Os historiadores refutam as seguintes teses históricas de Vial: de que a polarização da política chilena foi produzida a partir dos anos 1960 com a implementação das planificações globais contra os agricultores e outros setores patronais vinculados à direita;
de que a violência foi introduzida no Chile a partir do guevarismo; de que a direita se polarizou a partir da “horrível perspectiva” do triunfo de Allende; de que as Forças Armadas eram legalistas, mas tiveram que intervir quando outros setores buscaram soluções de força para a crise; e, por último, o Manifesto denuncia a omissão do historiador Gonzalo Vial sobre o período posterior ao golpe e o “terrorismo de Estado” implementado pelas Forças Armadas para controlar a situação. De acordo com esses historiadores, as teses históricas de Gonzalo Vial se referem ao período que permite explicar e justificar o golpe de Estado de 1973. As teses estão feitas de forma a atribuir aos afetados pelo golpe a responsabilidade pela crise e o próprio golpe em si. De acordo com o Manifesto, “o estudo se aplica a um período parcial, para configurar uma verdade também parcial, que se liga, ao que tudo indica, a um interesse faccional” (GREZ; SALAZAR, 1999, p. 14).
As respostas desse grupo de historiadores às afirmações de Gonzalo Vial demonstram uma visão totalmente diferente sobre a história recente do Chile. Os historiadores se opõem a ideia de que existe no Chile uma tradição legalista, interrompida em 1960 com a radicalização dos setores populares através das planificações globais. De acordo com eles, a polarização política do início dos anos 1970 se deu não às mudanças promovidas desde 1964, mas a estagnação econômica e a crise social que se arrastava desde o início do século (GREZ; SALAZAR, 1999, p. 14). O Chile teria sido construído por um
“patriciado mercantil” (DAHÁS, 2015, p.)4 que não incluía as camadas populares e isso teria gerado o acirramento das tensões entre essas duas classes sociais. Outra tese refutada foi a da influência do guevarismo nas esquerdas chilenas. De acordo com os historiadores do Manifesto, a violência social e a radicalização política de uma parte da esquerda chilena se deve muito menos à influência do guevarismo, e mais à constatação do fracasso dos governos radicais5 no Chile e dos governos de Carlos Ibánez e Jorge Alessandri que reprimiram com violência os protestos sociais (GREZ; SALAZAR, 1999, p. 15). Sobre as reformas estruturais implantadas contra os grandes proprietários, de acordo com este grupo, estas foram uma tentativa de reverter o subdesenvolvimento do capitalismo e a exploração do trabalho (GREZ; SALAZAR, 1999, p. 15). A resistência à essas reformas não se iniciam com o governo de Allende, o que acontece é que a partir desse período se passa de uma resistência escrita e de não colaboração para a desestabilização da economia e do governo, com o apoio dos Estados Unidos (GREZ; SALAZAR, 1999, p. 15). Por último, eles refutam a ideia de que as forças armadas interviram para a reunificação nacional. De acordo com o Manifesto, a intervenção feita em 1973 visava destruir o poder político da esquerda e do centro (GREZ;
SALAZAR, 1999, p. 16).
O Manifesto recebeu a adesão de mais 70 intelectuais até 18 de maio de 1999 e de diversas organizações estudantis. Além disso, recebe apoio internacional com a “Carta de adesão norteamericana ao Manifesto de Historiadores chilenos” (GREZ; SALAZAR, 1999, p.
39), assinada por 36 doutores em História que criticam a posição oficial do departamento de estado norte-americano sobre o caso da prisão de Pinochet em Londres e ressaltam a importância histórica dos estudos sobre a interferência dos EUA no golpe chileno.
O historiador Gonzalo Vial respondeu ao Manifesto, acusando os historiadores de estarem propagando um “cientificismo de esquerda” e defendendo-se das acusações a partir do seu papel desempenhado na Comissão da Verdade do Chile. De acordo com Gonzalo, nenhum outro historiador chileno contribuiu mais para o esclarecimento da verdade sobre os crimes perpetrados no período ditatorial quanto ele. Gonzalo afirma ainda que caberia a um historiador conservador o “trabalho pesado” sobre a história chilena, enquanto os historiadores de esquerda estariam vagando no “leviano ar das generalizações”. Diversos historiadores se pronunciaram depois da resposta de Vial e a maior parte dos artigos e
4 SALAZAR, Gabriel. Dolencias históricas de la memoria ciudadana (Chile, 1810-2010). Santiago, 2013 apud DAHÁS, Nashla, As esquerdas radicais no Brasil e no Chile: pensamento político, história e memória nos anos de 1960 e 1970, 2015
reflexões que surgiram deste debate estão reunidos no livro “Manifesto de Historiadores”
compilado por Sergio Grez e Gabriel Salazar. Essas reflexões destacam a perseguição sofridas por diversos historiadores durante a Ditadura Militar e os diversos trabalhos desenvolvidos em História ao longo dos últimos anos no Chile.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Depois da publicação do Manifesto de Historiadores em 1999, mais dois manifestos foram publicados. Um em 2004 sobre os debates em torno da Comisión Valech, como ficou conhecida a Comisión de Prisión Política y Tortura, criada no mesmo ano por Ricardo Lagos para investigar crimes que haviam ficado de fora da primeira comissão da verdade, de 1990.
