Sabe-se que de há muito a prisão deixou de ser encarada apenas como um sistema opressor. Atualmente ela assumiu um caráter ressocializador, onde os apenados têm o direito e o dever de ser reintegrados à sociedade. Essa reintegração só se fará a contento com políticas públicas adequadas.
4.6 AS POLÍTICAS PÚBLICAS COMO FORMA DE EFETUAR A
Além disso, de acordo com as sugestões oferecidas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos247, além de incentivar o Estado brasileiro a tornar realidade seu programa penitenciário, faz-se necessário:
1. A adoção de todas as medidas adequadas para melhorar a situação de seu sistema penitenciário e o tratamento que os presos recebem, para cumprir plenamente as disposições de sua Constituição e leis, bem como os tratados internacionais de que o Estado brasileiro é signatário. Sob esse aspecto, recomenda-se que se apliquem efetivamente como instrumento-guia as Regras Mínimas para o Tratamento dos Reclusos e as Recomendações Relacionadas das Nações Unidas.
2. A ampliação da capacidade de vagas do sistema penitenciário, com o objetivo de solucionar o grave problema atual de superpopulação e, simultaneamente, sejam criadas condições de abrigo físico, higiene, trabalho e recreação de acordo com as normas internacionais.
3. A melhoria das condições de higiene e saúde nos estabelecimentos penitenciários e nas cadeias das delegacias policiais.
4. O oferecimento aos detentos e presos, sem qualquer distinção, o atendimento médico de que necessitem de maneira oportuna e eficaz e, quando for o caso, seja realizado, sem qualquer demora, seu transporte aos centros de assistência médica.
5. O estabelecimento de serviços de atendimento necessários para os doentes de AIDS e portadores de HIV, proibindo-se toda discriminação imprópria a sua condição.
6. O fornecimento, aos reclusos, de uma alimentação suficiente e balanceada, com o valor adequado de calorias, bem como a adoção
247 COMISSÃO INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Organização dos Estados Americanos. Relatório sobre a situação dos direitos humanos no Brasil. Capítulo IV. As condições de reclusão e tratamento no sistema penitenciário brasileiro.
das medidas cabíveis para se evitar o desvio de alimentos que favorece ilegalmente a alguns reclusos e/ou resulte na corrupção administrativa.
7. A adoção de todas as medidas necessárias para a prestação de uma assistência jurídica real, efetiva e gratuita aos que dela necessitem e não tem como pagá-la durante todas as etapas do processo judicial.
8. A concessão e o reconhecimento, de maneira eficaz e oportuna aos presos, dos benefícios e privilégios a que têm direito nos termos da lei, em particular quanto a redução de penas, a indultos, a visitas familiares, etc.
9. O aceleramento dos processos judiciais que mantém em reclusão réus não condenados e sejam libertados os que cumpriram o máximo autorizado legalmente, além da efetiva consagração na legislação de normas referentes ao cumprimento alternativo de penas.
10. A separação dos detentos em prisão preventiva dos condenados, e estes últimos agrupados de acordo com o tipo e gravidade do delito e a idade dos reclusos.
11. A supressão das solitárias ou "celas fortes", pois elas estão em contravenção às normas internacionais, bem como a eliminação da violência policial sanável através de treinamento conscientizado.
12. O estabelecimento de mecanismos efetivos e oportunos de controle interno no sistema penitenciário para punir os agentes penitenciários responsáveis por abusos e atos de violência contra os presos.
13. A alocação nos orçamentos federais e estaduais dos recursos financeiros e materiais necessários para que o sistema penitenciário possa desenvolver plenamente os planos e metas traçadas pelo Programa Nacional de Direitos Humanos, e possa alcançar o mínimo de condições e segurança requeridas de acordo com os instrumentos internacionais, como
também o desenvolvimento de políticas, estratégias e técnicas, para evitar situações de violência, entre os reclusos.
14. Mais oportunidades de trabalho aos presos, além de programas de educação, reabilitação e recreação que contribuam para a sua readaptação e reinserção na sociedade.
