O processo eleitoral de Arthur Bernardes foi conturbado. Em julho de 1921, um mês após a indicação do presidente de Minas Gerais para disputar a sucessão do Executivo Federal, a revista de- clarou o seu apoio ao candidato. Nesse mesmo mês, Bernardes deu entrevista à Gil Blas e afirmou concordar com “o nacionalismo di-
74 Delamare, Alcebíades. Comunicado. GB, n.114, p.2, 14 abr. 1921.
75 Idem. O diretor de Gil Blas aos seus adversários. GB, n.137, p.1, 22 set. 1921.
76 A reação da “colônia”. GB, n.137, p.1, 22 set. 1921.
vulgado pela revista” e lutar “para que suas reivindicações venham se concretizar”; além disso, comprometeu-se a dar “continuidade às iniciativas do Governo Epitácio”.77 Delamare, por seu turno, apressou-se em anunciar que “ASN, Gil Blas e o povo vão apoiar Bernardes como apoiou Feijó, Floriano e Epitácio, os três maiores estadistas da nossa nacionalidade”. 78
A candidatura de Arthur Bernardes foi anunciada na Conven- ção de 8 de junho de 1921 e, além de ter o apoio de seu Estado, contava com a adesão de São Paulo e do presidente Epitácio Pes- soa.79 No dia 15 desse mesmo mês, grupos estaduais chamados dis- sidentes (Rio Grande do Sul, Bahia, Pernambuco e o estado do Rio de Janeiro) lançaram chapa de oposição, contendo o nome de Nilo Peçanha para Presidência da República e do baiano J. J. Seabra para vice. A coligação teve, ainda, o apoio das forças armadas, insatisfei- tas com a nomeação de Pandiá Cológeras e de Raul Soares para as pastas da Marinha e de Guerra, além de órgãos da imprensa como O Imparcial e o Correio da Manhã.
Esse grupo autodenominou-se Reação Republicana que, entre outras propostas, defendia a regeneração política e econômica do país, condenava o clientelismo, os poderes dos grandes estados e propunha a diversificação agrícola e o aumento da participação política das massas e combate ao analfabetismo. Por outro lado, mesmo afirmando ter um programa mais liberal, não mencionava nada sobre o voto secreto e apenas pedia mais autonomia para o
77 Bernardes apud Delamare, Alcebíades. Da liberdade ao Catete – O naciona- lismo e a opinião do presidente Bernardes. GB, n.129, p.1-3, 28 jul. 1921.
78 Delamare. Da liberdade ao Catete – O nacionalismo e a opinião do presidente Bernardes. GB, n.129, p.1-3, 28 jul. 1921.
79 “Em abril [de 1921] o candidato oficial foi praticamente imposto a Epitácio, que por essa razão abdicou do direito de escolher o vice-presidente” (Malin, 2001, p.629, grifo nosso). O apoio de Epitácio a Arthur Bernardes, segundo Laurita Gabaglia (1951, p.486) se deu muito mais pelo candidato ter sido escolhido “pelas forças políticas da nação, já que fora apoiado pela quase una- nimidade dos Estados”, do que por uma afinidade pessoal ou política, já que Epitácio “não era amigo pessoal de Bernardes”.
Legislativo e maior poder para o Exército.80 Duas estratégias polí- ticas marcaram a prática política da Reação Republicana: as propa- gandas eleitorais, baseadas em comícios populares, e a utilização da imprensa na campanha.
A imprensa desempenhou um papel de destaque nessa eleição, atacou o candidato da Convenção e o partidarismo do presidente Epitácio, estendendo críticas ao seu governo e fomentando a opo- sição entre o Executivo e o Exército. Mas a questão que marcou a disputa foi o “episódio das cartas falsas”, divisor de águas da campanha movida pela Reação Republicana e o acontecimento que contribuiu para conturbar o panorama político da época.
A publicação de duas cartas, entre os dias 9 e 10 de outubro de 1921, no Correio da Manhã, supostamente escritas por Arthur Bernardes a Raul Soares, tinha conteúdo duvidoso e visava deses- tabilizar a campanha da situação. O objetivo principal era minar as relações do Governo Federal e de seu candidato com a cúpula do Exército.
Forjadas por Oldemar Lacerda e Jacinto Guimarães, as cartas estavam em oferta desde o início do segundo semestre de 1921, o Correio da Manhã estampou em fac-símile uma delas, datada de 3 de junho e supostamente dirigida por Bernardes a Raul Soares (...) Depois de se referir a Hermes como esse sargentão sem com- postura, a carta dizia aos militares “esse canalha precisa de uma reprimenda para entrar na compostura” (...). No dia seguinte mais uma carta, chamando Nilo Peçanha de ”moleque capaz de tudo” e confessando a apropriação de dinheiros públicos de Minas Gerais, foi publicado no mesmo jornal. (Malin, 2001, p.630.)
Não por acaso o candidato Bernardes foi recepcionado com vaias no Rio de Janeiro, em 15 de outubro, no comício na Avenida Rio
80 “A Reação Republicana representou exatamente um momento de contesta- ção” da política dos governadores, “inaugurando um ciclo de questionamen- tos da ordem vigente”. Ver: Ferreira, 1993, p.7-10 e Rodrigues, 1997, p.49.