E o outro em 2007, que trata mais especificamente da figura do ex-ditador Augusto Pinochet, logo após a sua morte, em 10 de dezembro de 2006. Esses outros dois manifestos, porém, não tiveram a mesma repercussão que o primeiro, ainda que tenham conseguido uma longa lista de adesão. Porém, eles colocam em questão o papel do historiador frente à memória de períodos traumáticos. Segundo o historiador Sergio Grez,
El historiador no es solamente un personaje que estudia un pasado muerto, que no tiene nada que ver con el presente y con el devenir cotidiano de los ciudadanos, sino que es una persona que debe estar -a nuestro juicio- comprometida con los problemas de su tiempo presente.6
Justamente porque não está alheio às demandas do presente, o historiador interfere com seu trabalho na disputa de memória em torno do passado, mostrando como a historiografia pode funcionar como “fonte produtora (e legitimadora) de memórias e tradições” (CATROGA, 2015, p. 50). Recuperar o debate entre os historiadores que assinaram o Manifesto em 1999 e o historiador Gonzalo Vial nos permite não só entender a disputa de narrativas sobre o golpe de 1973 no Chile, mas os diversos papeis que o historiador pode assumir frente à sociedade.
REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
6 Disponível em: http://www.uchile.cl/noticias/40867/historiadores-presentan-manifiesto-sobre-juicio-a-la-
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Santiago, 2013 apud DAHÁS, Nashla, As esquerdas radicais no Brasil e no Chile: pensamento político, história e memória nos anos de 1960 e 1970, 2015. Tese (Doutorado em História Social) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2015,
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FONTES
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<http://www.theclinic.cl/2013/09/03/carta-a-los-chilenos-las-emotivas-palabras-que- augusto-pinochet-escribio-desde-su-prision-en-londres/> Último acesso em 20/04/2020.
GONZALO VIAL. La violencia pone a Chile al borde de la guerra civil, Fascículos de Historia, La Segunda, 1998-1999. Consultados a partir do acervo da Biblioteca Nacional Chilena.
GREZ, Sergio e SALAZAR, Gabriel. Manifiesto de Historiadores. Santiago: LOM Ediciones, 1999.
Recebido em: 20/04/2020 Aprovado em: 14/06/2020
A cultura brasileira na síntese de Fernando de Azevedo
Brazilian culture in the synthesis by Fernando de Azevedo.
GOMES, Wilson de Sousa*
https://orcid.org/0000-0003-4073-8571
RESUMO: O texto tem como proposta contribuir com os debates acerca da interpretação do Brasil e/ou identidade nacional. Toma como fonte/documento principal, a obra: “A Cultura Brasileira” (2010) publicada em 1943. O objeto é a explicação e descrição que Fernando de Azevedo desenvolveu em seu livro, no que refere a aplicação da história enquanto conhecimento.
Compreender esse aspecto, possibilita uma leitura de como um intelectual organiza e dá sentido histórico ao mundo e as coisas da vida.
Adotando uma metodologia que tem a interpretação bibliográfica como base, a problemática centra em contar/narra, um pouco da análise que o sociólogo faz, para que a cultura brasileira seja uma síntese reveladora do Brasil aos brasileiros. Logo, o objetivo é apresentar algumas reflexões sobre autor e obra, compreendendo como o pensador em questão, via o Brasil do início do século XX. De forma geral, acredito que essa temática contribui com a sociedade e as demandas do tempo presente.
Palavras-chave: Fernando de Azevedo;
Cultura Brasileira; História.
* Mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC/GO (2015). Doutorando em História Universidade Federal de Goiás - UFG. Docente de Teoria e Metodologia da História na Universidade Estadual ABSTRACT: The text aims to contribute to debates about the interpretation of Brazil and / or national identity. It takes as its main source / document, the work: “A Cultura Brasileira” (2010) published in 1943. The object is the explanation and description that Fernando de Azevedo developed in his book, regarding the application of history as knowledge. Understanding this aspect makes it possible to read how an intellectual organizes and gives historical meaning to the world and the things in life. Adopting a methodology based on bibliographic interpretation, the problem centers on counting / narrating, a little of the analysis that the sociologist does, so that Brazilian culture is a revealing synthesis of Brazil to Brazilians. Therefore, the objective is to present some reflections on the author and work, understanding how the thinker in question saw Brazil at the beginning of the 20th century. In general, I believe that this theme contributes to society and the demands of the present time.
Keywords: Fernando de Azevedo; Brazilian culture; History.
