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A reforma do Estado brasileiro e o Estado de Bem-Estar Misto

No documento Contribuições Estatais (páginas 31-45)

O desmonte dos direitos sociais, a mudança do sistema econômico fordista para o modelo flexível, caracteriza o surgimento de um novo Estado, contextualizado no sistema neoliberal, denominado também de Estado de bem-estar pluralista ou Welfare Mix (PEREIRA, 1999), tendo em vista que o Estado se torna mínimo e o mercado (o empresariado) e a sociedade civil (que nessa perspectiva é igualada ao conceito do chamado terceiro setor), passam a ser “parceiros” do Estado no enfrentamento da questão social.

(...) emerge um novo padrão de proteção social denominado de pluralismo de bem- estar ou bem-estar misto, no qual as novas iniciativas privadas, mercantis e não- mercantis, desobrigam o Estado da provisão social e da garantia dos direitos de cidadania social. Trata-se de instituir um pluralismo residual, que funciona à margem do direito e da segurança social, por dispensar a decisiva participação do Estado na provisão na regulação da política social. (PEREIRA, 1999, p. 57).

Segundo Pereira (1994), visto o enfraquecimento do Welfare State nos países de política social-democrata, emerge o chamado Welfare Pluralism ou estado de bem estar pluralista (JUDCE apud PEREIRA, 1987, p. 20). Tal postura está calcada

“(...) na ênfase no papel do Estado como provedor que deve ceder lugar ao seu papel de planejador, capacitador e, quando necessário, de financiador do bem-estar”

(PEREIRA,1994, p. 20).

Surge então, na verdade, um novo modelo de Estado para dar conta da nova resposta do capital ao agravamento da questão social a partir da crise da década de 1970 e que se vai consolidar no final do século XX: o chamado Estado de bem-estar pluralista ou Welfare Mix.

Cabe, então, ao Estado se comprometer com os que estão comprovadamente em situação de extrema carência ou indigência, aos quais restarão os piores atendimentos, ou seja, o Estado torna-se mínimo para o social “(...) o neoliberalismo opõe-se radicalmente à universalidade, igualdade e gratuidade dos serviços sociais.”

(LAUREL, 1995).

Trata-se de um verdadeiro desmonte dos direitos sociais, num processo de reestruturação do capital que abalou as conquistas dos direitos sociais no século XX.

A novidade desta nova questão não foi tanto o crescimento do desemprego e o surgimento de novas formas de pobreza, mas o desmonte da cidadania social – uma das maiores conquistas democráticas – e o abalo da utopia de construção de uma sociedade livre de incertezas e desamparados sociais. São, efetivamente, os direitos sociais que se encontram, hoje, em questão, e, com eles, a gradativa perda de garantias (PEREIRA, 1999, p. 56).

Percebemos um eixo condutor, uma racionalidade central, que comanda todas as esferas da sociedade, tanto a política, a social como a cultural. Essa racionalidade, que é proveniente do modelo liberal, vem construindo, de acordo com Offe (1998), “uma nova ordem social”, já que tanto o Estado é reformado a partir da lógica empresarial (modelo gerencial, com a preocupação com a eficácia, eficiência e baixos custos e o enxugamento das políticas sociais públicas) como também a sociedade civil, que agrega novos atores, nas chamadas ONGs de segunda geração (QUIROGA, 2001, p. 55), por serem despolitizadas, fortemente induzidas e constituídas por valores empresariais; e, finalmente, as próprias relações sociais e a subjetividade dos indivíduos, em que o individualismo, a competitividade e a idéia da auto-gerência dos indivíduos/ trabalhadores que precisam ter inteligência emocional para se auto-sustentar e a “se virar” para sobreviver e serem “empregáveis”, são obrigados a serem empreendedores no mercado informal. Uma verdadeira ditadura ideológica e de caráter apologético do capitalismo atual15

De acordo com Castells (1999), o Estado passa a ser gestado em rede,16 como também a sociedade civil e o chamado terceiro setor, constituindo uma nova forma de gestão do social, neoliberal, na qual organizações não governamentais e empresas (que se tornam parceiros do Estado) também participam de forma descentralizada, flexibilizada, participativa e ainda com a contribuição de voluntários, de doações, etc., baseada numa forte ideologia de solidariedade. Esse novo modelo

15 Para ser empregável, o indivíduo além de precisar estar qualificado técnica e intelectualmente, ele precisa ter ou obter novas qualidades, dessa vez, emocionais, frente ao sistema totalmente inseguro que estamos

presenciando (o clima de risco), já que o Estado não assegura mais os direitos sociais. Essas qualidades são chamadas de habilidades atitudinais e englobam o saber trabalhar em grupo, o autodomínio, o

empreendedorismo, a criatividade e a flexibilidade, que resume a tão falada e exaltada “inteligência emocional”.

