CONSTRUÇÃO DA USINA HIDRELÉTRICA FOZ DO CHAPECÓ
3. ACIDENTE DE TRABALHO AMPLIADO E DESASTRE: O CULMINAR DOS RISCOS
habitado, o trabalho vivido e as relações constituídas. Nas palavras de Fernandes (2019, p. 181):
Entende-se que o tema da saúde, no contexto do rompimento da bar- ragem, é complexo e envolve muitas dimensões nas relações com o desastre, desde análises químicas da lama e do ar, exames das dores físicas, mas também das dores sociais, como a perda da habitação, o rompimento de relações, o sentimento de desamparo, de medo e tris- teza agravados pela consciência de não direito à saúde.
Circunstanciar as condições de vulnerabilidades existentes pre- viamente, agravadas ou desencadeadas pelos desastres é fundamental para construir respostas adequadas e, essencialmente, preveni-los, uma vez que estão diretamente relacionadas com a propensão dessa popu- lação ou comunidade sofrer maior incidência tanto do desastre quanto mais impactos desses, além de ter interditada a possibilidade de reduzir riscos ou lograr recursos suficientes para enfrentar tais eventos. Em uma perspectiva socioambiental, as condições que engendram as vulnerabi- lidades estão diretamente vinculadas e, também são consequências, dos processos sociais, econômicos e das mudanças ambientais.
3. ACIDENTE DE TRABALHO AMPLIADO E DESASTRE: O CULMINAR
gos e ameaças sem precedentes. Especialmente pela transformação das forças produtivas, econômicas e tecnológicas advindas da moderniza- ção em uma extensão globalizada, o que atinge de maneira profunda as referências, seguranças e certezas que norteavam, até então, as vidas e as subjetividades.
Para o referido autor, há uma condição imposta, um processo de modernização que trouxe consigo não somente promessas de progres- so, liberdade e resolução de problemas, mas forjou incertezas por meio de suas forças destrutivas advindas da distribuição de riscos mundial- mente interconectados, que nos afetam. Isso tem paralelo direto com a concepção de Valencio (2009, 2020), da gama de eventos catastróficos que se mantém por meio da banalização da vida em solo brasileiro e da brutalidade dos agravos e mortes.
[...] que a vida cotidiana do homem comum pode ser desmantelada, de um instante para o outro, por ‘boas razões’. [...] das lógicas da acumu- lação privadas, dos prejuízos socializados, do aparato estatal seques- trado por interesses corporativos e das injustiças sociais perenizadas – é o que garante a recorrência da manifestação desses riscos como desastres (VALENCIO, 2020, p. 25, 30).
São ameaças e danos que não são passíveis de serem plenamente calculados e previsíveis, sofrendo um processo de invisibilização cotidia- na. Trata-se da “sociedade catastrófica” (BECK, 2010, p. 28). Convive-se diariamente com situações de ameaça mundial, consubstanciando-se em riscos civilizatórios em que não há a possibilidade de controle das consequências, as quais podem chegar à destruição da vida no planeta.
Sobre isso, Beck (2006) destaca três segmentos de perigo: crise ecoló- gica, crise financeira e o terrorismo. São riscos que remetem ao uso de materiais radioativos (como acidentes nucleares em vários locais do glo- bo terrestre), o desmatamento massivo em escala global, a insegurança alimentar (produtos geneticamente manipulados, cultivos com uso no- civo de agrotóxicos), poluentes disseminados na vida urbana e rural que atingem a fauna, flora e ser humano etc., violência generalizada – sendo muito desses danos irreversíveis.
As omissões, que vão da prevenção até o processo de resposta, reparação e reconstrução do cenário de impacto das catástrofes, pas- sam anteriormente pelas ameaças, riscos e perigos que foram anterior-
mente negados ou reinterpretados, ficando ao encargo dos especialistas para serem mensurados e dosados os efeitos colaterais da moderniza- ção e de seus processos industriais (BECK, 2010).
Becker (2010, p. 39), menciona a dimensão do risco como um “ain- da-não evento”. Isto é, embora não tenha ocorrido, por se tratar de uma previsão, diz de um prognóstico dos efeitos nefastos de ameaças imi- nentes, uma antecipação de destruições prestes a emergir em um futuro.
