Primeiramente, analisa-se aqui o expediente de clivagem das wh-clefts (LAMBRECHT, 2001), como na construção (2) repetida qui (cf. dado 58, quadro 8, apêndice A):
83: “A librarian docent accompanies every entrant at all times. Tonight, the docents are gone. What you are requesting is carte blanche access. […]”
T: - Um bibliotecário docente acompanha todos os que entram em todas as ocasiões. Esta noite, não há nenhum docente, todos saíram do Vaticano. O que me pede é um acesso com carta branca.
Em inglês, as wh-clefts recebem essa denominação dado o arranjo gramatical que serve a esse tipo de clivagem. Como se verifica, o termo (pro)nominal ‘what’ é um exemplar desse tipo de CCs em inglês (além de outros termos –wh: who, where, when). Evidentemente, a análise efetuada aqui refere-se apenas às wh-clefts que contêm o termo ‘o que’ como clivador, que é a maior parte delas. Quando o elemento clivador é ‘quem’ ou ‘quando’
mantém-se o mesmo sistema do inglês para o português, pois são da mesma natureza construcional que seus correspondentes em inglês who e where. Segundo Lambrecht (2001), o termo what compreenderia os termos it e that das it-clefts. Por ser equivalente a esses dois termos, what não é um clivador exatamente do mesmo modo que o elemento ‘that’ (usado em outros casos), o que faz das wh-clefts do inglês construções não estritamente clivadas, do ponto de vista gramatical, já que, em princípio, entende-se que em uma construção clivada existe claramente um elemento que alavanca alguma parte da construção.
Em contrapartida, em português não há um termo pronominal assim complexo como
‘what’. Nessa língua, o que corresponde a um termo como esse é uma construção que faz a junção de dois termos, a saber: ‘o’ e ‘que’. Evidentemente, pois, o expediente gramatical de wh-cleft do inglês não tem equivalente em português, uma vez que ‘what’ é gramaticalmente
diferente de ‘o que’. Apesar de uma construção como “O que me pede é um acesso com carta branca” expressar conteúdo informativo equivalente ao de “What you are requesting is carte blanche access”, tem-se uma analisabilidade diferente na construção em português, por causa das peças que formam a construção. Isto é, exprime-se o mesmo efeito focal de clivagem que em inglês, porém as peças que compõem a construção têm um arranjo gramatical diferente em português, já que se estruturam de outro modo.
Por esse tipo de construção em português conter, além do elemento nominal clivado
‘o’, o elemento clivador ‘que’, como peças gramaticais, nessa língua configura-se uma construção clivada: como já se observou, há um elemento gramatical que faz que o elemento nominal fique em foco, diferentemente do que ocorre em inglês. É assim que, em inglês, tem- se uma construção considerada ‘pseudoclivada’, uma “clivada condensada”, na qual um elemento (pro)nominal ‘what’ condensa em si um elemento nominal clivado e um elemento gramatical clivador, não ficando explicitamente extraposto nenhum elemento. Assim, por serem gramaticalmente diferentes as construções em inglês e em português, há clivagem de diferente natureza em cada uma dessas duas línguas. De todo modo, pode-se entender que se tem o mesmo efeito de focalização nas duas diferentes construções.
Como se verifica, esse tipo de clivagem pode ser analisado por dois planos: a clivagem do ponto de vista da construção gramatical, do elemento alavancador (verifica-se o que ficou alavancado em termos gramaticais), e a clivagem do ponto de vista do efeito (verifica-se o que ficou alavancado em termos informativos). Assim, tem-se, sintaticamente, um expediente gramatical de alavancagem, e, pragmaticamente, o efeito informativo de foco. Com essa evidência de uma duplicidade de componentes a examinar, a análise de tradução efetua-se neste trabalho, verificando, primeiramente, a manutenção, ou não, do conteúdo informativo de clivagem e, em seguida, analisando os expedientes gramaticais de construção que conseguem obter efeito de focalização correspondente.
Na análise da tradução desse tipo de clivagem do inglês para o PB, verifica-se que o equivalente de tradução de ‘what’ é, realmente, ‘o que’. Essa correspondência significa que, ao fazer essa tradução mais transparente do ‘what’ e usar um ‘o que’, o tradutor, ao mesmo tempo que mantém absolutamente a construção inglesa em termos do que fica composto no todo informativo, automaticamente muda o expediente construcional da clivagem, fazendo uma construção de natureza gramatical diferente na língua de chegada. Isto é, ele mantém o mesmo efeito focal em PB, utilizando-se de uma construção que tem outra análise.
