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Anteriormente foi observado que um dos termos prediletos dos psiquiatras da Liga Brasileira de Higiene Mental em seus escritos era “sublimação”, sobretudo porque possibilitava uma interpretação de cunho sexual na qual o valor social era colocado acima das singularidades dos sujeitos e ao mesmo tempo permitia no plano individual amenizar as tensões psicológicas, como se pode observar no artigo intitulado “O alcoolismo – suas raízes psicológicas segundo a psicanálise”:

“Constituem-se, desse modo, as fixações da libido, sempre prontas a despontar no adulto; já agora, porém, em sua plena evidência de sexualidade, apenas mascaradas, ou, melhor, substituídas pelas sublimações que permitirão o esgotamento das tensões intrapsíquicas. Deste jeito, é contornada a angústia e a atividade substitutiva desenvolve-se deleitosa e avidamente” (AYROSA, 1934, p. 23).

A noção de sublimação se ajustava bem às explicações de uma forma de existência que afastava a sombra de um sexo mau e priorizava o coletivo, o trabalho, os atos altruísticos e a figura romântica do rebelde herói. O termo sublimação, utilizado por Freud a partir de 1905, é um processo psíquico que quer demonstrar que as atividades artísticas, esportivas e intelectuais aparentemente não mantêm nenhuma relação com a sexualidade mas que, apesar disso, são nela originadas e têm como objetivo, objetos socialmente valorizados.

O relatório apresentado por Ernani Lopes, denominado “Atos e Trabalhos” da Liga Brasileira de Higiene Mental (LOPES, 1929, p. 38), na última sessão de Assembléia Geral Ordinária, em março de 1929, quando cita a palestra de Júlio Porto Carrero realizada na Associação Brasileira de Educação, em 11 de maio de 1928, dá bem a dimensão do que se quer dizer no que tange à importância do aspecto sublimatório:

“Passa então a última parte de sua palestra, mostrando, antes de tudo, que a tendência sexual, quando não pode ser satisfeita, deve ser sublimada. Se o seu fim é o prazer, essa tendência pode ser derivada para os desportos, para a arte, para o estudo. A própria arte teatral, ou cinematográfica, pode fornecer ao rapaz uma fonte de prazer honesto. E o trabalho principalmente, o trabalho produtivo, vale pelo melhor meio de sublimação, esgotando todo esse anseio sexual que enerva e esgota os nossos rapazes”.

Pode-se perceber, a partir da pesquisa realizada nas revistas da Liga de Higiene, que da mesma forma que o conceito de sublimação se destacou entre outros termos psicanalíticos,

nos “anos dourados” da psicanálise o termo psicanalítico mais utilizado para explicar a etiologia da doença mental era o mecanismo psíquico da repressão. Se no capítulo anterior, para enfraquecer o livre arbítrio da sexualidade das famílias sem posses baseado na autoridade do pai, os psiquiatras da Liga queriam enquadrar o sexo num enfoque biológico dentro de normas de higienização e controle, em meados da segunda metade do século XX, a inquietação dos discursos em relação ao sexo passou por um processo de psicologização que encontra na operação psíquica da repressão sua referência. Doravante a repressão será vista como fazendo parte da cultura e não como um limite que, ao ser ultrapassado, levaria o indivíduo para o temível território da degeneração.

Portanto, a produção de novas subjetividades e alguns processos de singularização nas camadas médias urbanas acirraram a crise dos valores familiares patriarcais, determinando assim a procura de especialistas “psi”. Crise que se deve, na verdade, à necessidade do sistema em continuar exercendo controle, disciplinando, normatizando os sujeitos para melhor

“naturalizar” a dominação e submissão na divisão social do trabalho (COIMBRA, 1992, p.

76) e de criar novos nichos de consumo.

A sexualidade, tanto na questão da identidade nacional como na questão da modernização da forma de existência do brasileiro, adquiriu “cores” diferentes. Uma delas, a de cunho higiênico / profilático / biológico, quis circunscrever o sexo bom e seguro ao sexo realizado no quarto dos pais, enquanto a outra, a modernização, de cunho psicológico, veio para intervir e apaziguar a tensão existente no brasileiro entre o desejo de modernizar-se e o de pautar-se por valores tradicionais.

