• Nenhum resultado encontrado

13. ARCAÍSMOS

13.5. ARCAÍSMOS MORFOLÓGICOS

Os nomes terminados em or, ol, ês, ote, eram uniformes: mia senhor, mulher espanhol, «a nossa português e casta linguagem» (Antonio Dinis da Cruz e Silva).

Algumas palavras tinham gênero gramatical diverso no português ar- caico: fim, mar, mapa, planeta, cometa eram femininos. Tribo, coragem, lin- guagem eram masculinos.

O particípio passado da segunda conjugação era em udo: perdudo (perdido), temudo (temido), recebudo (recebido), conheçudo (conhecido).

Havia particípios passados em eito e eso: colheito (colhido), coseito (cosido), maltreito (maltratado), despeso (despendido), defeso (defendido = proibido).

usavam-se formas verbais foneticamente regulares, que foram depois substituídas por outras, analógicas: estê (< stem) – substituída por esteja, arço (< ardeo) – substituída por ardo, mouro (< morio) – substituída por morro, conhosca (< cognoscat) – substituída por conheça, perdon (< per- donet) – substituída por perdoe.

Alguns textos:

“ – Amygos, dade-me de comer e ajudade-me, ca eu mouro com ffame.” (NUNES, 1943, p. 77).

– Tal companhon foi Deus filhar no bon rei, a que Deus perdon, que jamais non disse de non a nulh’omen por lh’algo dar...

(Cancioneiro da Ajuda, 10245)

5) a segunda pessoa do plural tinha a desinência des exceto no preté- rito perfeito do indicativo: amades (amais), devedes (deveis), partides (par- tis), digades (digais), sodes (sois), quisessedes (quisésseis).

13.6. ARCAIZAÇÃO COMO RECURSO DE ESTILO31 Escritores clássicos, e até contemporâneos, têm explorado conscien- temente a arcaização como recurso de estilo. Entre os contemporâneos so- bressai Rui Barbosa, grande em todos os sentidos, para quem “insigne ser- viço fazem os bons escritores à sua língua reempossando-a no gozo de vo- cábulos e torneios antigos deixados esquecidos por injustos desprezos do tempo” (Réplica, 1904, n° 491).

Eis alguns arcaísmos de autores contemporâneos:

1) avença = acordo:

31 Esse tópico foi integralmente extraído do livro Português no Colégio, do Professor Rocha Lima,.129-130.

De sorte que, por avença cordial entre todos, se deliberou...

(RUI BARBOSA In: BATISTA PEREIRA.

Coletânea Literária. São Paulo, 2ª ed., p. 274).

2) nado = nascido

— Tardaste muito!

Não era nado o sol, quando partiste, E frouxo o seu calor já sinto agora!

(GONÇALVES DIAS, I-Juca-Pirama, na Antologia de Manuel Bandeira, p. 76.)

3) pleonasmo da negação:

Dargo, o valente Dargo, a quem na guerra Ninguém nunca jamais não viu as costas...

(GARRETT, Flores sem Fruto, 1848, p. 64)

4) acertar + de + infinitivo = acontecer, suceder:

Cada um dos presentes acertou de contar uma anedota.

(MACHADO DE ASSIS, Brás Cubas, Garnier, 4ª ed., p. 150)

5) dizer de não = dizer que não;

Eu me abalanço a lhes dizer e redizer de não...

(RUI BARBOSA, Orações aos Moços, São Paulo 1921, p. 12.)

6) homem (como sujeito indeterminado):

Na verdade, jamais homem há visto Cousa na terra semelhante a isto;

Uma ave negra, friamente a isto;

Num busto, acima dos portais, Ouvir uma pergunta e dizer em resposta Que este é seu nome: “Nunca mais!”

Machado de Assis, Poesias, Jackson, vol. 27, 1938, p. 352.

QUESTIONÁRIO 1 – Que são arcaísmos?

2 – Como se explica a arcaização das palavras?

3 – Dar dois exemplos de arcaísmos léxicos, fonéticos, morfológicos e sin- táticos.

14. BREVES TEXTOS ARCAICOS PARA EXEMPLOS E COMENTÁRIOS

a) Textos com anotações

1.BARCAROLA

El-rey 32 de Portugale33 El-rey portugueese34

barcas mandou lavrare35 barcas mandou fazere,

e lá iran nas barcas migo36 e lá iran nas barcas migo

mya37 filha e noss’amigo. mya filha e noss’amigo.

