347.
O começo foi juntar as embalagens vazias que
346 Disponível em www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/09/359663.schtml. Acesso em 02/10/06.
347 Disponível em www.globalgarbage.org/t_boc_170505.php. Acesso em 02/10/06.
encontrava nas praias da Bahia, catalogando, fotografando e registrando a origem. Assim, um surfista, em 2001, transformou seu projeto numa ONG.
O lixo vem dos navios que navegam pela costa e despejam o material no oceano. Mergulhando nessa história de lixo de embarcações, o projeto para o qual se dedica chama-se “Programa de Identificação das Origens do Lixo Marinho da Costa dos Coqueiros”, que é a região que compreende todas as praias da chamada Linha Verde.
Novamente as questões são levantadas ainda sem ter uma resposta adequada. O problema é mais significativo do que simplesmente ser considerado, ou de fato ser, o lixeiro do mundo. Tais situações abrem precedentes para atitudes futuras e demonstram que a questão é transnacional. O limite externo da propriedade, inegável, está confuso.
Por finalizar o rol de exemplos, cita-se a ingerência de países, aparentemente alheios, em questões de limitações de terras nacionais.
Fazendo um viés com o capítulo I do presente trabalho, situa-se a realidade da Palestina, com as constantes guerras entre israelenses e árabes e a intromissão dos Estados Unidos da América.
Usando de princípios hermenêuticos para a interpretação da bíblia, chega-se ao fato de o Israel verotestamentário não ter mais nenhuma relação com o atual estado de Israel. A promessa bíblica a Israel encontra o tipo em Jesus Cristo. “A visão profética da História nunca foi dirigida a eventos seculares de natureza
política desvinculados do Messias e Seu povo”348.
Interpretar as mensagens proféticas como meras predições de eventos sociais e políticos em curso no Oriente Médio transformaria o Deus de Israel em um adivinho. Ele nunca está interessado em tentear convencer o homem de Sua existência divina e de Sua veracidade por uma mera exibição de conhecimento prévio isolado de Seu plano. De Gênesis ao Apocalipse o foco de todas as profecias é essencialmente sobre o eterno propósito de Deus para reconciliação do Céu e da Terra através de Cristo Jesus.349
Promessas concernentes a Israel como um povo, relacionadas à dinastia, à terra, à cidade e aos montes não são auto-abrangentes, isoladas por causa de Israel, mas são partes integrantes do plano de Deus para o mundo e a raça humana.350
Nenhum dos dois lados, nem israelenses nem árabes, tem condições de vencer o conflito em condições definitivas. Em primeiro lugar porque Israel ocupa um importante lugar na estratégia norte-americana para o Oriente Médio. Região que, no seu subsolo, concentra mais de 60% das reservas de petróleo conhecidas e que está ameaçada por conturbações políticas e religiosas intermitentes, tornando o Estado Judeu o único aliado realmente estável e confiável em toda aquela área vital. Isto faz com que os Estados Unidos, com inimagináveis recursos atômicos, subsidiem Israel com auxílios econômicos e militares impressionantes. Os árabes, apesar de mal
348 LARONDELLE, Hans K.. O Israel de Deus na Profecia – Princípios de Interpretação Profética. 2003. p.2.
349 LARONDELLE, Hans K.. O Israel de Deus na Profecia – Princípios de Interpretação Profética. 2003. p.2.
350 LARONDELLE, Hans K.. O Israel de Deus na Profecia – Princípios de Interpretação Profética. 2003. p.21.
conseguirem manter o governo da Autoridade Nacional Palestina, instituição criada a partir dos acordos de Oslo de 1993, potencialmente contam com o apoio de mais de cem milhões de muçulmanos seus vizinhos e com os recursos econômicos, ainda que contidos, dos principais produtores de petróleo da área. Tudo depende, pois, do arrefecimento do ódio desencadeado entre os dois povos nesses anos todos de enfrentamentos sangrentos que conspurcam a Terra Santa, e do reconhecimento de que a antiga Palestina deve abrigar dois estados, como determinou a ONU em 1947.
O Oriente Médio permanece uma das áreas mais instáveis do mundo, devido a uma série de motivos que vão desde a contestação das fronteiras traçadas pelo colonialismo franco-britânico, até mais recentemente, a proclamação do Estado de Israel na Palestina em 1948.351
Parece inconteste que as intenções dos países desenvolvidos, principalmente Estados Unidos, nas freqüentes guerras e conflitos no Oriente Médio seja a grande presença do que é considerado uma fonte de energia não renovável, de origem fóssil – petróleo. Hoje o principal combustível e matéria prima da indústria petrolífera e petroquímica, que move as produções, riquezas mundiais.
Se percebermos a globalização como um conjunto de políticas que traduzem a iniciativa de uma potência dominante que se propõe exercer um papel hegemônico em relação a seus parceiros e competidores, não há como evitar a conclusão de que o seu avanço vem implicando em uma perda relativa de autonomia da maioria dos estados nacionais, inclusive com conseqüências sobre a propriedade, quer pública ou privada.
No entanto, relacionar esse fenômeno com um
351 Sobre as intenções na criação do Estado Israelense na Palestina ler Apêndice II.
suposto ocaso do Estado-Nação, enquanto tal, exigiria um estudo mais aprofundado. Toda a lógica do movimento de globalização tem, desde a sua origem, um caráter de concorrência predatória e de especulação patrimonialista, que só pode ser contida e regulada por novas formas de renovação e reforço dos mecanismos de intervenção dos Estados Nacionais.
É precisamente de acordo com as possibilidades distintas de inserção externa não subordinada e capacidades política, econômica e social, peculiares a cada país, que os estados nacionais podem tentar, com maior ou menor sucesso, um novo tipo de intervenção pública que permita a restauração da economia e da seguridade social em defesa dos interesses de seus cidadãos.
É necessário repensar sobre uma ilusão a respeito da globalização. Trata-se da visão de que é um fenômeno universal, que a todos atinge por igual em qualquer área do planeta. Pensar assim é ignorar que o padrão de inserção internacional de um país se exerce a partir de estados concretos de dominação.
Globalização e homogeneização estão agora sendo implementados não por Estados-Nações, mas por forças globais que controlam mercados globais. O ‘livre comércio’ é a metáfora dominante para a globalização nos tempos atuais.
Desenvolvimento capitalista é o desenvolvimento realizado sob a base do grande capital e moldado pelos valores do livre funcionamento dos mercados, das virtudes de competição, do individualismo e do Estado mínimo.
A razão do pânico de alguns frente à globalização é a de que, quando apenas os governos comandavam os países, era previsível se perceber o mal e o bem. Agora que a parte multinacional de nossa vida econômica se