Com efeito, mormente todas estas sugestões apresentadas pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, faz-se necessária, sobretudo, a implementação de mais programas de profissionalização do apenado, de modo a torná-lo apto ao mercado de trabalho e, por conseqüência, ao convívio em sociedade.
Já se pode observar, inclusive, em vários presídios, a adoção desta política voltada à ressocialização através da profissionalização. O sistema prisional gaúcho, por exemplo, vem dando um bom exemplo no que diz respeito ao trabalho penitenciário como forma de ressocialização do apenado248.
Uma grande parte dos presidiários demonstra interesse em mudar seus destinos antes mesmo do término da pena. Dados da Susepe indicam que dos 9 mil que estão em regime fechado, a metade tem interesse em trabalhar e 70% destes têm grandes chances de recuperação profissional249.
Este programa desenvolvido pela Corregedoria-Geral da Justiça trata da busca de parceria com instituições e lideranças empresariais para criação de vagas de ensino profissionalizante e de trabalho para os apenados, nos moldes da Lei de Execução Penal. O Judiciário faz a aproximação das empresas com a Susepe para firmar os convênios, a fim de que os apenados possam trabalhar e estudar250.
248 REVISTA FEDERASUL. A Chance que Vem do Emprego. Nº 10. Out. 2001. Disponível em
<http://www.federasul.com.br/revista/10/acao_social/m1/index_m1-.html>. Acesso em 18 out.
2004.
249 REVISTA FEDERASUL. A Chance que Vem do Emprego, 2001.
250 REVISTA FEDERASUL. A Chance que Vem do Emprego, 2001.
O objetivo, segundo Danúbio Franco, é que o trabalho do condenado passe a ser visto como dever social e condição de dignidade humana, com finalidade educativa e produtiva, tal como preceitua o artigo 28 da Lei de Execução Penal251.
O trabalho prisional, assim, além de se mostrar um excelente meio de ressocialização, só traz benefícios ao apenado. Para o próprio apenado, pode-se destacar a possibilidade de profissionalização e, por conseqüência, a reintegração ou iniciação ao mercado de trabalho; a possibilidade de remição da pena, pois, a cada três dias de trabalho subtrai-se um dia de cumprimento de pena; o auxílio de remuneração, através do auxílio- reclusão, entre outros.
Para as empresas parceiras, os benefícios também são muitos, haja vista que estas têm oportunidade de realizar uma ação socialmente justa e efetuar um bom negócio ao adotarem a mão-de-obra carcerária.
Estas empresas contam com grandes benefícios, todos estritamente dentro das normas previstas na Lei de Execução Penal, tais como:
utilização de mão-de-obra qualificada; remuneração com piso estabelecido em 75% do salário mínimo; inexistência de encargos sociais; inexistência de vínculo empregatício; inexistência de demandas trabalhistas; jornada de trabalho de até 8 horas, com folgas aos sábados e domingos.
Mas a sociedade também ganha com isto. Dentro do que estabelece a Lei de Execução Penal, o trabalho prisional ajuda o preso no seu retorno ao convívio social através de ações integradas com a iniciativa privada e a sociedade civil organizada. Entre os vários benefícios, pode-se destacar, ainda: o resgate da identidade social do preso; a diminuição dos índices de reincidência criminal; a redução da população carcerária; a redução dos custos de manutenção do sistema penitenciário, entre muitos outros.
251 REVISTA FEDERASUL. A Chance que Vem do Emprego, 2001.
Mattar252 assevera que proporcionando chances de os presos de fato se ressocializarem, o ganho não é só deles. A sociedade tem vantagens com isso também, como redução da violência, menos gastos com construção e manutenção de presídios, menos mortes, menos gastos com saúde, com proteção e todas as outras conseqüências diretas e indiretas de fazer as leis valerem e os direitos humanos serem respeitados. Se a sociedade apresenta a oportunidade para a pessoa se ressocializar, praticamente tira a chance de ela ter reincidência e, portanto, pode ajudar a diminuir a diminuir a criminalidade.
