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alfabetizar na perspectiva do ―alfabetizar-letrando‖, o professor é levado a conhecer um conjunto de fatores pertinentes à alfabetização dos alunos.
Conforme afirma Kleiman (2006), o letramento pode vir a designar multiletramentos que variam de acordo com as instituições e suas respectivas práticas, de onde surgem denominações como: letramento digital, familiar, religioso.
Rojo (2009) afirma que, diferentemente do letramento, que direciona para uma variedade de práticas, o multiletramento aponta para dois tipos específicos de multiplicidade presentes em nossa sociedade: a multiplicidade cultural das populações e a multiplicidade semiótica de constituição dos textos por meio dos quais ela se informa e comunica. Leva em conta o sentido de tudo o que é produzido e tudo aquilo que a escola pode produzir.
Segundo ela, o multiletramento pode ter como exemplos ―desde a leitura em voz alta de um texto no ambiente escolar até a interpretação de um CD de rap em Tupi, passando pelos meios eletrônicos e digitais‖.
Na concepção dessa autora, o multiletramento é uma nova pedagogia educacional em todas as mídias sociais, no contexto diário escolar, uma vez que as tecnologias estão presentes em toda parte. Porém, algumas escolas públicas apresentam dificuldades de implementação. O multiletramento surgiu da necessidade de pensar formas alternativas para as questões sociais e educacionais na escola. ―Incluir nos currículos a grande variedade de culturas já presentes nas salas de aula de um mundo globalizado e caracterizado pela intolerância na convivência com a diversidade cultural, com a alteridade‖.
Daí surgia a necessidade de utilização de uma multiplicidade de linguagens, modos e semioses nos textos em circulação, multimodalidade ou multissemioses dos textos contemporâneos, que exige multiletramentos.
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E é essa a realidade da maioria das escolas que atendi em 2018. Nem mesmo os professores possuía domínio do coputador.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A revisão da literatura permitiu a obtenção de informações relevantes à vida das pessoas deficientes visuais. Foram apresentados alguns conceitos pertinentes à deficiência visual. Apresentou-se algumas considerações sobre o Sistema Braille, bem como a descoberta do uso dos sentidos remanescentes, para detectar informações.
Destacou-se também, as principais Leis e decretos, que fundamentam os direitos das pessoas com deficiência. Hoje elas possuem amparo legal, o qual assegura os seus direitos. Entretanto, nem sempre o que é estabelecido pelas leis é colocado em prática.
A aplicabilidade destas para essa clientela ainda predomina no campo discursivo. É claro que muitas vezes isso acontece por falta de cobrança do grupo ou por falta de união deste.
Apresentou-se ainda uma breve descrição dos novos recursos tecnológicos mais utilizados pelos deficientes visuais, tanto na sua vida pessoal quanto na profissional.
Esses recursos permitiram que essas pessoas ampliassem o seu universo comunicativo, uma vez que elas se valem dos instrumentos tecnológicos para se socializar, realizar tarefas escolares e propiciar acesso à educação.
Foi realizada uma discussão em torno do processo de educação e letramento dessas pessoas, tendo como modalidades de leitura e escrita o Sistema Braille para os alunos cegos e letra em tamanho ampliado para os que têm baixa visão. Além dessas duas modalidades de leitura e escrita também discorreu sobre a leitura e escrita digital, que são usadas tanto pelos alunos cegos quanto pelos que têm baixa visão. Reforçou-se sobre a importância do uso do Sistema Braille no Ensino Fundamental, pois acredita-se que o computador veio para ajudar na independência dos estudantes deficientes visuais e não para substituir essas modalidades de leitura e escrita como preconizam algumas pessoas.
Além disso, os professores/cursistas foram incentivados a praticar a leitura e escrita do Sistema Braille. Ainda foram realizadas discussões sobre o uso desse Sistema e dos programas sintetizadores de voz para computadores, recursos que facilitam a independência dos deficientes visuais tanto na sua vida escolar, quanto na sua vida cotidiana. Foram orientados também sobre a adaptação de materiais utilizados na
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educação dos estudantes deficientes visuais, enfatizando que todos esses materiais devem estar contextualizados nos conteúdos programáticos da série. Os professores foram orientados quanto à utilização dos instrumentos utilizados para a escrita Braille (reglete, punção e máquina Braille). Foram sugeridas atividades que promovam a socialização entre os estudantes deficientes visuais e os demais estudantes da classe e, entre estes e os professores.
