5.3 Análise sobre as categorias da pesquisa
5.3.2 Dimensão fisiológica da imagem corporal
5.3.2.3 As práticas corporais com o peso de ser obeso
de frequentar uma boate à noite. Esse não é o nosso caso né. Se fosse talvez sentiria dificuldade né (informação verbal)19.
As limitações ao convívio social, ensejadas pelos imperativos de embelezamento corporal, que excluem os depoentes obesos do mundo dos magros e belos são realçadas quando observa-se que as estruturas de lazer também discriminam esses indivíduos ao selecionarem aqueles que devem apreciar suas estruturas (parques, shoppings, cinemas, academias). Fatores estes que somados tendem a reduzir e a desestimular os indivíduos a buscarem recursos que promovam a conscientização corporal e o aumento qualidade de vida. Tal modelo dá espaço para a próxima categoria que referenciará a inter-relação entre a atividade física e a obesidade mórbida. Porém, antes disso, é importante salientar a dificuldade em se fundamentar esta categoria que se finda, vez que nas pesquisas e bibliografias disponíveis, pouquíssimo suporte literário foi encontrado.
Não fazendo jus a um assunto relevante que é tão atual na área da saúde: as dificuldades de acessibilidade vivenciadas pelos obesos, dramaticamente exacerbadas na atualidade.
Assim sendo, fica fácil constatar que as práticas corporais fornecem subsídio para o enriquecimento da consciência corporal. Em contrapartida, tem-se a figura do obeso mórbido com sua expressão corporal limitada, que, em face disto, pode sofrer “apagamentos” que geram lacunas na imagem corporal (MATSUO et al., 2007).
Quando se aborda a temática das práticas corporais é destoante a elevada prevalência da inatividade física entre os obesos entrevistados. Tal assertiva é atestada pelo fato de que no momento das entrevistas, nenhum dos sujeitos praticava qualquer modalidade de exercícios.
Segue, então, o relato
Eu cortei tudo, comecei a estudar e cortei tudo mesmo. Eu bem que podia acordar meia hora mais cedo e dar uma corridinha, mas eu não gosto mesmo. A maioria dos esportes que eu gosto de fazer tem que ter mais gente, como jogar basquete. Mas eu não gosto de jogar futebol. O que mais você vê por aí é gente jogando futebol, mas eu não gosto de futebol. Jogar não é comigo, então as coisas que eu gosto de fazer não tem muito por aqui (informação verbal)20.
O mais alarmante desta situação é que muitos não mantinham uma rotina de atividade física desde a infância
Não, não faço nem a educação física. Quando eu ia pra escola que tinha a educação física né, eu ficava sentada, pelo fato do meu professor ser um pamonha. Aí a gente ficava lá jogando uno. Eu até gostava dele pelo fato dele não dar nada pra fazer. Era diferente dos outros anos que agente não podia ficar sentada né? Agente tinha que fazer se não agente perdia ponto né? Ele chegava, trazia o uno e agente jogava (informação verbal)21.
20 Informação fornecida por Adriano em entrevista.
21 Informação fornecida por Júlia em entrevista.
Uma ressalva que se faz de imediato diante desta análise é a verificação de que todos os entrevistados apresentam de pronto, motivos que justifiquem o sedentarismo. Nota-se em comum em suas falas uma aversão em abandonar esse quadro para iniciarem uma vida mais ativa
Quando eu estava com menos peso até me estimulava uma caminhada. Hoje como eu estou com muito peso, eu acredito que eu tenha quase o dobro do meu peso normal, eu estou carregando outro Guilherme dentro de mim. Então pra mim fazer qualquer exercício cansa muito rápido. Então uma caminhada ..., para mim 5 minutos é como se fosse meia hora. Então isso também acaba desestimulando né, o fato de você dormir bem à noite, estar durante o dia já bem cansado. Imagina a noite, nem pensar em fazer exercícios. Então a vida de uma pessoa obesa, ela não é..., por mais que uma pessoa diga que é feliz gordinho. É uma mentira para ela mesmo, porque com certeza ela não é, porque quando ela era magra ela estava vivendo uma vida que não esta vivendo hoje. Então ainda que eu olhe não pelo lado estético mais o da saúde, não tem comparação quando você está magro. É uma alegria de viver que eu não tenho agora, estar magro é estar livre (informação verbal)22.
O importante papel desempenhado pela atividade física na mudança corporal já é bem conhecido pelos obesos. Porém, ao indagá-los sobre este assunto, obteve-se uma surpreendente resposta que deixa evidente o processo de injunção do corpo belo pela sociedade moderna
Eu até fui fazer a inscrição do meu irmão. Ele trabalha e pode fazer, eu não trabalho e não posso fazer, mas vou ser bem sincero me deu uma auto-estima muito grande quando eu entrei naquela academia. Eu fiquei muito feliz, porque tinha esteira que eu poderia fazer. Tinha um monte de coisas e eu tenho certeza que se eu entrasse ali com a convicção que eu tava eu ia emagrecer bastante. Só de ver aquelas pessoas magras já dava vontade de emagrecer. Eu já me via magro (informação verbal)23.
Mesmo sem compreender a expressão “auto-estima”, ficou clara a mudança na percepção da imagem corporal pelos obesos, conforme demonstra o seguinte depoimento de Bruno: “eu já me via magro”. Tal fala corrobora com a idéia de que a prática de atividades corporais proporciona uma auto-imagem positiva.
22 Informação fornecida por Guilherme em entrevista.
23 Informação fornecida por Bruno em entrevista.
Essa idéia é reforçada por Matsuo et al. (2007), que assentam que a prática corporal contribui, não só na experimentação do corpo (autoconhecimento corporal), mas também na potencialização de melhoras nas capacidades física e funcional, fazendo com que as pessoas se percebam capazes fisiológica, cognitiva e emocionalmente, melhorando a auto-estima.
De fato, os exercícios são caminhos para o melhoramento da auto-estima em indivíduos descontentes com a própria imagem. Todavia, de acordo com o relato dos sujeitos, aqueles que apresentam uma imagem corporal negativa têm uma atenuação da motivação para a prática de atividades corporais, bem com do comprometimento em programas de exercícios. Segue a fala de Joana
Eu entrei e fazia spining e jump. Eu não conseguia fazer, Eu ficava tonta de ficar pulando, mas eu fazia mais bicicleta sabe e um pouco de musculação. Olha eu fiz, sempre fiz sabe, não sempre fiz, acho que todo ano eu sempre entro e faço um mês e não continuo (informação verbal)24.
E se justifica
Porque eu não tenho ânimo para ir mesmo. Não tenho vontade, não sei se é por causa do trabalho. Eu sou meio desanimada sempre sabe. Em tudo assim não só para isso. Eu sempre fui assim. Que eu me lembre sim (informação verbal)25.
A prática regular de atividades corporais obviamente parece ser um artifício que possibilita o aumento das possibilidades do corpo. Porém os sujeitos relutam em trilhar este caminho em virtude da elevada insegurança que tem de seu corpo. O que é amplificado pelos imperativos sociais do corpo jovem e belo. Fato este que tem se apresentado ao longo deste estudo como um dos fatores pelos quais estes indivíduos não conseguem se adaptar aos exercícios convencionais.
24 Informação fornecida por Joana em entrevista.
25 Informação fornecida por Joana em entrevista.
Ante estas exposições é possível inferir uma série de disfunções do reconhecimento corporal, como a categoria que se segue.