Em 10 de outubro de 1887 foi publicada no Rio de Janeiro a primeira edição de O homem, sob o selo da modesta Tipografia de Adolfo de Castro e Silva & Cia (assim como as duas edições subsequentes), localizada na Rua da Quitanda, 115. A Tipografia e Lit. Moreira Maximino & C. acabou não assinando contrato com Aluísio Azevedo, conforme fora divulgado n’ A Semana, em dezembro de 1886. Até o lançamento de O homem, o romancista maranhense não possuía exclusividade com nenhuma editora. No entanto, com o triunfo de vendas da história de Magdá, essa situação começaria a mudar, em virtude das três primeiras edições do livro (1900 exemplares cada uma) se esgotarem entre outubro e dezembro de 1887 (MÉRIAN, 2013, p. 398). O fenômeno possibilitou a Aluísio Azevedo fechar os seus
41 COELHO NETO, Henrique. O meu dia. Porto: Chardron, 1922, p. 103. Apud MÉRIAN, Jean-Yves. Aluísio Azevedo: vida e obra (1857-1913). Trad. Claudia Poncioni. 2ª Edição. Rio de Janeiro: Garamond, 2013, p. 402.
primeiros contratos com a Garnier, em 1888, ano em que a editora lançou a 4ª edição de O homem e reimprimiu O mulato, O coruja e Casa de pensão (conforme ver-se-á no capítulo III). A figura a seguir exibe a folha de rosto da 3ª edição de O homem, datada em 10 de novembro de 1887. Em apenas um mês de comercialização da obra foram vendidos 3800 exemplares, números animadores para a época.
Figura 5 – Folha de rosto da 3ª edição de O homem
Legenda: Em um mês, O homem estava na 3ª edição.
Fonte: Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível em:
https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/4893. Acesso em: 10 ago. 2017.
Neste dia, a Gazeta da tarde (edição 230) estampa na sua primeira página um poema composto por 8 estrofes com 4 versos cada, intitulado “Comédia Humana”, referenciando Balzac. É possível que o poeta buscasse remeter o caso de histeria vivido pela “musa gamenha” Magdá aos fatos ridículos e jocosos da vida social. Ao mesmo tempo, o poema serve para sinalizar a estreia de O homem, em forma de revista, nos tablados da corte, em
início de 1888. Prevendo a recepção negativa pelos críticos conservadores, o artista pede que se celebre o novo romance “sem preconceitos”.
Comédia Humana I Prólogo
Quem desta musa a primícias Goza, que a tenha completa,
Que vá na primeira seta O beijo de uma carícia Nem sempre do amor a flecha
Fere cruel, mortalmente, Gosta-se até dessa brecha,
Fira-se dela contente.
Neste pequeno proscênio Nesta nesga de ribalta, Faz-se elogio do gênio, O ridículo do peralta Portanto, a musa gamenha, Que põe do burguês a pista Um garroche fantasista Armado d’acha de lenha;
Que tem chapéu de gazetas Para os fidalgos do Império
E faz torcidas caretas A’ gente do ministério Sem recuar, valorosa, Erga o fino reposteiro E do moço brasileiro O livro exiba orgulhosa Que destas páginas d’ouro
Cante o concerto divino, Que faz nas almas tesouro
E tem melodias de hino Que resoluto, sem medo, Sem preconceitos que a domem Celebre o romance – O Homem
De Aluísio Azevedo.42
Ainda nessa mesma edição da Gazeta da tarde, abaixo do poema transcrito anteriormente, é publicado um outro. Este, de autoria de Aluísio Azevedo, é dirigido ao
42 Gazeta da tarde, Rio de Janeiro, Edição 230, 10/10/1887, p. 1. Disponível em:< http://memoria.bn.br/>.
Acesso em: 02/06/17.
público. Ele assina com o pseudônimo “Sagittario”. Sabemos que o romancista se colocava como um homem da ciência e anticlericalista. O poema ilustra bem esses posicionamentos do escritor. O “eu-lírico” começa questionando a quantidade de pessoas ludibriadas durante toda a vida pelo “velho leão cruento”, que só sabe levar “dor, tristeza e sofrimento” pelo “egoísmo feroz, cruel, nefando”. As alegorias referem-se a tudo que representa a igreja e o clero (a fé cega na religião e em Deus), bem como a imposição dos dogmas cristãos aos seus fiéis.
Também critica duramente a “salvação” pelo martírio, “vai da fome ao Gólgota [calvário]
elevando”. O poeta despreza todos esses elementos por estarem em oposição às luzes da ciência. Nesse sentido, o único instrumento que ele pode oferecer para combater as trevas é o conhecimento: “Dou-te o meu livro e é quanto me consola”.
Figura 6 – Poema de Aluísio Azevedo
Legenda: Aluísio Azevedo escreveu o poema com o pseudônimo Sagittario.
