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ANÁLISE DOS CASOS DE INTERNAÇÃO

Os casos de internamento do menor encontram previsão nos arts. 121 a 125, do ECA. A internação é conceituada como:

Art. 121. A internação constitui medida privativa da liberdade, sujeita aos princípios de brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento.

Portanto, esta é uma medida a ser aplicada em casos excepcionais, somente quando o menor infrator desenvolver atos infracionais extremamente graves. O internamento se aplica, assim, quando o adolescente comete ato infracional grave e nenhuma das demais medidas previstas no art. 101 do ECA e no art. 112 é suficiente.

A medida privativa de liberdade é o regime mais rigoroso em que o sentenciado pela justiça é punido por meio da prática de ato de crime ou contravenção50. Estar internado significa estar privado de liberdade, ou seja, preso.

No sistema brasileiro o indivíduo pode ser privado de liberdade a partir dos doze anos. Dessa forma, entre os doze e os dezoito anos completos, por sentença do juiz da infância e da juventude, o adolescente pode ser preso ou privado de liberdade, num sistema de privação específico para adolescentes.

Antes do advento do ECA e de acordo com o que dispunha o Código de Menores, a medida de internação, poderia ser aplicada no caso de cometimento de

50 SEDA, Edson. A proteção integral: um relato sobre o cumprimento do novo direito da criança e do adolescente na América Latina., p.320.

qualquer infração penal ou até por desvio de conduta51. Hodiernamente, o adolescente somente será internado em caso de ato infracional cometido por meio de ameaça grave ou violência à pessoa, ou, ainda, por reiteração de outras infrações graves. Entre as infrações que se encaixam nesta última alternativa que justifica a internação têm-se os crimes contra o patrimônio, nos quais não ocorre violência ou ameaça a pessoa, como são os casos de furto, apropriação indébita e estelionato.

Liberati assim dispõe acerca dos casos em que a medida de internação se torna fundamental:

A medida de internação será necessária naqueles casos em que a natureza da infração e o tipo de condições psicossociais do adolescente fazem supor que, sem um afastamento temporário do convívio social a que está habituado, ele não será atingido por nenhuma medida terapêutica ou pedagógica e poderá [...]

representar um risco para outras pessoas da comunidade52.

A medida de internamento do menor necessita satisfazer três requisitos fundamentais, a saber: a) a brevidade, devendo a manutenção da detenção ser avaliada no máximo a cada seis meses e não podendo exceder o prazo de três anos de detenção; b) a excepcionalidade, cabendo a internação somente em última hipótese e quando as demais medidas forem inviáveis53. Admite-se, assim, em três hipóteses: ato infracional cometido por meio de grave ameaça ou violência à pessoa;

reiteração na realização de outras infrações classificadas como graves;

descumprimento reiterado e injustificável da medida anteriormente imposta; c) respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento, devendo o Estado zelar por sua integridade física e moral, adotando, para tanto, medidas de contenção e de segurança adequadas.

Neste mesmo sentido, os três requisitos a serem satisfeitos para a realização da internação do menor:

Três são os princípios que condicionam a aplicação da medida privativa de liberdade: o princípio da brevidade enquanto limite

51 ELIAS, Roberto João. Comentários ao estatuto da criança e do adolescente. São Paulo:

Saraiva, 1994. p. 101.

52 LIBERATI, Wilson Donizeti. Comentários ao estatuto da criança e do adolescente. São Paulo:

Saraiva, 1997.p.92-93.

53 LEAL, César Barros. Prisão: crepúsculo de uma era. 2. ed. Belo Horizonte: Del Rey, 2001. p. 195- 196.

cronológico; o princípio da excepcionalidade, enquanto limite lógico no processo decisório acerca de sua aplicação; e o princípio do respeito à condição peculiar de pessoas em desenvolvimento, enquanto limite ontológico, a ser considerado na decisão e na implementação da medida54.

O art. 121, do ECA, em seus diversos parágrafos dispõe ainda de uma série de regulamentações para o internamento:

§ 1º Será permitida a realização de atividades externas, a critério da equipe técnica da entidade, salvo expressa determinação judicial em contrário.