Como se vê, a sociedade que ajuda na ressocialização de um indivíduo só recebe benefícios. Porém, para que essa reintegração social se dê de modo efetivo é necessário muito boa vontade, não só por parte do apenado, que vai ter que lutar para reconquistar o seu lugar na sociedade, mas também por parte do Governo, que implantará as políticas públicas adequadas de modo a tornar o sistema efetivamente eficaz, e, principalmente, por parte da sociedade, que deverá fazer o seu papel abraçando a causa da ressocialização.
252 MATTAR, Maria Eduarda. A difícil e necessária tarefa de reciclar pessoas. La insígnia. 19 julho 2003. Disponível em <http://www.lainsignia.org/2003/julio/soc_012.htm>. Acesso em 22 out 2004.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao término da pesquisa proposta, bem como no decorrer da análise realizada na legislação e na doutrina pátria, restou confirmada a convicção de que a implementação de políticas públicas adequadas à ressocialização do apenado é medida que se faz urgente, haja vista a atual situação do sistema penitenciário brasileiro.
Isto porque, conforme resultou da investigação, se a situação dos apenados continuar da forma como está atualmente, muito breve se assistirá ao caos total do sistema prisional, que já apresenta sinais claros de crise falencial.
Para alcançar as considerações traçadas, o estudo envolveu além da análise pormenorizada da Lei de Execução Penal, um esboço da evolução histórica da prisão e da atualidade do sistema carcerário, bem como um exame a respeito do Estado e sua função social, na qual se insere a ressocialização do apenado.
Diante disso, necessário se fez dissertar, no primeiro capítulo do presente trabalho, acerca da pena privativa de liberdade, abordando, principalmente, a necessidade no sistema prisional brasileiro.
Assim, trouxe-se um apanhado histórico da pena privativa de liberdade, com ênfase no estudo da sua origem e desenvolvimento desde a Antigüidade até os dias atuais e no Brasil. Além disso, discorreu-se sobre os tipos de pena e as funções das quais estas se revestem, podendo-se concluir que, no início, esta era usada apenas como modo de assegurar a pena, passando, posteriormente, para a forma punitiva, e evoluindo, com o desenvolvimento da sociedade, até a sua concepção atual, qual seja, de ressocialização do criminoso.
Fez-se, ainda, uma análise da situação do egresso, que, na maioria das vezes, diante do desemprego e discriminação, volta a delinqüir. Ao
final, discorreu-se sobre a realidade prisional que, de tantos problemas seriíssimos, como superlotação, degradação humana, proliferação de doenças, promiscuidade, precariedade, falta de ocupação lícita entre outros, apresenta sintomas de falência.
No segundo capítulo, a investigação identificou que a execução penal brasileira apresenta muitas deficiências. Existe o entendimento harmônico que reeducar não é apenas dar tarefas para serem executadas. É preciso preparar o indivíduo para a nova sociedade, porquanto quando foi segregado, o mundo era um, agora que obtém a liberdade o mundo é outro.
Ainda, o estudo deste tema deu-se em razão de sua importância para o desfecho do trabalho, sendo necessário analisar qual a função social do Estado, os objetivos, a filosofia e a aplicabilidade da Lei de Execução Penal, os seus regimes penitenciais, os benefícios desta na pena privativa de liberdade.
Desse modo, observou-se, partir do estudo deste capítulo que a execução penal tem por principal objetivo a reeducação e a reintrodução do preso na sociedade, buscando-se, primordialmente, condições reais de convivência social a fim de se evitar a reincidência. Devido a este fim, a Lei de Execução Penal prevê um sistema progressivo da pena privativa de liberdade: do fechado para o semi-aberto e deste para o aberto, tudo no intuito de reinserir e readaptar o preso ao convívio social.
Pôde-se ressaltar, ainda, que apesar de ser considerada uma norma de primeiro mundo, a Lei de Execução Penal não tem encontrado aplicabilidade no ordenamento jurídico brasileiro, principalmente no que tange aos direitos do preso e às condições dos presídios, isto porque, em que pese o objeto principal da execução penal seja a reeducação e a reintrodução do preso na sociedade, com a busca de condições reais de convivência social a fim de se evitar a reincidência, isto não é o que se observa no sistema penitenciário atual.
