4.3 Postulados teóricos
4.3.3 A crítica ao “idealismo de esquerda”
4.3.3.1 A realidade do crime (estatística e ontologicamente)
Como ponto de partida, contestava-se que a sensação de insegurança que dava suporte à política criminal neoliberal crescentemente punitiva era fundamentalmente ilusória por resultar, em boa medida, de uma manipulação de agências midiáticas e governamentais em aliança. Para os realistas, embora não se pudesse desconsiderar a operatividade de uma campanha de “orquestração do pânico” (MATTHEWS, 1987, p. 372), havia e há de fato uma escalada na recorrência de práticas criminosas, inclusive no que se refere à chamada
“criminalidade de rua” e violenta, que a esquerda deveria, numa expressão frequente entre os realistas, “levar a sério”.
Sobre esse tema, também já se buscou abordá-lo sob a categoria de “deslocamento ideológico”, para evidenciar que a ideologia não é pura ilusão introjetada na cabeça das pessoas, mas depende de suas necessidades e desejos reais. Ilustrativamente, toma-se a hipótese da difusão de uma certa concepção da máfia como onipotentemente poderosa, que se infiltra nas relações sociais mais triviais da vida cotidiana e em todas as regiões do país: por mais que a máfia exista, atue organizadamente e constitua, realmente, um prejuízo aos interesses dos trabalhadores, é certo que tais prejuízos são muito menores que os decorrentes
47 A terminologia “realismo de esquerda” como contraposição – interna ao campo crítico – ao “realismo de direita” parece ser mais recorrente, e é empregada por exemplo em YOUNG; LEA, 2001. Já as expressões “novo realismo”, “realismo radical” e “idealismo radical” aparecem, ao lado das duas mais frequentes acima citadas, em MATTHEWS, 1987. Nesse sentido, não nos parece inteiramente adequada a opção pela expressão
“neorrealistas” em SHECAIRA, 2012, p. 293, por diferir dos termos usualmente utilizados pelos autores envolvidos no debate em questão.
das atividades legais e ilegais das corporações. Isso ocorreu também na Alemanha nazista com os judeus – inclusive, e isso é importante lição para os socialistas, à luz do dito “nazismo de esquerda” (strasserismo), hostil aos judeus não por questões (diretamente) raciais, mas por conta de um discurso anticapitalista. Em suma, “é como se a realidade da dominação burguesa fosse assumida e projetada, como uma imagem social, sobre um grupo convenientemente caricaturado e alienígena” (YOUNG, 1980, p. 99).
A real tendência de escalada da criminalidade é razoavelmente capturada pelas estatísticas oficiais, muito embora suas insuficiências, inclusive para fins de aferir aquilo que elas não registram, devam ser contornadas por pesquisas de natureza diversa (MATTHEWS, 1987, p. 372; YOUNG, 1980, pp. 86–87). E essa investigação mais ampla revela, por exemplo, algo caro ao espectro progressista: que os grupos oprimidos – como negros, mulheres e trabalhadores – são efetivamente vitimizados de modo desproporcional, em grande parte por formas de violência pessoal intraclasse, muitas vezes subnotificadas por uma justificada desconfiança com relação às autoridades policiais (TAYLOR, 1981, p. 20 e 150- 151; YOUNG; LEA, 2001, p. 69)48. Portanto, se a criminalidade é real, o medo vivenciado cotidianamente por amplas parcelas da população também é real, e a produção criminológica não pode ignorá-lo, sob pena de incorrer num equívoco não só teórico, pois negligenciará uma dimensão da realidade, mas também prático, como abaixo demonstraremos.
Mas o crime não é somente uma realidade estatística relevante. Contra uma posição até hoje arraigada na criminologia crítica em geral, defendem os realistas que o crime também é uma entidade dotado de substrato ontológico. Nesse ponto, é oferecida uma resistência tanto aos teóricos do etiquetamento, para os quais o crime se reduz a uma reação social bem- sucedida, quanto aos abolicionistas, que afirmam que o crime é essencialmente uma forma particular de tratamento de conflitos confiscados por uma autoridade superior como resultado de uma tal definição por ela atribuída a tais conflitos, e que a saída é, portanto, acostumarmo- nos a tratá-los não como tal, mas como, por exemplo, “situações problemáticas”.