Branco. O episódio também respingou na administração de Epitá- cio Pessoa, nessa altura alvo de fortes críticas advindas da oposição.
A autenticidade das cartas foi negada e comprovada mais de uma vez, então o Clube Militar e Bernardes nomearam seus peritos.
Nesse momento, alas radicais do Exército clamavam por atitudes drásticas e a relação entre o Governo Federal e esse grupo se tornava cada vez mais delicada. No entanto, a afinidade da Reação Republi- cana com membros radicais do Exército fez que grupos conserva- dores se aproximassem de Arthur Bernardes, que simbolizava, no momento, a garantia da ordem, em face de um profetizado motim militar. Com o intuito de dar suporte à candidatura de Minas e defender o último ano da administração epitaciana, o grupo de Gil Blas lançou, em outubro de 1921, alguns dias após a publicação das “cartas falsas”, a Legião Republicana. Afirmava-se que era o “único partido político filiado a Gil Blas”81 e o “braço político”
da ASN.82 Na verdade, estava muito mais próxima de iniciativas como a Campanha Civilista (1909), a Reação Republicana (1921) e a Aliança Liberal (1929), que se caracterizavam “muito mais como um movimento de apoio a um determinado candidato do que um partido político de fato como conhecemos hoje” (Carone, 1973, p.314-5).83
Em entrevista publicada em Gil Blas, o secretário-geral José Júlio Soares afirmou que o principal objetivo do movimento “é prestigiar, nas urnas de 1o de março vindouro, o nome do preclaro mineiro” tendo “como compromisso apoiar Bernardes e se opor à Reação Republicana”.84 A Legião Republicana era composta por Alcebíades Delamare (diretor), José Júlio Soares (secretário-geral),
81 Nacionalismo e política. GB, n.145, p.3, 17 nov. 1921.
82 Legião Republicana. GB, n.151, capa, 29 dez. 1921.
83 Segundo Carone (op. cit., loc. cit.): “(...) o exclusivismo social e o regionalismo levam ao fracasso as tentativas de fundar partidos nacionais, aqueles que ten- tam organizar-se funcionam em bases pessoais, não sobrevivendo aos moti- vos aparentes de sua fundação (...) nascem nas vésperas da eleição e depois morrem”.
84 Soares, José Júlio. O que é a Legião Republicana?. GB, n.140, p.5, 13 out. 1921.
Virgílio Afrânio de Mello Franco (vice-diretor) e Alvim Ramos de Mello. Entre as propostas da Legião Republicana, algumas eram semelhantes às da Reação Republicana, como: o fim do analfabetis- mo, a diversificação da produção agrária e a extensão de direitos às massas populares e ao operariado, mas, diferente daquele progra- ma, era a favor de uma maior centralização política no Poder Exe- cutivo, além de incentivo à nacionalização da pesca, do comércio e do trabalho nacional. 85
Para se equiparar à estratégia política da Reação Republicana, a Legião Republicana organizou comícios nas ruas em apoio à eleição de Arthur Bernardes, organizados e com participação ativa de De- lamare e de José Júlio Soares, sempre com divulgação e transcrição dos pronunciamentos nas páginas de Gil Blas. Antes da confirma- ção da vitória do candidato mineiro, o periódico publicou carta de Arthur Bernardes a Delamare em que agradecia o apoio “do seu nacionalismo” por meio “da Legião Republicana”.86
Além da Legião Republicana, os católicos também apoiaram Bernardes. Jackson Figueiredo (apud Iglésias, 1971, p.151) justi- ficou sua posição ao afirmar que seria “inconcebível um católico revolucionário”.87 Nesse sentido, é emblemática a série de artigos que publicou em Gil Blas, no decorrer de dezembro de 1921, na qual criticou os católicos que apoiavam Nilo Peçanha.88 Em sua
85 Legião Republicana. GB, n.140, p.1, 13 out. 1921.
86 Bernardes, Arthur apud Gil Blas. A Legião Republicana e o momento político.
GB, n.158, p.10, 17 fev. 1922. Por meio de tais comícios criticou-se a Reação Republicana, acusando o movimento de “jogar o Exército contra Bernardes e de manipular as cartas falsas na imprensa”. Junior, Gomide. Confrontos. GB, n.145, p.9, 17 nov. 1921.
87 Francisco Iglésias (1971, p.151) afirma que nas campanhas políticas que Jack- son Figueiredo se “empenhou, o que ele via era o perigo de uma revolução.
Não era Arthur Bernardes ou Epitácio Pessoa que defendia”.
88 Conferir a série de Figueiredo, Jackson. Igreja e política. GB, n.147, p.2, 1o dez. 1921; GB, n.148, p.2, 8 dez. 1921; e GB, n.151, p.10, 29 dez. 1921.
O cônego foi denominado na revista como “advogado do diabo” por apoiar o político carioca e, para salientar que ele estava contra a cúpula do catolicismo, publicou uma extensa lista de nomes de bispos e arcebispos ligados à Igreja