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Análise e interpretação

No documento Grupos que pesquisam EAD no Brasil - ABED (páginas 96-106)

Introdução

4. Análise e interpretação

Nesta seção, apresentamos a análise dos dados coletados no DGP na área de Linguística e Letras.

No que se refere ao primeiro item de nossa análise (filiação a instituições de ensino superior e distribuição geográfica dos grupos no Brasil), observamos um predomínio de grupos vinculados a universidades: 10 universidades federais, 3 estaduais e 1 particular. Além disso, foram identificados 3 Institutos Federais e 1 Centro de Formação Tecnológica13. A figura abaixo ilustra essa distribuição:

Figura 1 – Distribuição das Instituições de Ensino Superior

Apesar de as instituições serem de natureza diferente, podemos dizer que a constituição dos gru- pos independe do que a Instituição de Ensino Superior (IES) costuma exigir do docente/pesquisador.

Nas universidades, o docente/pesquisador deve, obrigatoriamente, desenvolver um projeto de pes- quisa e é aconselhável que se vincule a um grupo de pesquisa em sua área. Já no contexto dos Insti- tutos e Centros Federais, esta não parece ser uma exigência institucional. De qualquer maneira, uma visão global para o conjunto das IES sugere que as pesquisas realizadas nesses âmbitos costumam apresentar questões específicas de seus contextos e particularidades em relação ao público-alvo de ensino e aprendizagem, o que favorece a difusão e o fortalecimento da área.

13 Entre as Universidades Federais, encontramos grupos vinculados à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (3), Universidade Fede- ral de Pernambuco (2), Universidade Federal de Goiás (2), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1), Universidade Federal de Minas Gerais (1), Universidade Federal de Santa Maria (1). As Universidades Estaduais identificadas foram: Universidade de São Paulo (1 grupo), Universidade Estadual do Piauí (1), Universidade de Pernambuco (1). A universidade particular identificada foi a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1 grupo). Dentre os Institutos Federais, constam o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (1 grupo), o Instituto Federal do Triângulo Mineiro (1) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Espírito Santo (1). O Centro Federal de Educação Tec-

Em relação à sua distribuição geográfica, temos um predomínio da Região Nordeste, seguida da Sudeste, Sul e Centro-Oeste, sendo que a Norte não apresenta nenhum registro de grupo de pesqui- sa na área. Desses dados, podemos depreender que há um espaço importante para a ampliação das pesquisas no Brasil. Essa distribuição está representada no seguinte mapa:

Figura 2: Distribuição geográfica dos grupos de pesquisa

No levantamento do ano de constituição dos grupos de pesquisa, segundo item de nossa análi- se, observamos a possibilidade realizar os seguintes agrupamentos por período:

• Década de 90 – apenas 1 grupo registrado no CNPq: TERMISUL – Projeto Terminológico Cone Sul(1991).

• Período de 2001 a 2005 – apenas 3 grupos registrados no CNPq: Grupo Letramento e Etno- grafia (2002); TEED - Grupo de Tecnologia Educacional e Educação a Distância (2002); Grupo Texto Livre: Semiótica e Tecnologia (2005).

• Período de 2006 a 2010 - 8 grupos registrados: NEHTE - Núcleo de Estudos sobre Hipertexto e Tecnologias na Educação (2006); CELLUPE - Centro de Estudos Linguísticos e Literários da UPE (2006); Letramentos, processos discursivos e tecnologias (2008); Núcleo de Estudos

Texto e do Discurso (2010); Tecnologias, EaD e E/LE (2010); Grupo Tradução Visual e Comu- nicação Assistiva (2010); Grupo de Pesquisas em Ensino-Aprendizagem de Línguas Estrangei- ras(2010).

