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A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER

No documento Direito Militar Brasileiro (páginas 104-108)

A violência contra a mulher, mesmo que tardiamente, se inseriu no amplo debate político-jurídico-social do país. Tamanha preocupação merece atenção por atingir, indistintamente, diversos ambientes familiares, independente de renda familiar ou grau de instrução. Assim, a violência contra a mulher tem que ser analisada sob o prisma da saúde pública, com reflexos também na violação aos direitos humanos.

Para se ter uma dimensão do problema, de acordo com o levantamento feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 263.067 casos de violência doméstica foram registrados no país no ano de 2018. Neste mesmo ano, também chama a atenção o número de mulheres vítimas do crime de feminicídio, cuja somatória representa o total de 1.026.

No Brasil, o marco jurídico mais relevante no combate à violência contra a mulher, sem dúvidas, é a Lei nº 11.340/06, sancionada em agosto de 2006, a famigerada Lei Maria da Penha. Contudo, não se pode falar do instrumento normativo em si sem antes abordar o contexto histórico que culminou na edição da citada norma.

Em 1994, o Brasil sediou o fórum internacional que aprovou a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher, também conhecida como Convenção de Belém do Pará (GUIMARÃES, 2009, p.

14). Apesar da aprovação da convenção, o Brasil, de imediato, não adotou ações políticas efetivas de combate à violência contra a mulher.

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Medidas concretas somente foram tomadas com a exposição do trágico evento envolvendo Maria da Penha Fernandes, ocorrido em 1983. Vítima de diversas agressões praticadas por seu próprio marido, incluindo uma tentativa de homicídio, Maria da Penha conseguiu sobreviver, todavia as lesões praticadas afetaram a sua mobilidade, deixando-a paraplégica.

O fato em questão demorou 15 anos para ser julgado pela justiça brasileira, motivo este que resultou no Relatório nº 54/2001, elaborado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, que entendeu pela responsabilidade do Estado Brasileiro por omissão, visto o não cumprimento do art. 7º da citada Convenção de Belém do Pará74.

Além deste dispositivo, o relatório indicou que o Brasil também não cumpriu os artigos 1º, 8º e 25 da Convenção Americana de Direitos Humanos que estabelecem os deveres dos Estados, as garantias judiciais e a proteção judicial.

Entre as recomendações do relatório estava a de “simplificar os procedimentos judiciais penais a fim de que possa ser reduzido o tempo processual, sem afetar direitos e garantias do devido processo legal”, assim como o “estabelecimento de formas alternativas às judiciais, rápidas e efetivas de solução de conflitos intrafamiliares, bem como de sensibilização com respeito à sua gravidade e às consequências penais que gera”.

A demora na positivação de medidas mais efetivas evidenciou que o Estado brasileiro não deu a atenção devida ao compromisso firmado na referida

74Os Estados Partes condenam todas as formas de violência contra a mulher e convêm em adotar, por todos os meios apropriados e sem demora, políticas destinadas a prevenir, punir e erradicar tal violência e a empenhar-se em:

a. abster-se de qualquer ato ou prática de violência contra a mulher e velar por que as autoridades, seus funcionários e pessoal, bem como agentes e instituições públicos ajam de conformidade com essa obrigação;

b. agir com o devido zelo para prevenir, investigar e punir a violência contra a mulher;

c. incorporar na sua legislação interna normas penais, civis, administrativas e de outra natureza, que sejam necessárias para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, bem como adotar as medidas administrativas adequadas que forem aplicáveis;

d. adotar medidas jurídicas que exijam do agressor que se abstenha de perseguir, intimidar e ameaçar a mulher ou de fazer uso de qualquer método que danifique ou ponha em perigo sua vida ou integridade ou danifique sua propriedade;

e. tomar todas as medidas adequadas, inclusive legislativ as, para modificar ou abolir leis e regulamentos vigentes ou modificar práticas jurídicas ou consuetudinárias que respaldem a persistência e a tolerância da violência contra a mulher;

f. estabelecer procedimentos jurídicos justos e eficazes para a mulher s ujeitada a violência, inclusive, entre outros, medidas de proteção, juízo oportuno e efetivo acesso a tais processos;

g. estabelecer mecanismos judiciais e administrativos necessários para assegurar que a mulher sujeitada a violência tenha efetivo acesso a restituição, reparação do dano e outros meios de compensação justos e eficazes;

h. adotar as medidas legislativas ou de outra natureza necessárias à vigência desta Convenção.

