Capitanias e sesmarias
Em 1532, o rei de Portugal, Dom João III, comunicou a Martim Afonso de Souza, chefe da primeira expedição colonizadora do território lusitano na América, a decisão de dividir as terras de além-mar entre "algumas pessoas que requeriam capitanias [...] no dito Brasil" (carta de Dom João III a Martim Afonso de Souza 20 de novembro de 1530).
As capitanias já haviam sido utilizadas com sucesso na colonização de outros territórios sob domínio português, como as ilhas Madeira, Cabo Verde e Açores. Por esse sistema, a Coroa - na época, carente de recursos financeiros - transferia para particulares a responsabilidade de "ocupar" e explorar determinadas áreas.
O Brasil foi dividido em 14 grandes extensões de terra, distribuídas entre funcionários da corte e a pequena nobreza de Portugal. Os donatários - como eram chamados os que recebiam as capitanias - tinham o "senhorio" sobre as terras designadas pela corte portuguesa, sendo obrigados, porém, a povoar e desenvolver economicamente o território sob seu domínio.
Para tanto, poderiam conceder sesmarias, isto é, porções de terras destinadas à produção. O sistema de sesmarias havia sido instituído em Portugal no século XIV, em meio à grave crise sócio-econômica da Baixa Idade Média.
Com algumas adaptações, as sesmarias foram implantadas também no Brasil, com o objetivo de acelerar o processo de colonização da América portuguesa. Os sesmeiros - nome dado àqueles que recebiam as sesmarias - tinham um prazo-limite de cinco anos para cultivá- las, podendo perdê-las em caso de descumprimento da legislação.
Ocupação ilegal
Entre os séculos XVI e XVIII, contudo, as capitanias foram, pouco a pouco, voltando para o domínio da Coroa portuguesa, através da compra ou do confisco. Afinal, as terras não
eram de propriedade dos donatários, que tinham apenas a posse sobre os territórios, mas sim de Portugal.
Em 1759, sob determinação do Marquês de Pombal, primeiro-ministro da Coroa, as capitanias hereditárias foram finalmente extintas e o Brasil passou a dividir-se em capitanias reais, doadas a fidalgos e religiosos portugueses. Se até a Independência o território brasileiro foi continuamente repartido entre particulares, depois de 1822 o ritmo das ocupações permaneceu inalterado. Até a aprovação da lei n. 601, as terras do Império foram ocupadas de forma ilegal, especialmente com a expansão das grandes fazendas produtoras de café (HISTÓRICA revista on line do arquivo público do estado de São Paulo, ed. nº 2 de junho de 2005).
Nesse contexto, portanto, é que foi sancionada a Lei de Terras de 1850, a fim de regularizar a questão fundiária e responder, ao mesmo tempo, aos novos desafios colocados pelo fim do tráfico negreiro e a necessidade de mão-de-obra estrangeira. A ampla extensão territorial, a baixa densidade demográfica e a vigência da Lei de Terras, de 1850, favoreciam a formação de grandes latifúndios subutilizados. Assim sendo, a pequena propriedade não tinha condições de subsistir em meio ao latifúndio, o que permitiu a expansão no Brasil largamente no tempo, pelos espaços geográficos, nas áreas mais dinâmicas, e dedicando-se a diversas culturas.
Força política dos grandes proprietários
Em 1843, foi apresentada à Câmara dos Deputados uma proposta de regulamentação das terras brasileiras, inspirada no plano de colonização da Austrália.
Entre outros pontos, o projeto propunha:
A compra de terras devolutas - desocupadas - por meio de pagamento à vista, em dinheiro e sob altos valores;
A legalização das sesmarias doadas até 1822 e das áreas que a partir daquela data estivessem ocupadas por mais de um ano;
O registro de todas as terras num prazo de seis meses, sob pena de confisco;
A medição e demarcação dos terrenos, sob risco de serem consideradas áreas devolutas;
E a criação de um imposto sobre as terras, que seriam confiscadas em caso de não pagamento por três anos consecutivos ou alternados.
Polêmico, especialmente pela criação de um regime tributário sobre a terra e pelas penas em caso de descumprimento da lei, o projeto foi aprovado sem grandes mudanças e, em seguida, enviado para o Senado, onde permaneceu até 1848. Naquele ano, a proposta foi novamente discutida.
Do projeto original, os senadores suprimiram o imposto territorial e a ameaça de expropriação, substituída por multas. As mudanças evidenciaram a força política dos grandes proprietários de terra, especialmente da província fluminense, descontentes com os termos da proposta inicial.
Do Senado, o projeto retornou para a Câmara, onde foi aprovado em setembro de 1850. Além das mudanças em relação ao texto original, que diminuíam o alcance da proposta apresentada em 1843 (BRASIL. Congresso. Câmara dos deputados. Centro de documentação e informação. Coordenação de arquivo), várias disposições que restaram na Lei de Terras jamais foram cumpridas.
Lei de 1850 contribuiu para manter concentração fundiária
É sempre muito difícil estabelecer uma conexão direta, de causa e efeito, entre um fato do passado e a realidade do presente. Talvez uma das raras exceções seja a lei n. 601, de 18 de setembro de 1850, popularmente conhecida como "Lei de Terras". Aprovada durante o reinado do imperador Dom Pedro II, seus efeitos podem ser vistos até hoje. Saber do que se trata a Lei de Terras, pode nos ajudar a compreender melhor a questão agrária no Brasil contemporâneo, especialmente o problema da concentração fundiária.
