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A fim de cumprir a meta proposta, procede-se à compilação de um corpus com dados de construções clivadas composto de livros do autor Dan Brown (que foram best-sellers) e suas respectivas versões traduzidas para o PB, a saber: Angels and Demons (2000) – Anjos e demônios (2004a), The Da Vinci Code (2003) – O Código Da Vinci (2004b) e The Lost Symbol (2009a) – O Símbolo Perdido (2009b).

Foram selecionados livros de um mesmo autor para que não entrasse em questão, nas diferenças tradutórias, uma diversidade de estilos autorais. Esse romancista foi escolhido porque seus livros são reconhecidos mundialmente, lidos no original, e, além disso, ele escreve com uma linguagem coloquial, não rebuscada, aproximando-se da língua falada, isto é, é um escritor no qual pode-se considerar que não há particularidades de estilo muito fortes, que separariam essa linguagem da linguagem usual. Dentro do conjunto da obra de Dan Brown, escolheram-se essas três por serem das mais reconhecidas do autor23 e, além disso, com, basicamente, o mesmo tipo textual e tema.

A análise efetuada neste trabalho tem foco em uma possível catalogação dos tipos que há de clivagem no PB vista em relação à catalogação dos tipos de construções clivadas já existentes em inglês, não partindo do princípio de que se fará uma catalogação derivada da que já existe no inglês – o que acontece em alguns trabalhos já efetuados na área, por conta de a teorização da clivagem ser toda feita em inglês –, mas, a partir da análise dos enunciados em si, nomeiam-se os diferentes tipos encontrados e, a partir disso, coteja-se com a catalogação que já está feita. Como as línguas se organizam diferentemente, tem de haver uma

23 Um exemplo desse amplo reconhecimento é que as obras Angels & Demons e The da Vinci Code foram até motivo de filme.

organização de tipos de clivagem para cada língua, sendo que a análise de uma não se contamine com a da outra. Desse modo, o objetivo aqui é verificar os tipos de clivagem em língua portuguesa cuja explicitação seja feita por expedientes da própria língua portuguesa, examinando a construção inglesa apenas como análise comparativa sobre a sintaxe, a semântica e a pragmática da clivagem.

Um apontamento muito importante é o de que as três obras dispõem de três diferentes tradutores. Verificando-se tradutores diferentes, tem-se uma melhor amostra do que é possível em construções clivadas em língua portuguesa, isto é, a análise não ficará presa ao estilo de um tradutor. Trata-se de diferentes usuários da língua portuguesa, criadores de texto experientes dessa língua que, com certeza, dispõem de todos os expedientes dessa língua para clivar, cada um a seu modo, e estarão usando livremente esses expedientes. Assim, fornecerão uma amostra que, se houver grande diversidade de possibilidades, mostrará muito bem essa diversidade. Neste trabalho, analisa-se como os tradutores em português trabalham com a clivagem, independentemente de quem seja esse tradutor, afinal, são todos brasileiros e falantes de português.

É valioso destacar também que se pretendeu justamente obter um exame que, pelo corpus de língua inglesa já existente, permitisse comparar os expedientes postos em ação em construções que, como versões da mesma proposta significativa, revelam opções construcionais de clivagem em PB por vezes diferentes das que ocorrem em inglês. Ou seja, mediante construções que já estavam feitas numa língua, produzindo determinado significado e efeito, examina-se que construções se fariam na outra língua para produzir o mesmo significado e efeito. Trata-se da verificação de diferentes correspondências possíveis em PB para uma mesma construção em inglês. A partir desse exame, objetiva-se determinar os efeitos dos diferentes modos de clivagem, assim como verificar a natureza da informação dos dados. Busca-se também verificar se os efeitos de foco são mantidos no texto de chegada, bem como testar a tipologia da clivagem em PB e, com isso, propor uma nova classificação para a clivagem nessa língua. Outro objetivo desta pesquisa é o de abarcar um termo adverbial como constituinte focalizado nos estudos da clivagem.

Por se realizar essa análise a partir do processo de tradução, entende-se, neste trabalho, que o texto traduzido é parte do corpus. Com base nessa premissa, seguem-se algumas postulações a respeito desse processo, as quais são consideradas importantes para o exame desse tipo de corpus. Primeiramente, defende-se, aqui, que o tradutor dispõe de liberdade autoral que lhe permite efetuar escolhas lexicais e gramaticais. Essa posição tomada segue a linha de Jakobson (1977, p. 65), para quem traduzir é substituir “mensagens em uma das

línguas, não por unidades de código separadas, mas por mensagens inteiras de outra língua”.

Nesse sentido, a tradução é uma forma de discurso indireto: “o tradutor recodifica e transmite uma mensagem recebida de outra fonte. Assim, a tradução envolve duas mensagens equivalentes em dois códigos diferentes” (JAKOBSON, 1977, p. 65-66). Sendo assim, o tradutor se comporta como intérprete das mensagens. Nesse viés, Oustinoff (2011) argumenta que a etimologia de “traduzir” é “conduzir”, “levar para o outro lado”.

De acordo com Hatim e Mason (1990), em uma perspectiva funcionalista em que cada modelo de tradução se adapta ao contexto de situação de um determinado texto, cabe ao tradutor mostrar não apenas uma habilidade bilíngue, mas também uma visão bicultural na tarefa de estabelecer mediação entre culturas e ideologias de povos distintos. Traduzir é lidar com diferenças entre línguas, mas também entre contextos de cultura e de situação. Nesse sentido, a tradução tem de ser descrita, analisada e observada em seu real funcionamento, na interação.

Arrojo (1999), baseada na concepção desconstrutivista de Derrida, claramente mostra que, ao ser traduzido, o texto deixa de ser a representação “fiel” de um objeto estável e passa a ser “uma máquina de significados em potencial” e, assim, passa a ter a imagem de um palimpsesto24, um texto “que se apaga, em cada comunidade cultural e em cada época, para dar lugar a outra escritura do ‘mesmo’ texto” (ARROJO, 1999, p. 23). Partindo-se do pressuposto de que o texto possa ter muitos significados, entende-se que o tradutor tem uma responsabilidade autoral, interferindo e tomando partido a cada opção que faz e, com isso, ele exerce uma intervenção linguística, política, cultural e social (ARROJO, 1996). Nesta proposta, como já apontado, trabalha-se com textos que, desde as primeiras análises, demonstram mudanças estruturais nas versões em PB, isto é, o que se vê é que o texto de chegada é como um palimpsesto.

Nesse sentido, para Derrida (1998 apud SILVA, 2007, p. 50), os textos traduzidos nunca dizem a mesma coisa que o “original”, pois sempre ocorre algo novo. “Inclusive, ou sobretudo, nas boas traduções”. O autor crê que o texto traduzido traz outra coisa; mas outra coisa que está em relação com si mesma. “Este é o paradoxo da tradução”, pelo qual o autor se interessa. Na concepção de Derrida (2001), na mesma linha de Arrojo (1996; 1999), o ato de traduzir, a operação tradutória, torna-se eminentemente cultural, uma vez que envolve contextos, registros e lugares de enunciação diferenciados (SILVA, 2007, p. 51).

24 Antigo material de escrita, como o pergaminho, reutilizado algumas vezes por meio de raspagem (ARROJO, 1999).