Barcas mandou lavrare Barcas mandou fazere

e no mar as deytare, e no mar as metere,

e lá iran nas barcas migo e lá iran nas barcas migo

mya filha e noss’amigo. mya filha e noss’amigo.

(CUNHA, 1999, p. 237)

32 El-rey: el é forma arcaica do artigo definido masculino. Provém do latim ĭllǔ, através da seguinte cadeia foné- tica: ĭllǔ > elo > el (com apócope do o em virtude da próclise).

Na língua atual, somente se usa antes do substantivo rei, mas outrora podia preceder outras palavras.

33 Portugale: Portugal. Do latim Portucale, pela sonorização do –c– e apócope do e.

Segundo o medievalista brasileiro, Professor Celso Cunha, o e paragógico que aí aparece deve explicar-se pela tendência a evitar o final agudo no verso. (Cf. CUNHA, 1999: 213)

Idêntica paragoge de origem rítmica ocorreu com as palavras lavrare, portugueese, fazere, deytare e metere, que se leem nesta “Barcarola”.

34 portuguese: português. Do latim portucalense, através de: portucalense > portugaes > portuguees > portu- guês. Houve sonorização do –c-, síncope do –l-, assimilação do a ao e, crase dos ee e queda da vogal final.

35 lavrare: construir, fabricar (referindo-se a uma embarcação). Do latim laborare, pela síncope do o pretônico e passagem normal do grupo intervocálico br a vr, como liberare > livrar.

36 migo: comigo. Do latim mecum saiu a forma arcaica mego, a quall, conforme a opinião de muitos, teria pas- sado a migo sob a influência de mi. No entanto, parece mais exato ligá-la diretamente a micum, palavra de que não falta abonação no latim vulgar.

Nesta forma migo existe a preposição cum, representada pela sílaba go; tendo-se, porém, esquecido a compo- sição da palavra, foi ela reforçada com a preposição com, donde comigo (com + migo).

37 mya: minha. Forma proclítica do possessivo mia, pronunciada numa sílaba só e mais tarde reduzida a ma.

Era comum aparecer grafado mha.

2.EXEMPRO38 DHŨA MONJA

Foy em outro tenpo hũa39 monja devota, fre- mosa40 de corpo e de coraçõ41, e antre42 as outras fremosuras que avia43 tijnha44 muy fremosos olhos.

38 enxempro: exemplo. Do latim exemplu procedeu normalmente, na língua arcaica, a forma eixempro. A par desta, com o desaparecimento da subjuntiva do ditongo, houve exempro.

Para a nasalação do e inicial deve ter concorrido a vogal nasal da sílaba seguinte.

39 hũa: uma. O nosso artigo indefinido tem por étimo o numeral latino: una > ũa (também grafado hũa) >

uma.

40 fremosa: formosa. Metátese de fermosa, do latim formosa, com dissimilação do o-o em e-o: formosa >

fermosa (dissimilação) > fremosa (metátese).

41 coraçõ: coração. Do latim *coratione.

Várias terminações latinas convergiram para a forma ão:

a) one: leone > leõ > leão, dracone > dragom > dragão;

b) anu: granu > grão, paganu > pagão;

c) ane: cane > cã > cão, pane > pã > pão;

d) ǔdine: certitǔdine > certidõe > certidõ > certidão.

42 antre: entre. Por ser proclítica esta preposição, pôde a sua sílaba inicial ser tratada como átona. Daí a vacilação en-an, tal como acontece com antenatu > enteado ou anteado, ampǔlla > empola ou ampola, anguila > enguia ou anguia.

A forma antre teve grande uso na língua; exemplos:

Ali, antre os meus cordeiros, Soía dormir a sesta, À sombra dos amieiros.

(Bernardim Ribeiro. Éclogas. Coimbra, 1932, p. 23).

Antre Sintra, a mui prezada e serra de Riba-Tejo que Arrábeda é chamada, perto donde o rio Tejo se mete n’água salgada,

O senhor da terra a vyo45 e qujsea46 aver per47 amores, mes48 nõ pode, e mandouha49 rroubar per sua gente. E ella, quando os vyo, temeos50 muyto, e preguntouhos51 por que a amava seu se- nhor mais que as outras. E elles rresponderom:

Senhora, por vossos olhos. E ella os fez logo thi- rar, e enujou-lhos52 e mandou-lhe dizer que ha avia o que desejava, que daquello fezesse53 sua voontade54. E ella amou mais perder fremosura do corpo que ha55 da alma.

