O material recolhido foi analisado segundo a técnica de análise de conteúdo de Bardin (2016). Foi realizada análise categorial, identificando elementos em comum na fala dos participantes para posteriormente agrupá-los. O processo foi dividido em três etapas. Na primeira delas, chamada de pré-análise, houve a organização através de transcrição cautelosa, leitura e elaboração de indicadores que iriam fundamentar a interpretação. Na segunda etapa, chamada de exploração de material, os dados foram codificados a partir das unidades de registro. Na terceira, chamada de tratamento dos resultados e interpretação, houve a categorização, que consiste na classificação dos elementos segundo suas semelhanças e por diferenciação, com posterior reagrupamento, em função de características comuns (CAREGNATO e MUTTI, 2006, p. 683).
As respostas semelhantes foram aproximadas e relacionadas a três grandes grupos de funcionamentos básicos aqui também denominados: Equidade de acesso para a educação superior (Ingressar); Inclusão, representatividade e respeito (Pertencer); Vivência plena da experiência acadêmica (Permanecer). Após este primeiro agrupamento realizado a partir de uma leitura simples, percebemos que cada um deles se subdividia em funcionamentos básicos mais específicos, que foram saltando aos olhos após leitura criteriosa dos trabalhos, bem como na Revisão Integrativa. Depois de definidos os nomes e analisadas as entrevistas, conseguimos perceber com clareza situações que ampliam ou prejudicam estes funcionamentos básicos, alémde podermos realizar uma comparação criteriosa com o trabalho realizado anteriormente (Revisão Integrativa). Com este confronto de resultados, conseguimos avaliar quais funcionamentos são identificados quando tratamos dos estudantes que ingressam por cotas de modo mais geral e quais se sobressaem, de modo mais direcionado, nas vivências dos alunos do curso de Enfermagem da UERJ, afim de alcançar os objetivos desta pesquisa.
9 INICIANDO A PESQUISA
As informações sobre a pesquisa de campo foram dadas na metodologia. De todo modo, recapitulo fazendo um breve resumo. A princípio, preenchemos um quadro com dados sociodemográficos, depois seguimos para a evocação livre de palavras e, posteriormente, abrimos para um
questionário com 13 (treze) perguntas cuidadosamente elaboradas na intenção de entender as demandas desses alunos. Ao final, o espaço foiaberto para sugestões.
Como exposto anteriormente, através da Revisão Integrativa conseguimos identificar os funcionamentos básicos nos estudantes que ingressaram por cotas raciais de modo mais abrangente (em diversas regiões e universidades) já que, ainda que a busca tenha sido realizada utilizando termos como “Educação em Enfermagem” e “Curso de Enfermagem”, não foram apresentados trabalhos que relacionassem a colonialidade e as cotas sendo específicos desta área.
Percebendo esta escassez nos resultados, foi estruturado um conjunto de perguntas a serem compartilhadas com os alunos de Enfermagem da UERJ, na intenção de ter uma escuta mais atenta às questões individuais de um grupo mais restrito de pessoas para, assim, perceber com mais clareza pontos de realização e não realização desses estudantes, aqui sendo considerados os funcionamentos básicos, já que:
De acordo com esta perspectiva, o respeito a todo e qualquer indivíduo passa a ser interpretado como a consideração aos funcionamentos básicos de cada sistema funcional, os quais, por sua vez, poderão variar entre os diversos indivíduos e, em um mesmo indivíduo, entre momentos distintos de sua existência. Como funcionamentos básicos compreendendo as funções, ações ou capacidades que caracterizam e conferem identidade a cada sistema funcional (DIAS, 2019, 13).
Desse modo, foram realizadas entrevistas para ouvir e tentar compreender individualmente buscando pontos em comum neste recorte de curso e universidade para analisarmos se estes funcionamentos estão sendo ampliados ou prejudicados, contemplando ou não a ideia de Justiça.
A maior parte dos entrevistados demonstrou muito interesse em participar e se dedicou a trazer muitas lembranças, elogios à universidade e críticas a pontos bastante específicos da estrutura do curso de Enfermagem. Notou-se a compreensão da importância do estudo para uma melhoria no programa de cotas para as próximas turmas deste curso, muito pelo empenho e tempo dedicados às respostas, mas também por terem verbalizado a satisfação emparticipar.