Observa-se que, atualmente, as novas mídias estão se difundindo por todo o mundo. Há uma predominância do uso das novas ferramentas tecnológicas em detrimento das formas convencionais de linguagem, como nas discussões feitas por Snyder (2009). Ele afirma que o uso de recursos tecnológicos tanto nas escolas quanto na vida cotidiana das pessoas possui um lado positivo e um lado negativo. Segundo ele, se esses recursos forem utilizados de maneira equilibrada, trará benefícios para seus usuários. Porém, se forem utilizados desenfreadamente, como ocorre na maioria das vezes nos dias atuais, acaba por prejudicar os indivíduos.
Essa questão não é diferente para as pessoas que possuem limitação visual.
Percebe-se que, a cada dia que passa, elas estão abandonando a leitura e a escrita Braille em função do uso excessivo do computador. Com isso, apresentam defasagem na parte gráfica das palavras, bem como dificuldades na leitura e interpretação de textos.
O uso excessivo e desordenado de aparatos tecnológicos sem integração com outras metodologias pode provocar lacunas no aprendizado; quando utilizadas adequadamente e em harmonia com outras metodologias de ensino as TIC são capazes de alavancar o aprendizado dos estudantes com deficiência visual.
Acredita-se que os objetivos estabelecidos nesse trabalho foram alcançados, visto que as informações apresentadas por eles, permitiram um maior entendimento dos aspectos pertinentes às pessoas com deficiência visual. Espera-se que as reflexões apresentadas aqui, sirvam de alerta para as pessoas envolvidas com o processo de escolarização dessas pessoas.
Conforme foi observado durante a discussão dos dados, a concepção pedagógica empregada no processo de ensino aprendizagem dos alunos com deficiência visual pode ser a mesma utilizada para os demais alunos. Mas há uma questão importante que o professor, deve estar atento: é se eles estão conseguindo alcançar resultado satisfatório por meio da concepção de ensino adotada. Caso contrário, deverá ser aplicada outra concepção para tentar solucionar o problema. Por isso, no decorrer do curso e das aulas ministrados da Pós-Graduação, é reforçado que não há modelos específicos no processo
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de ensino e aprendizagem desses alunos. Sua educação é concretizada mediante o desenvolvimento de suas potencialidades, e não deve se limitar somente em aprender ler e escrever o Braille ou restringir ao uso do computador.
Espera-se que os apontamentos citados aqui, sirvam de mudança de paradigma no uso dos novos recursos tecnológicos.
REFERÊNCIAS
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BRUNO, M. M. G. Deficiência Visual: Reflexão sobre a prática pedagógica. Laramara - Associação Brasileira de Assistência ao Deficiente Visual. São Paulo, 1997.
COSTA, Raquel Veloso. Recomendações de acessibilidade IFLA/UNESCO para deficientes visuais: o caso da biblioteca pública Juarez da Gama Batista. João Pessoa, 2011.
BRASIL. Decreto n. 3.298 de 20 de Dezembro de 1999. Disponível em:
<http://presrepublica.jusbrasil.com.br/legislacao/109697/decreto-3298-99>. Acesso em:
01 de fev. de 2015.
KENSKI, Vani Moreira. Novas tecnologias, o redimensionamento do espaço e do tempo e os impactos no trabalho docente. Revista Brasileira de Educação, São Paulo, 1998.
KLEIMAN, A. Modelos de letramento e as práticas de alfabetização na escola. In:
RIBEIRO, V. M. (Org.). Os Significados do Letramento. Campinas: Mercado de Letras, 2006.
LYONS, J. Linguagem e lingüística. Rio de Janeiro: EDUSP, 1987.
PEREIRA, Guiuliane Monteiro, et al. Tecnologias Assistivas: um desafio na formação e atuação do profissional bibliotecário nas bibliotecas universitárias de João Pessoa/PB.
2010. Disponível em:
<http://gustavonogueira.files.wordpress.com/2010/09/tecnologias- assistivas_textocompleto.pdf>. Acesso em: 25 ago 2014.