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convenção, desobedecendo, desta maneira, o preceito contido no art. 5º, § 2º da CF.

Diante do trágico ocorrido, Maria da Penha Fernandes tornou-se um símbolo da luta contra a violência contra a mulher, tendo o seu nome servindo de batismo da Lei nº 11.340/06.

2.1. A LEI MARIA DA PENHA – LEI Nº. 11.340 DE 07 DE AGOSTO DE 2006 A Lei Maria da Penha conseguiu proporcionar uma mudança na história de impunidade nos casos de violência contra a mulher. O primeiro dado relevante sobre essa norma é a penetração dela nas mais diversas camadas da população. Segundo pesquisa apoiada pela Campanha Compromisso e Atitude, em parceria com a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, 98% da população brasileira já ouviu falar na Lei Maria da Penha e 70% consideram que a mulher sofre mais violência dentro de casa do que em espaços públicos no Brasil. O dado em questão se mostra bastante positivo em face do pouco conhecimento que o povo brasileiro possui sobre as normas vigentes no país.

Com tamanha repercussão na sociedade, a sua edição completou o sistema de normatizações do programa constitucional de combate à violência doméstica, disposto no art. 226, §8º, da CF75. Antes, o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/90) e o Estatuto de Idoso (Lei nº 10.741/03) marcaram o início da positivação no ordenamento jurídico nacional.

Logo de pronto, a Lei Maria da Penha, conforme está previsto no art. 1º, apresenta como sua finalidade criar “mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher”, além de estabelecer “medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar”.

Estas finalidades são efetivadas, em especial, por meio de medidas que aproximam a mulher vítima de violência ao poder público. A implementação de atendimento policial especializado para as mulheres, em particular nas

75 Art.226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.

[...]

§ 8º. O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.

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Delegacias de Atendimento à Mulher, amplamente difundida no país, é um exemplo disso.

Na Bahia, de forma inovadora, a Polícia Militar (PMBA) criou a Ronda Maria da Penha quem tem por objetivo assistir, com a realização de visitas periódicas, mulheres vítimas de violência doméstica. O trabalho da PMBA, iniciado em 2015, já rende frutos positivos na vida das vítimas.

Além destas medidas de cunho policial, a Lei Maria da Penha, no art. 41, afasta a aplicação da Lei nº. 9.099/95, retirando os casos de violência contra a mulher da apreciação dos Juizados Especiais, independentemente da pena prevista para o crime praticado. O objetivo, neste caso, é não permitir que medidas brandas sejam tomadas contra os agressores, dificultando a reincidência do ato praticado.

O instrumento normativo também estabelece, nos art. 8º, 9º, 18, 22, 23 e 24, medidas protetivas a serem adotadas, a depender do caso concreto, visando proteger a integridade física e patrimonial da vítima. Para dar suporte aos procedimentos judiciais em questão, a lei indica a criação de varas especializadas de combate à violência doméstica que, certamente, proporciona maior efetividade aos enunciados normativos.

Assim, verifica-se que a Lei Maria da Penha inseriu no ordenamento jurídico uma nova política criminal, com efeitos diretos na lei penal e no processo penal, além de estabelecer medidas protetivas e de tratamento da mulher seviciada (GUIMARÃES, 2009, p. 22).

2.2. COMPETÊNCIA PARA JULGAMENTO

A violência doméstica praticada contra a mulher, conforme previsão da Lei nº 11.340/06, pode gerar efeitos tanto na esfera cível, quanto na esfera penal.

No primeiro caso, os processos se referem às medidas protetivas de urgência, visando salvaguardar bens jurídicos não abrigados pela norma repressora penal.

No que concerne à esfera penal, o Código de Processo Penal (CPP), como regra, fixa a competência para julgamento com base no local onde ocorreu o fato (art. 69 ao 91). Entretanto, independente do crime praticado, se exclui a competência dos juizados especiais, em razão da vedação contida na Lei Maria da Penha. Assim, os delitos desta natureza devem ser julgados nos Juizados Especializados de Violência Doméstica contra a Mulher, criados através da Lei

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nº 11.340/06, ou nas Varas Criminais nos locais onde não houver o juízo especializado.

Em contraponto a esta previsão normativa, na situação discutida neste trabalho, temos a justiça castrense, cuja competência está positivada no Código Penal Militar.

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