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O psicometrista e matemático inglês Francis Galton, criador do termo “eugenia”29, que definiu como a ciência do aprimoramento das qualidades raciais humanas, tanto físicas, quanto psíquicas e morais, publicou em 1869 o livro Hereditary talent and genius, no qual defendia o ponto de vista de que a inteligência é essencialmente herdada e não tem origem nas condições ambientais. Parte dessa afirmação foi uma das conclusões da pesquisa que fez em 177 biografias, muitas delas de sua própria família. Seu primo, Charles Darwin, já havia publicado em 1858 o livro A origem das espécies (REIS, 1994, p. 40). Anteriormente, o Conde Joseph-Arthur Gobineau (que influenciou entre 1920 a 1937 os teóricos do nazismo Günther e Rosenberg) havia publicado, em 1854, quatro volumes do livro Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, onde iria defender a idéia da superioridade da raça ariana, que para ele, era a raça vencedora das lutas entre as raças, invocando as condições materiais dos brancos e sua posição na pirâmide social como prova de superioridade. Pensamento típico de uma Europa auto-referenciada.

A primeira sociedade européia a defender os ideais da eugenia foi a Eugenics Society de Londres, fundada em 1908. Na América Latina, os seguidores da eugenia tiveram grande participação na realização dos encontros pan-americanos científicos e sanitários nos primeiros quarenta anos do século passado, criando espaço para discussões sobre a eugenia de caráter internacional, como o Congresso Pan-americano de Eugenia, realizado em Cuba em 1927, o da Argentina, ocorrido em 1934, e o de Paris, em 1937 (STEPAN, 1990, p. 115).

Entre 1900 e 1940 foi o saber eugênico que estimulou os primeiros cursos de genética na América Latina. A ciência eugênica era tema freqüente em conferências, congressos e debates médico-legais. Sua diversidade de interesses era extensa, ia desde a política social nacional até as discussões sobre legislação relativa aos problemas da infância, da família, da saúde das mães, do controle de doenças infecciosas, imigração e identidade nacional.

No Brasil, o termo “eugenia” foi empregado pela primeira vez em 1914, na tese de Alexandre Tepedino, defendida na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Em 1918, o professor João Henrique publicou o artigo “Do conceito de eugenia no habitat brasileiro”, na revista semanal Brasil Médico, vinculada à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, iniciando o processo de disseminação da idéia da eugenia. Nesse artigo, João Henrique enfatizava a necessidade de controlar e vigiar com maior rigor os imigrantes que chegavam em nossos portos, pois eles eram apontados como os portadores das moléstias vindas de além- mar – “o mal que vinha de fora”. Essas doenças foram consideradas pelos médicos como as que mais possibilitavam a degeneração da raça humana. Foram as doenças mentais graves dos imigrantes que deram chance aos eugenistas da Liga Brasileira de Higiene Mental de poder pleitear exercer o controle migratório nacional. Para eles, a prevenção através de exames nos quais se podia evidenciar a sífilis, a tuberculose e o alcoolismo se tornou projeto com urgência a ser implantado.

A primeira organização eugênica no Brasil surgiu em janeiro de 1918, na cidade de São Paulo, após a Primeira Guerra Mundial, com sede na Sociedade de Cirurgia de São Paulo.

Um pouco antes, em 1917, Renato Kehl30 havia organizado um encontro médico no qual realizou uma conferência na Associação Cristã dos Moços, para debater três pontos

29 Que deriva do grego: eu = boa e genia = evolução, produção, origem.

30 Médico e farmacêutico, foi o maior divulgador da eugenia na primeira metade do século XX no Brasil. Em 1918 fundou a Sociedade Eugênica de São Paulo (SESP), a primeira na América Latina, e os Anais de Eugenia para divulgação e publicação de trabalhos. Com o fechamento do SESP, mais tarde Kehl ajudou a realizar o Primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia, em julho de 1929. Em janeiro de 1929 fundou o Instituto Brasileiro de Eugenia, que em 1931 passou a chamar-se Comissão Central Brasileira de Eugenia. Entre 1929 e 1933, foi diretor e editor do periódico mensal Boletim de Eugenia. Entre outras instituições, foi membro da Academia Nacional de Medicina, da Liga Brasileira de Higiene Mental, da Sociedade Mexicana de Eugenia e da Eugenics Society of London.

considerados como “pontos-chave” para uma iniciação à compreensão da eugenia: as idéias de Francis Galton sobre eugenia, os exames pré-nupciais e uma discussão sobre a revisão do código civil do casamento, que permitia casamentos consangüíneos no Brasil. Fortalecido com o sucesso desse encontro, Kehl enviou uma circular para médicos da cidade e do estado, propondo a criação de uma nova sociedade científica, a Sociedade de Eugenia de São Paulo.

