3 A EFICÁCIA DAS MEDIDAS SÓCIO-EDUCATIVAS
Este terceiro capítulo tem como foco central a questão das medidas sócio- educativas aplicadas aos adolescentes infratores no município de São José, em Santa Catarina. Para tanto, inicialmente abordam-se as diversas medidas existentes no Estatuto da Criança e do Adolescente para, na seqüência, apresentar-se o Programa de Prestação de Serviços à Comunidade e o Programa da Liberdade Assistida, que são utilizados no município de São José. O capítulo é finalizado com os problemas inerentes a efetivação prática das medidas sócio-educativas contidas no ECA.
A primeira das medidas previstas no art. 112, do ECA, compreende a advertência. Pode-se afirmar que esta medida não consiste, exatamente, em alguma medida sócio-educativa, uma vez que não implica em qualquer tipo de orientação que envolva o adolescente, mas, segundo dispõe o art. 115, do ECA, compreende uma “admoestação verbal, que será reduzida a termo e assinada”. A medida visa, assim, chamar a atenção do adolescente responsável por algum ato infracional de pequena gravidade, mas que não pode, devido às circunstâncias, ser relegado ao esquecimento.
No entender de Lima:
A advertência, na modalidade de medida sócio-educativa, deve ser destinada, via de regra, a adolescentes que não registrem antecedentes infracionais e para os casos de infrações leves, seja quanto à sua natureza, seja quanto às suas conseqüências. Poderá ser aplicada, pelo órgão do Ministério Público, antes de instaurado o procedimento apuratório, juntamente com o benefício da remissão e, pela autoridade judiciária, no curso da instrução do procedimento apuratório de ato infracional ou sentença final101.
A segunda medida contida no art. 112, do ECA, compreende a obrigação de reparar o dano. Acerca dessa medida, merece destaque o art. 116, do ECA:
Art. 116. Em se tratando de ato infracional com reflexos patrimoniais, a autoridade poderá determinar, se for o caso, que o adolescente restitua a coisa, promova o ressarcimento do dano, ou, por outra forma, compense o prejuízo da vítima.
Parágrafo único. Havendo manifesta impossibilidade, a medida poderá ser substituída por outra adequada.
Essa segunda medida sócio-educativa, diferentemente da anterior, pressupõe o contraditório e a ampla defesa. Além disso, prevê três hipóteses de reparação distintas, a saber: devolução da coisa; ressarcimento do dano; e compensação por outra forma. Caso o adolescente seja menor de dezesseis, não será obrigado a reparar o dano, sendo que essa função caberá aos seus pais.
Cabe acrescentar aqui, o art. 186, do Código Civil de 2002, o qual dispõe que “o menor, entre dezesseis e dezoito anos, não pode, para eximir-se de uma obrigação, invocar a sua idade se dolosamente a ocultou quando inquirido pela outra parte, ou se, no ato de obrigar-se, declarou-se maior”.
Aplica-se também ao menor o disposto no art. 186, do Código Civil de 2002, segundo o qual, “aquele que, por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, violar direito e causar dano a outrem, ainda que exclusivamente moral, comete ato ilícito”.
A prestação de serviços à comunidade encontra-se delimitada no art. 117, do ECA, como se observa a seguir:
Art. 117. A prestação de serviços comunitários consiste na realização de tarefas gratuitas de interesse geral, por período não excedente há seis meses, junto a entidades assistenciais, hospitais, escolas e outros estabelecimentos congêneres, bem como em programas comunitários ou governamentais.
Parágrafo único. As tarefas serão atribuídas conforme as aptidões do adolescente, devendo ser cumpridas durante jornada máxima de oito horas semanais, aos sábados, domingos e feriados ou em dias úteis, de modo a não prejudicar a freqüência à escola ou à jornada normal de trabalho.
Essa medida sócio-educativa considera que o trabalho exerce uma educativa, ou seja, através do trabalho pode-se educar o jovem e inseri-lo no meio social. É importante que a função desempenhada pelo menor infrator não prejudique a freqüência a escola.
O sucesso de uma medida de prestação de serviços por tem seu sucesso diretamente vinculado às parcerias que são realizadas entre o Estado e as instituições: “será cada vez mais efetiva na medida em que houver o adequado acompanhamento do adolescente pelo órgão executor, o apoio da entidade que o recebe e a utilidade real da dimensão social do trabalho realizado”102.
