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Conta-sse que o lobo bebia ũa vez em ũu rri- beiro, da parte de cima, e o cordeiro bebia em aquell medês56 rribeiro, da parte de fundo. Disse o lobo ao cordeiro:

– Porque me luxas57 a augua e danas este rri- beiro?

E o cordeiro rrespondeo e disse homildosa- mente:

– Eu nom te faço enjuria, nem luxo o rrio, porque a augua corre contra mim, e a augua he mui clara; e pero58 sse a quisese abolver59, nom poderia.

Outra vez, o llobo braada60 forte e diz:

56 medês: mesmo. Do nominativo latino ĭpse, precedido da partícula met, formou-se a palavra metĭpse, donde, por evolução normal, se originou a forma arcaica medês: metĭpse > *medesse > medês. Essa partícula met era um elemento de reforço, que muito frequentemente se pospunha aos pronomes pes- soais. Originariamente pospositiva, “pasó a usar-se como um prefijo por medio de combinaciones como semet ipsum, interpretado se metipsum” (Grandgent, 1928: 36)

57 luxas: sujas.

58 pero: ainda que, embora.

59 abolver: revolver, turvar.

60 braada: brada. De balatrat, com metátese do r: balatrat > baadra > braada.

Os aa, que depois se fundiram num só (brada), representam, aqui, a pronúncia como hiato. Muitas ve- zes, porém, o redobro de vogais é mero expediente gráfico com que se assinala a tonicidade da sílaba.

Eis um exemplo:

Com isope espargeraas E serey limpo muy breve;

Tu, Senhor, me levaraas E minha alma leyxaraas Muyto mais alva que a neve.

(Gil Vicente. Salmo de miserere mei Deus, extraído da edição de 1562)

Em espargeraas (= espargerás), lavaraas (= lavarás) e leyxaraas (= deixarás), os aa servem de mostrar

– Nom te avonda61 que tu me fazes enjuria e dano, e ainda me ameaças?

E o cordeiro outra vez homildosamente rres- pondeo:

– Nom te ameaço, mais eu me escuso com boa razom.

E o llobo rrespondeo outra vez:

– Ainda me ameaças? Já ssemelhavill injuria me fezeste62 tu e teu padre, ssom já bem sseis meses.

O cordeiro disse:

– Ó ladrom, eu não ey tanto tempo!

E o lobo iroso disse:

– Oo maao63 rrapaz, ainda ousas de falar?

E foi-sse a ell e matou-ho e comê’o64. (Apud SILVA NETO, 1942, p. 118)

61 avonda: basta.

62 fezeste: fizeste. Do latim fecĭsti. O i surgiu por influência da primeira pessoa do singular (fiz < fecĭ).

63 maao: mau. Do latim malu. Os aa indicam que a vogal é tônica.

64 comê’o: comeu-o.

b) Textos para comentário

14.1.CANTIGA DE AMIGO

Pera65 veer66 meu amigo, que talhou preito67 comigo,

alá68 vou, madre;69 Pera veer meu amado, que mig’á70 preito talhado,

alá vou, madre;

Que talhou preito comigo...

é por esto que vos digo:

alá vou, madre;

Que mig’á preito talhado...

é por esto que vos falo:

alá vou, madre.

(De El-rei D. Dinis – séc. XII, apud Dr. J. Leite de Vasconcelos.

Textos Arcaicos)

65 pera = para.

66 veer = ver. Do latim videre.

67 talhou preito = combinou, prometeu.

68 alá = forma arcaica de lá, do latim illac.

madre = mãe.

14.2.CANTIGA DE AMIGO

O anel do meu amigo perdi-o sso-lo71 verde pinho,

e chor’eu, bela.

O anel do meu amado perdi-o sso-lo verde ramo,

e chor’eu, bela.

Perdi-o sso-lo verde pinho, por en72 chor’eu, dona virgo,

e chor’eu, bela.

Perdi-o sso-lo verde ramo, por en chor’eu, dona d’algo,73

e chor’eu, bela.

(De Pero Gonçalves de Portocar- reyro – Séc. XII, apud. Dr. J. Leite

de Vasconcelos. Textos Arcaicos.)

71 sso-lo = sob o. A respeito da consoante inicial dobrada, veja-se o que foi dito no capítulo A ORTO- GRAFIA E A FONÉTICA HISTÓRICA.

72 por en = por isso. En, às vezes escrito ende, é a transformação do latim inde. Mais adiante, no conto O Rato da Cidade e o Rato da Aldeia, encontrar-se-á escrito poren.

73 dona d’algo = o mesmo que fidalga.

14.3.CANTIGA DE AMIGO

Preguntar74-uos75 quer’ eu, madre, que mi digades76 uerdade,

se ousará meu amigo ante uós falar comigo?