Em 15 de janeiro de 1918, foi realizado o primeiro encontro dessa sociedade com a presença de cerca de 140 membros. A associação tinha como objetivos principais se estabelecer como centro de estudos para promoção de conferências e difundir a força física e moral do povo brasileiro. Para Kehl, a sociedade de eugenia (que durou somente até 1919) ajudaria o país a acompanhar os estudos e debates realizados na Europa, além de a pesquisa brasileira se juntar aos esforços de estudar a influência do meio ambiente, da hereditariedade, das condições econômicas, da legislação, dos costumes e hábitos do povo brasileiro (STEPAN, 1990, p. 110).

Nancy Leys Stepan, em seu estudo sobre a eugenia no Brasil, faz uma leitura positiva da eugenia, diferenciando-a da leitura de alguns autores que associam automaticamente a eugenia brasileira à política da eugenia alemã de influência nazista. A autora, em seu artigo sobre a eugenia no Brasil, vai delinear e realçar a importância do papel desempenhado pela eugenia na história moderna brasileira. Argumenta que o esquecimento dos historiadores da influência positiva da eugenia brasileira se deve à identificação automática entre eugenia e os excessos raciais cometidos pelo nazismo (a eugenia do tipo anglo-saxão) e pelo mito racial de aceitar com facilidade que, num país de população majoritariamente católica e racialmente mestiça, o racismo nunca chegou a se constituir como problema.

Stepan destaca quatro fatores como responsáveis pelo surgimento e ascensão da eugenia no Brasil. O primeiro é a participação brasileira do lado dos aliados na Primeira Guerra Mundial, em 1917, que coincidiu com o sentimento do brasileiro de se acreditar melhor. Esse sentimento deu origem ao novo nacionalismo brasileiro. Nesse período, na Europa pós-Primeira Guerra Mundial, acontecia praticamente o contrário: cresciam o medo e a ameaça da degeneração. No Brasil, para Stepan, a possibilidade de uma regeneração nacional acenava com uma atitude otimista em relação ao futuro do país: “Enquanto que na Europa a guerra intensificou o medo da degeneração nacional, no Brasil criou-se um novo otimismo, contrabalançando com o tradicional medo da decadência” (STEPAN, 1990, p.

112).

Nesse período, o saber eugênico ficou conhecido como a “ciência” que poderia levar ao sucesso a regeneração da identidade nacional e notavelmente poderia contribuir para uma

melhor constituição étnica do povo brasileiro. Segundo a autora, durante os anos 20, a eugenia era associada à idéia de patriotismo.

O segundo fator que facilitou a emergência da eugenia brasileira, de acordo com Eugenics in Brazil, é que ela foi uma maneira de responder à forte pressão nacional em relação à questão social dos pobres, que já naquela época mantinha a população trabalhadora na miséria. A situação da pobreza brasileira sempre serviu de exemplo para os cientistas europeus confirmarem o seu ponto de vista sobre a inferioridade da nação brasileira. A população negra, mestiça e de pobres brancos, analisada desse ponto de vista, era considerada preguiçosa, doente e viciada, quase imprestável para o trabalho, capaz de realizar violências e atos de covardia contra pessoas educadas, uma ameaça real à tranqüilidade da sociedade.

Essas pessoas eram consideradas malcriadas pelas elites econômicas , pois não respeitavam os códigos do casamento, sendo capazes de abandonar seus filhos à própria sorte no fundo de becos escuros e insalubres da cidade.

Essa população, após a abolição da escravatura, foi jogada num mercado de trabalho sem nenhuma educação, preparo ou recompensa pelos anos de trabalho escravo sem remuneração, num país que realizava sua urbanização. Ao mesmo tempo, lidava com os problemas ocasionados pela imigração de mão-de-obra européia, que além de doenças trouxe a “praga” de trabalhadores politizados e influenciados pelas idéias do socialismo e do anarquismo.