A nova política de terras do Império foi sancionada menos de duas semanas depois de aprovada a Lei Eusébio de Queiroz, que abolia o tráfico negreiro para o Brasil - considerado, a partir de então, equivalente ao crime de pirataria.
A saída encontrada para suprir a mão-de-obra nas grandes fazendas foi a vinda de trabalhadores estrangeiros, particularmente da Europa. Isso ocorreu em função de dois motivos fundamentais: primeiro, porque era bastante elevado o índice de mortalidade dos escravos que ainda existiam no Brasil; segundo, porque a mão-de-obra livre nacional era tida como desqualificada.
A ocupação das terras havia se tornado uma questão complexa demais, especialmente após a Independência do Brasil, em 1822, quando o sistema de sesmarias foi definitivamente suspenso. A aprovação da lei n. 601, cerca de três décadas depois, foi uma tentativa de organizar as doações de terras feitas desde o início do processo de colonização portuguesa, regularizar as áreas ocupadas depois de 1822 e incentivar a vinda de imigrantes para o Brasil, ao mesmo tempo em que se buscava dificultar o acesso à terra por parte desse novo contingente de trabalhadores.
Concentração fundiária
Grande parte das sesmarias e das posses não foi legalizada, incitando a ocupação ilegal e sistemática das terras do Império, pois boa parte das propriedades nunca foi medida nem demarcada e, as multas, quando aplicadas, poucas vezes foram pagas.
Mesmo tendo sido um passo importante na regulamentação da questão fundiária, a Lei de Terras teve pouca consequência prática, com exceção da dificuldade criada para o acesso à terra pelas camadas mais pobres da população e pelos imigrantes, que se viram obrigados a trabalhar nas grandes fazendas de café.
Na medida em que elevou o preço da terra, exigindo também o pagamento à vista e em dinheiro no ato da compra, a lei n. 601 contribuiu para manter a concentração fundiária que marca a realidade brasileira até hoje.
Apesar da questão da concentração da terra ter estado presente desde o início da história do Brasil, apenas a partir da década de 40 do Século XX é que começaram os grandes debates sobre os problemas sociais causados ao País pela existência do sistema do latifúndio.
No entanto, a ausência de um campesinato social e politicamente organizado terminou por permitir ao latifúndio manter-se sem grandes questionamentos por mais de duas décadas (Silva, 1998).
As Ligas Camponesas
As Ligas Camponesas foram as organizações que mais se identificaram com as mobilizações no campo ocorridas anteriormente ao golpe de 1964. A origem das Ligas remonta às antigas Ligas Camponesas da década de 1930, originárias da ação do Partido
Comunista do Brasil no campo. Com a ilegalidade do Partido Comunista esses embriões das ligas foram aos poucos dissolvidos chegando ao ápice da repressão no governo Dutra. A primeira delas foi criada em 1955, no Engenho Galiléia, em Pernambuco. Deste pólo inicial, tendo à frente o advogado e deputado Francisco Julião, elas rapidamente se expandiram por vários municípios pernambucanos, chegando mesmo a estabelecer núcleos em outros estados do Nordeste e a alcançar projeção nacional no início da década de 1960.
A renúncia do então presidente Jânio Quadros, em 1961, fez com que o vice- presidente João Goulart assumisse o cargo em meio a uma grave crise constitucional. Jango procurou mobilizar as massas trabalhadoras em torno das reformas de base, que alterariam as relações econômicas e sociais no País, tendo inclusive uma clara conotação pela realização de uma versão moderada de reforma agrária. A ação das Ligas Camponesas tinha como objetivo principal reivindicar uma distribuição mais equitativa da terra – o que aumentou a pressão pela realização da reforma agrária durante o governo do presidente João Goulart (Veiga, 1998).
O golpe militar de 1964
Por outro lado, Silva (1998) indica que com o golpe militar de 1964, instalou-se no Brasil uma ditadura a serviço do capital monopolista, subordinando a ele a agricultura. Neste contexto, o mesmo autor enfatiza que não havia espaço para uma reforma agrária que diminuísse a desigualdade social. Na maioria dos casos, o que se viu foi a criação de assentamentos para fixar mão-de-obra barata perto de fazendas. Incentivos fiscais e empréstimos facilitados para a ocupação das chamadas fronteiras agrícolas beneficiaram, principalmente, o estabelecimento das grandes propriedades para agricultura ou pecuária. De forma adicional, Morissawa (2001) afirma que já em Outubro de 1964, o presidente Castelo Branco decretou a primeira Lei de Reforma Agrária no Brasil, que veio a ser conhecida como o Estatuto da Terra. O Estatuto da Terra foi então apresentado como uma ferramenta que iria alterar positivamente a estrutura fundiária vigente no Brasil. Contudo, as medidas supostamente voltadas para modificar positivamente a situação agrária brasileira terminaram por não ser efetivamente implantadas, e o Estatuto terminou sendo na prática um instrumento estratégico dirigido a controlar as lutas sociais, e desarticular os conflitos pela terra. Para demonstrar esta ineficácia distributiva do Estatuto da Terra, Morissawa mostra ainda que
entre 1965 a 1981 foram realizadas em média apenas 8 desapropriações anuais, apesar de terem ocorrido pelo menos 70 conflitos de terra anualmente no mesmo período.