Tem-se uma díade real e irreal, pois na sociedade de risco há um para- doxo em que se pode legitimar tanto a sua existência, seja evitando-os seja admitindo-os e apenas distribuindo seletivamente seus efeitos – embora o autor reconheça o universalismo das ameaças decorrente dos riscos da modernização e seu processo industrial integrados em cadeias que ultrapassam as fronteiras. Isso não deixa de reiterar uma lógica de desigualdades sociais (disparidades de renda e poder, consumo, tempo de escolaridade, raça/etnia, gênero, geracional etc.), interferentes direta- mente nas possibilidades de lidar e intervir nos riscos.
Nesses termos, entendemos com Beck (2010) que o culminar de uma série de catástrofes não somente abala as certezas e crenças nos sistemas, perícias e instituições, mas trazem consequências de uma vida digna que não pôde ser vivida. Mesmo que as interpretações des- ses fenômenos venham travestidas por gramáticas distintas, recobertas de fórmulas e legendas, elas expressam tensões, distintas relações de poder, conflitos e interesses antagônicos entre os envolvidos. Todavia, o revés de sua materialização se localiza geograficamente, em territórios de vida encarnados em uma biografia construída em um tempo, espaço e lugar.
Tal proposição permite focar o sistema produtivo-econômico glo- bal e local. Freitas e Silva (2019), ao analisarem os acidentes de trabalho (AT) ampliados/desastres, como os de Mariana-MG e Brumadinho-MG, que envolviam o rompimento de barragens de rejeitos de mineração, descrevem uma sequência de falhas e anormalidades transformadas em normalidades no cotidiano da gestão dos riscos. Está em cena um jogo de instituições que mantém um sistema abstrato de confiança acerca dos perigos ocasionados por esses processos produtivos:
Um universo em que o Estado tem regulamentos, mas pouco ou nada regula, e em que empresas do universo de avaliações de riscos (VO- GBR and TÜV SÜD, nesses casos) contratadas pelas próprias empre- sas (Samarco e Vale SA) criadoras dos riscos atestam que essas estão
“seguras”. Nesse processo ocorre o gerenciamento artificial do risco [...]. Rompeu-se mais do que a barragem, mas também a confiança em todo o sistema de prevenção e controle de riscos de ATs e desastres em barragens de mineração (FREITAS; SILVA, 2019, p. 26, 28).
Constatamos uma realidade marcada pelo não controle, habita- da pela incerteza socialmente produzida e mantida por instituições pú- blicas, privadas e seus peritos. Entretanto, os riscos globais são distri- buídos localmente e incrementados de maneira desigual. Estes variam consonante à assimetria de poder, posição e estratos sociais da situ- ação geopolítica no hemisfério. Logo, as suas consequências também precisam ser compreendidas segundo o contexto histórico e geográfico, seus padrões culturais e ideário político-econômico. Para Beck (2010, p.
28), os riscos tornaram-se grandes negócios (“big business”), pois estão inseridos no modo de produção capitalista. Seguindo a mesma lógica, os riscos tornam-se também mercantilizados.
Para vislumbrar como isso é operacionalizado, acerca dos feixes de causas do rompimento de barragens, como na de minérios, recorre- mos à nominação que traduz a estreita relação entre acidente de tra- balho (ampliado) e desastre, abreviado como AT/desastre, conforme os pressupostos de Freitas e Silva (2019).
Dentre os AT ampliados, que podem envolver diferentes setores produtivos, assumem destaque os que englobam agentes químicos. Frei- tas, Porto e Minayo Gomez (1995), ao investigarem esses eventos (aci- dentes químicos ampliados), como problema relevante para a saúde pú- blica, trazem importantes elementos para focar o tema em questão. De modo geral, os acidentes ampliados, relacionados a diferentes ativida- des econômicas, possuem capacidade de desencadear múltiplos danos a partir de um único evento, causando mortes, doenças de trabalhadores e nas populações atingidas, mais os danos ambientais e materiais. Isso ocorre tanto por seus efeitos se estenderem para além dos locais ge- radores quanto por ultrapassar a delimitação inicial da ocorrência. Ou seja, seus efeitos perduram no tempo e no espaço, implicando múltiplos prejuízos às populações e ao meio ambiente expostos. Desse modo, há
duas grandes dificuldades a serem enfrentadas nesse cenário: estimar as consequências desses acidentes, uma vez que reportam a uma gama complexa de fatores, e formular estratégias efetivas de controle e pre- venção.