Poys eu migu’77 ey78 seu mandado,79 querria80 saber de grado

se ousará meu amigo ante uós falar comigo?

Hirey,81 mya82 madr’, a la83 fonte hu84 uan85 os ceruos do monte:

se ousará meu amigo ante uós falar comigo?

(Pero Meogo, apud J. J. NUNES, Crestomatia Arcaica)

74 preguntar = *precuntare > preguntar e, por metátese, perguntar.

75 uos = os sinais j e v, para indicar o i e o u consoantes latinas, só foram introduzidos no fim da Idade Média. Até então, escrevia-se como está no texto: uos por vós.

76 digades = digais.

77 migu’ = comigo. Ver, a propósito, a nota acima sobre mig’á.

78 hey = hei = tenho. A respeito da irregularidade gráfica, ver o que foi dito no capítulo A ORTOGRAFIA E A FONÉTICA HISTÓRICA.

79 mandado = recado, notícia. Note-se que ainda hoje é forma popular dizer-se “nem novas nem manda- do”.

80 querria = queria.

81 hirey = irei.

14.4.BARCAROLA

Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo!

E ai, Deus, se verrá86 cedo!

Ondas do mar levado, Se vistes meu amado!

E ai, Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amigo, o por que eu87 suspiro!

E ai, Deus, se verrá cedo!

Se vistes meu amado o por que ei gran cuidado!

E ai, Deus, se verrá cedo!

(Martim Codax. Apud ERNANI CIDADE.

Poesia Medieval, Cantigas de Amigo)

14.5.DA PROVINCIA DE TURQUYA

Turquya contem em sy pouoos de gente mesturada. S.

Gregos. Armenios. e Turcos. Os Turcos tem lingua propria. e tem a ley do abominavel Mafomede. Som homẽs ydiotas e rudos e de pouco entender. Viuem nos montes e nos valles segundo que acham os paçeres. porque tem grandes manadas de bestas e de guaados. Alli som os cauallos e os muus de grande valor. Mas os Armenios e Greguos que hy som viuem nas cidades e lugares, e estes obram muy nobremente em syr- go. Tem muytas çidades, antre as quaaes som Gomo. Caçeria.

e Sebasta. onde o glorioso Sam Bras reçebeo ho seu martirio por Jhesu Cristo, e som sogeitos a huũ dos reys Tartaros.

(Do livro de Marco Paulo, cap XIII, edição de Francisco Maria Esteves Pereira, conforme a impressão de Valentim Fernandes. Lisboa, 922)

86 verrá = virá.

87 o por que eu = aquele por quem eu.

14.6.LENDA DO REI LEAR

Este rrey Leyr nom ouue88 filho, mas ouue tres filhas muy fermosas e amaua-as muito. E huum dia ouue sas rrazõoes89 com ellas e disse-lhes que lhe dissessem verdade, quall d’ellas o amaua mais. Disse a mayor que nom auia cousa no mundo que tanto amasse como elle; e disse a outra que o amaua tanto como ssy90 mesma; e disse a terceira, que era a meor,91 que o amaua tanto como deue d’amar filha a padre. E elle quis-lhe mall porém, e por esto non lhe quis dar parte no rreyno. E casou a filha mayor com o du- que de Cornoalha, e casou a outra com rrey de Scocia, e nom curou92 da meor. Mas ella por sa93 vemtuira94 casou-sse melhor que nenhũa95 das ou- tras, ca96 se pagou97 d’ella el-rrey de Framça, e filhou98-a por molher. E de- pois seu padre d’ella99 em sa velhice filharam-lhe seus gemrros a terra, e foy mallandamte, e ouue a tornar aa merçee100 d’ell-rrey101 de Framça e de sa fi- lha, a meor, a que nom quis dar parte do rreyno. E elles reçeberom-no muy bem e derom-lhe todas as cousas que lhe forom102 mester,103 e honrrarom-no mentre104 foy uiuo; e morreo em seu poder.

(Do Nobiliário ou Livro de Linhagens do Conde d. Pedro.

Séc. XIII ou XIV. Apud Dr. J. Leite de Vasconcelos. Textos Arcaicos)

88 ouue = houve, teve.

89 ouue sas rrazõoes = teve suas razões, isto é, entendeu-se, conversou.

90 ssy = a si.

91 meor = menor, do latim minore > mior > meor.

92 curou = tratou.

93 sa = sua.

94 vemtuira = ventura, sorte.

95 nenhũa = nenhuma: nec una > ne ũa > neũa > nenhuma.

96 ca = porque: quia > *qua > ca.

97 pagou = agradou-se, gostou: pacare > pagar.