ROJO, Roxane. Letramentos Múltiplos, escola e inclusão social. São Paulo: Parábola, 2009.
SÁ, Elizabet Dias de. CAMPOS, Izilda Maria de. SILVA, Myriam Beatriz Campolina.
Atendimento educacional especializado. MEC: Ministério da Educação. Brasília, 2007.
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A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA DE CONCORDÂNCIA VERBAL E A RELAÇÃO COM O LETRAMENTO
Jaciara Carvalho Costa*
Monica Fontenelle Carneiro**
RESUMO
Em um sistema linguístico, as variações que ocorrem não são produtos de mistura irregular ou incoerente. Elas devem ser entendidas como propriedade inerente e regular desse sistema, e, portanto, devem ser avaliadas a partir do contexto social da comunidade de fala em que se realizam. Assim, à luz da Sociolinguística, que tem seu foco no estudo da língua falada em relação ao contexto social, partindo da comunidade linguística, entendida como o conjunto de indivíduos que, além de interagirem verbalmente, também compartilham um conjunto de normas relativas aos usos; e, correlacionando variação linguística aos processos de letramento escolar e social, levantou-se a problemática de como a fala do trabalhador de baixa escolaridade pode apresentar variações quando está inserido em ambiente de trabalho marcado pela influência da convivência com outros indivíduos que possuem alto nível de escolarização, fato que, possivelmente, assegura-lhes maior grau de letramento escolar; bem como, quando é exposto a práticas letradas de escrita. Estabelece-se como hipótese que o convívio em ambientes ocupacionais letrados interfere em alguns aspectos específicos da fala desse trabalhador, principalmente no de concordância verbal. Dessa forma, com o estudo proposto, objetiva-se analisar a ocorrência da concordância verbal de 1ª e 3ª pessoas na fala desses indivíduos, empregados de indústrias ludovicenses. Como categorias teóricas analisadas nessa investigação, tem-se a concordância verbal, a variação linguística e o letramento, ancorando-se nos trabalhos de Castilho (2010), Labov (2006 [1968]; 2008[1972]), Lucchesi (2015), Street (2014[1995]) e Kleiman (1991; 2016). Esta é uma pesquisa de natureza qualitativa, observacional e interpretativa, observando os procedimentos do método sociolinguístico variacionista, cujo corpus será obtido por meio de entrevistas/eventos discursivos envolvendo os participantes.
Assim, como resultado, estima-se que os dados obtidos indiquem que a realização da concordância verbal dos trabalhadores com pouca escolarização tende a se aproximar daquela produzida por indivíduos com maior letramento escolar.
PALAVRAS-CHAVE: Concordância verbal; Variação Linguística; Letramento.
1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A língua é a identidade nacional de uma comunidade. No sistema linguístico brasileiro é marcadamente heterogêneo, atravessado em sua constituição por diversas influências a europeia, a africana e a indígena. Além disso, muitos dialetos regionais incorporam ainda mais esse sistema, portanto, facilmente avaliado como heterogêneo.
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* Universidade Federal do Maranhão – UFMA. Autora. pós-graduanda do Mestrado em Letras, linha Descrição e análise do português brasileiro. [email protected]
** Universidade Federal do Maranhão – UFMA. Orientadora. Professora Doutora. [email protected]
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Nos estudos linguísticos, por muito tempo a homogeneidade foi primazia, até que em meados nos anos de 1960 surge a Sociolinguística como uma ciência autônoma e interdisciplinar, imprimindo à linguagem o caráter da heterogeneidade, inerente e sistemática e tendo como principal expoente o sociolinguista William Labov.
