1. ECOLOGIA INTEGRAL
1.2 Ecologia Integral na Encíclica Laudato Si’
1.2.1 As diversas ecologias e a Ecologia Integral
A ecoespiritualidade convida o ser humano, portanto, a sair do pretenso lugar de poder e dominação, e assumir uma atitude de comunhão com os outros seres. Convida para que, na festa da comunhão da Criação, não pretenda o primeiro lugar, mas assuma o último (Lc 14, 8- 11), e para que, percebendo sua dignidade especial, seja como quem serve, e não como quem domina (Lc 22, 25-26). Propõe enxergar a presença das mãos criadoras divinas em tudo o que existe. Permite perceber a presença crística em todas as coisas, sofrendo com os que sofrem e regozijando com os que se alegram. Possibilita vislumbrar a presença do Espírito, que permeia tudo o que há vida, a tudo interpenetra e inabita todo o Universo. Com isso, pode-se olhar para todo o cosmos e para o menor dos seres não com um olhar meramente técnico-analítico antropocêntrico, mas com um olhar contemplativo que verdadeiramente admira e se encanta com a beleza de toda a Criação.
explicitando que esta inclui “claramente as dimensões humanas e sociais” (LS, 137). Com essa proposta, Francisco discute ecologia ambiental, econômica, social, cultural, da vida cotidiana, e ainda uma ecologia humana, incluindo dois princípios que segundo ele são inseparáveis da mesma, o princípio do bem comum e da justiça intergeracional.
O papa entende que “a ecologia estuda as relações entre os organismos vivos e o meio ambiente onde se desenvolvem” (LS, 138), sendo, portanto, um saber de relações, assim como defende Leonardo Boff. Entretanto, a complexidade das múltiplas teias que interconectam tudo com todos é absolutamente maior do que se pode sondar, necessitando assim uma perspectiva integral até na forma de se aproximar da realidade para compreendê-la. Faz-se necessário um diálogo entre os diversos saberes, pois “os conhecimentos fragmentários e isolados podem tornar-se uma forma de ignorância, quando resistem a integrar-se numa visão mais ampla da realidade” (LS, 138).
O próprio Papa Francisco assume essa atitude na construção da Laudato Si’, fazendo-se o primeiro exemplo da cultura do diálogo e do encontro que propõe. Em gesto singular e incomum em textos do gênero, explora as contribuições do patriarca ecumênico Bartolomeu a respeito do tema do cuidado com o planeta sob a ótica cristã e cita reflexões de bispos de 15 países e dois organismos episcopais continentais74. Defendendo o diálogo entre toda ordem de saberes, entre as diversas áreas do conhecimento, entre o saber científico, o saber popular e o saber das comunidades aborígenes, o papa consolida na elaboração do documento o cerne de sua proposta, abarcando contribuições de diversos segmentos da sociedade e de diversos campos do saber. Tal é a exigência de uma ecologia que se propõe integral.
Nessa linha Francisco constata que não existem duas crises separadas, “uma ambiental e outra social, mas uma única e complexa crise socioambiental” (LS, 139). O desafio de transformação deve percorrer, portanto, uma proposta integral que compreenda as inter- relações das crises. Assim, “as diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza” (LS, 139). Com isso se reconhece a unidade dos diversos problemas e se preconiza a busca por ações que os abarquem conjuntamente, já que são interdependentes.
As diversas crises, por sua vez, encontram-se também intimamente ligadas ao coração humano. Por isso o papa correntemente enfatiza que a solução não pode vir apenas de soluções técnicas, mas só pode ser devidamente frutífera se vier acompanhada de uma efetiva conversão ecológica, que brota do interior de cada um. “Muitas coisas devem reajustar o próprio rumo,
74 TAVARES, 2016, p. 63.
mas antes de tudo é a humanidade que precisa de mudar” (LS, 202). Esse apelo à mudança interior parece estar alinhado ao que Leonardo Boff chama de ecologia mental, propondo o cultivo das pulsões interiores de vida, o caminho que vai da interioridade harmônica à correta e efetiva prática exterior.
Existe na encíclica uma ênfase contundente na interdependência da harmonia interior com as crises atuais, demonstrando por diversas vezes que a deterioração da relação com o meio ambiente se dá em estreita relação com a deterioração das relações sociais e pessoais. “Hoje, a análise dos problemas ambientais é inseparável da análise dos contextos humanos, familiares, laborais, urbanos, e da relação de cada pessoa consigo mesmo” (LS, 141). Há um fio condutor que entrelaça o relacionamento consigo mesmo, a cordial interioridade de cada um, com as relações com os outros seres humanos e destes com a natureza, e que incidem sobre o próprio sistema sócio-econômico que se sustenta. O mundo que é construído, parte, portanto, do interior de cada ser humano.
Essa, porém, é uma via de mão dupla, de forma que também “os ambientes onde vivemos influem sobre a nossa maneira de ver a vida, sentir e agir” (LS, 147). A própria identidade humana se constitui na relação com o espaço em que se vive, de forma que importa também conseguir construir um ambiente que permita realizar o processo de maturação e desenvolvimento de forma saudável, feliz e integrada. Assim, o caminho de individuação e crescimento de cada um se faz na relação com o espaço em que se habita, o que sempre pode ser favorecido por uma afetuosa ecologia humana.
