• Nenhum resultado encontrado

A VULNERABILIDADE DA POPULAÇÃO AFETADA

No documento Vanessa Cristina Bauer.pdf - Univali (páginas 76-84)

Nas políticas públicas, a questão da vulnerabilidade encontra previsão no inciso X, do art. 2º da Lei 12.187/2009, sendo considerado

[...] o grau de suscetibilidade e incapacidade de um sistema, em função de sua sensibilidade, capacidade de adaptação, e do caráter, magnitude e taxa de mudança e variação do clima a que está exposto, de lidar com os efeitos adversos da mudança do clima, entre os quais a variabilidade climática e os eventos extremos (BRASIL, 2009).

Por meio do conceito legal, pode-se observar que a vulnerabilidade se traduz na suscetibilidade ou na incapacidade de um sistema em lidar com os efeitos adversos da MC. Para Marandola Jr e Hogan (2006 apud ESTEVES, 2011, p.70), essa suscetibilidade ou incapacidade possui três elementos ou componentes, quais sejam, a exposição ao risco, a capacidade de reação e o grau de adaptação diante da materialização do risco. Ramires (2014), também discorre sobre estes três elementos, denominando-os: exposição, sensibilidade e capacidade de adaptação

No que diz respeito a essa categoria, perguntou-se aos entrevistados se a população que reside nos municípios que compõem a Bacia do Rio Itajaí, está mais vulnerável aos efeitos da mudança climática. Nas narrativas dos atores percebe-se a menção a alguns desses elementos.

Para três dos quatro entrevistados, a vulnerabilidade está relacionada à ocupação indevida do solo e das cidades que margeiam a Bacia. Assim, haja vista o crescente aumento das chuvas na região, os entrevistados apontaram que a população do Vale do Itajaí está mais exposta ao risco de desastres. Para uma entrevistada, a vulnerabilidade está vinculada à falta de capacidade da população em

absorver o desastre que está ocorrendo, só dando-se conta dele quando é tarde demais.

Já para a entrevistada E1, a vulnerabilidade da população do Vale do Itajaí ocorre em razão da incapacidade de reação ou falta de preparo para enfrentar o perigo de desastre, fato diretamente relacionado à sensibilidade. “Acredito que sim, nos aspectos das cheias, justamente quando altera muito rapidamente, as pessoas não estão preparadas para isso e ficam suscetíveis às cheias e aos deslizamentos.”

Considerando-se, mais uma vez, a abordagem sob o aspecto sociológico, pode- se dizer que as condições sociais dos moradores do Vale do Itajaí, de fato, podem aumentar o grau de sua vulnerabilidade à exposição e sensibilidade aos efeitos dos eventos climáticos. Para Mendonça (2004), esse contexto de vulnerabilidade envolve

“uma gama de implicações sociais, econômicas, tecnológicas, culturais, ambientais e políticas que estão diretamente vinculadas à condição de pobreza de representativa parcela da sociedade moderna”.

No que diz respeito especialmente ao aumento da vulnerabilidade e do risco causados pela mudança climática, para Guadiano et al. 2015:

Embora ninguém fique imune às suas consequências, os efeitos da mudança climática são diferenciados nas distintas regiões do mundo, onde são mais afetados os países tropicais e insulares, assim como as zonas costeiras. É fácil inferir que são mais vulneráveis aquelas populações que vivem em construções precárias em áreas de alto risco e que não contam com informações oportunas, nem as condições adequadas para se abrigar (alertas precoces, de evacuação, gestão de risco, locais para abrigo, etc.). (op. cit., p.

144, tradução da pesquisadora6)

Para E2, as características e a forma de ocupação da Bacia do Itajaí, aumentam a exposição da população ao risco e, portanto, torna-a mais vulnerável à ocorrência de desastres. Segundo ela

Bem! aí nós temos que pensar assim Vanessa. Nós estamos sempre trabalhando aqui num cenário (...). Nós estamos trabalhando numa perspectiva, eu diria assim, de num cenário de mudanças climáticas. Imagina, eu te coloquei aqui, isso em alguns trabalhos, que a previsão é de que aumente 40% no índice de precipitação na região sul do Brasil. Se isso se concretiza, esse cenário, nas próximas décadas, veja, nós já historicamente éramos uma área sujeita à riscos de inundação. Isto já historicamente, desde a fundação da cidade e toda a bacia do Itajaí, as cidades que foram