Após primeiro contato com os dados coletados, assim como na Revisão Integrativa, ficou clara a divisão entre três funcionamentos básicos que tratam do Ingressar, Pertencer e Permanecer. Após tratamento desses dados, separação das respostas e agrupamento criterioso realizado através de elementos em comum, chegamos a uma separação dessas três categorias,
que subdividiram-se em funcionamentos básicos mais específicos, sendo 13 (treze)relacionados à experiência acadêmica de alunos que ingressam por cotas raciais de modo geral,e outros 5 (cinco) que percebemos especialmente afetados pelas particularidades do curso de Enfermagem de UERJ.
Quem são os entrevistados?
Idade Onde
mora/morava quando estudava
Ano de ingresso na UERJ
Tipo de cota Bolsa Conciliou
estudos e trabalho?
Distância faculdade/casa emkm
Ent 1 26 anos
Itaboraí/Olaria 2013 Racial/negro Bolsa permanência e de projeto de Extensão
Não 51,0 km/10 km
Ent 2 29 anos
Magé 2013 Racial/negro Bolsa permanência e de Iniciação Científica
Não 63,5 km
Ent 3 28 anos
Duque de Caxias
2014 Racial/negro Bolsa permanência e de projetos de Extensão
Não 24,4 km
Ent 4 28 anos
Bangu 2014 Racial/negro Bolsa permanência e de projeto de Extensão
Não 36,6 km
Ent 5 26 anos
Realengo 2021 Racial/negro Bolsa permanência Não 28,3 km
Ent 6 30 anos
Belford Roxo 2011 Racial/negro Bolsa permanência e de Iniciação Científica
Sim 35,4 km
Ent 7 21 anos
Santa Cruz 2018 Racial/negro Bolsa permanência e de projetos de Extensão
Não 61,1 km
Ent 8 30 anos
Duque de Caxias
2011 Racial/negro Bolsa permanência, Iniciação científica e de Extensão (essas últimas emperíodos diferentes)
Não 24,4 km
Ent 9 26 anos
Bangu 2017 Racial/negro Bolsa permanência e de Iniciação Científica
Não 36,6 km
Ent 10 21 anos
Cachambi 2021 Racial/negro Bolsa permanência Não 6,0 km
Ent 11 33 anos
Vila Isabel 2012 Racial/negro Bolsa permanência e de projetos de Extensão
Sim
Ent 12 29 anos
Itaboraí/
Praça da bandeira
2011 Racial/negro Bolsa permanência Não 51,0 km/4,9 km
Ent 13 26 anos
Jacarepaguá 2016 Racial/negro Bolsa permanência Não 26,0 km
Observações:
Entrevistada 1 mudou-se de Itaboraí para Olaria durante o curso em razão da distância. Uma amiga a convidou para ficar emsua casa.
Entrevistada 3 fazia trabalhos pontuais para acrescentar renda, mas não conseguia ter umemprego contínuo.
Entrevistada 12 se mudou de Itaboraí para a praça da Bandeira com a ajuda da bolsa.
A partir do oitavo período, todos os alunos recebem a bolsa do internato.
A fim de trazer uma breve abertura para a pesquisa de campo, foi utilizada a técnica de Evocação Livre, em que foi pedido que os entrevistados falassem as quatro primeiras palavras que viessem à cabeça relacionadas a terem entrado em uma universidade pública por meio da política afirmativa de cotas. Seguindo o passo a passo de Ferreira, Santos Júnior, Azevedo e Valverde (2004, p. 6) foram realizados: a) categorização das palavras; b) cálculo de frequência das categorias; c) cálculo da ordem média de evocação.
Um entrevistado disse apenas duas palavras e outros dois, disseram três. Desse modo, foram apresentadas 36 (trinta e seis) palavras positivas e 12 (doze) palavras negativas. Com relação à frequência, conquista apareceu duas vezes; desafio duas vezes; dificuldade três vezes, equidade três vezes; justiça três vezes; medo duas vezes e orgulho duas vezes. As demais palavras apareceram uma vez cada. Também é importante destacar que cinco falas foram iniciadas com palavras negativas e oito, com palavras positivas. Como abertura dessa pesquisa de campo, ressalta-se que, ainda que as entrevistas tragam lembranças de dificuldades enfrentadas durante a graduação, há no imaginário desses alunos uma maioria de ideias de conotação positiva a respeito do sistema de cotas ea respeito de ser umestudante universitário.