§ 2º A medida não comporta prazo determinado, devendo sua manutenção ser reavaliada, mediante decisão fundamentada, no máximo a cada seis meses.

§ 3º Em nenhuma hipótese o período máximo de internação excederá a três anos.

§ 4º Atingido o limite estabelecido no parágrafo anterior, o adolescente deverá ser liberado, colocado em regime de semi- liberdade ou de liberdade assistida.

§ 5º A liberação será compulsória aos vinte e um anos de idade.

§ 6º Em qualquer hipótese a desinternação será precedida de autorização judicial, ouvido o Ministério Público.

Como se observa, o período de internação não poderá exceder o máximo de três anos, devendo então o adolescente ser liberado, colocado em regime de semi-liberdade ou de liberdade assistida. Ainda que o privado de liberdade, não tenha modificado as características de sua formação de caráter e sua preparação para a liberdade, o esforço deve continuar, se necessário, até os vinte e um anos, seja em semiliberdade, seja em liberdade assistida55.

Aos vinte e um anos termina o horizonte de toda punição pública a adolescente. Repetindo: Não porque essa era a idade da maioridade civil, agora rebaixada para dezoito anos, mas para permitir que o sentenciado, por prática de conduta criminal às vésperas de dezoito anos, tenha como ser privado de liberdade por até três anos, se conveniente, obedecido ao princípio constitucional da brevidade56.

O art. 122, do ECA, apresenta os requisitos para a aplicação da medida de internação, a qual somente se deve recorrer em casos extremos;

54 CURRY, Munir; GARRIDO, Paulo Afonso. MARÇURA, Jurandir Neto. Estatuto da criança e do adolescente anotado. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002. p. 415.

55 SEDA, Edson. A proteção integral: um relato sobre o cumprimento do novo direito da criança e do adolescente na América Latina., p. 308.

56 SEDA, Edson. O Estatuto da Criança e do Adolescente comentado para os cidadãos das comunidades urbanas, rurais e indígenas. p. 313.

Art. 122. A medida de internação só poderá ser aplicada quando:

I - tratar-se de ato infracional cometido mediante grave ameaça ou violência à pessoa;

II - por reiteração no cometimento de outras infrações graves;

III - por descumprimento reiterado e injustificável da medida anteriormente imposta.

§ 1º O prazo de internação na hipótese do inciso III deste artigo não poderá ser superior a três meses.

§ 2º. Em nenhuma hipótese será aplicada a internação, havendo outra medida adequada.

No intento de evidenciar a especificidade das situações nas quais se aplica à medida de internação, apresentam-se as decisões a seguir que tratam da inaplicabilidade da medida de internação:

Ato infracional: imposição de medida sócio-econômica de internação:

ausência dos seus pressupostos (ECA, art. 122, I e II). 1. O regime da medida de internação pressupõe a tipicidade estrita das hipóteses legais que a autorizam. 2. A condenação imposta ao paciente, contudo, amolda-se à conduta descrita como tráfico de entorpecentes (L. 6.368/76, art. 12), na comissão do qual, no caso, não se utilizou de violência ou grave ameaça (art. 122, I, do ECA). 3.

Também não configurada a hipótese do art. 122, II, do ECA: por

"reiteração no cometimento de outras infrações graves", à incidência da qual não é suficiente a mera existência de outros processos por fatos anteriores, mas a pré-existência de sentença transitada em julgado, reconhecendo a efetiva prática de pelo menos 2 duas infrações. 4. Ademais, a "remissão não implica necessariamente o reconhecimento ou comprovação da responsabilidade, nem prevalece para efeito de antecedentes (...)" (ECA, art. 127). 5.

Hábeas corpus: deferimento para cassar a sentença, na parte em que impôs a medida de internação ao paciente, a fim de que outra seja aplicada. Extensão dos efeitos da decisão ao outro menor também condenado.

Decisão: A Turma deferiu o pedido de hábeas corpus, nos termos do voto do Relator. Unânime. Não participou, justificadamente, deste julgamento o Ministro Marco Aurélio. 1ª. Turma, 08.08.2006.

Como se observa na decisão acima, mesmo tendo o adolescente cometido tráfico de entorpecentes, classificado como um crime hediondo, a requisição de sua internação foi negada pelo juiz.