Dois são os principais aspectos constituintes do universo das variações linguísticas, alvo da Sociolinguística, os de ordem interna, chamados também de intralinguísticos e os de ordem externa, isto é, os extralinguísticos. Entre os primeiros, estão as variações que ocorrem na fonética, morfologia, sintaxe e semântica; entre os segundos, encontram-se os fatores sociais como sexo, escolaridade, faixa etária, estrato socioeconômico, proveniência regional, etc. Em nosso entendimento, uma análise sociolinguística está intrinsecamente ligada ao processo de letramento, vez que este trata de aspectos sociais, culturais, históricos e até mesmo, etnográficos. Como alerta Bortoni-Ricardo (2014) há de se ter claro o conceito de letramento para uma reflexão mais específica sobre sociolinguística. Nessa perspectiva, é que neste artigo, de forma sumária e exploratória, trataremos respectivamente: a) da sociolinguística relacionando- a à variação linguística de concordância verbal; b) do letramento e conceitos a ele referidos, como eventos e práticas de letramento; c) da relação entre variação linguística e letramento; e por fim, d) de nossa pesquisa, que encontra-se em desenvolvimento e associa a variação linguística e o letramento à materialização linguística dos trabalhadores de baixa escolaridade em ambientes letrados de São Luís – MA.
A fim de dar maior clareza e aporte a esse estudo, subsidiaremos nossa pesquisa em estudiosos como Street (2014), Kleiman (1991; 2016), Labov (2006[1968];
2008[1972]), Lucchesi (2015), entre outros, na discussão das categorias teóricas letramento, variação linguística e concordância verbal.
2 SOCIOLINGUÍSTICA E VARIAÇÃO LINGUÍSTICA
Para a Sociolinguística, as variações que ocorrem em uma língua ―não são produtos de mistura irregular ou incoerente, ao contrário, são propriedades inerentes e regulares do sistema linguístico‖ (LABOV, 2008[1972], p.262). Sob esse mesmo enfoque, Castilho (2016), reforça que
As línguas são constitutivamente heterogêneas, pois através dela temos de dar conta das muitas situações sociais em que nos envolvemos, em nosso dia a dia. Elas são também inevitalvemente voltadas para a mudança, pois os grupos humanos são dinâmicos, e as línguas que eles falam precisam adaptar-se às novas situações históricas. (CASTILHO, 2016, p. 197)
De acordo com a teoria laboviana de variação e mudança linguística, é necessário, ao selecionarmos uma variável linguística a ser estudada, questionar quais são suas propriedades mais úteis para a comunidade de fala, sociolinguisticamente entendida como um grupo de falantes que compartilham um conjunto de atitudes sociais acerca da língua, na qual está materializada. Assim, este estudioso da linguagem humana define três critérios como necessários à análise de uma variável:
[...] Primeiro, [...] um item que seja frequente, que ocorra tão reiteradamente no curso da conversação natural espontânea que seu comportamento possa ser mapeado a partir de contextos não estruturados e de entrevistas curtas. Segundo, deve ser estrutural:
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quanto mais integrado o item estiver num sistema mais amplo de unidades funcionais, maior será o interesse linguístico intrínseco [...].
Terceiro, a distribuição do traço deve ser altamente estratificada: ou seja, (as) explorações preliminares devem sugerir uma distribuição assimétrica num amplo espectro de faixas etárias ou outros estratos ordenados da sociedade.‖ (LABOV, 2008[1972], p.26)
Por tudo isso, entendemos caber à Sociolinguística relacionar as variações linguísticas a diversos fatores presentes na estrutura social da comunidade de fala onde tais variações estão situadas. Partindo dessa assimilação, é possível inferirmos que, em toda comunidade de fala, estão presentes e, em uso frequente, formas linguísticas em variação. Segundo Tarallo (1990, p.8), ―a essas formas em variação, dá-se o nome de
‗variantes‘, que (são) diversas maneiras de se dizer a mesma coisa em um mesmo contexto e com o mesmo valor de verdade‖. Castilho também nos traz um alargamento, baseando-se nos fundamentos sociolinguísticos de Tarallho, no entendimento entre variante, variação e variedade linguísticas:
Os seguintes eixos organizam a heterogeneidade/diversidade do PB:
(1) variação* geográfica, (2) variação sociocultural, (3) variação individual, (4) variação de canal e (5) variação temática. Cada uma dessas variações, por sua vez, é organizada por um conjunto de variantes*, ou seja, um conjunto de usos linguísticos considerados relevantes para a caracterização de uma variedade. Com isso, entende- se por variação a manifestação concreta da língua, e por variedade a soma idealizada das variações. Se fôssemos dispor esses conceitos numa hierarquia, teríamos: variante> variação> variedade.