Os AT/desastres em 2015 (Samarco Mineração S.A., Mariana-MG) e 2019 (Vale S.A., Brumadinho-MG) são emblemáticos para retratar esse assunto. A origem do evento, que o caracteriza como AT, concerne ao processo produtivo, no caso a mineração e a disposição dos rejeitos. Tor- na-se AT ampliado, por seus impactos serem não somente intensivos e diretos sobre os trabalhadores e comunidades, como também extensivos (no espaço, tempo, irreversível e de difícil gestão) – haja vista que ge- rou contaminações, alterações ecológicas e danos para além do local de origem. E, por sua vez, desastre por produzir com magnitude perdas e danos materiais, econômicos, ambientais e humanos, ultrapassando a capacidade de resposta da comunidade, municípios e regiões atingidas (FREIRE, SILVA, 2019).
Pinheiro e Silva (2019) reiteram essa mesma análise2, categorizan- do o AT ampliado como eventos agudos que possuem origem no pro- cesso e organização do trabalho da empresa, onde seus impactos ultra- passam os limites físicos de responsabilidade do empreendimento. Os autores destacam o potencial danoso desses eventos, cujos impactos podem atingir tanto trabalhadores quanto pessoas e comunidades afe- tadas, gerando danos diversos, sofrimento, adoecimento imediatos e a longo prazo.
Nesse sentido, os AT ampliados e os desastres como um todo es- tão vinculados com o modelo político-econômico do país e sua inser- ção na divisão internacional do trabalho. Freitas, Porto e Minayo Gomez (1995) já alertavam que a concentração de riqueza, intensa exploração da mão de obra, o abandono e mesmo omissão do poder público, soma- dos ao baixo ou inexistente acesso aos bens e serviços básicos ampliam
2 Além de Pinheiro e Silva (2019) considerarem o desastre em Mariana-MG e Brumadinho-MG como AT ampliado, identificam-no também como químico, devido à lama tóxica oriunda do rejeito de miné- rios da empresa. No avanço da análise o denominam como Desastre Ampliado do Trabalho e tragédia ambiental. Dar visibilidade ao processo de trabalho e à dimensão produtiva permite compreender as determinações dessas catástrofes, seja para identificar e responsabilizar os agentes causadores desse evento seja para reparar os atingidos e evitar novos desastres no/pelo trabalho.
as situações de risco. Nas palavras dos autores: “[...] cabendo às popula- ções mais pobres dos países de economia periférica arcar com o ônus de suas vidas e saúde para sustentar um modelo econômico iníquo na sua natureza e dinâmica” (FREITAS; PORTO; MINAYO GOMEZ, 1995, p. 509).
Valencio (2009, 2020) reitera isso ao considerar a conjunção de fatores que impele ao desastre fruto da racionalidade predatória empre- sarial – mantida pelo modo de produção perverso e destrutivo de acu- mulação – produtora de iniquidades socioambientais. Pinheiro e Silva (2019), nessa linha, chamam a atenção que, para aprofundar o debate da questão ambiental é preciso considerar o mundo do trabalho e os agen- tes econômicos envolvidos.
O Estado mínimo aprofunda e mantém esse processo de ultra ex- ploração tanto por condições de trabalho cada vez mais inseguras quan- to pela descartabilidade humana. Esse cenário no Brasil é costumaz por não haver disposição para enfrentar as gêneses econômico-políticas dos desastres que resultam em contaminação, adoecimento e morte dos seres humanos e do meio ambiente.
Os distintos setores produtivos envolvendo as barragens reque- rem ainda em solo brasileiro não apenas uma discussão em termos de riscos, mas uma análise crítica e responsável desde a concepção desses empreendimentos, que por si só produz dramáticas mudanças de vida da população atingida e do ecossistema impactado. O desenvolvimen- to local, regional e nacional não pode estar dissociado da iminência de desastres e reparações a serem feitas por esses setores, bem como da necessidade de refutar o modelo desenvolvimento adotado no Brasil – acumulando riscos e perigos, bem como acirrando vulnerabilidades de populações e comunidades. Em suma, o Brasil convive de maneira as- cendente com a iminência da ocorrência de novos desastres envolvendo barragens, sem oferecer garantias de mitigação e compensação para as pessoas e ambientes em risco, como nos alerta Milanez e Wanderley (2020).
4. NARRATIVAS DISTORCIDAS E SILENCIADAS: UMA ESCUTA A SER