• Período de 2011 a 2015 - 6 grupos registrados: Núcleo de pesquisa em Multirreferencialidade, educação e linguagem (2011); Tecnologias na Educação (2014); LEV - Linguagem, Educação e Virtualidade (2014); GEPLAEL- Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem (2015); Grupo de Pesquisa em Discurso e Educação (2015); PORTOS:

Grupo de Estudos Transdisciplinares e Aplicados à Formação de Educadores(2015).

A distribuição dos grupos pode ser melhor apreciada no seguinte gráfico:

Figura 3 – Ano de formação dos grupos de pesquisa em Letras e Linguística.

Sobre os dados aqui registrados, cabe aqui comentar que, à exceção de dois dos grupos do pe- ríodo de 2006 a 2010 (Grupo Tradução Visual e Comunicação Assistiva e Grupo de Pesquisas em Ensino-Aprendizagem de Línguas Estrangeiras), e de um do período de 2011 a 2015 (Grupo POR- TOS: Grupo de Estudos Transdisciplinares e Aplicados à Formação de Educadores), todos os demais parecem oferecer - no nome dos grupos, bem como em algumas de suas linhas de pesquisa e na descrição de sua repercussão - algumas evidências dessa preocupação formativa e pragmática de inserção das TIC na educação que começa a surgir no período. Este é um aspecto especialmente relevante, pois parece expressar uma demanda que vem da própria área de investir em um aprofun- damento de pesquisas que atendam à capacitação de professores para a educação a distância e para o ensino com tecnologias. Vale lembrar que, em 2001, as Diretrizes Curriculares para os cursos de Le-

tras estabeleceram como um dos aspectos determinantes do perfil dos formandos, uma capacidade de “refletir teoricamente sobre a linguagem, de fazer uso de novas tecnologias e de compreender sua formação profissional como processo contínuo, autônomo e permanente” (BRASIL, 2001, p.30). No ano seguinte, foram publicadas as Diretrizes Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, que estabeleciam a necessidade de preparo dos docentes para “o uso de tecnologias da infor- mação e da comunicação e de metodologias, estratégias e materiais de apoio inovadores” (BRASIL, 2002, p. 1). Estes podem ter sido fatores motivadores do desenvolvimento de pesquisas diretamente relacionadas a esse novo contexto que vem caracterizando a área.

No fluxo de nossa análise, identificamos, no item pesquisadores e titulações, um total de 162 par- ticipantes registrados como investigadores.

O número de pesquisadores por grupo é muito variado. Dada a heterogeneidade da área de Letras e Linguística e das inúmeras linhas de pesquisa apontadas por alguns dos grupos (algumas delas sem nenhuma relação direta ou explícita a questões de EaD), não é possível afirmar quantos deles, nem em que porcentagem aproximada, estão diretamente relacionados a pesquisas nesse contexto específico.

No tocante à titulação dos pesquisadores vinculados aos grupos, identificamos que, na grande maioria, prevalecem pesquisadores doutores (116) e mestres (36). O número de pesquisadores que têm o título de especialista soma um total de 8 e os que têm apenas curso de graduação são2.

Em consulta à formação específica dos pesquisadores, mediante acesso a seu Currículo Lattes (via link provido na própria página do grupo dentro do DGP), observamos que sua formação de base (graduação) se concentra, principalmente, na área de Letras (116 do total de 162 pesquisadores). No que diz respeito à área de concentração da pós-graduação, identificamos um predomínio dos estudos em Educação, Linguística Aplicada, Letras e Linguística, principalmente, mas chama também a aten- ção o trânsito pontual de alguns pesquisadores por áreas diversas como Ciências Sociais,

Matemática e Ciências e Tecnologia da Informação, Psicologia, Sociologia, entre outros.