(CASTILHO, 2016, p. 197)
Um exemplo de forma em variação é o da concordância verbal em 3ª pessoal do plural. Segundo Lucchesi (2015), à variação de concordância verbal correspondem duas variantes: a materialização e a não materialização do morfema indicativo de plural no verbo. A variante que marca a ausência do plural não integra o padrão normativo da língua portuguesa, mas é uma estrutura linguística bastante usada em outras variedades de nossa língua cuja existência não pode ser ignorada por aqueles que se detêm à observação e análise do fenômeno linguístico. No estudo a que nos propomos, baseado no corpus a ser composto para esse fim, seguindo a abordagem sociolinguística, adotaremos, muito provavelmente, os critérios de análises já usados em outros estudos sobre concordância verbal, para os quais Lucchesi (2015, p.249) sugere três situações de exclusão:
i) as ocorrências de verbos com sujeito indeterminado;
ii) as ocorrências de verbos existenciais; e,
iii) as ocorrências de verbos em que há neutralização entre a forma do plural e do singular. Esses casos são exemplificados a seguir
(31) ‗Assaltaram o açougue da esquina.‘
(32) ‗Eram três pessoas na sala.‘
(33) ‗Elas têm trabalhado muito.‘
De acordo com pesquisas já realizadas e tomadas, por esse mesmo linguista, como base para o seu próprio trabalho, o fenômeno da concordância verbal é definidor da polaridade linguística no Brasil, indicando que está, na camada social com menor escolarização (1 a 4 anos), a menor frequência da realização sonora da concordância verbal em 3ª pessoal do plural. No entanto, por considerar que o foco de nossa pesquisa
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será um corpus composto do vernáculo de uma comunidade específica de trabalhadores em interação verbal, fortemente influenciada, por sua vez, não somente por eventos e práticas de letramento, mas também pelo convívio com outros trabalhadores com maior nível de escolaridade e, supostamente, com maior letramento, andamos na contramão desses dados apontados por Lucchesi (2015). Estimamos que os dados a serem obtidos poderão sinalizar para uma realização da concordância verbal na fala dos trabalhadores de baixa escolaridade que tende a se aproximar daquela produzida por indivíduos com maior grau de letramento escolar, portanto, da realização relacionada ao padrão culto da língua, ou seja, daquela concordância verbal em que há a materialização do morfema indicativo de plural no verbo. Nossa expectativa, por consequência, é a de que esses dados venham a confirmar e ressaltar aquilo que postula Labov (2008[1972], p. 290) quando declara que ―se dado grupo de falantes usa uma variante em particular, então os valores sociais atribuídos a esse grupo serão transferidos a essa variante linguística.‖
Compreendemos, assim como os sociolinguistas, que uma variação linguística não afeta diretamente o desenvolvimento de uma sociedade e, tampouco, os objetivos de vida de um indivíduo, mas que esse sujeito muda seu comportamento linguístico tão logo perceba que isso o levará a atingir patamar social diferenciado
(...) A variação no comportamento linguístico não exerce, em si mesma, uma influência poderosa sobre o desenvolvimento social, nem afeta drasticamente as perspectivas de vida do indivíduo; pelo contrário, a forma do comportamento linguístico muda rapidamente à medida que muda a posição social do falante. Essa maleabilidade da língua sustenta sua grande utilidade como indicador de mudança social. (LABOV, 2008[1972], p.26)
Ratificando esse postulado laboviano, a pesquisadora Cecília Mollica, em sua obra intitulada Fala, letramento e inclusão social (2014) infere que
A sensibilidade e a intuição dos falantes, o estilo de vida, o exercício de outras práticas sociais são também meios de inserção das pessoas na comunidade para adquirir papéis definidos e destacados. [...]