Pimentel acrescenta que o sucesso da medida sócio-educativa de prestação de serviços comunitários depende, em grande parte, do apoio que a própria comunidade der à autoridade judiciária, ensejando oportunidade de trabalho ao menor infrator. O preconceito social contra tais adolescentes é acentuado, o que torna necessário uma ampla campanha de conscientização das empresas e de outras entidades para que esse tipo de pena possa ser efetiva103.
101 LIMA, Miguel Moacyr Alves de. In CURY, Munir; AMARAL E SILVA, Antônio Fernando do;
MENDEZ, Emílio Garcia (coords.). Estatuto da Criança e do Adolescente comentado: comentários jurídicos e sociais. São Paulo: Malheiros, 1992. p. 352.
102 VOLPI, Mátio (org.) O adolescente e o ato infracional., p. 24.
103 PIMENTEL, Pedro Manoel. O crime e a pena na atualidade. São Paulo: Forense, 2000. p. 170.
A liberdade assistida é outra medida sócio-educativa que se encontra descrita nos arts. 118 e 119 do ECA:
Art. 118. A liberdade assistida será adotada sempre que se afigurar a medida mais adequada para o fim de acompanhar, auxiliar e orientar o adolescente.
§ 1º A autoridade designará pessoa capacitada para acompanhar o caso, a qual poderá ser recomendada por entidade ou programa de atendimento.
§ 2º A liberdade assistida será fixada pelo prazo mínimo de seis meses, podendo a qualquer tempo ser prorrogada, revogada ou substituída por outra medida, ouvido o orientador, o Ministério Público e o defensor.
Art. 119. Incumbe ao orientador, com apoio e a supervisão da autoridade competente, a realização dos seguintes encargos entre outros:
l – promover socialmente o adolescente e sua família, fornecendo-lhe orientação e inserindo-os, se necessário, em programa oficial ou comunitário de auxílio e assistência social;
ll – supervisionar a freqüência e o aproveitamento escolar do adolescente, promovendo, inclusive, sua matrícula;
lll – diligenciar no sentido da profissionalização do adolescente e de sua inserção no mercado de trabalho;
IV – apresentar o relatório de caso.
Ao comentar a medida da liberdade assistida, Volpi salienta que esta se constitui como a medida mais conhecida, cujos resultados práticos têm sido, em geral, positivos. Essa medida sócio-educativa prevê a criação de condições com o fim de reforçar os vínculos do adolescente com a família para que, com a ajuda desta e do orientador ele possa mudar o rumo da sua própria vida104.
De acordo com o entendimento de Freitas, o rol das incumbências no art.
119 é exemplificativo:
O rol das atividades de acompanhamento, auxílio e orientação expressos nos incisos I a III é meramente exemplificativo, sendo o minimum minimorum a ser seguido pelo orientador [...]. Partindo-se do pressuposto da adequação da medida ao caso específico, vez que a mesma não se revela própria em muitos casos, ao orientador caberá desempenhar atividades que levem o orientando a modificar seu modo de proceder, tornando-o socialmente aceito, sem perder a própria individualidade105.
104 VOLPI, Mátio (org.) Adolescentes privados de liberdade: a normativa nacional e internacional, reflexões acerca da responsabilidade penal. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1998. p. 40.
105 FREITAS, Ana Maria Gonçalves. In CURY, Munir; AMARAL E SILVA, Antônio Fernando do;
MENDEZ, Emílio Garcia (coords.). Estatuto da Criança e do Adolescente comentado: comentários jurídicos e sociais. São Paulo: Malheiros, 1992. p. 364.
No que concerne a semiliberdade, esta se encontra assinalada no art. 120 do ECA:
Art. 120. O regime de semi-liberdade pode ser determinado desde o início, ou como forma de transição para o meio aberto, possibilitada a realização de atividades externas, independentemente de autorização judicial.
§ 1º São obrigatórias à escolarização e a profissionalização, devendo, sempre que possível, ser utilizados os recursos existentes na comunidade.
§ 2º A medida não comporta prazo determinado aplicando-se, no que couber, as disposições relativas à internação.
Os programas de semiliberdade devem, obrigatoriamente, manter uma ampla relação com os serviços e programas sociais e/ou formativos no âmbito externo à unidade de moradia. Se não estiver associada à formação, essa medida sócio-educativa certamente se tornará sem efeito. Quanto maior o envolvimento com programas de formação, maior serão as possibilidades de inserção social106.