Com base em pesquisa realizada nas revistas da Liga Brasileira de Higiene Mental, os livros mais lidos e usados para confeccionar o discurso dos psiquiatras / psicanalistas na questão da sexualidade e da identidade nacional eram em sua maioria de Sigmund Freud, enquanto que inicialmente o discurso da psicanálise pós-institucionalizada voltou-se para as questões da modernização da subjetividade agenciadas pela leitura de Melaine Klein e seus seguidores. Emmanuel Tadei, em Arqueologia da psicanálise no Brasil, compartilha do mesmo ponto de vista:

“Enquanto o freudismo clássico foi importante nas discussões que giraram em torno de nossa identidade nacional e nos problemas relacionados à sexualidade, a escola inglesa vai atuar na questão subjetiva. A subjetividade será problematizada nesse período em função da busca insistente do progresso e da modernização do país” (TADEI, 2002, p. 305).

Por volta da década de 70, o desejo nos grandes centros de modernização, a melhoria do nível de vida da classe média a partir do milagre econômico, o aumento do número de faculdades e do número de cursos de psicologia, o movimento hyppie, a própria repressão e tortura dos presos políticos instalada pela ditadura militar e os movimentos culturais representados pelo cinema novo e pelo tropicalismo, abriram espaço para que o questionamento da repressão e do sexo se tornasse mais freqüente67.

A repressão do sexo, para os profissionais que trabalhavam em hospitais psiquiátricos e consultórios particulares “psi”, começou a ser questionada e adquirir perfil doentio, além do que denunciava no sujeito repressor uma forma de ser ultrapassada, desvalorizada, cafona, como se dizia à época. O machão, com seus valores morais e sociais, começou a sofrer as primeiras derrotas pelas chamadas minorias dentro do núcleo familiar. Concomitantemente, uma nova existência baseada no individualismo começava a despontar, enquanto a psicanálise, inserida na modernidade, é difundida como um saber que pensava a questão do modelo de promoção de civilidade.

Algumas novelas na televisão foram bastante influenciadas pela leitura psicanalítica, ora “traduzindo” para o público, através da exploração dos personagens e da história de temas psicanalíticos, como o complexo de Édipo, ora criando situações que levavam as pessoas a refletir sobre a repressão sexual e a autoridade paterna, ou mesmo difundindo a prática psicanalítica, focalizando os personagens das novelas freqüentando consultórios ou retratando sessões psicanalíticas.

O psicanalista Eduardo Mascarenhas foi um dos que mais divulgaram a psicanálise em jornais, revistas e rádio, tendo até durante uma temporada um programa na televisão. Maior divulgador no Rio de Janeiro da psicanálise nessa época, Mascarenhas participava de um programa na década de 80 na televisão cujo cenário era um consultório de psicanálise com direito a divã e meia-luz, que permitiam através da imagem e do ato discursivo, despertar no telespectador a curiosidade e a vontade de passar pela experiência psicanalítica. Peças de teatro, músicas, jornais, revistas, artes plásticas, poemas, fotonovelas e livros, de uma forma ou de outra, aderiram ao debate sobre a repressão do sexo. Acreditamos que a discussão da repressão da sexualidade foi favorável à difusão do tratamento psicanalítico.

67 O movimento do tropicalismo e cinema novo são movimentos culturais que, além de outras características, tentavam recuperar e preservar os valores da cultura brasileira defendidos já em 1922 pela Semana de Arte Moderna. Essa mesma linha foi seguida pelo lacanianismo em seu começo no Rio de Janeiro, introduzido por M.D. Magno e Betty Milan no Colégio Freudiano do Rio de Janeiro, em 1976, cuja formação somente foi sistematizada a partir de 1981.

A partir da ordem médica higiênica gerada na primeira metade do século XX, o bom casamento, o casamento saudável, o casamento higiênico vai passar a ficar subordinado à eficiência sexual ligada ao bom desempenho. O sexo legal, além de só poder ser praticado dentro do casamento (pois fora dele devia ser reprimido), transformou-se também em objeto de regulação médica. A repressão e o sexo acabaram por despertar a atenção para questões familiares. Questões que haviam há muito tempo adquirido importância fundamental na vida do sujeito. Família na qual o poder do pai ainda se fazia sentir e as singularidades não podiam sair das sombras.

No caso brasileiro, a psicanálise, após sua institucionalização, vai conseguir subordinar os discursos sobre a sexualidade ao seu ponto de vista68 e também vai favorecer a colocação da repressão sexual em debate que impulsionou a reflexão e a modernização69 das formas de subjetivação do brasileiro. Se, em termos de sua relação com a psiquiatria, uma das condições de implantação da psicanálise foi a aceitação do primado da sexualidade pelos psiquiatras como causa de doença mental, nos anos dourados essa questão não tinha mais pertinência, era ponto pacífico.