(VASCONCELOS, 1922, p. 51)

45 vyo: viu

46 qujsea: qui-la. É o pretérito perfeito de querer, que traz aglutinado a si o pronome pessoal átono a.

47 per: por. Na língua antiga havia per (do latim per) e por (do latim pro).

Em por se condensaram as funções sintáticas de uma e outra, de sorte que veio per a desaparecer, ex- ceto nas locuções de per si, de permeio, e nas combinações com os artigos definidos e com os prono- mes demonstrativos átonos (pelo, pela, pelos, pelas).

48 mes: mas. Do advérbio latino magis saiu o advérbio português mais, que passou a exercer também a função de conjunção adversativa. “Durante muito tempo não sofreu ele qualquer distinção de forma num e noutro caso, e ainda hoje não a sofre na língua do povo, mas depois, devido provavelmente à sua qua- lidade de átono quando usado como conjunção, perdeu o i, ficando reduzido ao mas, exclusivo da língua culta.” (NUNES, 1928: 219)

A forma que figura no texto, mes, parece “ser já uma evolução de mas” (Id., ib., p. 219, nota).

49 mandouha: mandou-a.

50 temeos: temeu-os.

51 preguntouhos: perguntou-os (= perguntou-lhes).

Preguntar é a forma mais antiga na língua e a que, ainda hoje, se usa em Portugal. No Brasil, escreve- se e pronuncia-se perguntar. A origem é, talvez, *precuntare. Quanto à sintaxe do texto, observe-se que, atualmente, este verbo se constrói com objeto direto de coisa e indireto de pessoa (perguntar alguma coisa a alguém, perguntar-lhe algo).

52 enuyoulhos: enviou-lhos.

53 fezesse: fizesse.

54 voontade: vontade. Do latim volǔntate, pela queda do –l-, mutação do ǔ em o e sonorização do se- gundo i por estar intervocálico: volǔntate > voontade > vontade. Houve finalmente a crase dos oo.

55 ha: a. É o artigo feminino, que também aparecia grafado aa.

Exemplos:

“... quando o queria levar contra aa fonte.”

“... comendaram aa donzela a Deus”. (Augusto Magne. A demanda do Santo Graal. Rio de Janeiro, 1944, vol. III, p. 16)

3.O LOBO E O CORDEIRO

Conta-sse que o lobo bebia ũa vez em ũu rri- beiro, da parte de cima, e o cordeiro bebia em aquell medês56 rribeiro, da parte de fundo. Disse o lobo ao cordeiro:

– Porque me luxas57 a augua e danas este rri- beiro?

E o cordeiro rrespondeo e disse homildosa- mente:

– Eu nom te faço enjuria, nem luxo o rrio, porque a augua corre contra mim, e a augua he mui clara; e pero58 sse a quisese abolver59, nom poderia.

Outra vez, o llobo braada60 forte e diz:

56 medês: mesmo. Do nominativo latino ĭpse, precedido da partícula met, formou-se a palavra metĭpse, donde, por evolução normal, se originou a forma arcaica medês: metĭpse > *medesse > medês. Essa partícula met era um elemento de reforço, que muito frequentemente se pospunha aos pronomes pes- soais. Originariamente pospositiva, “pasó a usar-se como um prefijo por medio de combinaciones como semet ipsum, interpretado se metipsum” (Grandgent, 1928: 36)

57 luxas: sujas.

58 pero: ainda que, embora.

59 abolver: revolver, turvar.

60 braada: brada. De balatrat, com metátese do r: balatrat > baadra > braada.

Os aa, que depois se fundiram num só (brada), representam, aqui, a pronúncia como hiato. Muitas ve- zes, porém, o redobro de vogais é mero expediente gráfico com que se assinala a tonicidade da sílaba.

Eis um exemplo:

Com isope espargeraas E serey limpo muy breve;

Tu, Senhor, me levaraas E minha alma leyxaraas Muyto mais alva que a neve.

