2 PELOS CIDADÃOS DE BEM: OS DEBATES SOBRE O ESTATUDO DO DESARMAMENTO (2003)
2. As discussões em torno da constitucionalidade
As discussões em torno da redução da maioridade penal na Câmara dos Deputados podem ser divididas em duas etapas, sendo uma primeira centrada na constitucionalidade ou não da matéria e a segunda no mérito. Enquanto a primeira etapa seria responsabilidade da CCJC, a segunda transcorreria em uma comissão especial e, posteriormente, no plenário da casa.
Da mesma forma que nas discussões sobre o desarmamento civil, apresentadas no capítulo anterior, ainda que tenha havido tal divisão de funções, na prática os debates sobre a constitucionalidade e o mérito de se reduzir a maioridade penal se interpenetraram. Diversas discussões em torno do conteúdo da matéria se deram na CCJC, assim como o tema da constitucionalidade da PEC seguiu acompanhando os debates mesmo na Comissão Especial e no plenário. A única razão para esta separação no corpo do presente texto é a escolha de tratar os argumentos sobre constitucionalidade em separado dos demais, uma vez que eles não se relacionam diretamente com as considerações sobre a conveniência da pena, sua função, o lugar da violência e da criminalidade em nossa sociedade e outros aspectos correlatos que aparecem ao longo das disputas discursivas que tomam lugar na Câmara.
A PEC171-93 teve diversos relatores no curso de seu processo de tramitação na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC). Foram eles os deputados José Luiz Clerot (PMDB-PB), Inaldo Leitão (então PSDB-PB), Marcelo Itagiba (então PMDB-RJ e depois PSDB-RJ), Osmar Serraglio (PMDB-PR) e Luiz Couto (PT-PB). Em todas as ocasiões nas quais se produziram pareceres em torno da constitucionalidade da PEC, a polêmica se resumiu à consideração do artigo 228 como garantia fundamental ou não. Em outras palavras, a discussão era se o artigo 228, que determinava a inimputabilidade penal aos menores de 18 anos, constituía ou não cláusula pétrea da Constituição de 1988. Duas audiências públicas foram realizadas em 1999 com o objetivo de debater este tópico. Posteriormente, em 2001, nova audiência foi realizada e no ano de 2015, já no contexto em que a tramitação da matéria se acelerou, mais dois juristas foram ouvidos antes da votação final na comissão. Nessa ocasião
64 Eduardo Cunha assumiu a presidência da Câmara em fevereiro de 2015. No fim do mesmo ano já enfrentava um processo de cassação no Conselho de Ética da casa, acusado de mentir em CPI sobre a existência de contas em seu nome no exterior. Em 05/05/2016 foi afastado da presidência e de seu mandato por decisão do Supremo Tribunal Federal, acusado de interferir nas investigações e no processo que corria contra ele. No dia 7 de julho de 2016 renunciou à presidência da Câmara e em 12/09/2016 teve seu mandato cassado por 450 votos dos 470 presentes na sessão.
foram ouvidos André Ramos Tavares, professor de direito da faculdade de direito da USP e da PUC de São Paulo, e Fabricio Juliano Mendes Medeiros, apresentado apenas como professor universitário e mestre em direito. Enquanto o primeiro nome foi indicado pelos parlamentares contrários à redução, o segundo foi indicado pelos deputados que defendiam a medida.
Ambos defenderam a ideia de que o art. 60 § 4 da constituição, que define quais são as cláusulas pétreas da constituição não limita as garantias individuais ao art. 5 da Carta. Existem garantias que estão espalhadas ao longo do texto e que também constituem cláusulas pétreas.
Os dois juristas concordaram com a noção de que o artigo 228 é uma destas garantias individuais que necessariamente devem ser preservadas. No entanto, enquanto o jurista da USP sustentou que o artigo não pode ser tocado, numa leitura que partiu do artigo 227 para a compreensão do 228 e do espírito da Carta, Juliano afirmou que a garantia individual em questão era a própria necessidade de se estipular uma idade mínima para a imputabilidade, independentemente de qual fosse ela. Em outras palavras, Juliano sustentou que era vedado aos parlamentares abolir a existência de alguma idade mínima para a maioridade penal, sem que a idade de 18 anos fosse rígida. Nesse sentido, seria constitucional reduzir a maioridade penal para 16 anos porque o estatuto da inimputabilidade penal estaria preservado até certa idade. Ao construir tal argumentação, Juliano ressaltou a necessidade de preservar o espaço da política contra o que ele considerou um engessamento das interpretações da constituição.