Assim, a conquista dos espaços sociais, ocupados por grupos de diferentes graus de letramento, em princípio, parece influir no funcionamento dos membros em sociedade, permitindo-lhes atingir graus diferenciados de inserção social e de interação com formas culturais. (MOLLICA, 2014, p. 14-16)
3 ENTENDENDO LETRAMENTO E TERMOS A ELE ASSOCIADOS Trata-se de tarefa árdua e também bastante complexa discorrer sobre o vocábulo letramento, pois requer idas e vindas em áreas interdisciplinares que, podem conflitar entre si, dependendo do ponto de vista com que nos lançamos na análise do objeto de estudo. Desse modo, resumidamente e longe de qualquer pretensão de esgotar a discussão acerca do assunto, propomo-nos, nesta sessão, a rever a definição de letramento e alguns dos conceitos que comumente são relacionados a ele.
Embora o termo letramento vigore em nosso país desde a década de 1980, não há uniformidade em relação a sua definição, por isso, na tentativa de um melhor esclarecimento, partiremos da visão de um dos primeiros estudiosos da questão, Street (1983, 1995 [2014]) para quem o letramento é um processo de caráter sociocultural, no
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qual as práticas de uso da escrita são sociais, plurais e heterogêneas, além de vinculadas às estruturas de poder de uma dada sociedade. Entendemos, assim, que o foco está em como os indivíduos constroem significados aos usos que dão à escrita ou à leitura ou ainda à oralidade, pois como situa Grillo (1989 apud STREET, 2014 [1995], p.19)
―letramento é visto como um tipo de prática comunicativa‖.
Uma definição para letramento, ainda que implícita, já podia ser percebida em William Teale (1982 apud TFOUNI, 2006, p. 15) quando este tratava da alfabetização
(...) a prática da alfabetização não é meramente a habilidade abstrata para produzir, decodificar e compreender a escrita: pelo contrário, quando as crianças são alfabetizadas, elas usam a leitura e a escrita para a execução das práticas que constituem sua cultura.
Esse entendimento é possível, embora por vezes deixado de lado pelos estudiosos, visto que os conceitos de letramento e alfabetização sempre andaram lado a lado. Por essa razão, cabe-nos reforçar que, enquanto a alfabetização está para o nível individual, o letramento está para o social, ou seja, para aquele em que o indivíduo utiliza suas habilidades de leitura e escrita (e mesmo da oralidade, como já mencionado anteriormente) para efetivar práticas exigidas pela cultura da qual faz parte.
Dessa forma, é que, para Tfouni (2000, 2006), letramento focaliza os aspectos sócio-históricos da aquisição de um sistema escrito por uma sociedade, portanto não se restringe somente àquelas pessoas que se apropriam da escrita. Essa perspectiva fica bem demonstrada no diagrama construído pela autora, apresentado a seguir.
Para Marcuschi (2008), é possível perceber, de forma clara e coerente, a relação proximal existente entre alfabetização e letramento, isto é, quanto maior o grau de alfabetização do sujeito, maior será seu letramento (mais letrado); por outro lado, quanto menor o grau de alfabetização, tanto menor será o domínio do uso da escrita, consequentemente, menor será seu grau de letramento (menos letrado). Sob esse enfoque, letramento é compreendido como um continuum com a escrita/escolarização, determinado pelas relações de força de cunho social, colocando o sujeito em posições que determinam um discurso mais ou menos letrado. Essa visão é compartilhada por Soares (2003, p.40) ao declarar que um indivíduo alfabetizado não é necessariamente um indivíduo letrado:
(...) Alfabetizado é aquele indivíduo que sabe ler e escrever, já o indivíduo letrado, o indivíduo que vive em estado de letramento, é não só aquele que sabe ler e escrever, mas aquele que usa socialmente a leitura e a escrita, pratica a leitura e escrita, responde adequadamente às demandas sociais de leitura e escrita.
Reforçando o conceito, Marcuschi (2008) enfatiza que letramento diz respeito ao uso da escrita na sociedade e vai, desde uma apropriação mínima da escrita, tal como o indivíduo que é analfabeto, mas sabe o valor do dinheiro até aquele que lê o jornal e escreve cartas ou desenvolve tratados de Filosofia e Matemática, por exemplo. Nesse sentido, Soares (2003, p. 78) em vez de falar em graus de letramento, traz-nos as noções de ―versão fraca‖ e ―versão forte‖:
[...] os conceitos de letramento que enfatizam sua dimensão social fundamentam-se ou em seu valor pragmático, isto é, na necessidade de letramento para efetivo funcionamento da sociedade (a versão