(Gil Vicente. Salmo de miserere mei Deus, extraído da edição de 1562)

Em espargeraas (= espargerás), lavaraas (= lavarás) e leyxaraas (= deixarás), os aa servem de mostrar

– Nom te avonda61 que tu me fazes enjuria e dano, e ainda me ameaças?

E o cordeiro outra vez homildosamente rres- pondeo:

– Nom te ameaço, mais eu me escuso com boa razom.

E o llobo rrespondeo outra vez:

– Ainda me ameaças? Já ssemelhavill injuria me fezeste62 tu e teu padre, ssom já bem sseis meses.

O cordeiro disse:

– Ó ladrom, eu não ey tanto tempo!

E o lobo iroso disse:

– Oo maao63 rrapaz, ainda ousas de falar?

E foi-sse a ell e matou-ho e comê’o64. (Apud SILVA NETO, 1942, p. 118)

61 avonda: basta.

62 fezeste: fizeste. Do latim fecĭsti. O i surgiu por influência da primeira pessoa do singular (fiz < fecĭ).

63 maao: mau. Do latim malu. Os aa indicam que a vogal é tônica.

64 comê’o: comeu-o.

b) Textos para comentário

14.1.CANTIGA DE AMIGO

Pera65 veer66 meu amigo, que talhou preito67 comigo,

alá68 vou, madre;69 Pera veer meu amado, que mig’á70 preito talhado,

alá vou, madre;

Que talhou preito comigo...

é por esto que vos digo:

alá vou, madre;

Que mig’á preito talhado...

é por esto que vos falo:

alá vou, madre.

(De El-rei D. Dinis – séc. XII, apud Dr. J. Leite de Vasconcelos.

Textos Arcaicos)

65 pera = para.

66 veer = ver. Do latim videre.

67 talhou preito = combinou, prometeu.

68 alá = forma arcaica de lá, do latim illac.

madre = mãe.

14.2.CANTIGA DE AMIGO

O anel do meu amigo perdi-o sso-lo71 verde pinho,

e chor’eu, bela.

O anel do meu amado perdi-o sso-lo verde ramo,

e chor’eu, bela.

Perdi-o sso-lo verde pinho, por en72 chor’eu, dona virgo,

e chor’eu, bela.

Perdi-o sso-lo verde ramo, por en chor’eu, dona d’algo,73

e chor’eu, bela.

(De Pero Gonçalves de Portocar- reyro – Séc. XII, apud. Dr. J. Leite

de Vasconcelos. Textos Arcaicos.)

71 sso-lo = sob o. A respeito da consoante inicial dobrada, veja-se o que foi dito no capítulo A ORTO- GRAFIA E A FONÉTICA HISTÓRICA.

72 por en = por isso. En, às vezes escrito ende, é a transformação do latim inde. Mais adiante, no conto O Rato da Cidade e o Rato da Aldeia, encontrar-se-á escrito poren.

73 dona d’algo = o mesmo que fidalga.

14.3.CANTIGA DE AMIGO

Preguntar74-uos75 quer’ eu, madre, que mi digades76 uerdade,

se ousará meu amigo ante uós falar comigo?

Poys eu migu’77 ey78 seu mandado,79 querria80 saber de grado

se ousará meu amigo ante uós falar comigo?

Hirey,81 mya82 madr’, a la83 fonte hu84 uan85 os ceruos do monte:

se ousará meu amigo ante uós falar comigo?

(Pero Meogo, apud J. J. NUNES, Crestomatia Arcaica)

74 preguntar = *precuntare > preguntar e, por metátese, perguntar.

75 uos = os sinais j e v, para indicar o i e o u consoantes latinas, só foram introduzidos no fim da Idade Média. Até então, escrevia-se como está no texto: uos por vós.

76 digades = digais.

77 migu’ = comigo. Ver, a propósito, a nota acima sobre mig’á.

78 hey = hei = tenho. A respeito da irregularidade gráfica, ver o que foi dito no capítulo A ORTOGRAFIA E A FONÉTICA HISTÓRICA.

79 mandado = recado, notícia. Note-se que ainda hoje é forma popular dizer-se “nem novas nem manda- do”.

80 querria = queria.

81 hirey = irei.

14.4.BARCAROLA

Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo!

E ai, Deus, se verrá86 cedo!

Ondas do mar levado, Se vistes meu amado!

E ai, Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo, o por que eu87 suspiro!

E ai, Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amado o por que ei gran cuidado!

E ai, Deus, se verrá cedo!