Fonte: Gazeta da tarde, Rio de Janeiro, Edição 230, 10/10/1887, p. 1. Disponível em:<
http://memoria.bn.br/>. Acesso em: 02 jun. 2017.
No Diário de Notícias (edição 853) é divulgada uma nota sobre a conferência de Coelho Neto, ocorrida no dia anterior. O palestrante analisou e expôs ao público toda a carreira do escritor maranhense e narrou a obra, deixando “no ânimo de numeroso auditório a mais violenta e agradável impressão”.43 Já o Novidades (edição 220) destacou o almoço em solenidade ao aparecimento do romance O homem, realizado pelos amigos e admiradores de Aluísio Azevedo, neste mesmo dia, no Hotel de Londres.
A conferência literária, o almoço e a divulgação de resenhas elogiosas (redigidas pelos companheiros das letras do maranhense) sobre o novo romance eram estratégias de marketing similares as que Zola e seu grupo (na França) empreenderam para fundar o naturalismo no país. Nem todos os expedientes publicitários utilizados pelo grupo de Aluízio eram semelhantes aos dos franceses, dado que o viés licencioso apenas os brasileiros destacaram.
David Baguley (1990) aponta como um dos mitos da história do naturalismo francês: o Banquete Trapp (no restaurante Trapp), em Paris, acontecido em 16 de abril de 1877. O jantar contou com a presença de Zola, Flaubert, Edmond de Goncourt, Joris-Karl Hysmans, Henry Céard, Guy de Maupassant, Octave Mirbeau e, não por acaso, o livreiro Georges Charpentier, o editor dos naturalistas. Anunciado nos jornais com antecedência, o jantar era uma forma de tornar conhecidos os escritores naturalistas, e também era uma declaração de apoio a Zola, que naquele momento era acusado de pornográfico devido à publicação de L’Assommoir (1877). O “menu de fantasia”, criado para o jantar e difundido na imprensa, era uma forma de fazer publicidade para as obras dos escritores: Sopa de “Madame Bovary”, truta “Fille Elisa”, galinha recheada “Saint Antoine”, alcachofra “Cœur Simple”, parfait naturalista de sobremesa, acompanhado de vinho de Coupeau e licor “Assommoir” (CATHARINA, 2006, p.
107). Esse acontecimento inspirou o grupo de Aluísio na confecção do menu francês, publicado na imprensa brasileira, para divulgação de toda a obra do maranhense até 1887, conforme veremos adiante.
Ainda, na sessão “No Bond” do Novidades (edição 220), lê-se que mal o novo romance foi colocado à venda, já estava sendo um sucesso. Esse feito acontecia com os títulos portugueses e franceses frequentemente, mas não com os livros de escritores brasileiros. Daí a estupefação do articulista. Conforme o grupo de Aluísio vinha engendrando, de modo dúbio a obra é divulgada:
43 Diário de Notícias, Rio de Janeiro, Edição 853, 10/10/1887, p. 2. Disponível em:< http://memoria.bn.br/>.
Acesso em: 11/05/17.
Até às 9h da manhã de hoje a livraria Garnier tinha vendido 108 exemplares do Homem. Este fato é único nos anais da literatura brasileira e indica um movimento de curiosidade do público bastante animador. (…) O hino da vitória é hoje cantado pelo autor do Homem, livro poderoso, sério, profundamente estudado e ao mesmo tempo escrito com aquele ardor belicoso e comunicativo dos apóstolos de uma ideia nova. (…) agora vemo-lo garboso e desassombrado, cavalgando a hidra pudibunda da hipocrisia nacional e cravando-lhe os acicates nas anquinhas, a ver se aí existe algum fundo de verdade.44
Um dia após o lançamento do livro, a Gazeta de Notícias (edição 284) traz nota explicativa sobre a mesma festividade citada no Novidades (edição 220), acrescida a informação de que, na ocasião, o próprio autor anunciou O homem como o embrião de seu próximo romance, O cortiço. Afirmação problemática, pois ela será reiterada na fala de vários críticos à época e da posteridade.