A ementa seguinte trata da inaplicabilidade da medida de internação em virtude de o adolescente em regime de semi-liberdade ter cometido novo ato infracional:

PENAL. HABEAS CORPUS. ESTATUTO DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE. REGIME DE SEMILIBERDADE. PRÁTICA DE NOVO ATO INFRACIONAL: FURTO. MEDIDA DE INTERNAÇÃO.

INAPLICABILIDADE. LEI 8.069/90, arts. 101, 112, VII, 113 e 122. I. - Compete ao juízo de mérito da ação socioeducativa, após o procedimento de apuração do ato infracional no qual sejam asseguradas as garantias do contraditório e da ampla defesa, a aplicação das medidas de internação previstas nos incisos I e II do art. 122 do ECA. II. - Não há falar em “internação substituição" com fundamento no art. 113 do ECA, dado que a substituição somente é aplicável quanto às medidas específicas de proteção. Precedentes.

III. - H.C. deferido.

Decisão: Deferiu-se a ordem, decisão unânime. Falou, pelo paciente, a Dra. Patrícia Helena Massa Arzabe. Ausentes, justificadamente, neste julgamento, os Senhores Ministros Celso de Mello e Ellen Gracie. Presidiu, este julgamento, o Senhor Ministro Carlos Velloso.

2ª Turma, 21.06.2005.

Por sua vez, a decisão a seguir, com base nos arts. 121 e 122 do ECA prevê a aplicação da medida de internação ao ato de roubo de menor com emprego de arma de fogo:

INFÂNCIA e JUVENTUDE. Menor. Ato infracional. Equiparação ao crime de roubo qualificado por emprego de ameaça, arma de fogo e concurso de pessoas. Representação. Procedência. Internação.

Admissibilidade. Observância do devido processo legal. HC indeferido. Inteligência dos arts. 121 e 122 do ECA. Está em harmonia com o princípio da tipicidade estrita das fatispecie que a autorizam, a aplicação de internação, por prazo indeterminado, a menor que praticou ato infracional mediante ameaça, emprego de arma e concurso de pessoas (HC 88755 / SP - SÃO PAULO, 2ª T., Relator(a): Min. CEZAR PELUSO, Julgamento: 29/08/2006 Órgão Julgador: Segunda Turma, DJ 29-09-2006 PP-00067)

Já o art. 123, do ECA, determina que o cumprimento da internação deve ocorrer em local adequado, diferente daquele destinado ao abrigo, separando-se os menores infratores com base em critérios como: idade, biótipo físico e gravidade da infração. Durante todo o período de internação, as atividades pedagógicas são obrigatórias.

O ato de privar o adolescente da liberdade somente pode ser aplicado caso ele seja pego em flagrante. Na fase policial do internamento, a autoridade policial deve apresentar por ordem escrita e fundamentada o pedido de internamento. Caso o adolescente seja preso por ordem do juiz, o período máximo de internação corresponde a 45 dias57.

57 LEAL, César Barros. Prisão: crepúsculo de uma era., p. 196.

No caso dessa prisão em flagrante o adolescente deverá ser conduzido à autoridade policial, sendo mantido em lugar separado daquele destinado aos maiores, pelo prazo máximo de 24 horas. No caso de o ato infracional ter sido cometido mediante grave ameaça à pessoa, como roubo ou estupro, cabe a autoridade policial lavrar o auto de apreensão, ouvindo as testemunhas e o adolescente. Deve também apreender os produtos e instrumentos da infração, requisitar os exames de perícias necessárias à comprovação da materialidade e autoria da infração58.

Caso o ato infracional do flagrante não seja grave e comparecendo os pais ou responsáveis junto à autoridade policial, o adolescente deverá ser liberado, de modo provisório, mediante termo de compromisso e responsabilidade de apresentação diante do Ministério Público na seqüência59.

Se o adolescente permanecer internado, cabe a autoridade policial encaminhá-lo ao representante do Ministério Público, juntamente com a cópia do auto de apreensão ou boletim de ocorrência. A autoridade policial deve encaminhar o adolescente à entidade de atendimento se não for possível sua apresentação imediata ao Órgão Ministerial. É vedada a condução do adolescente nos denominados “camburões”60.

