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AS MÚLTIPLAS EXPRESSÕES DOS DA- NOS E SOFRIMENTOS DOS ATINGIDOS

No documento Lorem ipsum e seus impactos psicossociais (páginas 175-178)

CONSTRUÇÃO DA USINA HIDRELÉTRICA FOZ DO CHAPECÓ

8. AS MÚLTIPLAS EXPRESSÕES DOS DA- NOS E SOFRIMENTOS DOS ATINGIDOS

PELA CONSTRUÇÃO DE BARRAGENS HIDRELÉTRICAS NA BACIA DO RIO URUGUAI

Carmem Regina Giongo Luíza Morem Rocha Jessica Mabel Soares Teixeira Menezes Jussara Maria Rosa Mendes

1. INTRODUÇÃO

O contexto de construção de barragens hidrelétricas no Brasil tem sido marcado por diversas violações de direitos humanos gerando im- portantes e, muitas vezes, irreversíveis danos à saúde das comunidades atingidas, além de impactos sociais, econômicos, ambientais e cultu- rais. Os estudos de caso e os levantamentos científicos realizados ao longo das últimas décadas comprovam e sistematizam estas violações, demonstrando que o progresso e o desenvolvimento prometidos pelos projetos hidrelétricos não chegam às pessoas que sofrem diretamente os danos causados pelas obras. No entanto, a construção de direitos e proteções das populações atingidas ainda caminha em passos curtos, tornando a indústria barrageira um dos principais instrumentos de injus- tiça social no contexto dos grandes empreendimentos de infraestrutura (GIONGO; MENDES; SANTOS, 2015).

No Brasil, nos últimos 50 anos, a política de geração de energia elétrica elegeu como alvo principal os recursos hídricos (ALVES; JUS- TO, 2011), fazendo com que os planos de desenvolvimento estivessem

diretamente relacionados à concepção e à implantação de grandes em- preendimentos de infraestrutura, como é o caso das hidrelétricas (BER- MANN, 2007; VAINER, 2008). Além disso, para inserir-se no regime de mundialização, o Brasil, assim como outros países em desenvolvimento, utilizou como estratégia a exploração de recursos naturais e a expor- tação de produtos de baixo valor agregado, que consomem energia em larga escala, como é o caso do alumínio, do aço, do cimento e do ferro (MAB, 2014), processo que resultou no aumento das desigualdades, dos impactos e dos riscos ambientais (ZHOURI, 2011).

No relacionamento entre o setor elétrico brasileiro e as comu- nidades atingidas pelas obras decorrentes, sempre prevaleceu o “fato consumado”, em que os benefícios econômicos se sobrepõem aos danos socioambientais provocados. Na prática, as populações atingidas têm suas bases materiais e culturais extintas, acompanhadas de reparos fi- nanceiros insuficientes ou de reassentamentos incapazes de assegurar as condições de vida e de trabalho anteriormente acessadas (BERMANN, 2007). A partir desse modo de relacionamento, os projetos que envolvem a construção de hidrelétricas têm se configurado como um espaço de luta e de violência. Entre as formas de agressão empregadas pela indús- tria barrageira podem ser citadas: a desqualificação das regiões visa- das pelos projetos hidrelétricos, considerando-as atrasadas (NOBREGA, 2011); a violação dos direitos humanos (PLATAFORMA DHESCA BRASIL, 2011); a falta de ressarcimento pelos danos provocados (VAINER, 2007) e a não consideração de populações deslocadas ou prejudicadas como atingidas pelos empreendimentos (VAINER, 2008).

Além disso, as perdas culturais e de vínculo com as comunidades também representam um fator importante de sofrimento entre as pesso- as atingidas. É comum que os núcleos comunitários se desfaçam e que parentes e vizinhos sejam separados, ora pelos reassentamentos locali- zados em diferentes regiões ora pela mudança inevitável de propriedade em função do alagamento dos territórios.

Frente a este cenário, o presente capítulo consolida parte dos re- sultados de diversos estudos desenvolvidos desde 2014 sobre as popu- lações atingidas pela construção de barragens hidrelétricas na bacia do

Rio Uruguai, localizada na região sul do Brasil. O trabalho teve início com a tese de doutorado intitulada Futuro roubado: banalização da injusti- ça e do sofrimento social e ambiental na construção de hidrelétricas, de autoria de Carmem Regina Giongo e orientação de Jussara Maria Rosa Mendes, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Psico- logia Social e Institucional da Universidade Federal do Rio Grande Sul. A pesquisa analisou a construção social da banalização da injustiça e do sofrimento vivenciado pelas populações atingidas pela construção de hidrelétricas e as interfaces deste processo com os modos de vida e de trabalho desses sujeitos. Posteriormente os projetos de pós-doutorado O sofrimento ambiental no contexto de construção de barragens hidrelé- tricas e O sofrimento social e ambiental no contexto de construção de barragens hidrelétricas e suas interfaces com a saúde aprofundaram os estudos já realizados, permitindo analisar as vivências de comunidades atingidas por outras obras da região.

As pesquisas têm investigado os contextos de três hidrelétricas situadas na bacia do Rio Uruguai: Hidrelétrica de Itá, Hidrelétrica Foz do Chapecó e Hidrelétrica Monjolinho. Na hidrelétrica de Itá foram realiza- das entrevistas com pessoas que vivem no entorno do reservatório, além de dois grupos focais com famílias reassentadas no Paraná na década de 1980 e 1990. Na hidrelétrica de Foz do Chapecó foram entrevistas famílias que vivem no entorno do reservatório, mas também aquelas que receberam cartas de créditos e passaram a residir em centros urbanos.

Na hidrelétrica de Monjolinho foram entrevistados integrantes de uma tribo indígena atingida pela obra. Ademais, participaram, da pesquisa integrantes do MAB (Movimento dos Atingidos por Barragens) que atu- aram e acompanharam o trabalho nesta região nos últimos vinte anos.

No total, participaram dos estudos 176 pessoas, entrevistadas entre os anos de 2016 e 2018. Neste capítulo serão compartilhados alguns relatos coletados, todos identificados com nomes fictícios, visando preservar a identidade dos entrevistados. Cabe destacar ainda, que todos os par- ticipantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido das referidas pesquisas.

Do ponto de vista teórico estes estudos têm sido fundamenta-

dos na perspectiva do sofrimento social e ambiental, pautando-se nos trabalhos de autores como Medina (2014), Auyero e Swistun (2009) e Furtos (2008). Auyero e Swistun (2009) conceituaram o sofrimento am- biental como um modo de sofrimento social, causado por ações poluido- ras ou que geram danos ao meio ambiente por atores concretos. Nesse processo, o sofrimento é percebido do ponto de vista individual por meio do corpo e da subjetividade, mas também do ponto de vista coletivo, afinal, as situações de sofrimento são tidas como construções sociais atreladas a contextos de injustiça praticada pelos grandes empreendi- mentos e também aos modos como os sujeitos vivem e compreendem sua dor e os elementos que a produzem. Diante disso, os autores refor- çam a necessidade de apresentar os indivíduos sofredores como pes- soas dignas de consideração por parte do poder público e da sociedade civil (AUYERO; SWISTUN, 2009; MEDINA, 2014).

No documento Lorem ipsum e seus impactos psicossociais (páginas 175-178)