trabalho infantil. A despeito da redução das estatísticas, ainda existem no Brasil 4,8 milhões de crianças e adolescentes trabalhadoras, num contingente de 44,7 milhões, na faixa etária de 5 a 17 anos de idade (IBGE, 2008).
Enfim, essa realidade do trabalho, da renda, da pobreza e da desigualdade atinge diretamente a grande maioria das famílias brasileiras, constituindo portanto uma demanda desses grupos e certamente um enorme desafio no contexto das políticas e dos programas sociais.
Nesse sentido a assistência social, a saúde e a previdência passam a constituir uma unidade contraditória, no caso a própria seguridade.
Além do avanço das reformas de caráter liberal-privatizante, tem-se como obstáculo a cultura oligárquica, o conservantismo político, as práticas autoritárias do clientelismo e do corporativismo. Nesse sentido, é de suma importância o papel do Serviço Social no atendimento às famílias, no sentido de imprimir no contexto dos serviços, especialmente na Assistência Social, o caráter de direitos, desmontando a cultura do favor, da dádiva, do atendimento marcado pelo não direito, voltado para os pobres, vistos como sub-cidadãos. Essa é de fato a reforma de monta a que se propõe a LOAS. Nessa perspectiva, é indispensável no trabalho com famílias ou qualquer outro usuário a viabilização do acesso a serviços, promovida pelo Serviço Social, informando, encaminhando, acompanhando esses sujeitos que na maioria das vezes tem pouca ou nenhuma informação sobre seus direitos, além de pouca condição de vocalização de suas demandas. Nesse particular é importante esclarecer a necessidade desses serviços considerarem os interesses e as condições de vida dessas famílias.
Conjugalidade, Separação e Divórcio
As relações conjugais constituem também um aspecto muito importante no cotidiano dos grupos familiares, principalmente no tocante aos conflitos advindos da conjugalidade e suas interferências no interior da família e mais especificamente as conseqüências sofridas pelas crianças e adolescentes e ainda todas as dificuldades sofridas pelas mulheres, principalmente, quando são elas que freqüentemente assumem a maior parte da carga de responsabilidade no acompanhamento dos filhos, convivendo ou não com seus companheiros.
Os dados sobre separação e divórcio são muito escassos, considerando inclusive o fato de que muitas pessoas se unem fora dos padrões do casamento religioso/civil. Da mesma forma os casos de separação, que acontecem pelas vias de fato, sem necessariamente passarem pelo processo judicial, tendo em vista as dificuldades pertinentes ao trâmite, os desgastes e os parcos benefícios que as camadas pobres conseguem auferir dessas iniciativas. Apesar disso, o que não se pode negar é que as perdas afetivas, as separações trazem marcas para todos os membros da família, tanto materiais, se se leva em conta que as famílias pobres ficam mais vulneráveis nas situações de separação, mas, inclusive do ponto de vista afetivo, psicológico e mental. Trata-se portanto de uma demanda social das famílias, no sentido de superarem essas seqüelas advindas dessas experiências, algo que envolve adultos, crianças, jovens e idosos.
Álcool/Drogas
O consumo de álcool e outras drogas, a dependência química afeta também as famílias, não só entre os adolescentes e jovens, mas inclusive os adultos, chefes de família.
Segundo pesquisa do CEBRID (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), de 2005, o número de brasileiros, com idades entre 12 e 65 anos, dependentes de bebidas alcoólicas foi de 12,3%, o que corresponde à população de 5.799.005 pessoas. Os dados também indicaram aumento do consumo de álcool em faixas etárias cada vez mais precoces. Constatou-se também que o maior número de dependentes de bebidas alcoólicas, continua sendo do sexo masculino na faixa etária entre 18 e 24 anos, o percentual em 2005 foi de 27,4%, contra 23,7% em 2001.
Violência
A violência é outro problema muito presente, envolvendo crianças, adolescentes, jovens, idosos, mulheres, pessoas com deficiência, enfim, além de vitimizar muitos, ela se entranha de modo diverso, considerando os tipos, os modos, os graus e os agressores.