Podemos dizer que essa característica da formação dos pesquisadores, bem como as informações sobre as linhas de pesquisa dos grupos, mostram uma abertura a estudos interdisciplinares, corro- borando a descrição da área que apresentamos na seção 2 deste texto. Essa constatação também sugere que, cada vez mais, vem se configurando como necessidade e interesse da área realizar projetos em equipes multidisciplinares, com especialistas que se apoiam mutuamente no desenvol- vimento de projetos relacionados ao processo de ensino-aprendizagem. Nesse sentido, resgatamos o trabalho de Mill (2010; 2012), que relaciona o ensino na modalidade de EaD a um coletivo de pro-

e estratégias adequadas para o ensino. Essa mesma perspectiva parece se aplicar ao contexto de pesquisa em foco neste texto.

No que se refere às repercussões descritas pelos grupos, os dados coletados apontam que não há uma uniformidade em relação ao que foi compreendido pelos diferentes grupos como a informação a ser registrada no DGP. Em alguns casos, as informações providas pelos grupos são mais gerais e não se atêm a nenhuma repercussão em concreto, como ocorre, por exemplo, com a referência a

“Estudos e pesquisas nas áreas de Linguagem, Tecnologias e Educação a Distância” (do grupo de pesquisa Núcleo de estudos em Linguagens, Tecnologias e Educação).

Por outro lado, dos 18 grupos estudados, 8 compreenderam como repercussão o registro de even- tos promovidos em suas instituições. A título de exemplo, citamos os três eventos promovidos pelo grupo Texto livre: Semiótica e tecnologia, da Universidade Federal de Minas Gerais: STIS (focaliza o estado de arte de pesquisas interdisciplinares), Evidosol/CILTEC-online (debate científico da filosofia livre e da linguagem) e UEADSL (de cunho didático); a “Jornada sobre Ensino e Aprendizagem de Línguas em Ambientes Virtuais”, evento anual promovido pelo grupo Linguagem, Educação e Virtua- lidade, da Universidade de São Paulo; e o conjunto de eventos organizado regularmente pelo Núcleo de Estudos sobre Hipertexto e Tecnologias na Educação (Universidade Federal de Pernambuco): as diferentes edições do Encontro Nacional sobre Hipertexto e do Simpósio Hipertexto e Tecnologias na Educação).

Também entre os 18 grupos analisados, identificamos 6 que mencionaram as publicações elabora- das por seus membros, e que se aplicam às categorias de livros, periódicos e textos. Outros grupos registraram também a realização de cursos de extensão, alteração de currículo e preparação de ma- terial.

Finalmente, destacamos as linhas de pesquisa como o último item compreendido em nossa aná- lise. Reafirmando o caráter heterogêneo, plural e multidisciplinar que vem caracterizando a área de Letras e Linguística em sua interface com a EaD, as linhas de pesquisa são extremamente variadas e expressam as particularidades dos grupos. Reunimos aqui um conjunto daquelas que revelaram uma relação direta com a EaD ou que sugeriam tal relação em função do nome do grupo ou da descrição apresentada no campo Repercussões do DGP. Procuramos, também, fazer algumas aproximações entre linhas afins que apresentavam apenas alguma variação terminológica, mas que apontavam para uma mesma direção investigativa. Desse processo de agrupamento, chegamos a 27 linhas de pesquisa:

• Educação à Distância

• Práticas pedagógicas

• Multirreferencialidade e Educação a distância

• Materiais de ensino para línguas estrangeiras

• Ensino de línguas mediado por tecnologia

• Formação de professores de línguas para contextos digitais/presenciais

• Processamento de Linguagens Especializadas e Tecnologia

• Computação linguística

• Tecnologias para EaD

• Cultura livre e comunicação digital

• Letramento Digital

• Linguagem e Tecnologias

• Educação e Linguagens nas Tecnologias Digitais

• Linguagem, Educação e Tecnologia

• MOOCs: um estudo em CALL desde uma perspectiva conectivista

• Educação a Distância e Novas Tecnologias

• Discursosda/naeducação:aprendiz(agem)delínguas,sujeito, identidade e novas tecnologias nas modalidades presencial e a distância

• Aprendizagem colaborativa

• Letramento e formação de professor

• Letramento e tecnologia

• Letramentos múltiplos

• Linguagens, ensino e mediações tecnológicas

• Novos processos e tecnologias da cultura escrita

• Educação, Comunicação e Tecnologias na Educação presencial e a distância

• Acessibilidade comunicacional

• Linguística aplicada à acessibilidade comunicacional

Um olhar atento a essas diferentes linhas de pesquisa permite identificar algumas palavras-chave que se repetem, as quais sobressaem na figura 4, apresentada a seguir.