6 Aunque nadie permanecerá inmune a sus consecuencias, los efectos del cambio climático son diferenciales en las distintas regiones mundiales, en las que resultan más afectados los países tropicales e insulares, así como las zonas costeras. Es fácil inferir que son más vulnerables aquellas poblaciones que habitan en construcciones precarias en zonas de alto riesgo y que no cuentan con la información oportuna, ni las condiciones apropiadas para ponerse a resguardo (alertas tempranas, evacuación, gestión del riesgo, sitios de refugio, etc.).

construídas aqui, a gente se deparou com esse problema. Se nós temos um aumento no índice de pluviosidade, a tendência é de agravar muito mais esses riscos de desastres. Então, nós temos que trabalhar com esse cenário.

(E2, 2015).

Nesse sentido, E3, também expõe, muito nitidamente, essa concepção:

A pergunta já está feita de uma maneira que eu diria sim à mudança climática.

Eu não digo não à mudança climática, mas eu digo que a ocupação do solo é muito mais importante do que a mudança climática, no meu entender. E a população do vale, ela vai sofrer mais com aquilo que ela já...com a ocupação. (E3, 2015)

Interessante observar que as cidades desempenham um papel central na moderna discussão sobre os impactos da mudança climática. Para Ojima e Marandola Jr (2012), existe uma situação diferenciada, na qual os pequenos municípios possuem maior dificuldade de enfrentar os problemas decorrentes das catástrofes ambientais em razão das dificuldades financeiras, enquanto que os grandes municípios sofrem com o volume maior de pessoas atingidas pelos desastres.

Outro aspecto interessante e que merece destaque se refere à concentração populacional nas cidades e regiões costeiras (Figura 14), bem como a proporção populacional residente nessas áreas (Figura 15).

Figura 14: População residente nas regiões costeiras.

Fonte: IBGE, 2010.

10.793.041 5.982.774

10.488.777

40.618.629 15.726.656

3.418.242

14.360.332 3.097.429

1.977.949 8.653.921

0 20.000.000 40.000.000 60.000.000 Rio Grande do…

Santa Catarina Paraná São Paulo Rio de Janeiro Espirito Santo Bahia Alagoas Sergipe Pernambuco

Em Áreas Costeiras Total

Figura 15: Proporção populacional residente em Área Costeira.

Fonte: IBGE, 2010.

Os dados demonstrados nas figuras acima, apontam as condições de vulnerabilidade da população que vive em áreas costeiras em vários estados do país, e foram compilados dos Censos Demográficos dos anos de 1991 e 2000, do século XX e das Contagens da População (1996 e 2007), comparados à proporção de habitantes na zona costeira de cada estado e também, às densidades populacionais na escala municipal.

De fato, tanto a questão do aspecto físico da costa brasileira, e especialmente da foz da Bacia Hidrográfica do Rio Itajaí, em Santa Catarina, aliada à de ocupação desordenada do espaço territorial, desde a colonização da região no século XVII, contribuem para o aumento dos desastres decorrentes das cheias, conforme explica Ribeiro (1995, p. 25-26):

No entanto, a ‘cheia’ como desastre social só se verifica, quando intervém, em simultâneo, causas sistémicas: ocupação indevida de terrenos aluviares com edifícios, desvio arbitrário de cursos de água para irrigação de outros locais, impermeabilização de determinadas áreas com construção de infraestruturas diversas impedindo o escoamento normal das águas das chuvas, etc. Uma precipitação semelhante que ocorra em locais não habitados ou corretamente ordenados territorialmente não passará, com certeza, de um acontecimento sem qualquer nota digna de registro, para além da referência meteorológica7 em si.

Na figura abaixo, pode-se observar um exemplo de ocupação indevida do solo, com a construção de uma residência na cidade de Rio do Sul nas margens de um

7 Conservamos na citação a ortografia das palavras do autor no original, considerando as diferenças de grafia entre Portugal e Brasil.

Rio Grande do Sul Santa Catarina Paraná São Paulo Rio de Janeiro Espirito Santo Bahia Alagoas Sergipe

ribeirão. Observa-se que além da destruição da mata ciliar e desvio do curso natural do rio, a contenção da erosão e das inundações é realizada de forma improvisada, por meio de um “muro de contenção” erguido com pneus:

Figura 16: Vista de edificações implantadas junto ao curso do ribeirão, sujeitas a enxurradas.