INTRODUÇÃO
O sociólogo e educador Fernando de Azevedo, desenvolve uma teoria de Brasil que pode ser vista como uma interpretação da cultura nacional. Conhecido por sua produção e atuação no campo educacional, não negamos esse fato, porém, se estabelece um recorte temático que narra o uso do passado e a estratégia que o autor aplica, na explicação e compreensão da cultura brasileira. Na defesa da importância de se conhecer a vida e trajetória do pensador, antes de entrar na obra, recorre - se Academia Brasileira de Letras para conhecer melhor o intelectual. Inclusive, nessa instituição em que o autor foi o terceiro ocupante da cadeira 14, há a seguinte biografia:
Fernando de Azevedo, professor, educador, crítico, ensaísta e sociólogo, nasceu em São Gonçalo do Sapucaí, MG, em 2 de abril de 1894, e faleceu em São Paulo, SP, em 18 de setembro de 1974. [...] cursou o ginasial no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo. Durante cinco anos fez cursos especiais de letras clássicas, língua e literatura grega e latina, de poética e retórica; e, em seguida, cursou Ciências Jurídicas e Sociais na Faculdade de Direito de São Paulo. Aos 22 anos, professor substituto de latim e psicologia no Ginásio do Estado em Belo Horizonte; de latim e literatura na Escola Normal de São Paulo; de sociologia educacional no Instituto de Educação da Universidade de São Paulo; catedrático do Departamento de Sociologia e Antropologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.
Professor emérito da referida faculdade da USP1.
Como pesquisador e escritor, viveu mergulhado na cultura clássica. Enquanto intelectual que pensou a sociedade brasileira, teve suas reflexões, proposições e afirmativas, ancoradas em autores gregos e latinos. De sólida formação, dominava o latim e tentou dialogar e conciliar a tradição filosófica clássica com o pensamento moderno. Ao apropriar de pensadores, estudou pensadores da França, Alemanha e Estados Unidos. Em seus livros, se ocupava desde a decadência da moral romana, aos problemas da educação, sociedade e cultura brasileira. Dos intelectuais nacionais é possível destacar Machado de Assis, Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Capistrano de Abreu, Manuel Bomfim, Pedro Calmon, Joaquim Nabuco e outros.
Todo esse contato e leitura, lhe trouxe uma percepção holística da história da cultura nacional. No campo bibliográfico, as suas análises estão voltadas para a “realidade
1 Academia Brasileira de Letras. Biografia [de Fernando de Azevedo]. Disponível em:
social brasileira”. As explicações e propostas sobre essa sociedade e cultura, em toda a sua complexidade, podem ser destacadas nas seguintes obras:
As ciências no Brasil ([1955]) A Cultura Brasileira (1943); A cidade e o campo na civilização industrial (1962); Da educação física ([1915]); A educação entre dois mundos (1958); Canaviais e engenhos na vida política do Brasil ([1948]); Novos caminhos e novos fins ([1932]); Princípios de Sociologia ([1935]); Sociologia educacional ([1940]) e Um trem corre para o oeste (1950) (NASCIMENTO, 2012, p. 178).
Elegendo como fonte/documento principal, o livro: “A Cultura Brasileira” (2010)2 publicada pela primeira vez em 1943. Percebo que Fernando de Azevedo, usa do passado para estruturar sua obra de caráter sintético, monumental e historiográfica.
Compreendendo que os conceitos e categorias aplicados a história da cultura nacional buscam atribuir sentido ao tempo em orientações que conscientizam e reforçam a identidade nacional (BAROM e CERRI, 2012, p. 1002). De modo implícito, mas possível, fica a leitura de como um intelectual organiza e dá sentido histórico ao mundo e as coisas da vida.
Adotando uma abordagem que se preocupa mais em descrever e explicar, embora sem abrir mão de documentos que cercam o objeto, Fernando de Azevedo usa da síntese para reunir os temas essenciais sobre a história da cultua brasileira.
Segundo o autor, ao invés de concentrar seus esforços em obra de “detalhe”, opta pela síntese que, por mais fragilidades que possa conter, reúne o essencial atacando diretamente a problemática: a importância da cultura brasileira na formação e mudança da identidade nacional. Com essa proposição, a estratégia é buscar equilíbrio e conciliar as forças antagônicas” na ideia de ‘consenso’. Essa seria responsável por “não suscitar contradições entre os discursos: funcionalista (de Malinowski), racialista (de Romero e Vianna) e culturalista (de Boas e Freyre)”. E sim, “explorar possíveis convergências na construção de um país marcado por disparidades sociais e físicas, fornecendo-lhe um lugar singular” a história da cultura brasileira na história da cultura ocidental” (NASCIMENTO, 2008, p. 91 e 92).
2 Para efeito de citação e referência usou-se: AZEVEDO, Fernando de. A Cultura Brasileira. 7ª ed. São Paulo:
Editora da Universidade de São Paulo, 2010. AZEVEDO, Fernando de. A Cultura Brasileira: introdução ao estudo da cultura no Brasil. 2ª ed. São Paulo: Companhia editora nacional, 1944. (Versão Online do IBGE disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/biblioteca-catalogo?id=255807&view=detalhes. Acesso em: