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8.3.1 A UNIVERSIDADE

A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) foi escolhida por ter sido a primeirainstituição pública de ensino de grande porte a adotar as ações afirmativas, primeiro para ex-alunos de escolas públicas e, logo depois, também para estudantes autodeclarados pretos e pardos.

A UERJ conta com 32 (trinta e dois) cursos de graduação que são ministrados em diferentes unidades acadêmicas, a saber, em São Gonçalo, Resende, Teresópolis, Petrópolis, Nova Friburgo, Duque de Caxias e Rio de Janeiro, além de duas unidades de Saúde: Hospital

Universitário Pedro Ernesto (HUPE) e a Policlínica Piquet Carneiro (PPC). A presente pesquisa se concentrará na unidade do Rio de Janeiro. A respeito da assistência estudantil, atualmente a universidade oferece Bolsas de Iniciação à Docência, Monitoria, Estágio Interno Complementar e Iniciação Científica, além de um suporte específico aos alunos cotistas pelo PROINICIAR (Programa de Iniciação Acadêmica).

A legislação a respeito das cotas da UERJ atualmente está balizada pela lei no 8.121/2018 (UERJ, 2020) que, além de prorrogar a reserva de vagas por 10 (dez) anos, inclui os quilombolas e passa a garantir a disponibilidade de vagas de estágio obrigatório e não obrigatório aos estudantes destinatários dela. Hoje, para se inscrever no vestibular através das cotas, o estudante precisa enviar cópia de documentos pessoais, de moradia e de renda, que não pode ultrapassar o valor de R$ 1.497,00 per capita (UERJ, 2020). Já a lei no 5.346/2008 reserva aos cotistas direitos como o Bolsa Permanência, aquisição de material didático e o passe livre universitário. Em razão da pandemia do novo corona vírus (COVID-19) e do advento das aulas emergenciais à distância, a universidade criou um Plano de Inclusão Digital que beneficia alunos cotistas com auxílio de R$600,00, a distribuição de até 12 mil chips com dados de internet e até 8 mil tablets para que possam acompanhar as aulas remotas (UERJ, 2020).

Não há espaço melhor para tratar de um assunto do que o ambiente que há mais tempo lida com os benefícios e com as dificuldades enfrentadas durante o percurso. A instituição é uma das que teve maior tempo para estruturar-se diante dessa nova realidade, de modo a ser o campo ideal para proporcionar umpanorama nítido a respeito das vivências e da funcionalidade dos programas oferecidos e seus impactos no dia a dia universitário e, consequentemente, na vida dos alunos.

8.3.2 O CURSO DE ENFERMAGEM DA UERJ

O curso escolhido para ser o foco desta pesquisa foi o curso de Enfermagem. Muito por aparecer em menor número nas pesquisas relacionadas ao objeto de estudo, mas também pelo próprio histórico da profissão que, no Brasil, enfrentou e enfrenta diversas marcas nos recortes de gênero e raça. Desde suas origens, quando era exercida por homens e mulheres – sem experiência em saúde – que auxiliavam os médicos; passando por sua associação aos

trabalhos domésticos, à subserviência e ao silêncio; atravessando o seu processo de feminização, de progressão para um curso de conhecimentos científicos, de exclusão de mulheres negras (FERREIRA e SALLES, 2019) até chegar ao momento hodierno em que elas representam a maioria dos profissionais da área, a Enfermagem passou por diversas transformações que fazem dela umobjeto interessante a ser analisado.

Na UERJ, essa história teve início em 1948, quando foi inaugurada a Escola de Enfermeiras Rachel Haddock Lobo, incorporada posteriormente – e não sem enfrentamentos e resistências – à então Universidade do Estado da Guanabara. Por não serem consideradas professoras, as enfermeiras não puderam assumir o cargo de diretoras da Escola, posto que foi ocupado por um professor catedrático médico de 1963 até 1971, quando a primeira enfermeira finalmente torna-se diretora (PIMENTEL e XAVIER, 2018, p. 2).

Hoje locado no município de Vila Isabel, o curso de Enfermagem da UERJ é ministrado emtempo integral e tem 57 (cinquenta e sete) disciplinas, totalizando uma carga horária de 5850 (cinco mil oitocentos e cinquenta horas). O currículo, que pode ser concluído em um mínimo de 9 (nove) e máximo de 14 (quatorze) períodos é dividido em três seções, sendo elas: Área 1 (Assistencial), Área 2 (Fundamental) e Área 3 (Bases Biológicas e Sociais) (UERJ, 2020).

8.3.3 OS PARTICIPANTES ENVOLVIDOS

Os participantes escolhidos foram alunos e ex-alunos que ingressaram no curso de Enfermagem da Universidade do Estado do Rio de Janeiro por meio das cotas raciais, totalizando 13 (treze) colaboradores – entre estudantes de diferentes períodos e já formados. O contato com eles se deu, primeiramente, por intermédio da orientadora do trabalho, Prof.ª Dr.ª Cristiane Amorim, durante suas aulas virtuais na graduação do curso de Enfermagem-UERJ, nas quais expliquei os objetivos do estudo e a forma de participação e foi indicado que os alunos interessados entrassem em contato comigo através de e-mail ou WhatsApp. Também houve a divulgação da pesquisa em grupos de estudo e grupos em redes sociais. Posteriormente, foi aplicado o método Bola de Neve para contato com novos participantes.

A execução da amostragem em bola de neve se constrói da seguinte maneira:

para o pontapé inicial, lança-se mão de documentos e/ou informantes-chaves, nomeados como sementes, a fim de localizar algumas pessoas com o perfil necessário para a pesquisa, dentro da população geral. Isso acontece porque uma amostra probabilística inicial é impossível ou impraticável, e assim as sementes ajudam o pesquisador a iniciar seus contatos e a tatear o grupo a ser pesquisado. Em seguida, solicita-se que as pessoas indicadas pelas sementes indiquem novos contatos com as características desejadas, a partir de sua própria rede pessoal, e assim sucessivamente e, dessa forma, o quadro de amostragem pode crescer a cada entrevista, caso seja do interesse do pesquisador. Eventualmente o quadro de amostragem torna-se saturado, ou seja, não há novos nomes oferecidos ou os nomes encontrados não trazem informações novas ao quadro de análise (VINUTO, 2014, 203).

Dessa forma, o trabalho foi apresentado de modo que os estudantes foram entrando em contato com a pesquisadora. O tempo entre o primeiro contato e a última entrevista realizada foi de sete meses, sendo esta etapa finalizada em fevereiro de 2022. Oito entrevistados entraram em contato direto e sete foram indicados por outros participantes. Desses sete, um não respondeu e outra, apesar de mostrar-se muito interessada a princípio, não manteve mais contatonos dias posteriores. Completamos, assim, o estudo com treze participantes, sendo um homem e doze mulheres; cinco que estão estudando atualmente na UERJ e oito que já se formaram. Houve a preocupação em conseguir o maior número possível de participantes durante o primeirocontato para evitar uma das fragilidades do método Bola de Neve: que poucos alunosindiquemoutras pessoas de seu próprio círculo social, o que poderia trazer respostas que viessem de realidades muito próximas. “O peso dessa limitação pode ser reduzido em ocasiõesem que há a possibilidade de obter sementes oriundas de redes diversas, aumentando a possibilidade de acessar redes diferentes e, consequentemente, narrativas mais plurais” (VINUTO, 2014, p. 207).

Dessa forma, quanto maior o número de alunos advindos do contatoinicial, maior o alcance de espaços e vivências diversas que atuarão como de ponto de partida para a ramificação de outras histórias

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