98 filhou = tomou: filiare > *filyar > filhar.

99 ... seu padre d’ella... = a frase tem de ser assim entendida: “depois, ao pai (dela), na velhice, os gen- ros tomaram a terra”.

100 ouue a tornar aa merçee = teve de merecer, pedir, a compaixão. Em aa não se processou ainda a crase: a la > aa > à. Merçee é o resultado da evolução de mercede.

101 ell-rrey = el-rei. Note-se o artigo arcaico el, resultado da evolução de illu > elo > el, com apócope do o

14.7.ADONA PEE DE CABRA

Dom Diego Lopes era muy boo105 monteyro106 e, estãdo hũu dia em sa ar- mada e atemdemdo107 quamdo verria108 o porco, ouuyo cantar muyta alta voz109 hũua molher em çima de hũua110 pena111 e el foy pera lá e vio-a seer muy fermosa112 e muy bem vistida e namorou-sse logo della muy fortemente e pregumtou-lhe quẽ era e ella lhe disse que era hũua mo- lher que mujto alto linhagem, e ell lhe disse que, pois era molher d’alto linha- gem, que casaria com ella, se ella quises- se, ca ell era senhor daquella terra toda, e ella lhe disse que o faria, se lhe prometes- se que numca se santificasse,113 e elle lho outorgou e e ella foi-sse logo com elle. E esta dona era muy fermosa e muy bem feita em todo seu corpo, saluando que auia hũu pee forcado,114 como pee de ca- bra. E viuerom gram tempo e ouuerom dous filhos e hũu ouue nome Enheguez Guerra e a outra foi molher e ouue nome dona...

E, quando comiam de sũu115 dom Die-

105 boo = bom. De bonum > bõo > bom.

106 monteyro = que caça no monte.

107 atemdemdo = esperando.

108 verria = viria.

109 cantar muy alta voz = cantar em voz muito alta.

110 hũua = uma.

111 pena = penha, pedra.

112 vio-a seer muy fermosa = viu que era muito formosa.

113 que numca se santificasse = que nunca se benzesse.

114 saluando que auia hũu pee forcado = salvo em que tinha pé rachado (como pé de cabra)

115 de sũu = “O port. arcaico sum ou sũu, nas locuções desaparecidas em sum, de sum, com sum, que significavam juntamente, entre si, tem origem em sub ũnu” (Marques Leite, Língua Luso-Brasília, p. 299).

go Lopez e sa molher, assentaua ell apar de ssy116 o filho e ella assẽentaua apar de ssy a filha, da outra parte. E hũu dia foy elle a seu monte e matou hũu porco muy gramde e trouxe-o pera sa casa e pose-o ante ssy hu117 sya118 comemdo com ssa molher e com seus filhos, e lamçarom hũu osso da mesa e veerom a pellejar hũu alãao119 e hũua podenga120 sobre’elle em tall maneyra que a podenga trauou ao alão em a gargãta e matou-o. E Dom Diego Lopes, quando esto vyo, teue-o por milla- gre e synou-sse121 e disse:

– Santa Maria, vall!122 quem vio nunca tall cousa?

(Apud J. J. NUNES. Crestomatia Ar- caica)

116 a par de ssy = junto de si.

117 hu = ver nota sobre esta palavra na terceira cantiga de amigo desta antologia.

118 sya = segundo J. J. Nunes, Crestomatia Arcaica, o mesmo que seia, siia, imperfeito do indicativo de seer. Este verbo, de seder, sentar-se, confundiu-se em muitas formas com esse (ser). No texto, deve-se, então, entender onde se sentava.

14.8.ORATO DA CIDADE E O DA ALDEIA

Comta-sse que hũa vez hũu rrato que morava em hũa çidade, amdando a hũa aldea omde morava outro rrato sseu ami- guo, quamdo este rrato da çidade chegou aa aldea omde morava, este rrato sseu amiguo ouve com elle gramde prazer123 e dey124-lhe a comer favas e triiguo e ervan- ços, com doutros mamjares.

E depois que assaz comerom, o rrato da çidade deu muytas graças ao rrato da aldea de quamta cortesia lhe fezera, e rro- gou-lhe que viesse aa çidade com elle aa casa omde morava, que aly lhe emtendya de dar muytas delicadas higuarias. Tamto o rogou que o dicto rrato sse veo125 com ell aa çidade.

E levou-ho a hũa cozinha omde mora- va, na qual avia muytas galinhas e carne de porco, com outros boos126 comeres; e rrogou-lhe que comesse aa sua vomtade.