(Martim Codax. Apud ERNANI CIDADE.

Poesia Medieval, Cantigas de Amigo)

14.5.DA PROVINCIA DE TURQUYA

Turquya contem em sy pouoos de gente mesturada. S.

Gregos. Armenios. e Turcos. Os Turcos tem lingua propria. e tem a ley do abominavel Mafomede. Som homẽs ydiotas e rudos e de pouco entender. Viuem nos montes e nos valles segundo que acham os paçeres. porque tem grandes manadas de bestas e de guaados. Alli som os cauallos e os muus de grande valor. Mas os Armenios e Greguos que hy som viuem nas cidades e lugares, e estes obram muy nobremente em syr- go. Tem muytas çidades, antre as quaaes som Gomo. Caçeria.

e Sebasta. onde o glorioso Sam Bras reçebeo ho seu martirio por Jhesu Cristo, e som sogeitos a huũ dos reys Tartaros.

(Do livro de Marco Paulo, cap XIII, edição de Francisco Maria Esteves Pereira, conforme a impressão de Valentim Fernandes. Lisboa, 922)

86 verrá = virá.

87 o por que eu = aquele por quem eu.

14.6.LENDA DO REI LEAR

Este rrey Leyr nom ouue88 filho, mas ouue tres filhas muy fermosas e amaua-as muito. E huum dia ouue sas rrazõoes89 com ellas e disse-lhes que lhe dissessem verdade, quall d’ellas o amaua mais. Disse a mayor que nom auia cousa no mundo que tanto amasse como elle; e disse a outra que o amaua tanto como ssy90 mesma; e disse a terceira, que era a meor,91 que o amaua tanto como deue d’amar filha a padre. E elle quis-lhe mall porém, e por esto non lhe quis dar parte no rreyno. E casou a filha mayor com o du- que de Cornoalha, e casou a outra com rrey de Scocia, e nom curou92 da meor. Mas ella por sa93 vemtuira94 casou-sse melhor que nenhũa95 das ou- tras, ca96 se pagou97 d’ella el-rrey de Framça, e filhou98-a por molher. E de- pois seu padre d’ella99 em sa velhice filharam-lhe seus gemrros a terra, e foy mallandamte, e ouue a tornar aa merçee100 d’ell-rrey101 de Framça e de sa fi- lha, a meor, a que nom quis dar parte do rreyno. E elles reçeberom-no muy bem e derom-lhe todas as cousas que lhe forom102 mester,103 e honrrarom-no mentre104 foy uiuo; e morreo em seu poder.

(Do Nobiliário ou Livro de Linhagens do Conde d. Pedro.

Séc. XIII ou XIV. Apud Dr. J. Leite de Vasconcelos. Textos Arcaicos)

88 ouue = houve, teve.

89 ouue sas rrazõoes = teve suas razões, isto é, entendeu-se, conversou.

90 ssy = a si.

91 meor = menor, do latim minore > mior > meor.

92 curou = tratou.

93 sa = sua.

94 vemtuira = ventura, sorte.

95 nenhũa = nenhuma: nec una > ne ũa > neũa > nenhuma.

96 ca = porque: quia > *qua > ca.

97 pagou = agradou-se, gostou: pacare > pagar.

98 filhou = tomou: filiare > *filyar > filhar.

99 ... seu padre d’ella... = a frase tem de ser assim entendida: “depois, ao pai (dela), na velhice, os gen- ros tomaram a terra”.

100 ouue a tornar aa merçee = teve de merecer, pedir, a compaixão. Em aa não se processou ainda a crase: a la > aa > à. Merçee é o resultado da evolução de mercede.

101 ell-rrey = el-rei. Note-se o artigo arcaico el, resultado da evolução de illu > elo > el, com apócope do o

14.7.ADONA PEE DE CABRA

Dom Diego Lopes era muy boo105 monteyro106 e, estãdo hũu dia em sa ar- mada e atemdemdo107 quamdo verria108 o porco, ouuyo cantar muyta alta voz109 hũua molher em çima de hũua110 pena111 e el foy pera lá e vio-a seer muy fermosa112 e muy bem vistida e namorou-sse logo della muy fortemente e pregumtou-lhe quẽ era e ella lhe disse que era hũua mo- lher que mujto alto linhagem, e ell lhe disse que, pois era molher d’alto linha- gem, que casaria com ella, se ella quises- se, ca ell era senhor daquella terra toda, e ella lhe disse que o faria, se lhe prometes- se que numca se santificasse,113 e elle lho outorgou e e ella foi-sse logo com elle. E esta dona era muy fermosa e muy bem feita em todo seu corpo, saluando que auia hũu pee forcado,114 como pee de ca- bra. E viuerom gram tempo e ouuerom dous filhos e hũu ouue nome Enheguez Guerra e a outra foi molher e ouue nome dona...

