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Escrita por Artur Azevedo e Moreira Sampaio, montada pela empresa Braga Júnior &

Companhia, a revista dos acontecimentos do ano de 1887 O homem foi também uma das estratégias empregadas pelo grupo de Aluísio Azevedo para manter o foco das intenções sobre o livro que nomeia a peça. Os periódicos engajaram-se em divulgá-la com anúncios, resenhas e textos críticos em comparação com o romance. Em 6 de janeiro de 1888, a Gazeta nacional:

órgão republicano- RJ (edição A05-1) publica: “O acontecimento de maior monta durante a semana foi sem dúvida a exibição cênica do ‘O homem’, revista do ano de 1887”134. Um dia antes, a Gazeta de Notícias (edição 5) trazia crítica pontuando as diferenças entre o romance e a revista, e os motivos políticos que obrigaram os roteiristas a não abordarem determinados acontecimentos importantes ocorridos em 1887. Segundo o articulista, a encenação só apresentaria o “esqueleto do livro”:

O ano passado em revista não foi dos mais fartos em acontecimentos próprios para serem comemorados no palco. Os poucos que mais se prestaram à sátira e ao comentário que mais agrada as plateias, e que são aqueles que se referiam à política, encontraram na censura da polícia tais disposições que os autores tiveram de os afastar do seu plano. A falta deste elemento, de êxito certo, aumentou as dificuldades dos autores da revista, que tiveram de preencher tal lacuna, recorrendo à exibição de acontecimentos de somenos importância. O esqueleto do Homem é tirado do romance do mesmo título, de Aluísio Azevedo. O conselheiro Pinto Marques e Magdá percorrem toda a cidade do Rio de Janeiro, em procura de um homem que cure os histerismos de Magdá. É este o pretexto para que as duas figuras principais da peça vão encontrando no seu caminho os principais acontecimentos do ano, até que se depare o homem salvador. (…) Tais elementos e sendo o Homem absolutamente inofensivo no que respeita a alusões, não admira que se conserve por muito tempo no palco Lucinda, onde se exibe hoje mais uma vez, público lá está todas as noites a encher o teatro, de onde sai satisfeito e alegre.135

      

134 Gazeta nacional: órgão republicano, Rio de Janeiro, “Revistas de artes”, Edição A05-1, 05/01/1888, p. 2.

Disponível em:< http://memoria.bn.br/>. Acesso em: 29/05/17.

135 Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, Edição 5, 05/01/1888, p. 2. Disponível em:< http://memoria.bn.br/>.

Acesso em: 23/06/17.

  A adaptação do romance naturalista para os palcos foi possível graças ao parecer favorável dado por Machado de Assis, censor do Conservatório Dramático da capital do antigo império, desde a década de 1860. Entretanto, a julgar pela sua preferência estética literária, que ele expunha em artigos, o teatro em revista e os romances naturalistas não lhe agradavam por vários motivos.

Conforme conta Faria (2001), o escritor de Dom Casmurro (1899) construiu carreira no teatro muito jovem, com dezesseis ou dezessete anos, e acompanhou de perto os primeiros anos da formação teatral literária no Brasil. Escreveu inúmeros trabalhos de crítica sobre a arte dramática. Para Machado, os objetivos do Conservatório Dramático não poderiam ficar restritos à censura do que era considerado imoral para a sociedade. O teatro precisava de reforma. Era muito pobre de realizações importantes do ponto de vista estético e um mero passatempo das massas. Por isso, defendeu o teatro realista e civilizador. As peças deveriam retratar os costumes da vida social brasileira, tendo como objetivo “melhorar” as condutas dos indivíduos por meio da crítica moralizadora.

No cargo de censor acerca do que subiria à cena ou não, os pareceres dados por Machado de Assis deveriam basear-se nas funções do Conservatório Dramático, a saber:

1. Não devem aparecer na cena assuntos, nem expressões menos conformes com o decoro, os costumes, e as atenções que em todas as ocasiões se devem guardar, maiormente naquelas em que a Imperial Família honrar com a sua Presença o espetáculo;

2. O julgamento do Conservatório é obrigatório quando as obras censuradas pecarem contra a veneração à Nossa Santa religião, contra o respeito devido aos Poderes Políticos da Nação e às Autoridades constituídas, e contra a guarda da moral e decência pública. Nos casos, porém, em que as obras pecarem contra a castidade da língua, e aquela parte que é relativa à Ortoépia, deve-se notar os defeitos, mas não negar a licença (FARIA, 2001, p. 112).