16 Pelo conceito de “rede” podemos compreender o conjunto de relações e interconexões entre instituições governamentais e não governamentais, agentes e serviços que possuem interesses em comum, tanto na produção de bens como na prestação de serviços, proporcionando vínculos horizontais e interdependência.

de gestão pública está articulado a essa nova esfera pública, na verdade seguindo a cartilha do Consenso de Washington (MONTAÑO, 2002, p. 16).

O desmanche da responsabilidade pública pelas políticas sociais está em curso a nível mundial e, desde a década de 80, pelo que foi chamado de “crise fiscal do Estado e/ou “o fim do Estado do bem-estar social”. Sabemos, porém, que tais análises fazem parte das argumentações em defesa do neoliberalismo e da sua proposta de manter o Estado mínimo, isto é, um Estado com baixa responsabilidade social e, portanto, com alta redução do custeio dos serviços sociais. O Banco Mundial, através do Consenso de Washington, em sua proposta de ajuste para os países com dívida externa, reforça esse desmanche, o que termina por reduzir os direitos sociais, já que o direito é ter a possibilidade de ter a atenção a uma necessidade assumida como de responsabilidade pública e de respeito à dignidade do cidadão (SPOSATI, 1995, p. 132).

O Estado de bem-estar misto ou pluralista constitui-se, então, no novo modelo de gestão do social, desenvolvido para responder às novas refrações ou seqüelas da questão social.

Uma gestão compartilhada ou um novo welfare mix (...) Não é que o Estado perca a centralidade na gestão do social, ou deixe de ser o responsável na garantia de oferta de bens e serviços de direito dos cidadãos, o que se altera é o modo de processar esta responsabilidade. A descentralização, a participação, o fortalecimento da sociedade civil pressionam por decisões negociadas, por políticas e programas controlados por fóruns públicos não-estatais, por uma execução em parceria e, portanto, publicizada (CARVALHO, 1999, p. 25).

Montaño (1999, p. 74) faz uma crítica a essa conjuntura, apontando o tratamento para a questão social no neoliberalismo, que é realizada de forma retrógrada, ou seja, perdem-se os direitos sociais, de caráter universalista, que é substituído pela “participação” do chamado terceiro setor e do empresariado dito socialmente responsável, o que acaba gerando

um duplo processo de refilantropização da “questão social” (...) para os despossuídos de recursos suficientes para “comprar” os serviços (excluídos ou parcialmente integrados do/no mercado de trabalho/consumo, “sem cidadania”), acompanhada de uma re-mercantilização daquela para os setores em condições de aceder a tais serviços no mercado (os integrados, os “cidadãos”), consolidando assim duas esferas de serviços de qualidades diferentes – o privado/mercantil, de boa qualidade, e o público/gratuito, precário – e, portanto, duas categorias de cidadãos (MONTAÑO, 1999, p. 74).

Apesar da incipiente existência do Estado de bem-estar social no Brasil, que culminou com a promulgação dos direitos sociais na Constituição de 1988, o neoliberalismo também se implantou aqui. Foi no governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC), 1994-2002, que o neoliberalismo se afirmou no Brasil. As privatizações de empresas estatais e a substituição da antiga Legião Brasileira de Assistência – LBA pelo programa Comunidade Solidária (em política completamente contrária à Lei Orgânica de Assistência Social – Loas) são alguns exemplos que conformaram o Governo FHC num discurso calcado em valores empresariais como a eficiência, que marcou o perfil da reforma do Estado brasileiro17.