Estiveram presentes poetas, jornalistas e vários escritores (…) durante toda a festa a maior animação e cordialidade. Foram levantados muitos brindes a Aluísio Azevedo, ao editor da obra e as outras pessoas presentes, e também a vários homens de letras, que por motivos de força maior não puderam comparecer. Durante o almoço foram lidos vários telegramas e cartas de saudação a Aluísio Azevedo. Em um dos brindes este apreciado escritor declarou que O homem, era o precursor de um outro romance francamente realista – O cortiço. Tratando-se de uma festa de homens de letras e jornalistas, é bom dizer-se que não terminou por nenhuma reconciliação. 45
Em 11 de outubro, a Gazeta da tarde (edição 231) publica “Uma bonita festa”. Os senhores citados podem ser facilmente reconhecidos como pertencentes ao grupo de intelectuais a que Aluísio Azevedo estava alinhado:
Aluísio Azevedo recebeu ontem de seus amigos e admiradores significativa prova de apreço e estima. Em um dos salões do Hotel de Londres reuniram-se uns 20 rapazes, que festejaram devidamente o autor d’O Homem, o delicado romancista brasileiro que tem coragem para fazer revoluções literárias em meio tão indiferente por esses cometimentos. Ao redor de uma bem preparada mesa, sentaram-se Aluísio Azevedo, Fernando Mendes, Murat, Alfredo Gonçalves, Mucio Teixeira, Xavier da Silveira, Domingos M. Gonçalves, Coelho Neto, Guanabara, Campos Porto, Adolfo de Castro, Monteiro Silva, Guimarães Passos, Eugenio Carvalho, Cabral, Viriato Guimarães, Carapebus e Coelho Lisboa. Durante o almoço que foi perfeitamente servido, trocaram-se as mais entusiásticas saudações a Aluísio, a vários escritores presentes e ausentes, alguns trocadilhos e calembourgs. Foi uma festa íntima, toda cordial e cheia de animação46.
44 Novidades, Rio de Janeiro, Edição 220, 10/10/1887, p. 1. Disponível em:< http://memoria.bn.br/>. Acesso em:
17/05/17.
45 Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, Edição 284, 11/10/1887, p. 1. Disponível em:< http://memoria.bn.br/>.
Acesso em: 13/06/17.
46 Gazeta da tarde, Rio de Janeiro, Edição 231, 11/10/1887, p. 2. Disponível em:< http://memoria.bn.br/>.
Acesso em: 10/05/17.
O texto anterior segue acompanhado do cardápio francês (citado páginas atrás) servido durante o almoço de recepção (ver figura a seguir). Os “pratos” são uma brincadeira com os títulos das obras já publicadas do autor. Percebe-se um esforço orquestrado para divulgar não só O homem, mas também toda a obra de Aluísio. O menu contempla até uma peça de teatro, Casa de Orates (1882):
Figura 7 – Menu fantasia francês
Legenda: menu servido no almoço de recepção a Aluísio Azevedo.
Fonte: Gazeta da tarde, Rio de Janeiro, Edição 231, 11/10/1887, p. 2. Disponível em:
<http://memoria.bn.br/>. Acesso em: 10 maio 2017.
Os eventos sociais serviam para colocar o nome do naturalista em evidência, simultaneamente faziam parte da campanha publicitária do lançamento do livro. Além disso, revelavam o prestígio e a influência literária de Aluísio Azevedo nos círculos intelectuais midiáticos da corte no período. No Cidade do Rio (edição 14), propriedade de José do Patrocínio (1853-1905), aparecem duas menções sobre o romancista maranhense: a primeira diz respeito ao banquete realizado para o “moço trabalhador que tanto se esforça por avivar o
amortecido brilho das letras brasileiras”;47 já a segunda menção é um reclame para instigar a curiosidade das moças acerca do livro:
Ontem, numa das mesas do Paschoal, conversava-se sobre o aparecimento do livro de Aluísio Azevedo.
A Gregório, o encarregado da nossa seção elegante, disse uma das meninas presentes:
- Por alguns pedaços que já vi, gostei muito d’O Homem”.48
Por fim, n’O Paiz (edição 1101) é publicada breve exposição sobre o mais novo romance do “laborioso e brilhante escritor”. O articulista deixa transparecer que a obra pode conter “imoralidades” em nome do naturalismo:
haverá infernos lá dentro, naquelas 375 páginas, que o autor resguarda, ou defende, antecipadamente, em nome da verdade e da natureza, contra a convenção e as falsas regras da conveniência ruim e da moral piegas? (…) e só pode devassá-los a grande luz natural, a claridade sem véus, sem sombra? sem mistérios? Aluísio Azevedo não é um escritor desconhecido. Talento brilhante, abraçou a nova escola, e é dela o mais legitimo representante entre os nossos jovens literatos. Exemplo disso é já a sua Casa de pensão, livro bem aceito, que facilmente se popularizou, e serve hoje de apresentação honrosa a O homem, que recebemos como a um visitante distinto, com quem vamos entreter conversa amistosa, da qual daremos conta ao público.
Cumprimentamos, entretanto, o laborioso e brilhante escritor, dando parabéns ás letras pátrias por mais este valioso mimo, que acabamos de receber.49
Como vimos, o dia do lançamento e o seguinte foram marcados por homenagens ao escritor, resenhas positivas sobre o livro, festa, menu francês e 108 exemplares de O homem vendidos em uma hora. Tudo isso foi resultado de um empenho conjunto.