Como se pode imaginar, era uma tarefa árdua transpor um romance naturalista para o tablado. Muitas cenas tinham de ser suprimidas ou modificadas para atender às disposições impostas pelo Conservatório. Além do mais, Machado estava empenhado em tornar o teatro mais literário (FARIA, 2001). Isso também se constituía num empecilho para as adaptações, pois muitos dos romances naturalistas eram considerados, à época, de baixa qualidade estética.

No ano de 1859, Machado escreveu um folhetim expondo as suas críticas a respeito das funções da instituição teatral. O único ponto discordante era o último parágrafo (transcrito

  anteriormente) da segunda disposição. O romancista entendia ser uma limitação imposta ao censor, que deveria ter o poder de julgar também o mérito das peças e proibir aquelas indignas de serem exibidas por falta de atributos literários. O órgão deixava de fora a finalidade intelectual, não exercendo assim a “função civilizadora” tão reivindicada pelo romancista.

Quanto à censura imposta acerca das questões políticas, sociais e religiosas, estas não o incomodavam. Se tivesse que censurar uma peça por esses motivos, faria sem problemas. As suas preocupações voltavam-se, sobretudo, para o aspecto estético.

Nas décadas de 1860 e 1870, Machado de Assis, José de Alencar e outros intelectuais importantes à época criticaram intensamente as peças cômicas e musicadas que ganharam o gosto do público. As queixas baseavam-se na falta de preocupações artísticas e de ensinamentos morais e civilizatórios. Na opinião deles, o teatro havia se transformado em puro entretenimento, pois a plateia era fisgada pelo riso fácil e exibição de mulheres bonitas e seminuas. O protesto dos homens das letras não impediu outro gênero popular se firmar: as revistas de ano, no início da década de 1880. O revistógrafo brasileiro mais produtivo foi Artur Azevedo. Escreveu 19 peças num período de duas décadas. Destas, apenas uma revista foi inspirada em obra naturalista, O homem. Esse tipo de espetáculo visava:

Passar em revista os principais acontecimentos do ano anterior. Tudo que foi importante ou que obteve repercussão – um fato político, um crime, uma invenção, a criação de um jornal, a falência de um banco, uma obra literária, um espetáculo teatral, a epidemia etc. – é personificado em cena e ganha tratamento cômico, algumas vezes de alcance crítico ou satírico (FARIA, 2001, p. 161).

Assim como a “opereta” ou a “mágica”, a revista de ano era também considerada um gênero distante da literatura. Era entretenimento acrescido de licenciosidade. Quando Artur Azevedo e Moreira Sampaio adaptaram O homem para o teatro, o livro homônimo à peça já havia causado bastante polêmica na imprensa. Isso provocou grande interesse do público.

Como vimos no capítulo anterior, muitos articulistas destacaram o aspecto indecoroso do romance. Contudo, ao passar pelo crivo do Conservatório, a peça subiu à cena castamente

“vestida”. Foram suprimidos todos os sonhos picantes de Magdá. Em 7 de janeiro de 1888, A Semana (edição 158), na sessão “Teatros e Diversões”, expõe o motivo pelo qual a revista dos acontecimentos do ano de 1887, “O Homem”, conseguiu êxito de público na sua estreia, em 3 de janeiro de 1888:

  A curiosidade despertada pelo apimentado título desta revista teatral, atraiu tantos espectadores ao Éden-Teatro no dia de estreia, que bem se pode dizer que houve mais do que enchente, - houve transbordamento, senão verdadeira apoplexia de público. O romance de Aluísio Azevedo, que deixou muitos leitores e habitués de nossos teatros com o bico doce e a suspirar por mais, foi o pretexto para a conhecida viagem episódica em torno dos acontecimentos do ano.136

Como acontecia na França na adaptação dos romances de Zola para o teatro, as partes mais quentes eram cortadas (FARIA, 2001). O sucesso de público de O homem no teatro, no primeiro mês de apresentações, deu-se porque as pessoas foram atraídas pelo escândalo do romance. Apesar das partes mais “interessantes” estarem suprimidas, Magdá percorrendo os 10 cenários da peça à procura de um “Homem” mantinha o sexo como principal fio condutor da narrativa.