E estamdo elles assy comendo, sseguros, a sseu talante127, chegou o cozinheyro e abrio a porta da cozinha; e o rrato da çi- dade, que ssabia o costume da casa, fugiu loguo, e ho outro rrato, porque nom ssabia o custume ficou. E o cozinheyro, amdan- do em pos ell128 com hũu paao129 na maão

123 ouve com elle gramde prazer = teve grande prazer em vê-lo.

124 dey = a forma dei é bastante regular, pela evolução de dedit. A atual forma deu resultou da analogia com outras da 2ª conjugação, como perdeu, temeu etc.

125 veo = veio.

126 boos = bons. Às vezes entontra-se a forma bõo, porque na época ainda se mantinha a nasalidade re- sultante da evolução bonu > bõo.

127 a sseu talamte = à vontade. A expressão é corrente ainda hoje.

128 em pos ell = atrás dele.

129 paao = pau.

pera o matar, feri’-o muy mall; empero130 fugiu-lhe e partio-sse muy mall ferido.131

E o rrato da çidade veemdo-o, cha- mou-ho, que outra vez viesse a comer com elle, e nom ouvesse medo; e o outro rrato lhe respondeo:

– Amigo meu, ora fosse eu jajuum132 do comvite que me fezeste! A mym praz133 mais de comer triiguo, favas e hervamços em paz que galinhas e capões com temor e periiguo de morte. A paz, a quall ssempre tenho comiguo, me faz a mym os meus comeres sseerem134 delica- dos. E poren135 teus comeres guarda-os pera ty, ca eu me comtento do que hey.

E, as palavras dictas136, partirom-se.

(Apud RODRIGUES LAPA – LEITE DE VASCONCELOS. O Livro de Esopo)

130 empero = mas, porém.

131 mall ferido = ao contrário do que parece, significa seriamente ferido, gravemente ferido.

132 ora fosse eu jajuum = jejum tem, na frase, função adjetiva, significando sem comer. Deve-se, então, entender: estivesse eu ainda agora sem comer.

133 praz = verbo prazer, significando agradar, ser agradável: a mim agrada mais.

14.9.RHEGRA SUA PERA QUEM QUISER

VIUER EM PAZ

Ouue, ve, & calla,

& viueras vida folgada:

tua porta çerraras, teu vezinho louuaras, quãto podes nã faras, quãto sabes nã diras, quãto ves nã julgaras, quãto oues nã creras, se queres viuer ẽ paz.

Seys coysas sempre ve, quando falares, te mando, de quẽ fallas, onde, & que,

& a quem, como, & quando:

nũca fyes nem perfyes nem a outro enjuries, nã estes muyto na praça, nem terryas de quem passa, seja teu todo o que vestes, a rrybaldos nam doestes, nam caualgaras em potro.

Nẽ ta molher gabes a outro, nam cures de ser picam nẽ trauar contra rrezam.

Assy lograras tas caãs cõ tuas queixadas saãs.

(D. João Manuel. Cancioneiro geral.

Apud José Pereira Tavares.

Como se devem ler os clássicos.

Lisboa, 941, p. 22-23)

14.10.LIVRO DA ENSINANÇA DE BEM CAVALGAR TÔDA SELA

Em nome de nosso senhor Jesu Cristo, com sua graça e da virgem Maria, sua muy sancta madre, nossa senhora: Começasse o livro da enssynança de bem cavalgar toda sela que fez El- rrey dom Eduarte de Portugal e do Algarve, e se- nhor de Cepta, o qual começou em seendo iffan- te.

Em nome de nosso senhor Jesu Cristo: Se- gundo he mandado que todallas cousas façamos, ajudando aquel dito que de fazer livros nom he fim, por algũ meu spaço e folgança, conhecendo que a manha de seer boo cavalgador he hũa das principaaes que os senhores cavalleiros e scudei- ros devem aver, screvo algũas cousas per que se- ran ajudados pera a melhor percalçar os que as leerem com boa voontade e quiserem fazer o que per mym em esto lhes for declarado. E ssaybam primeiramente que esta manha mais se acalça per naçom, acertamento de aver boas bestas, e aazo continuado dandar em ellas, morando em casa e terra que haja boos cavalgadores e prezem os que o ssom, que por saberem todo o que sobr’esto aquy screvo nem poderem screver os que em ello mais que eu entendem, nom avendo dello boa, contynuada husança, com as outras ajudas suso scriptas. Mas esto faço por ensynar os que tanto nom souberem, e trazer em renembrança aos que mais sabem as cousas que lhes bem parecerem, e nas fallecidas enmendando no que screvo a ou- tros podeerem avysar. E os que esta manha qui- serem aver, helhes necessario que ajom as tres cousas principaaes per que todallas outras ma- nhas se acalçom, as quaaes som estas: grande