Fonte: Defesa Civil de Rio do Sul.

A questão da ocupação territorial como sinônimo de vulnerabilidade, foi um aspecto importante trazido pela entrevistada E4, a qual apresenta uma interessante reflexão acerca da vulnerabilidade em diferentes regiões do Brasil. Para ela, mesmo com os problemas históricos enfrentados com as inundações, a população do Vale do Itajaí é menos vulnerável do que as populações de algumas regiões no Estado do Rio de Janeiro:

Mais vulnerável que quem? Que outras populações? Bom, considerando de forma geral, que o nosso índice de desenvolvimento social é melhor do que muitos lugares do país, ou seja, se a gente compara com as cidades do interior do Rio de Janeiro ou com lugares que eu vi muito vulneráveis no Rio de Janeiro. Eu andei lá, pelo interior. Nós estamos menos vulneráveis, porque lá, é mais casa amontoadinha em lugar mais inclinado. (E4, 2016)

Por certo que o índice de desenvolvimento econômico é um fator diferenciador no Vale do Itajaí, entretanto, é importante destacar que existem muitas áreas de alta vulnerabilidade, semelhantes aquelas situadas no Rio de Janeiro e mencionadas pela entrevistada E4, conforme pode ser visto nas figuras abaixo.

Figura 17: Vista das edificações de alta vulnerabilidade localizadas na borda da encosta.

Fonte: Defesa Civil de Rio do Sul.

Figura 18: Vista de edificação existente no setor, construída sobre a canalização da drenagem natural.

Fonte: Defesa Civil de Rio do Sul.

Tanto a fala quanto as imagens que selecionamos, demonstram que “[...]

ameaça só se converte em risco se a população afetada é vulnerável” (GAUDIANO, et. al, 2015, p. 145, tradução da pesquisadora8). Nessa mesma linha de raciocínio, Ojima e Marandola Jr (2012), esclarecem que a vulnerabilidade não pode ser

8 Una amenaza sólo se convierte en riesgo si la población afectada es vulnerable. Así, la vulnerabilidad está en relación directa con las condiciones físicas, económicas, políticas y sociales de una comunidade.

considerada apenas do ponto de vista da exposição ao risco (casas amontoadas em lugar inclinado, por exemplo), mas requer “[...] medidas que incorporem as heterogeneidades inerentes aos indivíduos, grupos familiares, bairros, cidades, regiões”. Os autores esclarecem que a exposição ao risco é um importante indicador, porém, a vulnerabilidade deve ir além de questões econômicas, ou atreladas às pessoas menos favorecidas economicamente.

Assim, Ojima e Marandola Jr (2012), esclarecem que a vulnerabilidade não pode ser considerada apenas do ponto de vista da exposição ao risco (casas amontoadas em lugar inclinado, por exemplo), mas requer “[...] medidas que incorporem as heterogeneidades inerentes aos indivíduos, aos grupos familiares, aos bairros, às cidades e às regiões”. Os autores esclarecem que a exposição ao risco é um importante indicador, porém, a vulnerabilidade deve ir além das questões apenas econômicas, ou atreladas às pessoas economicamente menos favorecidas.

Ojima (2012, p. 114) complementa muito bem essa análise:

Portanto, não bastaria apenas identificar populações em situação de risco ambiental a partir de sua proximidade com cursos d’agua, áreas sujeitas a escorregamentos ou inundações. Mas também mensurar a proximidade ou não destes ativos e políticas sociais que, de uma forma ou de outra, permitem caracterizar situações de menor vulnerabilidade social. Assim, as características individuais ou dos domicílios são estáticas e pouco descritivas nesse sentido, e preciso também inserir a população dentro do seu contexto.

Afinal, incorpora-se a dimensão ambiental de maneira contextual e geográfica, mas as dimensões sociais tendem a ser tratadas como aspectos do foro íntimo dos indivíduos, descontextualizados do seu entorno.

A dimensão social traz um importante elemento para a compreensão da vulnerabilidade do ponto de vista mais íntimo dos indivíduos, não importando as características do entorno onde vivem, conforme explica Ojima.