Pobreza, migração, imigração e desemprego, além de ameaçar à ordem social com greves, paralisações e protestos, resultaram em crescente violência urbana, criando necessidade para o Estado intervir na estruturação de uma relação menos tensa entre empregado e empregador. Segundo Stepan, enquanto a eugenia européia se constituiu como resposta à questão de que anos de legislação social não melhoraram a condição física, mental e moral do pobre, no Brasil as necessidades eram outras – a eugenia, segundo Stepan, foi associada com a introdução na legislação de assuntos de bem-estar social, tendo como objetivo melhorar o futuro da nação brasileira (STEPAN, 1990, p. 113).

O terceiro fator citado pela autora, que ajudou o desenvolvimento da eugenia, foi o estágio que a pesquisa científica encontrava-se no Brasil. Mais consumidor do que produtor, o círculo científico-intelectual entusiasmava-se prontamente por tudo aquilo que era visto como científico. Por causa disto, Stepan considera que a eugenia não foi relacionada por aqui, como na Inglaterra, aos controversos méritos da biometria e das leis de hereditariedade criadas pelo monge Johan Gregor Mendel fundador da genética, pois as universidades brasileiras não tinham um departamento de pesquisas científicas capacitados, ficando a pesquisa biológica

restrita a poucas escolas de medicina, aos institutos de agricultura e ao Instituto Oswaldo Cruz31.

O brasileiro associou a eugenia com a higiene pública, considerando-a parte do rol das bem-sucedidas medidas e campanhas sanitárias realizadas entre 1902 e 1917, contra a varíola, a peste e a febre amarela lideradas pelo Instituto Oswaldo Cruz. Esses sucessos serviram para expandir e integrar a medicina e concomitantemente aproximar o sanitarismo da organização de políticas estaduais e federais. Saúde tornou-se objetivo político, enquanto eugenia se tornou sinônimo de sinal de avanço cultural, atraindo médicos que ansiavam por estabelecer suas regras como peritos na formação da vida social e com um ingênuo otimismo sobre sua própria capacidade de realizar esse ideal.

O quarto e último fator, continuando a argumentação da autora, é o que diz respeito ao aparecimento da eugenia estar condicionado à situação racial. Na Primeira República, esse saber foi considerado excelente instrumento para o controle social e racial, visto ser considerado como a ciência que tinha condição de trazer uma melhoria de fato para a nação brasileira.

Desde a chegada da família real portuguesa no Brasil, em 1808, a questão racial se tornou importante problema para os destinos da nação e para o tão delicado tema da unidade nacional. Sem dúvida, a abolição da escravatura, a herança cultural dos negros e principalmente a xenofobia acabaram por chamar mais ainda a atenção para o problema da degeneração, levando a Primeira República a demandar um saber como a eugenia, que ajudaria alcançar a regeneração nacional.

Se a República Velha valeu-se num primeiro momento da estratégia de possibilitar a imigração do trabalhador europeu, com a finalidade de melhorar o capital racial da nação através da política de branqueamento, num segundo momento a eugenia vai aparecer como a ciência médica32 que diz possuir os instrumentos, o respaldo e os recursos científicos para uma melhoria da desordem racial que dificultava o projeto de identidade nacional republicana.

Dentro de um programa de antecipação aos sintomas da doença mental dos brasileiros e dentro de uma perspectiva de estar ligado ao espírito científico dos centros avançados, a eugenia se estabeleceu no Brasil nos primeiros anos do século XX. Considerada como a ciência do melhoramento social, pelo menos durante uns vinte anos, de 1920 a 1940, a

31 Naquele momento, o Instituto Oswaldo Cruz era reconhecido como pólo avançado de estudos e pesquisas, talvez o melhor centro de pesquisas médicas de doenças tropicais na América Latina.

32 O historiador Sidney Chalhoub se refere ao prestígio dos economistas de hoje, como semelhante ao dos médicos no início do século XX. Por causa desse prestígio, o discurso médico tinha pretensões, nesse período, de pressionar o Estado a fim de fazer reformas que a classe médica considerava como prioridade.

psiquiatria brasileira viu nela a forma científica de fazer um projeto nacional para transformar o país num país o mais racialmente saudável possível.

A eugenia ainda hoje é associada às extravagâncias e excessos do regime nazista. Com o olhar atento, pode-se observar que muitas das idéias sobre o desenvolvimento das modernas técnicas de diagnóstico genético, debates sobre os temas aborto, eutanásia e sobre a aids, são discutidos com base em pressupostos eugênicos apesar desse referencial geralmente nunca ser mencionado. Por causa de sua má fama, seu discurso não se faz nomear como eugênico.