Na construção exemplificada acima, em inglês, a parte “What you are requesting” é o sujeito da outra oração, constituída pelo predicado “is carte blanche access”. Em
contrapartida, em PB tem-se uma oração adjetiva encaixada em outra (que tem sujeito e predicado): “O [que me pede] é um acesso com carta branca”. Porém a construção “*O é um acesso com carta branca” é agramatical, diferentemente de um caso em que fosse empregado o pronome ‘aquilo’, que resultaria em uma oração, como “Aquilo é um acesso com carta branca”, que pode ser entendida como “Aquilo [que me pede] é um acesso com carta branca”.
Na comparação das duas construções clivadas – uma formada com ‘o que’ e outra formada com ‘aquilo que’ –, verifica-se o mesmo expediente de clivagem, com a diferença de que a última apresenta “um termo complexo que contém um núcleo nominal geral, classificatório, de tipo substitutivo [...], seguido de uma oração relativa restritiva”33 (“Aquilo que me pede”).
Esse tipo de construção, embora com baixa frequência, foi encontrado no corpus, sendo exemplo “Aquilo [que tanto atrapalha o Robert] é o fato da rosa desabrochada fazer lembrar o órgão genital feminino” (construção traduzida de: What Robert is fumbling with is the fact that the blossoming flower resembles the female genitalia – cf. dado 122, quadro 32, apêndice B).
No geral, verifica-se que as chamadas wh-clefts encontradas no corpus em inglês mantiveram, no processo de tradução para o PB, o efeito focal da clivagem, porém com outra organização das peças, exatamente em razão do diferente sistema gramatical de cada língua.
Em princípio, essa problematização acerca das wh-clefts pode ser contestada com base no fato de que se poderia creditar a ‘o que’ o estatuto de construção cristalizada, equivalente a
‘what’ do inglês. Entretanto, como na gramática as categorias não se determinam estanquemente, há de se analisar o grau de gramaticalidade dessa construção. Não se está desconhecendo o fato de que o uso de ‘o que’ é similar ao de ‘quem’ (com a diferença de que o último é utilizado para traço +humano), porém, leva-se em conta aqui o grau de gramaticalidade. A expressão ‘o que’ não chega a se cristalizar como ‘what’, primeiramente, pela evidência física, concreta, ou seja, pelo fato de se ter duas palavras em vez de uma só, mas apenas essa evidência não é suficiente para explicar o caso. Invertendo-se a ordem da sentença citada acima, ocorreria a seguinte construção: ‘Um acesso com carta branca é o que você me pede’. Ao mudar-se a ordem da construção, deixa-se mais evidente que pode ser considerada a existência de duas palavras separadas, pois a análise sintática seria a seguinte:
‘Um acesso com carta branca é o/ que você me pede’ (em que a oração ‘que você me pede’ é uma oração subordinada adjetiva).
33 Original inglês: “a complex term containing a general, classificatory, almost dummy-like head nominal (such as thing, that, person, one), followed by a restrictive relative clause” (DIK, 1997, p. 293-294).
É evidente que existe um limite fluido de análise, pois, pela posição sintática original, fica evidenciada a condição única e amalgamada dos itens ‘o’ e ‘que’. Entretanto, se se inverter a construção, essa condição não é tão clara, porque a inversão resulta no outro tipo de clivagem estudado aqui: as reverse wh-clefts. De fato, o argumento de que ‘o que’ seria um elemento cristalizado é válido. Como a questão da amalgação das duas partículas é uma questão de gramaticalização – a representação em apenas 1 palavra é o ponto final da gramaticalização –, pode-se optar por analisar como um elemento só. No entanto, pela análise da inversão sintática, opta-se aqui por esse grau de interpretação, o de que seriam dois termos separados em português. Em inglês, what é claramente amalgamado, mas em português não se tem algo como ‘quem’ para traço não humano. 34
Essa análise efetuada sobre as wh-clefts que contêm o elemento clivador ‘what’ / ‘o que’ é mantida para as reverse wh-clefts que contêm o mesmo elemento clivador, visto que dispõem dos mesmos constituintes estruturais, mas com ordem de constituintes distinta. A construção (84) a seguir ilustra essa análise (cf. dado 63, quadro 14, apêndice A):
84: Both science and religion rejoiced in God’s symmetry . . . the endless contest of light and dark.” Langdon paused, stamping his feet to stay warm.
Kohler simply sat in his wheelchair and stared.
“Unfortunately,” Langdon added, “the unification of science and religion was not what the church wanted.
T: Tanto a ciência quanto a religião exultavam com a simetria de Deus, o infindável confronto da luz e das trevas. - Langdon fez uma pausa, batendo com os pés no chão para se aquecer.
Kohler permaneceu sentado em sua cadeira de rodas olhando para ele.
- Infelizmente - Langdon acrescentou -, a unificação da ciência e da religião não era o que a Igreja queria.
É válido ressaltar que, como já dito, se as construções em língua portuguesa contiverem um elemento clivador como ‘quem’, o sistema é o mesmo do da língua inglesa com who.