Enquanto os deputados contrários à redução mantiveram linha de argumentação próxima ao expositor André Ramos, afirmando ao longo de todo o processo a inconstitucionalidade de uma proposta de emenda que visa alterar cláusula pétrea da constituição, os parlamentares favoráveis à medida aproveitam apenas parte da argumentação de Juliano, reafirmando sempre que o texto constitucional não pode ser engessado. Quase nenhum deles65 fez menção ao diagnóstico de que o artigo 228 constitui cláusula pétrea, mas sempre realçaram que frente a uma expressiva vontade da maioria da população, que seria aferida por institutos de pesquisa, a constituição não poderia permanecer rígida.
O tempo, o espaço e os costumes modificam leis que não podem ficar concretadas, porque se assim o fosse não precisaria existir nem o legislativo e nem o judiciário. Deixava só o executivo. Nós não podemos mais andar na contramão do que o povo brasileiro está vivendo com a violência e principalmente as praticadas por estes menores bandidos que estão nas ruas.
(MAURO, ACCJC, 24/03/2015)
Eu perguntaria se essa cláusula pétrea, se ela foi rompida pelos grandes países do nosso mundo, como Alemanha, Japão, Itália, França. Esses países eles tem a menoridade atingida com os 14 anos. (...) E não se trata só de redução não, tem que extinguir a maioridade penal. A menoridade penal hoje ela está
65 Apenas o deputado Evandro Gussi seguiu integralmente a linha de Juliano
deturpada, deturpada. Vamos analisar caso por caso. Aqueles elementos violentos que praticam crimes e são reincidentes, que são periculosos, eles tem que ser tratados de uma forma diferente. (BESSA, ACCJC, 24/03/2015) eu voto pela admissibilidade da matéria, simplesmente porque entendo não ser cláusula pétrea o art. 228, mas apenas um marco temporal da imputabilidade do cidadão brasileiro. (FONSECA, ACCJC, 30/03/2015)
Ora, se têm entendimento para votar, se podem ser emancipados, por que não se pode mudar a idade? O art. 227, sim, é cláusula pétrea; o art. 228, não.
(FONSECA, ACCJC, 31/03/2015)
Entretanto, em relação à admissibilidade, nós entendemos que a inimputabilidade não é cláusula pétrea, razão pela qual o PSDB vai votar contra o parecer do Relator, liberando o Deputado Betinho, que tem outro entendimento. (COVAS, ACCJC, 31/03/2015)
Em diversos momentos, a constituição de 1988 é atacada como um todo, considerada excessivamente garantista ou irrealizável. Segundo Chaloub (2016), uma das características do que identifica como “nova direita” é justamente uma relação tensa com o texto de 1988, que em muitos aspectos seria considerado amplo e rígido demais. Ele afirma que o discurso crítico à constituição não se limitou aos ambientes universitários, chegando também a colunistas e figuras públicas conservadoras, bem como ao campo da política institucional. Essa nova direita seria formada pela tentativa de “conciliar o conservadorismo moral com o elogio ao mercado”
(CHALOUB, 2016). Tal configuração aparece com bastante frequência nos discursos que suportam a necessidade de se reduzir a maioridade penal.
Após a rejeição do parecer do relator Luiz Couto (PT-PB), que recomendou a inadmissibilidade da matéria, foi votado novo parecer, do deputado Marcos Rogério (então PDT-RO, hoje no DEM), recomendando a admissibilidade. No texto, ele seguiu linha diferente do jurista que foi à comissão defender a admissibilidade da matéria. Ao invés de falar na modulação de uma cláusula pétrea, Rogério sustentou que o artigo 228 não configura uma das cláusulas pétreas da constituição.
O art. 60, § 4º, da Constituição da República, o qual estabelece o rol de
cláusulas pétreas, dispõe que: Art.
60 ... § 4º Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I - a forma federativa de Estado; II - o voto direto, secreto, universal e periódico; III - a separação dos Poderes; IV - os direitos e garantias individuais.
Evidente que o disposto no art. 228 da Constituição não se enquadra em nenhum dos quatro incisos do § 4º acima reproduzido. (ROGÉRIO, ACCJC, 31/03/2015)
Encerrados os trabalhos na CCJC, em meio a muitas discussões acaloradas e até mesmo brigas, 42 deputados votaram pelo parecer do novo relator Marcos Rogério e 17 votaram contra, não havendo nenhuma abstenção. De toda forma, tal como afirmado anteriormente, as discussões sobre a constitucionalidade do tema seguiram durante todo o processo legislativo,
trazidas principalmente pelos opositores da matéria. A etapa seguinte do processo legislativo foi a constituição de uma comissão especial para debater o mérito da redução. Foi neste espaço, além do plenário, em que encontramos um campo mais fértil para compreender quais são, como se relacionam e como são apresentados os argumentos daqueles que defendem essa medida restritiva como peça fundamental de sua visão de mundo.