Figura 4: Palavras recorrentes nas linhas de pesquisa

Como se pode notar, as palavras recorrentes, por um lado, fazem referência aos eixos centrais que se identificam diretamente com as áreas de Letras e Linguística (linguagens, línguas, letramen- to, professor, ensino, formação, etc.) e, por outro, estabelecem sua relação com a EaD (tecnologias, distância, digital, etc.).

Considerações finais

A visão global dos grupos de pesquisa que apresentamos neste trabalho nos permite apontar algu- mas características que podem contribuir para a formulação de caminhos para a área de Linguística, Letras e EaD. São elas:

1. A diversidade na formação dos pesquisadores pode favorecer o trabalho multidisciplinar por meio de ações e projetos conjuntos a serem realizados e difundidos em rede no Brasil. Como resultado, os próprios pesquisadores e seus estudos ganhariam uma maior visibilidade em nível nacional, o que contribuiria para seu fortalecimento acadêmico e científico e para o seu desen- volvimento junto a programas e atividades de pós-graduação.

2. A multiplicidade de linhas de pesquisa possibilitada pela interface entre as áreas de Letras,

Linguística e EaD reafirma o caráter plural e interdisciplinar dos grupos e demonstra a extensão das pesquisas que são concebidas em diálogo com diferentes áreas do conhecimento.

3. A difusão dos grupos por meio de eventos constitui um fator positivo, pois abre espaço para a divulgação dos trabalhos, favorece a integração com outros grupos e a promoção de ações conjuntas. Além disso, considerando a complexidade da organização de eventos, é desejável que os mesmos sejam realizados deforma interinstitucional, a fim de potencializar a captação de recursos e seu fortalecimento acadêmico-científico.

4. As publicações revelam que há ainda muito espaço para a produção de textos e capítulos de livros. O incentivo para a publicação pode levar à criação de produções impressas ou on-line que circulem em todas as instituições de ensino superior do Brasil.

5. As múltiplas ações desenvolvidas pelos grupos de pesquisa têm alto potencial de contribuir para a formação docente na área de Letras e Linguística, no que se refere à sua capacitação e aprimoramento para a atuação em EaD e para o uso de tecnologias no ensino.

Por fim, no que se refere a um possível aprofundamento desta pesquisa, salientamos que, em projetos futuros, o levantamento dos grupos pode ser ampliado com o estabelecimento de um critério de busca de palavras-chave que se revele mais amplo e contemple um leque maior de termos relacio- nados às áreas das Letras e da Linguística, principalmente no que se refere ao ensino–aprendizagem de línguas.

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Autoras

Heloisa Albuquerque-Costa é pesquisadora e docente nos cursos de Graduação (Letras Fran- cês) e Pós-Graduação (Estudos Linguísticos, Literários e Tradutológicos em Francês) do Departa- mento de Letras Modernas da FFLCH/USP. É vice-líder do grupo de pesquisa Linguagem, Educação e Virtualidade (LEV).

Mônica Ferreira Mayrink é pesquisadora e docente nos cursos de Graduação (Letras Espanhol) e Pós-Graduação (Língua Espanhola e Literaturas Espanhola e Hispano-Americana) do Departamento de Letras Modernas da FFLCH/USP. É líder do grupo de pesquisa Linguagem, Educação e Virtualidade (LEV) e vice-líder do grupo Recursos didáticos para a aula de Espanhol como Língua Estrangeira (E/

LE).

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