Através de relações sociais generosas e que se pautam pelo amor a própria gravidade da precariedade do ambiente se abranda, pois uma ecologia verdadeiramente humana consegue relativizar as dificuldades provocadas por um ambiente insalubre. Um conglomerado de pessoas pode se tornar uma saudável e coesa vizinhança se conseguir-se fazer a experiência da fraternidade. “A vida social positiva e benfazeja dos habitantes enche de luz um ambiente à primeira vista inabitável” (LS, 148). Essa experiência do encontro pode ser favorecida pelos espaços que a possibilitam, que estimulam a harmonia com o ambiente e com as outras pessoas, que contribuem para relações de ajuda mútua e que induzem a um sentimento de pertença com o local e com a comunidade. Francisco, citando sua exortação Evangelii Gaudium, exclama:
“Como são encantadoras as cidades que, já no seu projeto arquitetônico, estão cheias de espaços que unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro!” (LS, 152).
Por diversas vezes a Encíclica realça a importância de se construir um “nós”, de se promover essa cultura do encontro e do diálogo, de se propiciar sempre esse reconhecimento
do outro. Ela alerta para o fato de que as crises que afligem toda a comunidade de vida, incluindo a humanidade, são frutos dessa negligência.
O homem e a mulher deste mundo pós-moderno correm o risco permanente de se tornar profundamente individualistas, e muitos problemas sociais de hoje estão relacionados com a busca egoísta de uma satisfação imediata, com as crises dos laços familiares e sociais, com as dificuldades em reconhecer o outro (LS, 162)
O Papa Francisco enfatiza que “nunca é demais insistir que tudo está interligado” (LS, 138). Essa realidade de interdependência entre tudo o que existe perpassa ainda a estreita relação que existe entre os pobres e a fragilidade do planeta, constituindo esse inclusive um dos eixos do documento (LS, 16). Em diversos momentos é destacado como os pobres são frequentemente os primeiros afetados pela degradação do planeta e aqueles que mais sofrem com ela (LS, 20, 25, 30, 48, 49, 162). Não somente isso, como também sua pobreza se dá em íntima ligação com a própria estrutura que velozmente expropria os recursos da Terra, pois “a lógica que dificulta a tomada de decisões drásticas para inverter a tendência ao aquecimento global é a mesma que não permite cumprir o objetivo de erradicar a pobreza” (LS, 175). Isso reforça a ideia de que a libertação do pobre e da Terra é também uma só, numa unidade que precisa repensar todo o conjunto de relações.
É ainda na mesma unidade que se constrói a relação dos seres humanos entre si e deles com os animais. A Encíclica acena para a incoerência de se empenhar na luta de defesa de outros seres e negligenciar o cuidado também com os seres humanos em condições de opressão.
“Não pode ser autêntico um sentimento de união íntima com os outros seres da natureza, se ao mesmo tempo não houver no coração ternura, compaixão e preocupação pelos seres humanos”
(LS, 91). Porém, como tudo está interligado, essa também é uma via de mão dupla, e assim Francisco aponta que o inverso também é verdadeiro.
Além disso, quando o coração está verdadeiramente aberto a uma comunhão universal, nada e ninguém fica excluído desta fraternidade. Portanto, é verdade também que a indiferença ou a crueldade com as outras criaturas deste mundo sempre acabam de alguma forma por repercutir-se no tratamento que reservamos aos outros seres humanos. O coração é um só, e a própria miséria que leva a maltratar um animal não tarda a manifestar-se na relação com as outras pessoas. (...) Tudo está relacionado, e todos nós, seres humanos, caminhamos juntos como irmãos e irmãs numa peregrinação maravilhosa, entrelaçados pelo amor que Deus tem a cada uma das suas criaturas e que nos une também, com terna afeição, ao irmão sol, à irmã lua, ao irmão rio e à mãe terra. (LS, 92)
Isso conduz inevitavelmente ao exemplo de São Francisco de Assis, o qual o Papa retoma como “exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade” (LS, 10). Nele se encontra o arquétipo de uma espiritualidade integrada, que une o cuidado com os mais pobres com o cuidado com as outras criaturas. Fica em evidência o entrelaçamento existente entre a comunhão que brota do coração humano em direção à externalidade, perpassando pelo cuidado com toda a Criação. “Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” (LS, 10).
Assim, uma ecologia integral deve contemplar essa perspectiva aberta e inclusiva, fruto de um coração aberto à comunhão universal com todos os seres e ao cuidado com os mais frágeis. Isso implica promover condições tanto para que cada grupo quanto para que cada indivíduo possa “alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição” (LS, 156), o que consiste no princípio do bem comum. Implica também considerar a forma como se deixa a Terra para as gerações que a herdarão, a quem também pertence o planeta. Nisso consiste a justiça intergeracional. É notório que o termo que se utiliza nesse princípio é precisamente justiça, falando-se de justiça entre gerações, denotando uma dimensão ética, apesar de se empregar também o termo solidariedade. Assume com isso a posição de que o cuidado com o planeta é questão de responsabilidade ética com aqueles que o receberão como herança. Não se trata de uma “atitude opcional, mas de uma questão essencial de justiça, pois a terra que recebemos pertence também àqueles que hão de vir (...) Uma ecologia integral possui esta perspectiva ampla” (LS, 159).
A proposta do Papa Francisco para uma ecologia integral, portanto, inclui a interligação entre todas as ecologias, desde aquela que brota do interior de cada um, passando pelas relações humanas e com os outros seres, até o nível político-econômico, abarcando ainda as gerações futuras. Tudo isso com especial atenção e cuidado com os mais pobres e excluídos, pois são os que mais sofrem com a deterioração das relações em todos os níveis, e também com a Terra, a grande pobre, oprimida e devastada (LS, 2).