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As artes de pesca e o conhecimento do pescador

No documento universidade do estado do rio de janeiro (páginas 99-103)

3.3 Sobre a pesca artesanal

3.3.1 As artes de pesca e o conhecimento do pescador

Sabe-se hoje, da importância do papel dos pescadores artesanais na conservação da natureza e dos ecossistemas costeiros, e esse fator é avaliado por diferentes pesquisas que envolvem a Ecologia Humana. (DIEGUES, 2001; BEGOSSI, 2004).

Artes de pesca que mais utiliza

0 5 10 15 20 25 30 35

Tipos

Qtde

Linha Tarrafo Anzol Rede

Rede de espera Rede de arrasto Rede de caceia Rede de rasca Rede de camarão Rede de malha Rede de cerco Rede de cacua Armadilha Curral Laço Redinha Puçá Caniço Braço

Cercada de peixe

O trabalho dos pescadores pode ser resumido em um saber-fazer criativo e completo de conhecimentos:

Não há trabalho que não implique um saber-fazer, que não implique conhecimento, mesmo o trabalho manual. Um pescador pode até não saber falar e escrever sobre a pesca, mas, com a certeza, sabe pescar, caso contrário não seria pescador. Há sempre, algum saber inscrito no fazer. (PORTO-GONÇALVES, 2011, p.119).

As diferentes artes de pesca encontradas na Baía de Guanabara estão desaparecendo aos poucos. A variedade de apetrechos está relacionada com a variedade de pescados existentes em época remota.

O puçá, por exemplo, é um apetrecho utilizado por 1% dos pescadores entrevistados.

O mesmo é com relação ao caniço (2%). Pode-se citar também a pesca com tarrafo nas praias.

Hoje, com o assoreamento, essa arte quase não é mais praticada. Esses apetrechos de alguma forma estão desaparecendo na atividade pesqueira da região, em função da diminuição do pescado. Os diferentes tipos de rede são utilizados por 72% dos pescadores artesanais. Foram citadas as redes de espera, de arrasto, de caceia, de rasca, de camarão e de cacua.

“Quando comecei a pescar só tinha um caíco, hoje tenho que ir para Copacabana, Ilha d’água, rodar a baía toda. Antes pescava aqui na praia. Hoje tem muito pescador, tem até advogado na pesca, muita gente corre pra pescar.” (pescador 32)

Gráfico 15 - Artes de pesca.

A pesca artesanal é feita com parcerias e estas, geralmente, são realizadas com os familiares, amigos e afins. Ela envolve direta ou indiretamente a família do pescador, seja na preparação para a atividade, para a venda do pescado, a limpeza e o armazenamento dos apetrechos ou na manutenção dos barcos.

A ajuda mútua faz-se necessária na atividade pesqueira artesanal, e isto é representado por meio das parcerias que existem entre os pescadores. Para 37% dos entrevistados, há pessoas na casa que trabalham com a pesca, sendo que a maioria a desempenhar a atividade são os filhos e a companheira. “Todos na minha família são pescadores.” (pescador 84)

Valencio et al. (2001) lembram que o processo de trabalho na pesca artesanal é, em parte, um fazer objetivo, isto é, visa a que as técnicas adotadas alcancem o máximo de eficácia dentro das regras de manejo próprias do grupo, ao qual não é permitido retirar das águas tudo o que se queira, mas fazê-lo, segundo as condições de reposição natural do meio.

Uma das questões mais importantes, com relação à degradação da Baía de Guanabara, diz respeito à extinção ou desaparecimento de inúmeras espécies de peixes, crustáceos, moluscos e outros animais da sua extensa e riquíssima fauna. “Tem que procurar o peixe pra mais longe.” (pescador, 41).

Diegues lembra sobre o conhecimento adquirido pelos pescadores artesanais:

O mar, espaço de vida dos pescadores marítimos, é marcado pela fluidez das águas e de seus recursos, pela instabilidade contínua provocada pelos fenômenos meteorológicos e oceanográficos, pela variação e migração das espécies, seus padrões de reprodução, migração, etc. (DIEGUES, 2001, p.161).

O mesmo autor destaca também que:

a vida no mar é marcada não só por contingências naturais, mas por temores e medos, acidentes e naufrágios, pela flutuação dos preços, pela extrema perecibilidade do pescado que, uma vez capturado, deve ser vendido rapidamente, o que obriga o pescador a acertos particulares de comercialização que, usualmente, lhe são desfavoráveis. (DIEGUES, 2001, p.161).

Figura 14 - Pescaria com caniço na região de manguezais da APA de Guapimirim.

Foto: Márcia Rosa.

Para muitos pescadores, o domínio da arte de pesca só se consolida conjuntamente com o domínio das técnicas que permitem o melhor convívio com o mar, sem o qual não se faz pescador artesanal. (RAMALHO, 2010). E, para tanto, as técnicas precisam ser mantidas e passadas para novas gerações assim como o manejo e o conhecimento tradicional embutido no saber-fazer.

Begossi (1995) entende que o conhecimento ecológico local mantido pelos pescadores pode resultar em práticas de manejo que ajudam na conservação e no uso sustentável dos recursos pesqueiros. Essa eficácia e manejo dizem respeito ao conhecimento que foi passado durante várias gerações e que trazem embutido a manutenção do equilíbrio do ambiente. O autor observa também que as populações de pescadores têm tido influência por mudanças de ordem econômica e social em relação ao manejo e uso de recursos naturais.

Os conhecimentos adquiridos que estão por trás dos saberes populares são, muitas vezes, suficientes para a garantia de uma série de necessidades de vida daqueles que os detêm;

porém muitas vezes, são descartados por não serem reconhecidos pelo conhecimento científico. (FOUCAULT, 1988).

Para Martins (2002), no mundo artificializado e que busca constantemente a previsibilidade, os pescadores artesanais rompem esse processo ao prever dias de sol e chuva, ao compreender o significado dos ventos, das marés, da qualidade da água, dos ritmos da natureza tão próxima.

Porto-Gonçalves (2011) compreende que o fundamento da sociedade com a natureza sob o capitalismo está baseado na separação, a mais radical possível, entre os homens e as mulheres, de um lado; e a natureza, de outro.

O conhecimento científico, muitas das vezes, ignora um saber que perdura por séculos e que traz a riqueza das práticas tradicionais, do fazer e refazer diário. Das artes de pesca com todas as suas sabedorias e entendimentos sobre o vento, a lua, as nuvens, e as condições do mar que são conhecimentos próprios dos pescadores, que foram incorporados no trabalho e valorizados no dia a dia.

No documento universidade do estado do rio de janeiro (páginas 99-103)