(...) É essa despolitização que, ao lado da destituição do caráter público dos direitos dos pobres e excluídos em nossa sociedade, está na base do atual sucateamento dos serviços públicos, da desqualificação de políticas sociais, da destituição de direitos trabalhistas e sociais e da privatização e refilantropização na abordagem da questão social. Essa refilantropização é construída a partir de referências não políticas, mas de “iniciativas morais de ajuda ao necessitado, que não produzem direitos, não são judicialmente reclamáveis” (RAICHELIS, 1997, p. 7) e convive com a indiferença diante de um mundo privatizado e ainda mais desigual que antes (YAZBEK, 2001, p. 37).

Tal programa, o Comunidade Solidária, foi marcado por ser seletivo, pois contemplou apenas os mais miseráveis (foram escolhidos os 100 municípios paupérrimos do Brasil), e não todos os cidadãos, como direito social, como está prescrito na Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS)18.

A ideologia neoliberal tomou conta de todas as esferas, do Estado e da sociedade civil. No Brasil, por exemplo, a reforma do Estado foi implementada no Governo FHC com uma série de reformas que refletem as mudanças de paradigmas keynesianos para novos paradigmas neoliberais, segundo os quais o Estado se torna mínimo para o social e máximo para o econômico19, caracterizado por terceirização, privatização, incentivos ao “terceiro setor”/criação das organizações sociais20 na reforma do Estado21.

17 Ver Carlos Bresser Pereira (1995), no Plano Diretor da Reforma do Estado do Governo FHC, em que foram instituídas as organizações sociais (OS).

18 Trata-se de uma lógica totalmente contrária à lógica presente na Lei Orgânica de Assistência Social (Loas), que privatiza áreas de ação social, transferindo a responsabilidade do Estado para o mercado ou para o chamado terceiro setor.

19 Netto (1993).

20 As organizações sociais (OS) preconizam “uma forma de propriedade pública – não estatal, constituída pelas associações sem fins lucrativos, que não são propriedade de nenhum indivíduo ou grupo e estão orientadas diretamente para o atendimento do interesse público” (MARE, 1997c: 5).

É um projeto que coloca em prática a vontade do capital atrelada a acordos assinados com o BID e o FMI, a lógica da reforma é, desde seu primeiro momento, voltada para privatizar os bens públicos, transferindo-os para a iniciativa privada com todas as concessões possíveis, o que, na esfera pública, construiu com o dinheiro público. Esta atitude, além de não resolver a meta que se buscava transformar a poupança pública negativa em positiva, garantindo à administração pública gerencial condições de governança, ampliou o grau de dependência ao capital internacional, perdendo-se o poder de decidir sobre as questões de segurança da nação (BATISTA, 1999, p. 84-85).

Numa concepção crítica podemos dizer que a reforma do Estado brasileiro nada mais foi do que um dever de casa determinado pelo encontro que derivou no chamado Consenso de Washington e nas subseqüentes missões do FMI (MONTAÑO, 2002, p. 42).

O projeto FHC busca evidenciar que os teóricos do Welfare State, dada a crise do capitalismo na década de 80, teriam de repensar suas idéias, sobretudo em relação ao Brasil, cuja máquina estatal, segundo esse projeto, encontrava-se praticamente falida (SERRA, 2000, p. 80).

No processo de reforma do Estado, a reorganização dos serviços sociais objetiva a transferência das responsabilidades públicas na prestação de serviços para as comunidades, famílias, através, seja das associações não-governamentais, seja das organizações filantrópicas tradicionais e suas formas modernas, aí incluindo a chamada filantropia empresarial (KAMEYAMA, 2002, p. 58).

A reforma do Estado critica o modelo patrimonialista e burocrático de organização do aparelho estatal, como se o fato da existência um Estado interventor determinasse a existência do patrimonialismo, da corrupção, do clientelismo e do assistencialismo – a propósito, presentes na cultura política brasileira desde a colonização.

Dessa forma, o Estado é satanizado, sendo considerado incompetente para gerir a coisa pública. É proposta, portanto, a reforma do Estado, que redesenhou a organização estatal e redistribuiu suas funções entre novos organismos não estatais, modelo gerencial para dar conta das exigências de efetividade e eficiência.

“O Estado entrou em crise e se transformou na principal causa de redução das taxas de crescimento econômico, da elevação das taxas de desemprego e do aumento da taxa de inflação, que, desde então, ocorreram em todo o mundo”

(BRESSER PEREIRA, 1995, p. 246).

21 O Projeto Organizações Sociais tem como objetivo principal “permitir a publicização de atividades no setor de prestação de serviços não-exclusivos” (MARE, 1997: 5).

Bresser fala, portanto, em publicização22, que pode ser, segundo ele, uma postura ampliada da democracia, tanto do Estado como da sociedade civil, que busca a representatividade de interesses coletivos na cena pública, implicando a transformação dos serviços não exclusivos de Estado em propriedade pública não- estatal e sua declaração como “organização social” (BRESSER PEREIRA, 1995, p.

246).

Para reforçar esse movimento, procuraram-se adesões e cooperações. Em março de 1999, no Brasil, foi promulgada a Lei do Voluntariado23 que regulamentou o trabalho nas entidades que compõem o chamado terceiro setor, principalmente nas ONGs24. Essa lei transformou as relações entre o Estado, a sociedade e o mercado (empresas), caracterizado pelo deslocamento da responsabilidade pela questão social para o plano privado, ou seja, para o “terceiro setor”.

Também em 1997, no Governo FHC, por intermédio do Conselho da Comunidade Solidária, foi iniciado um processo de interlocução política entre vários atores das organizações sem fins lucrativos com o governo, visando à reformulação do denominado marco legal do “terceiro setor”; com a justificativa de fortalecer a sociedade civil. Essa foi a ideologia presente nesse movimento, sendo criada a Lei 9.790/99 – que qualifica as pessoas jurídicas de direito privado sem fins lucrativos como OSCIP, instituindo o uso do termo parceria.

22 Termo utilizado por Bresser Pereira, na reforma do Estado brasileiro no Governo FHC, em que o Estado, tornando-se mínimo, abre espaço para o chamado terceiro setor por intermédio das OS (organizações sociais), que são parceiras do Estado no que tange às políticas sociais. Dessa forma, as políticas sociais deixam de ser universalistas para se tornar focalistas e seletivas, fortalecendo assim o neoliberalismo.

23 Ver em: Anexos.

24Duas leis do Governo FHC fortaleceram o chamado terceiro setor:

1. A Lei do Voluntariado, de 1998, que “explicita que o serviço voluntário não gera vínculo empregatício nem obrigações trabalhistas às entidades sem fins lucrativos visando protegê-las de ações trabalhistas indevidas e, com isso, promover o voluntariado” (FALCONER; VILELA, 2001, p. 37).

2. A Lei de 1999, instituindo a organização da sociedade civil de interesse público (Oscip), “que propõe aprimorar a relação entre as organizações da sociedade civil e o Estado. Esta lei, conhecida como “Lei do Terceiro Setor”, parte da necessidade de facilitar o acesso das entidades ao reconhecimento pelo Estado, visto que o processo de obtenção tanto da utilidade pública quanto da certificação de fins filantrópicos era considerado burocrático e oneroso às entidades” (FALCONER; VILELA, 2001, p. 37).

1.4 O “terceiro setor” e a filantropia empresarial como um das respostas do capital

Uma nova racionalidade é gerada, mediante o novo sistema econômico e político, a saber, o modelo de produção flexível, o neoliberalismo e o Estado de bem-estar pluralista25. É caracterizada por uma nova lógica, a da apologia da solidariedade, ou seja, na qual a sociedade civil é chamada por meio da doação de tempo e dinheiro e também do voluntariado, com o objetivo de amenizar as seqüelas da questão social. As empresas também entram nessa nova racionalidade, financiando projetos sociais, estimulando seus funcionários à prática do voluntariado e criando institutos ou fundações empresariais – uma espécie de braços sociais da empresa.26 “Uma nova racionalização irá então organizar o conjunto de iniciativas do Estado e do setor privado” (LANDIM, 1993, p. 23).

(...) há, em quase todo mundo, o desmonte das políticas nacionais de garantias sociais básicas, cujas principais implicações são: cortes de programas sociais (inclusive voltados para a população de baixa renda), diminuição dos benefícios da seguridade social, criminalização da pobreza e valorização de velhas fórmulas de ajuda social, travestidas de novas, e, por isso, veiculadas como avançadas. É o caso da filantropia social e empresarial, das ações voluntárias, da ajuda mútua, dos mutirões, dos serviços sociais ocupacionais ou empresariais, da privatização das políticas sociais – inclusive da assistência social – e da solidariedade informal praticada no seio da família, da vizinhança, dos grupos de amigos, etc (PEREIRA, 1999, p. 57).

São estas concepções negativistas que vêm sendo designadas de “paradigma dominante”, inovador, pós-moderno, o qual norteia a maioria das políticas sociais contemporâneas; isto é, políticas que nem mereceriam o qualificativo de sociais porque: não visam concretizar direitos, mas negá-los ou desmantelá-los; e não têm como pressuposto e finalidade a justiça social. Isso explica a defesa intransigente dos adeptos desse “paradigma” da ação minimalista do Estado na área social; das políticas sociais residuais e focalizadas na pobreza extrema; do ressurgimento das condicionalidades ou contrapartidas dos destinatários; da substituição do welfare (bem-estar incondicional) pelo workfare (bem-estar em troca de trabalho); da culpabilização dos pobres pelo seu estado de penúria, dado o fato de constituírem uma “subclasse”(underclasses, como são chamadas nos Estados Unidos); do aparecimento de modelos, como o schumpeteriano (ABRAHAMSON, 1995), centrado no trabalho e não status de cidadania, e o pluralista ou misto (ABRAHAMSON, id. Ib.; JOHNSON, 1990), restaurador da importância do voluntariado na provisão do bem estar (PEREIRA, 1999, p. 84).

25 Quando falamos em Estado de bem-estar pluralista, conforme Pereira (1994), adotamos essa expressão já que essa dita “nova ordem mundial” e a própria idéia do chamado terceiro setor perpassam o enfraquecimento do Estado, juntamente com a apologia da participação da sociedade civil e do mercado (o caso das empresas com a filantropia empresarial.), sendo os “três atores” considerados parceiros no que tange à questão social. A reforma do Estado brasileiro por Bresser Pereira abriu caminhos para essa “nova ordem social”.

26 Um exemplo típico é a Fundação Ford, que já é independente de sua empresa mãe e movimenta bilhões de dólares em ações sociais como projetos de educação, cultura e assistência social (NETO; FROES, 1999, p. 5).

Nessa sociedade organizada, emerge segundo Offe (1998) “uma nova ordem social”, onde entra em curso uma gigantesca reforma nas relações do cidadão com o governo. Ao lado do Estado e do mercado, entidades comunitárias como as ONGs e as igrejas vão formar, segundo este autor, uma nova ordem social.

Uma das principais características dessa ordem social seria o tão proclamado

“terceiro setor”27, tido como capaz de superar a burocracia estatal (o primeiro setor) e o mercado (o segundo setor). Nesse sentido, o Estado, a sociedade civil e o mercado seriam instâncias separadas umas das outras – concepção de cunho estritamente liberal. Trata-se do que alguns autores chamam de “sociedade pós- industrial”, em que novas relações de trabalho, novas relações sociais e novos valores e paradigmas são postos para o enfrentamento da crise do capitalismo atual (a partir da década de 1970), que utiliza a expressão “terceiro setor”28 para abarcar esse conjunto de instituições sociais, movimentos sociais, grupos de voluntários, ONGs, enfim, tudo que não seja Estado nem privado, como forma de responder às seqüelas da questão social nesta nova ordem social posta.

Habermas (1975) traz uma racionalidade para o discurso de redefinição dos termos da relação entre Estado, sociedade civil e mercado. Essa teoria vem consolidar o conceito de sociedade civil constituindo-se como redes de solidariedade compostas por famílias, organizações de voluntários, sindicatos, movimentos sociais e comunitários, ONGs, ou seja, grupos que se interessam pelo social sem se preocupar necessariamente com os fatores econômicos e políticos.

Para manter o financiamento das instituições dessa nova ordem social, manifestam-se instituições internacionais, empresas, pessoas bem-intencionadas e voluntárias, a fim de suprir a carência financeira e humana, causada pelo desmantelamento das políticas sociais. Esse grupo de empresas, fundações, instituições e ONGs são conceituados por alguns autores como “terceiro setor”29,

27 O conceito de “terceiro setor” surgiu na primeira metade do século XX nos Estados Unidos, em face da cultura filantrópica da sociedade civil e das empresas norte-americanas, haja vista ser de pessoas físicas a maioria das doações do “terceiro setor”.

28 Percebemos que nessa linha o conceito de sociedade civil seria equivalente ao de “terceiro setor”, expressão importada dos EUA, nomeado também como ‘economia solidária’ nos países europeus (Landim, 1999).

29 De acordo com recentes pesquisas no Brasil (Matos, Hélio de Carvalho, diretor do Instituto Brasileiro do

“Terceiro Setor” – Ibts, ex-secretário executivo do Conselho Nacional de Assistência Social – Cnas), o “terceiro setor” no país representa hoje 1,5% do PIB e emprega 1,3 milhão de pessoas. Múltiplas e diversificadas

atividades de 260.000 entidades não governamentais – ONGs regularmente legalizadas no ordenamento jurídico dopPaís são desenvolvidas nas áreas de educação, saúde, assistência social, defesa dos direitos humanos, do meio ambiente, das minorias étnicas e fortalecimento institucional da sociedade civil. Tal pesquisa considera que, num futuro próximo, haverá grande potencialidade de oportunidades de crescimento de novas ONGs, ampliação

que se torna um sinônimo de sociedade civil, como se existisse o Estado, o mercado e a sociedade como esferas separadas – numa visão liberal e a-histórica. De acordo com Fernandes (1994)30, o “terceiro setor” vai-se constituir em:

(...) um conjunto de organizações e iniciativas privadas que visam à produção de bens e serviços públicos (...) Bens e serviços públicos implicam uma dupla qualificação: não geram lucros e respondem a necessidade coletivas (FERNANDES, 1994, p. 21).

Segundo essa concepção:

entende-se a ação compartilhada do Estado, do mercado (incluindo as empresas) e da sociedade (organizações voluntárias, sem fins lucrativos, a família ou rede de parentesco) na provisão de bens e serviços que atendam necessidades humanas básicas”. Dessa forma, define-se uma divisão fundamental de responsabilidades no campo do bem-estar e um redistribuição de funções entre os três “parceiros”:

Estado, mercado e sociedade “(PEREIRA, 1994, p. 10).

O conceito como também o debate do chamado terceiro setor não se esgota por aqui, pois ainda existem muitas polêmicas na definição da expressão. Trata-se sim de um debate ainda em aberto e que tem ocorrido principalmente na academia31, como também nas redes de empresas e instituições que compõem o referido setor, e vem suscitando o interesse de diferentes áreas, como as ciências sociais, o Serviço Social e de uma forma bastante enfática a administração de empresas32, as ciências econômicas e a comunicação social (tanto na área de publicidade, como nas de marketing e jornalismo)33.

dos investimentos sociais por parte das empresas e uma intensa mobilização de milhões de pessoas voluntárias na guerra pelo desenvolvimento social. (capturado no site: http://www.institutoterceirosetor.org.br).

30 O livro de Fernandes (1994) Privado Porém Público tornou-se, no Brasil uma espécie de bíblia para os ideólogos do “terceiro setor”, pois ele praticamente inaugurou a temática no país, transformando-se em referência de pesquisadores e acadêmicos das áreas de Administração, Comunicação Social e mesmo das Ciências Sociais e do Serviço Social que vêm estudando essa temática.

31 Ver Montaño, 1999 e 2002.

32 Têm ocorrido vários encontros, seminários e cursos, realizados em torno dessa temática pela academia, por docentes e discentes, com também por profissionais interessados em trabalhar ou que já trabalham no “terceiro setor” não só para compreenderem esse fenômeno, como também para se capacitarem para serem gestores sociais e obterem valores de responsabilidade social, já que esses valores têm sido imprescindíveis para a carreira dos profissionais dessas áreas. Além dos próprios empresários e gestores de empresas cidadãs e ONGs que, reunidos em redes, se articulam para trocar informações, divulgar os trabalhos realizados e discutir novas propostas de intervenção.

33 Na área específica de jornalismo, aliás, muitos têm sido os debates e cursos a respeito da postura do jornalista tendo em vista ser esse um novo paradigma da responsabilidade social, ou seja, têm-se discutido muito em encontros, seminários e mesmo pela internet (lista de discussão online) sobre a atuação socialmente responsável dos jornalistas, ao disseminarem informações para a sociedade.

No documento Contribuições Estatais (páginas 31-45)