3 O REFLEXO DA REFORMA AGRÁRIA NA VIDA DOS EX-TRABALHADORES DAS USINAS DE CAMPOS DOS GOYTACAZES
Segundo (Silva, 1998) a estrutura fundiária evolui em um sentido concentrador e excludente, dificultando qualquer tipo de acesso à terra, aos trabalhadores rurais brasileiros.
Assim, nota-se que, além da propriedade privada da terra estar concentrada nas mãos de poucos proprietários, o acesso a ela também é restrito.
A partir desta caracterização, o MST iniciou então um trabalho de organização política, principalmente em Campos e Macaé, mobilizando um número significativo de famílias, tanto em áreas rurais como na periferia urbana, para participar de ocupações de propriedades rurais que, em alguns casos, terminaram resultando na criação de assentamentos de reforma agrária pelo INCRA (Tabela 1).
Tabela 9
Relação dos Assentamentos do Norte Fluminense
Assentamento Nome da Fazenda Área (ha)
Município Número de
famílias
Data da ocupação
Antonio Farias Pau Funcho 1221 Campos dos Goytacazes 93 02/12/00
Capelinha Capelinha Usina Vitor Sence
1416 Conceição de Macabú 139 29/06/99
Che Guevara Usina de Baixa Grande
1119 Campos dos Goytacazes 74 03/01/02
Dandara Palmares Santana de Betel 419 Campos dos Goytacazes 21 30/01/02
Ilha Grande Usina Baixa Grande 822 Campos dos Goytacazes 56 30/01/98
Oziel Alves Complexo Cambayba
270 Campos dos Goytacazes 35 17/04/00
Paz na Terra Vermelho 1052 Cardoso Moreira 83 08/08/03
Terra Conquistada Almada Maruí 211 Campos dos Goytacazes 211 05/05/03
Zumbi dos Palmares São João 8000 Campos dos Goytacazes 506 11/04/97
Acampamentos
Francisco Julião São José de Baixo 600 Cardoso Moreira 70 01/02/06
Josué de Castro Desejo e Amor 550 Campos dos Goytacazes 35 17/04/04
Madre Cristina Arroz Dourado 608 Campos dos Goytacazes/São João da Barra
85 12/07/05
Mário Lago Complexo Cambayba
2000 São João da Barra 150 01/04//04
Rosa de Luxemburgo São Benedito 600 Campos dos Goytacazes 50 01/12/04
FONTE: NASCIMENTO, Davi - coordenador do MST
Medeiros (1999) argumenta que os impactos dos assentamentos na mudança da estrutura fundiária num dado local são tanto mais visíveis quanto maior for o número de assentamentos criados. Medeiros acredita que, embora localizada, tal redistribuição aponta para o aumento das possibilidades de acesso à terra, e tudo que ela implica em termos de potencialidade de inserção nas atividades econômicas: na qualificação dos produtores, nas alterações no uso do espaço e na possibilidade de diversificação produtiva.
Abramovay (2005) afirma que a distribuição de terras é um importante meio de combate à pobreza. Ela se pauta por um imperativo de justiça, mas se apóia num postulado econômico decisivo: unidades produtivas ao alcance das capacidades de trabalho de uma família podem afirmar-se economicamente e ser, portanto, um fator de geração sustentável de renda. É claro que para isso são necessárias condições de acesso a mercados dinâmicos, a crédito, a informações, à educação e a tecnologias. Mas o importante está numa particularidade da agricultura, em que a combinação de diversas atividades, o uso intensivo e flexível da mão-de-obra faz das unidades familiares de produção um segmento potencialmente competitivo e que muitas vezes tem uma capacidade de resistência a situações adversas até superior a das unidades patronais.
Além disso, a mudança mais evidente que se verificaria após a instalação dos assentamentos é que se antes os grandes proprietários de terra constituíam a referência básica nos municípios, torna-se necessário levar em conta o aparecimento de novos atores sociais que alteram a estrutura fundiária local. Neste sentido, Medeiros indica que a presença dos assentamentos tem modificado a paisagem produtiva, o padrão de distribuição da população rural, bem como o traçado das estradas, levando em diversas situações à formação de novos aglomerados populacionais rurais, mudando o padrão produtivo local como um todo.
Os projetos de reforma agrária provocaram a dinamização da vida econômica de vários dos municípios onde se inserem, tendo como base um processo produtivo mais diversificado, quando comparado à estrutura produtiva prevalecente nos estabelecimentos agropecuários da região, significando uma reconversão produtiva em regiões de crise da agricultura patronal, em alguns casos contribuindo para uma reorganização dos sistemas de uso dos solos da produção familiar no seu contexto mais geral. Para além da relevância do número de novos produtores que entram como tal no mercado, introduzindo maior oferta de produtos, em especial alimentares, os assentados aumentaram sua capacidade de consumo, comprando não só gêneros alimentícios nas feiras, no comércio local e até mesmo de cidades vizinhas, como também insumos e implementos agrícolas, eletrodomésticos e bens de consumo em geral.
A comercialização da produção dos assentados provoca a dinamização ou até mesmo a recriação de canais tradicionais, como é o caso das feiras livres ainda através da presença dos "atravessadores"; como também a criação de pontos de venda próprios (feiras de produtores), como no município de Campos dos Goytacazes, RJ; experiências relativamente bem sucedidas de transformação do produto para venda, através da implantação de pequenas agroindústrias; constituição de marcas para comercializar a produção; formação de um mercado próprio para os "produtos da reforma agrária" etc. Neste último caso, Medeiros (1999) argumenta que as inovações não apenas atestam a origem do produto comercializado, mas principalmente têm a função de transformar a comercialização num momento de afirmação social e política da identidade de assentados e do sucesso das experiências de redistribuição fundiária.
É preciso evidenciar a lógica do mercado e a partir dela diferenciar terra de trabalho e terra de negócio, mostrando que os camponeses não só existem, mas são eles que plantam, empregam, pagam os impostos neste país, embora a política agrícola brasileira os ignore. (Oliveira, 2003, p.113-156.).
A presença dos assentamentos enquanto unidades territoriais e administrativas traz em si modificações na zona rural em que eles são implantados, resultando numa ampliação das demandas de infra-estrutura e em pressão sobre os poderes políticos locais, estadual e federal, redimensionando o tema do acesso às políticas públicas. Além disso, a condição de assentado possibilitou a essa população, pela primeira vez, a tomada de empréstimo para produção, ainda que essa integração ao mercado financeiro esteja marcada por um conjunto significativo de dificuldades (Medeiros, 1999).
Num cenário de crise da agricultura tradicional e de fechamento do mercado de trabalho, especialmente para os segmentos menos qualificados da população, os assentamentos representam uma importante alternativa de emprego, pois evitam o deslocamento das pessoas para buscar alternativas de sobrevivência. Por outro lado, geram novas pressões sobre a terra, na medida em que a agregação de novos membros pode intensificar o uso da terra no lote e favorecer a saída para outros lotes ou mesmo para novas ocupações de terra. A presença dos assentamentos também atua como fator gerador de postos de trabalho não agrícolas (construção de casas, estradas, escolas, contratação de professores, surgimento de transporte alternativo, etc.) e dinamizador do comércio local nos municípios onde se inserem, fato que se acentua nos casos de elevada concentração de assentados.
(Medeiros, 1999).