Além dessas medidas aqui descritas – advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviço à comunidade, liberdade assistida e semiliberdade –, há também uma já suficientemente abordada no capítulo anterior, qual seja, a internação. Esta não será novamente aqui apresentada, mas cabe pontuar somente o fato de essa medida ter sido fonte de críticas constantes, conforme já visto anteriormente.
3.1.1 Direito Penal Máximo x Direito Penal Mínimo
Ainda que não seja o objeto da presente pesquisa, a discussão entre o Direito Penal Máximo e o Direito Penal Mínimo se faz importante para compreensão de que esses tipos de dispositivos penais não podem interferir sobre o ECA.
O modelo de Direito Penal Máximo caracteriza-se pela severidade e a incerteza, pela imprevisibilidade das condenações e das penas e por configurar um sistema não controlável racionalmente pela ausência de parâmetros certos e racionais. No plano processual, identifica-se, com o modelo inquisitivo, já que sempre que o juiz tem funções acusatórias ou a acusação tem funções jurisdicionais, e ocorra à mistura entre acusação e juízo, está comprometida a imparcialidade do
106 VOLPI, Mátio (org.) O adolescente e o ato infracional., p. 26.
segundo e ainda, a publicidade e a oralidade do processo. A carência dessas garantias debilita todas as demais e, em particular, as garantias processuais do estado de inocência, do ônus da prova, do contraditório e da defesa107.
O Direito Penal Mínimo, reconhecendo utilidade social no controle penal, aponta para a descriminalização, ou seja, abolição de vários tipos penais, tendo como critério a fragmentariedade e subsidiariedade, despenalização, isto é, a criação de vias alternativas que solucionam o conflito penal sem aplicação de pena e ainda, a desinstitucionalização, que significa a diversificação da resposta penal, transferindo o conflito para os sujeitos envolvidos108.
Dialogando em sociedade pode observar-se diversas pessoas expressando suas opiniões favoráveis à redução da idade penal. Tal fato se dá em decorrência da desconfortável sensação de impunidade do adolescente, reforçada pelos opositores do ECA e por alguns pretensos “defensores da infância”, que confundem inimputabilidade penal com impunidade. Os defensores do Direito Penal Máximo, na esteira do referendo, invocam a redução da idade penal como a panacéia que irá redimir a nação.
Por outro, existem os defensores extremos do ECA, entre eles estão os
“neomenoristas”, pela “proteção de menores” e não proteção de direitos e construção de cidadania; para quem, o Direito Penal seria uma instituição falida.
Neste confronto de radicais, entre defensores do Direito Penal Máximo e abolicionistas penais, a sociedade é que perde.
O Estatuto se organiza em três eixos: universal, para todas as crianças e adolescentes brasileiros, de políticas públicas (art. 4º);
protetivo, que alcança crianças e adolescentes vitimizados (art.101), e socio-educativo, aos adolescentes vitimizadores (art. 112), onde estabelece um modelo de responsabilidade juvenil, fundado nos princípios do Direito Penal Mínimo, de cunho garantista, prevendo sanções, inclusive privativas de liberdade, de conteúdo pedagógico e natureza retributiva109.
107 LOPES JUNIOR, Aury Celso Lima. O fundamento da existência do processo penal:
instrumentalidade garantista. Jus Navigandi, Teresina, ano 3, n. 27, dez. 1998. Disponível em:
<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=1060>. Acesso em: 01 out. 2007.
108 SILVA JR, Edison Miguel. Direito penal mínimo. Disponível em:
http://www.juspuniendi.net/dogmaticapenal/Artigos/Direito%20penal%20minimo.htm. Acesso em 01 de outubro de 2007.
109 SARAIVA, João Batista Costa. ECA e direito penal juvenil. Disponível em:
http://www.dpe.rs.gov.br/n_penal/eca_dpenal.htm. Acesso em 01 de outubro de 2007.
A aplicação prática do ECA pelo Estado necessita de melhorias, existe a necessidade de efetivação plena dos sistemas de garantia que preconiza, principalmente no que se refere à rede de proteção. Necessário também se faz o aperfeiçoamento dos conselhos tutelares.
Urge a efetivação de programas de medida sócio-educativa em meio aberto, através de oficinas integradas. De outro lado, é possível cogitar uma situação de maior severidade da lei para certos e determinados tipos penais, dentro do sistema sócio-educativo. Existem situações onde os três anos máximos de internação podem não ser o bastante. O que não se pode admitir é esta inconstitucional pretensão de incluir o adolescente no sistema penal adulto.