Nessa mesma direção, Gaudiano et. al, destacam a importância de “[...] transitar da administração dos desastres para a gestão da gestão de risco” (GARCÍA ACOSTA, 2005, apud GAUDIANO et al., 2015, p.145), para abordar os diferentes componentes e dimensões da vulnerabilidade que limitam os modos de vida, minam a autoproteção e estreitam uma intervenção social apropriada” (GAUDIANO et al., 2015, p. 145, tradução da pesquisadora9)

9 De ahí la importancia de transitar de la administración de los desastres a la gestión del riesgo (García Acosta, 2005), para encarar los distintos componentes y dimensiones de la vulnerabilidad que limitan los medios de vida, merman la autoprotección y acotan una intervención social apropiada.

Em seu artigo Paradojas de la sustentabilidad: ecológica versus social, Guillermo Foladori (2007) alerta para essa contradição apontada por Ojima (2012) entre a sustentabilidade ecológica e a sustentabilidade social. De acordo com o autor, o paradoxo da sustentabilidade ecológica versus a sustentabilidade social é impossível de ser resolvido dentro do regime capitalista de produção, pois esse modelo visa à acumulação de capital, ao individualismo e ao consumo, o que não condiz, definitivamente, com a equidade e a justiça social. Para ele “Somente a redução das forças do mercado, que também implicaria modificações nas relações de produção, poderia estabelecer uma relação mais equilibrada no seio da sociedade humana com a natureza externa” (FOLADORI, 2007, p. 29).

Ao analisar a vulnerabilidade da população, após o terremoto de 2010 no Haiti, Carr, Pluim e Théssé (2014), vão muito além das dimensões ecológica e social da sustentabilidade, e descrevem a vulnerabilidade como uma questão que envolve a própria democracia. Para esses autores:

[...] mudanças ambientais afetam as pessoas de formas diferentes, sendo inevitavelmente injustas, e denunciam a falta de oportunidade que alguns cidadãos vivenciam, o que torna alguns grupos sociais particularmente vulneráveis a desastres ambientais. (op. cit, 2014, p. 137)

Esse contexto apresentado pelos autores nos remete ao conceito de justiça ambiental, como representativa, uma vez que: “[...] a noção de cidadania está vinculada à questão do território, visto as desigualdades sociais frente aos riscos ambientais” (NÓBREGA, 2006, p.54).

Conforme o Manifesto de Lançamento da Rede Brasileira de Justiça Ambiental, entende-se por justiça ambiental10 o conjunto de princípios e práticas que:

a - asseguram que nenhum grupo social, seja ele étnico, racial ou de classe, suporte uma parcela desproporcional das consequências ambientais negativas de operações econômicas, de decisões políticas e de programas federais, estaduais, locais, assim como da ausência ou omissão de tais políticas;

b - asseguram acesso justo e equitativo, direto e indireto, aos recursos ambientais do país;

c - asseguram amplo acesso às informações relevantes sobre o uso dos recursos ambientais e a destinação de rejeitos e localização de fontes de riscos ambientais, bem como processos democráticos e participativos na definição de políticas, planos, programas e projetos que lhes dizem respeito;

d - favorecem a constituição de sujeitos coletivos de direitos, movimentos sociais e organizações populares para serem protagonistas na construção de modelos alternativos de desenvolvimento, que assegurem a democratização

10 Para um maior aprofundamento da gênese e evolução desse conceito ver especialmente o artigo de Acserlrad (2002) com o título Justiça Ambiental e Construção Social do Risco.

do acesso aos recursos ambientais e a sustentabilidade do seu uso. (BRASIL, 2001)

Assim, concordando com Nóbrega (2006, apud Ferreira, 2015, p. 153) reafirmo então que a informação sobre os problemas ambientais, riscos e vulnerabilidade a que estão expostos os indivíduos e comunidades são subsídios à prática da cidadania, uma vez que cada cidadão necessita da informação, tanto para o discurso quanto para a ação, em busca de justiça ambiental. Portanto, o direito à informação junto aos órgãos públicos através de interesses de uma dada coletividade constitui um direito tão importante quanto os demais devido à influência direta que este repercute na discussão crítica dos problemas vivenciados (NÓBREGA, 2006, p.56).

No documento Vanessa Cristina Bauer.pdf - Univali (páginas 76-84)