De outro modo, pelo estudo deste capítulo, chega-se a um consenso de que há um fracasso no sistema penitenciário brasileiro no tocante à aplicação da pena privativa de liberdade, justamente devido aos inúmeros problemas que este apresenta. Porém, muito embora haja todos esses empecilhos, não se pode negar que a pena privativa de liberdade é necessária, seja para prevenir mais crimes, seja para recuperar o apenado e, por esse motivo ela também é necessária no processo de reinserção social.
Por fim, dedicou-se o último capítulo ao estudo do Neoliberalismo, do problema da exclusão social e das Políticas Públicas, bem como da implementação destas no combate à exclusão social, à violência, e ainda, a uma análise da atual situação destas em relação ao apenado.
Verificou-se através do estudo, que o Neoliberalismo é umas das principais causas da crescente desigualdade e exclusão social que vem acometendo a sociedade. Ademais, constatou-se as Políticas Públicas tiveram seu início, por meio do denominado Estado de Direito, a partir do século XIX, e que, somente a partir das décadas de 40 e 50, após a Segunda Guerra Mundial, é que começaram a ter força efetiva, através do New Deal americano, ocorrido na década de 30.
No que diz respeito às Políticas Públicas de combate à violência e exclusão social constatou-se que, infelizmente, somente são tomadas atitudes mais efetivas, quando a criminalidade avança sobre as classes média e alta e, por conseqüência, viram objeto da mídia. E o pior, essa mesma exclusão social que persegue o indivíduo durante a sua vida toda, também o alcança dentro dos muros dos presídios, pois lá dentro, as oportunidades de se profissionalizar são ainda menores e, ao saírem para a liberdade, sem emprego e sem perspectiva, retornam ao mundo do crime.
Assim, direcionado a este problema foram apresentadas as principais dificuldades que assolam o sistema penitenciário, quais sejam: a falta de qualificação dos agentes carcerários, a precariedade dos estabelecimentos
prisionais, a falta de assistência ao apenado e à sua família e a falta de profissionalização do apenado. É claro que existem outros problemas graves, mas estes foram considerados mais importantes no presente trabalho devido à influência que têm na ressocialização ao apenado.
Por fim, encerra-se este capítulo e a investigação apresentando algumas sugestões de melhoria do sistema penitenciário, de modo a aliviar as péssimas condições dos presídios, e de implementação de Políticas Públicas voltadas à ressocialização com o intuito de recuperar o apenado e reintegrá-lo à sociedade, evitando-se assim, a reincidência e, por conseqüência, a violência.
Decorrente dos mencionados objetivos investigatórios foram elaborados três problemas e respectivas hipóteses que serviram de base para o desenvolvimento da pesquisa, os quais restaram totalmente comprovados, como se verá a seguir:
No tocante ao primeiro problema formulado, constatou-se que a pena privativa de liberdade surgiu do próprio convívio do homem em sociedade, como mecanismo de defesa, progresso e interação social. Além disso, a prisão, desde a sua origem, sempre visou a garantia da paz social, que não poderia ser obtida se os criminosos estivessem a solta, sem pagar pelos seus crimes e sem a devida recuperação.
Já no que diz respeito ao segundo problema, concluiu-se que o objetivo maior do Estado é a pacificação dos conflitos, de modo a assegurar a continuidade das relações sociais de forma harmoniosa e sem afronta às garantias individuais, sendo a aplicação da pena, a resposta esperada pela Sociedade com relação ao indivíduo infrator, com as garantias individuais deste em receber o tratamento estatal adequado à sua ressocialização.
Finalmente, no que tange ao terceiro e último problema formulado, verificou-se que o atual modelo da pena privativa de liberdade
estabelecido pelo Estado, no Brasil, não tem alcançado os seus fins, encontrando-se, assim, a função tríplice do encarceramento do infrator, preterida em razão de outras prioridades. Ademais, diante de tantos problemas e deficiências apresentadas, a pena privativa de liberdade, bem como as penas em geral, não têm alcançado o seu objetivo, de modo que urge a necessidade de implementação de novas Políticas Públicas para enfrentar o problema, antes que seja tarde demais.
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