E, quando comiam de sũu115 dom Die-

105 boo = bom. De bonum > bõo > bom.

106 monteyro = que caça no monte.

107 atemdemdo = esperando.

108 verria = viria.

109 cantar muy alta voz = cantar em voz muito alta.

110 hũua = uma.

111 pena = penha, pedra.

112 vio-a seer muy fermosa = viu que era muito formosa.

113 que numca se santificasse = que nunca se benzesse.

114 saluando que auia hũu pee forcado = salvo em que tinha pé rachado (como pé de cabra)

115 de sũu = “O port. arcaico sum ou sũu, nas locuções desaparecidas em sum, de sum, com sum, que significavam juntamente, entre si, tem origem em sub ũnu” (Marques Leite, Língua Luso-Brasília, p. 299).

go Lopez e sa molher, assentaua ell apar de ssy116 o filho e ella assẽentaua apar de ssy a filha, da outra parte. E hũu dia foy elle a seu monte e matou hũu porco muy gramde e trouxe-o pera sa casa e pose-o ante ssy hu117 sya118 comemdo com ssa molher e com seus filhos, e lamçarom hũu osso da mesa e veerom a pellejar hũu alãao119 e hũua podenga120 sobre’elle em tall maneyra que a podenga trauou ao alão em a gargãta e matou-o. E Dom Diego Lopes, quando esto vyo, teue-o por milla- gre e synou-sse121 e disse:

– Santa Maria, vall!122 quem vio nunca tall cousa?

(Apud J. J. NUNES. Crestomatia Ar- caica)

116 a par de ssy = junto de si.

117 hu = ver nota sobre esta palavra na terceira cantiga de amigo desta antologia.

118 sya = segundo J. J. Nunes, Crestomatia Arcaica, o mesmo que seia, siia, imperfeito do indicativo de seer. Este verbo, de seder, sentar-se, confundiu-se em muitas formas com esse (ser). No texto, deve-se, então, entender onde se sentava.

14.8.ORATO DA CIDADE E O DA ALDEIA

Comta-sse que hũa vez hũu rrato que morava em hũa çidade, amdando a hũa aldea omde morava outro rrato sseu ami- guo, quamdo este rrato da çidade chegou aa aldea omde morava, este rrato sseu amiguo ouve com elle gramde prazer123 e dey124-lhe a comer favas e triiguo e ervan- ços, com doutros mamjares.

E depois que assaz comerom, o rrato da çidade deu muytas graças ao rrato da aldea de quamta cortesia lhe fezera, e rro- gou-lhe que viesse aa çidade com elle aa casa omde morava, que aly lhe emtendya de dar muytas delicadas higuarias. Tamto o rogou que o dicto rrato sse veo125 com ell aa çidade.

E levou-ho a hũa cozinha omde mora- va, na qual avia muytas galinhas e carne de porco, com outros boos126 comeres; e rrogou-lhe que comesse aa sua vomtade.

E estamdo elles assy comendo, sseguros, a sseu talante127, chegou o cozinheyro e abrio a porta da cozinha; e o rrato da çi- dade, que ssabia o costume da casa, fugiu loguo, e ho outro rrato, porque nom ssabia o custume ficou. E o cozinheyro, amdan- do em pos ell128 com hũu paao129 na maão

123 ouve com elle gramde prazer = teve grande prazer em vê-lo.

124 dey = a forma dei é bastante regular, pela evolução de dedit. A atual forma deu resultou da analogia com outras da 2ª conjugação, como perdeu, temeu etc.

125 veo = veio.

126 boos = bons. Às vezes entontra-se a forma bõo, porque na época ainda se mantinha a nasalidade re- sultante da evolução bonu > bõo.

127 a sseu talamte = à vontade. A expressão é corrente ainda hoje.

128 em pos ell = atrás dele.

129 paao = pau.