Trata-se de uma realidade que muito exige dos profissionais, das políticas. A problemática da violência atinge cada vez mais jovens que acabam tendo suas vidas ceifadas precocemente, sendo na atualidade uma questão de saúde pública quando responde, no Brasil, por 14,14% das causas de mortalidade, ocupando o 4º lugar no Brasil, em 2005. No Piauí, no mesmo ano, são 12,66%, estando em 3º lugar nas causas de morte ( 1º lugar as doenças do aparelho respiratório- 36,89%; 2º demais causas definidas – 19,02%; 3º causas externas – 12,66%; neoplasias – 11,72%; aparelho respiratório – 8, 28%) ( DATASUS, 2005).
Relação entre gerações
Destaca-se aqui a relação entre pais/filhos, a questão dos valores e da cultura, suas diferenças no interior das gerações, mas também a convivência entre jovens e idosos.
A problemática da cultura e dos valores é muito encontrada nas dinâmicas familiares, os adultos normalmente trazem suas experiências familiares de origem como referência para sua vida na família constituída, além de valores adquiridos na família constituída, com seus pares e novos valores que podem estar absorvendo. Esses valores interferem sobremaneira, por exemplo, na educação dos filhos. A idéia bastante presente é que esses adultos dizem criar seus filhos de acordo com a educação que recebeu de seus pais, o que gera um conflito de cultura enorme, quando se observa as mudanças, e suas respectivas
exigências de readaptação, se for o caso, inclusive porque muitos dos valores do passado são extremamente salutares e devem ser preservados, outros não, a bem da valorização de um lado das identidades, das raízes, e de outro dos ganhos que se tem em aderir ao novo.
Sobre a convivência com os idosos, esse tema é extremamente relevante nas famílias, de entender o papel dos idosos, sua importância, seus direitos e o respeito que lhe é devido. As famílias enfrentam hoje grandes desafios com suas crianças, adolescentes, jovens e ainda os idosos e as pessoas com deficiência, inclusive por conta de situações de violência no âmbito doméstico e familiar, envolvendo as relações intergeracionais.
Paternidade/Maternidade, relações de autoridade/afeto, demandas do processo educativo das crianças e adolescentes
Esse tema representa significativa demanda dos grupos familiares no sentido de lidarem com as exigências do processo educativo no espaço doméstico, nas experiências familiares. São diversos os desafios como: regras/limites, o diálogo, os afetos, a influência da escola, da Igreja, das turmas, da mídia, os conflitos dos adolescentes, seus projetos de vida, namoro, sexo, maternidade/paternidade precoce, drogas, violência, enfim, uma infinidade de responsabilidades dos pais frente à educação dos filhos, o que os colocam na condição de demandantes de apoio, de formação e orientação.
Proteção Primária, desafios e estratégias
As responsabilidades da família no sentido de garantir essa proteção primária são claras e irrefutáveis, inclusive porque a família é indubitavelmente uma instituição de socialização primária primordial, sendo ela o núcleo inicial responsável por esse processo.
No entanto, essas exigências freqüentemente ganham conteúdos estigmatizadores e punitivos, culpabilizando a família quando algo não dar certo. De acordo com pesquisa em andamento, intitulada Família e proteção social primária em situação de pobreza:
estratégias e desafios, coordenada por mim, identificou-se problemas vivenciados pelas mesmas no sentido de garantir a proteção primária. Nesse sentido, pode-se destacar dificuldades relacionadas tanto às condições materiais de sobrevivência, onde o problema do desemprego e da renda estão muito presentes no discurso das famílias, colocando para as mesmas vários desafios, apesar de que outras deficiências estão presentes como a questão da moradia e do acesso a serviços básicos em geral (saúde, educação, lazer).
Dentre as estratégias utilizadas as famílias apresentaram o recurso da economia, do controle, da negociação, do fiado, da compra através de fornecimento, mediante pagamento posterior, além dos empréstimos familiares, de amigos e vizinhos, acrescentando ainda a
importância das doações, no caso, mais especificamente, o peso das doações de roupas, sapatos, acessórios e alimentos, os últimos mais presentes em épocas como Natal e Semana Santa. Deve-se dar ênfase aqui na importância do sentimento de solidariedade familiar, incluindo a vizinhança, as redes de troca e ajuda mútua nas relações dessas famílias em situação de pobreza. Uma segunda dificuldade está relacionada à proteção primária no tocante ao acompanhamento e cuidado com os filhos, nas situações de doença, de dependência química, de uso freqüente de álcool, nos cuidados com filhos deficientes, nas questões com os idosos, na colocação e vivência de limites e afetos nas experiências familiares, neste particular a pesquisa vem apontando desafios presentes nos grupos de famílias no tocante a relações entre as gerações, as mudanças no processo educativo, o que constitui para os adultos um problema – das mudanças de conceitos e comportamentos na educação das crianças.
Para exemplificar essa realidade é importante transcrever aqui algo muito presente nas falas dos adultos ao fazerem referência às crianças: considerando todas as dificuldades de espaço e de condições para o lazer, para as brincadeiras, a rua passa a representar algo importante na socialização infanto-juvenil, mas, tendo em vista seus riscos e contradições, as famílias freqüentemente podam seus filhos no sentido de não permitirem sua permanência nesses espaços, provocando conflitos entre adultos, crianças e adolescentes, inclusive repercutindo no respeito às normas que são estabelecidas com base no que se diz “eu educo meus filhos como fui educada, conforme aprendi com meus pais”
(depoimento de um dos sujeitos). Essa situação retrata as dificuldades, os conflitos e desafios que enfrentam as famílias na premência e na responsabilidade de terem de proteger seus filhos em meio a muita insegurança social, ausência de políticas públicas e incertezas sociais e econômicas.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS: desafios para atuação do serviço social
- A desconstrução de preconceitos, mais especificamente na forma de ver a diversidade das estruturas familiares, principalmente no interior das ditas famílias empobrecidas, com cargas históricas de estigmas punitivos;
- O risco de se realizar junto aos grupos familiares um certo controle sobre a família, o discurso em torno da família pode trazer no seu núcleo essa perspectiva do controle quando ela ainda representa o lócus de reservas morais, depositária de valores de ordem, hierarquia e respeito;
- Risco de se colocar toda carga de esperança no trabalho com as famílias, mais especificamente nos programas de intervenção na pobreza, ou seja, “ocultamento das contradições da sociedade, os determinantes das desigualdades e da pobreza, além da
questão da consolidação de práticas que priorizem o trabalho psicossocial com fins à alteração do caráter dos indivíduos e a cultura das famílias” ou mesmo o vício de se entender a atenção à família como uma via de superação das expressões da questão social, ou seja, “uma conceituação da sociedade a partir de categorias despolitizadoras do real, donde a sua identificação com o território, a comunidade, a vizinhança e a família [...]
sociedade é como a reunião de comunidades e famílias, marcadas por situações singulares e localizadas” (MOTA, 2007);
- De outro lado desqualificar o trabalho com as famílias em face das questões estruturais da pobreza e das desigualdades, bem como da visão de que a família é instituição de dominação, não sendo importante definir seu lugar no interior do trabalho social, como outrora se pensou;
- Diante disso é importante nesse campo de trabalho identificar as demandas, as necessidades e as condições das famílias, de modo que os serviços favoreçam sua inserção nos mesmos.
Nesse sentido, no que diz respeito à da atenção à família, continuam duas preocupações, apresentadas por Mioto e Lima (2005): 1) a colocação da família na agenda pública, pelo governo, sociedade e movimentos e paradoxalmente a retração do Estado nas medidas de Políticas Sociais, em vista das propostas liberalizantes de ajuste do Estado ao capitalismo mundializado, conformando ações compensatórias e residuais; 2) a questão do desafio relativo “aos condicionamentos seculares que temos sobre como pensar a família, como analisar as suas relações com a sociedade e mesmo como tratar a família no âmbito das políticas sociais” (MIOTO; LIMA 2005, p. 2). Isso significa que os desafios são políticos, conceituais, metodológicos e técnicos.
Enfim, o trabalho com famílias é complexo e difícil uma vez que envolve questões de valores, de moral, por tratar-se de um grupo e não de indivíduos isolados, permeado por contradições, por mudanças históricas, sociais e demográficas, um grupo que abarca uma variedade de sujeitos, considerando gênero, idade, geração, conjugalidade, dentre outros, o que requer que repensemos a família na sua estrutura e nas suas funções, de modo a contribuirmos nesse processo de intervenção no âmbito das políticas sociais.
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