Eventualmente denomina-se de “nominalismo radical” essa posição que, segundo se afirma, crime é quase que apenas um predicado linguístico atribuído de modo mais ou menos arbitrário a determinados conflitos (MATTHEWS, 1987, p. 373 e 395).
Quanto à defesa da realidade ontológica do crime face à abordagem do labelling, pode-se afirmar em acréscimo ao já exposto no item 4.3.2 que os realistas compreendem nem
48 Em SINGELNSTEIN; KUNZ, 2021, pp. 296–297, essa consideração de que os grupos subalternos são desproporcionalmente vitimizados é colocada como fundamento do qual se desdobram as outras posições típicas do realismo de esquerda.
só como ato (ou seja, uma ação que tem caráter delitivo metafisicamente definido) nem só como biografia (i. e., uma narrativa determinada pelo processo de rotulação): é “uma relação de ação e reação continuamente modificada através de uma rede complexa de processos sociais e históricos” (MATTHEWS, 1987, p. 373 - tradução livre). Em várias publicações, além da ação (por parte do ofensor) e da reação (por parte do Estado), são apresentadas duas outras dimensões do complexo fenômeno criminal que completam sua realidade: a posição da vítima e da opinião pública (ou da comunidade). Essas quatro facetas, que se inter-relacionam e variam no tempo e de acordo com o delito concreto, compõem o conhecido conceito de
“quadrado do crime”, conforme diagrama contido em YOUNG; LEA, 2001, p. 9 (traduzimos, como em todas as demais citações de passagens dessa obra):
a polícia
organismos estatais o delinquente o controle social o ato criminoso a sociedade a vítima
O crime, portanto, não é produto exclusivo dos processos formais de controle, mas tem uma objetividade própria que vai além desses processos representativos de somente um dos vértices do fenômeno. É evidente que, em geral, ele coincide com situações de conflitos que não podem ser tratadas no quadro de relações sociais “normais” (MATTHEWS, 1987, p.
372), mas também não se pode ignorar que “situações problemáticas” e “crimes” são conceitos independentes, embora relacionados. John Lea (LEA, 1987, pp. 361–362) propõe quatro possibilidades, cujas fronteiras se movem constantemente, para visualizarmos essa relação: há situações problemáticas criminalizadas (casos de violência interpessoal, por exemplo) e não criminalizadas (várias formas de violência sexual e estatal, atividades de grandes corporações etc.); e há situações não problemáticas criminalizadas (lutas populares por direitos, determinadas condutas sexuais inofensivas ou uso de drogas) e não criminalizadas (diversas condutas que não são tidas por conflitivas nem criminalizadas formalmente).
Há, então, uma distinção entre situações problemáticas e crimes pois, para que aquelas se transformem nestes, elas devem preencher várias condições, entre elas a existência de um sistema normativo, atores (normalmente vítimas) que reportem o ato às autoridades,
algum grau de censurabilidade da conduta difundido pela sociedade (de maneira mais ou menos manipulada) etc. É preciso atentar para que as construções sociais são ubíquas - racismo, casamento, governos etc. -, mas não é por serem construções sociais que essas instituições e práticas não existem (embora o grau de construção social no processo de constituição de cada uma seja variável). Entendê-las como puros produtos de referências linguísticas implicaria reconhecer a possibilidade dissolver processos e instituições por meios discursivos e por uma boa-vontade coletiva, o que não se pode aceitar. Portanto, o realismo crítico sustenta que conceitos como "crime" (ou "classe" p. ex.) têm materialidade e objetividade. São (ao menos em parte) objetos reais, que existem independentemente da subjetividade do pesquisador. Não são meros constructos que podem ser desconstruídos conceitual e subjetivamente (MATTHEWS, 2014, pp. 35–38).
Além disso que pode ser caracterizado como uma perspectiva utópica – no sentido de irrealizável – decorrente da negação do caráter ontológico do crime, há outra consequência também tida pelos realistas como inadequada de uma perspectiva emancipadora: a proposta de dispensar o tratamento de conflitos como crimes em favor de uma “comunitarização”
redundaria num modelo de sociedade extremamente repressivo, evocando formações primitivas em que o controle se dava na forma daquilo que Durkheim capturara com o conceito de “solidariedade mecânica”, ou seja, com base em códigos religiosos ou culturais (LEA, 1987, pp. 361–362).