A apreensão do adolescente por meio de ordem escrita e fundamentada da autoridade judiciária competente pode ser classificada em quatro formas:

internação provisória; busca e apreensão do adolescente; condução coercitiva do adolescente; e pela sentença.

A internação provisória compreende a internação que se dá antes da sentença e possui prazo máximo de 45 dias, o que corresponde ao tempo previsto para o término do procedimento. Além do fumus boni juris61 e do periculum in mora62 para justificar essa internação, é indispensável que estejam presentes os demais requisitos da internação imposta por meio da sentença a ser proferida no final do

58 LEAL, César Barros. Prisão: crepúsculo de uma era., p. 197.

59 VIANNA, Guaraci. Direito infanto-juvenil. Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 2004. p. 367-368.

60 LEAL, César Barros. Prisão: crepúsculo de uma era., p.198.

61 Locução latina que significa indício, possibilidade da existência de um direito ou, presunção de legalidade. Adverte aos juízes de que também o simples indício da existência de um direito deve ser cuidadosamente observado, a fim de que não ocorram lesões irreparáveis a um interesse legítimo.

62 Locução latina que designa uma situação de fato, caracterizada pela iminência de um dano, em face da demora de uma providência que o impeça. Trata-se, portanto, que um dano em potência, que ainda não se perfez. A expressão é bastante utilizada nos casos de medidas cautelares.

procedimento; Busca e apreensão do adolescente é a medida que se realiza quando o mesmo não for localizado para comparecimento à audiência de apresentação;

Condução coercitiva do adolescente: ocorre quando o adolescente, devidamente certificado e notificado, não comparecer à audiência de apresentação e não apresentar qualquer justificativa para esse não comparecimento; Pela sentença:

apreensão que se dá quando da aplicação da medida sócio-educativa63.

Importa salientar que nem sempre diante de um ato infracional aplica-se a medida sócio-educativa. O art. 126 e seguintes do Estatuto apresenta a possibilidade da remissão, levando em conta a gravidade da infração, isto é, a exclusão, suspensão ou extinção do processo sem exame do mérito. Esse perdão pode ser concedido pelo Ministério Público, acompanhado ou não da medida sócio- educativa, que não resulte em restrição à liberdade. A concessão dessa remissão pode ser efetuada pelo Promotor de Justiça antes da instauração do processo judicial, sendo necessária sua homologação por parte da autoridade judiciária64.

Acrescente-se ainda que o art. 124, do ECA, assegura ao menor privado de liberdade diferentes direitos. Ao realizar a contenção e a segurança dos infratores as autoridades encarregadas não poderão, de modo algum, praticar abusos ou submeter a vexame ou a constrangimento não autorizado por lei. Devem, portanto, observar todos os direitos do adolescente privado de liberdade, alinhados no art.

124, entre eles: ser tratado com respeito e dignidade; receber visitas; corresponder- se com seus familiares e amigos; receber escolarização e profissionalização; realizar atividades culturais, esportivas e de lazer; e ter acesso aos meios de comunicação social65.

Por fim, cabe destaque o fato de o Estado ter responsabilidade em termos de cuidados físico e mental do adolescente infrator que se encontra internado. Esse é o entendimento previsto no art. 125 do ECA. De acordo com Ishida, “a responsabilidade pelo zelo da integridade do adolescente interno é do Poder Público”66. Essa responsabilidade engloba a conduta omissiva ou comissiva, apurado por intermédio de ação pública, da responsabilização individual e da ação

63 VIANNA, Guaraci. Direito infanto-juvenil.,p. 370-371.

64 CURRY, Munir; GARRIDO, Paulo Afonso. MARÇURA, Jurandir Neto. Estatuto da criança e do adolescente anotado., p. 117-118.

65 LIBERATI, Wilson Donizeti. Comentários ao estatuto da criança e do adolescente., p. 92-93.

de indenização. Além disso, a adoção de medidas que visem à segurança por parte das autoridades responsáveis pela implantação da política de atendimento deve se constituir como uma preocupação constante.

2.2 A POLÍTICA DE RECUPERAÇÃO DA CRIANÇA OU ADOLESCENTE