Críticos e intelectuais acreditavam haver uma impossibilidade enorme de se adequar ao palco todos os aspectos dos enredos naturalistas, por causa da licenciosidade. Esse foi o principal motivo de o naturalismo ter tido uma existência curta nos tablados cariocas, segundo Farias. A ousadia da escola, as situações abordadas, seus personagens e a linguagem se mostravam impróprios de entrarem em ação por causa dos códigos morais aceitáveis pela sociedade do período.

Urbano Duarte (1855-1902), crítico importante da década de 1880 e pouco conhecido nos dias de hoje, apontou como primeira dificuldade o aproveitamento no teatro da força narrativa e das descrições minuciosas de espaços, personagens e ações. A segunda, ficava por conta da imoralidade “identificada com a abordagem fisiológica da sexualidade, até certo ponto suportável na página impressa de um romance, mas impensável na representação teatral” (FARIA, 2001, p. 210). Já Araripe Júnior (1848-1911), ao falar sobre o assunto, preferiu deixar de lado a pretensa imoralidade do naturalismo. Apontou a impossibilidade de se reproduzir em cena a vida como ela é, com todos os seus movimentos triviais e antidramáticos característicos dos enredos naturalistas. Outro obstáculo na opinião do crítico dizia respeito à plateia, exausta demais (por conta das atribuições do dia a dia), não estando propensa a apreciar espetáculo sério, pesado e minucioso.

Nesse sentido, os autores da peça O homem souberam tratar com leveza um assunto pesado para uma comédia (FARIA, 2017). Com tiradas cômicas capazes de arrancar gargalhadas do público, a Revista traçava um final feliz para a histérica Magdalena, ingrediente exigido pela convenção do gênero cômico. Na peça, ao contrário do romance,       

136 A Semana, Rio de Janeiro, Edição 158, 07/01/1888, p. 2. Disponível em:< http://memoria.bn.br/>. Acesso em:

23/06/17.

  Magdá e Fernando não são irmãos. Ele é filho do Dr. Lobão e não morre. Fernando reencontra a protagonista ao retornar de Portugal; a mãe dele revela ter percorrido toda Lisboa à procura de uma mulher para o filho, por recomendação médica. Polemicamente, no romance e na peça, o sexo aparece como necessário para a boa saúde, tanto da mulher como do homem. Já o Dr. Lobão, como no romance, é apresentado como áspero e boçal, acrescido o defeito de

“charlatão”. Sua figura não impõe respeito, no livro e na peça, mostrando como o discurso médico podia ser criticado até mesmo na obra naturalista. A revista ficou em cartaz até início de março de 1888, percorrendo vários teatros da corte e de São Paulo.

É notável também a dimensão da influência exercida por Aluísio Azevedo, Artur Azevedo e o grupo de intelectuais a que estavam alinhados, na imprensa durante o fim do império no Rio de Janeiro (MELLO, 2007). Além de terem seu nome como consagrados homens das letras e como romancista (caso do autor de O cortiço), desfrutavam também de forte prestígio na esfera do teatro, em particular Arthur de Azevedo. Este escreveu diversos roteiros teatrais, mas sem valor literário para a historiografia, por causa do seu caráter de entretenimento. Essas peças permanecem esquecidas (FARIA, 2001).

Figura 15 – anúncio da Revista O homem

Legenda: 24a representação da Revista O homem no Teatro Lucinda.

Fonte: Gazeta de notícias, Rio de Janeiro, Edição 28, 28/01/1888, p. 4.

Disponível em:< http://memoria.bn.br/>. Acesso em: 29 jun. 2017.