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Vivências corporais no contexto relacional com familiares

No documento Miquela Marcuzzo.pdf - Univali (páginas 98-102)

5.3 Análise sobre as categorias da pesquisa

5.3.4 Dimensão sociológica da imagem corporal

5.3.4.1 Vivências corporais no contexto relacional com familiares

O relacionamento social é um aspecto importante na construção da imagem corporal. É através dele que as pessoas interagem com os outros e estabelecem as trocas de experiências.

Neste ponto se fazem presentes diferentes situações em que os familiares se revelam como influenciadores ativos no processo de compleição corporal dos sujeitos a cada quilo que adquirem, lembrando-os a todo instante das representações corporais construídas pela sociedade que radicaliza os ideais de perfeição suprema.

A começar pelo comportamento dos pais frente ao ganho de peso de seus filhos, sabe-se, segundo Ganley (1986 apud SALES, 2006), que a obesidade deve ser pensada dentro dos padrões familiares que fundamentalmente a influenciam e são influenciados por elas. Assim sendo, concomitantemente ao desenvolvimento de uma imagem corporal desvirtuosa, a obesidade pode surgir das interações sociais dentro dos núcleos familiares.

No relato que se segue, nota-se a relação interpessoal da entrevistada em seu contexto familiar e social, mormente enquanto criança e adolescente, e o reflexo sociológico disso no seu ganho de peso. Júlia expõe que o início de sua obesidade ocorreu no mesmo período em que se principiaram adversidades em seu relacionamento com sua mãe. Ademais, quando questionada se os desentendimentos com sua mãe a fizeram comer mais, a resposta foi a seguinte

Ah, daí sai de perto. Mas agora eu tô tomando remédio, porque ela me levou no médico forçada né, porque por mim eu não ia. Eu disse pra ela que eu não ia. Aí ele me passou um remédio. Daí eu tomei normal, depois eu parei de tomar o remédio. Eu devo ter perdido uns 6 quilos naquela época. Daí depois eu parei de tomar o remédio, dobrou tudo (informação verbal)50.

Júlia ainda relata que todos parentes de seu convívio diário são magros (mãe, irmãos e primas), sendo certas vezes criticada por estes pelo seu excesso de peso

Quando eles invocam até eles falam, mas daí tem que sair de perto, porque eles vão além. Eles falam assim: você tá muito gorda, vai emagrecer. Agora invocou um menino no meu pé né. Ele é gordo. Ele é mais pesado do que eu. Ele deve ter uns cento e altos quilos e cacetada. Ele é enorme, aí a minha tia vem né. Eles tavam uma tarde tomando café aqui em casa né. Ah! Tu é gorda, foi só por isso que ele invocou no teu pé. Aí eu peguei e não falei nada né. Eu fiquei só escutando. Aí depende, às vezes eles falam demais. Eu mesmo às vezes né saio de perto pra não falar coisa (informação verbal)51.

Repara-se que sua família categoricamente lhe destina um pretendente com o mesmo quadro de obesidade mórbida, retratando que o único motivo de se ter despertado o interesse do

50 Informação fornecida por Júlia em entrevista.

jovem é pelo fato de ser tão obesa quanto ele. O trecho apresentado do relato acima evidencia que até mesmo os entes queridos não confiam beleza ao corpo gordo da entrevistada.

Em face disso, as implicações da obesidade, no tocante à imagem corporal, enraizada pelos imperativos de beleza da atualidade, aparecem nitidamente na fala seguinte: “Eu acho a pessoa que é menos bonita sou eu. Eu não consigo ver beleza em mim, eu vejo nos outros mas não vejo em mim” (informação verbal)52.

Ainda neste contexto, Minuchin et al. (1978 apud SALES, 2006), postulam que certos tipos de organizações familiares favorecem síndromes, dentre outras, que incluem distúrbios de imagem corporal, como a família do caso acima, em que a interação e intrusão entre os membros é extremamente próxima e freqüente respectivamente, e que a autonomia individual é sempre postergada.

No caso de Júlia o fator imperativo para o distúrbio corporal, notadamente a influência familiar, aparece fortemente em seu depoimento. Assim, o que se pode aferir ao longo de todas as entrevistas, corroborando os apontamentos dos autores em referência, é que a decepção de familiares perante o quadro de obesidade extrema de seus entes se amplifica para os jovens que vivem com familiares.

Quanto à Alice, não era possível perceber de plano este mesmo sentimento em seu depoimento, contudo durante alguns momentos de sua entrevista, sua avó, aparentemente ainda mais obesa, ao se aproximar de Alice e ao perceber do que se tratava a entrevista falava: “Eu não sei como que ela ficou desse jeito” (informação verbal)53.

Interpondo-se às singularidades corporais de sua neta, a familiar caracteriza Alice como fora dos padrões do que é belo ao fazer críticas ao seu semblante físico, contribuindo para as expectativas modernas que julga o obeso como um ser abstraído de beleza.

Apesar dos relatos supra que destacam a ditadura da beleza, a família aparece mais como uma fonte de apoio na maior parte dos relatos. Inclusive no papel de apaziguadores, quando os obesos entrevistados referem histórias difíceis que tiveram de passar pelo fato de seu peso parecer importuno aos olhos da sociedade. A seguir, o caso de Alice e os afagos de seu pai perante tais adversidades

51 Informação fornecida por Júlia em entrevista.

52 Informação fornecida por Júlia em entrevista.

53 Informação fornecida pela Avó de Alice em entrevista.

Eu era maior que as outras crianças. Eu tinha 6 anos nesta foto, as crianças já brincavam comigo. [...] Elas sempre me chamavam de gorda, baleia, um monte de coisa. [...] Eu sempre chorava, sempre falava pra minha mãe, sempre falava pro meu pai. Ele que ficava sempre mais comigo né, quando eu morava lá, só que daí ele dizia pra mim não ligar, pra não dá bola, pra mim não chorar. [...] Ele já foi lá na escola, uma vez também uma professora também brigou comigo, daí ele foi lá na escola. Ela brigou comigo porque eu sempre fui meia lerda, daí ela pegou e começou a caçoar de mim e várias coisas ela me falava, ai um dia eu falei para o meu pai. [...] Eu me sentia triste, só que daí eu falava pro meu pai, daí meu pai ia lá e conversava com ela (informação verbal)54.

Ao se ver insultada pelas palavras efêmeras que exprimem a condição da obesidade na sociedade atual, Alice encontra em seus familiares um arcabouço de amparo e proteção.

Houve casos de outros entrevistados que também disseram estar em harmonia com seus familiares, sobretudo com os parentes por afinidade, ou seja, maridos e esposas. Além disso, relataram situações positivas em relação ao enfrentamento das adversidades impostas pelo mundo contemporâneo na condição de obesidade mórbida.

O caso abaixo retrata, em um primeiro momento, a história de Maria com um namorado que estava insatisfeito com os quilos que ela havia adquirido e, por fim, com o marido atual que a aceita obesa e a elogia constantemente

O fato de ele falar que eu tava acima do peso me atrapalhava. Ele foi meu primeiro namorado né, foi meu primeiro beijo. Aí então na realidade eu achava que ele era tudo na minha vida. Eu achava que tinha que ser linda, maravilhosa pra ele e daí ele começou a me torturar, mas eu não tinha intimidade com ele.

Isso me deixava mais assim, como é que ele ia me ver sem roupa? Eu não tinha nem coragem, mas na época eu acreditava que tinha que esperar. Aí depois eu saí daquela empresa e engordei e nós terminamos. Ele arranjou outra, toda aquela coisa, e daí eu comecei a namorar o meu marido. Eu tinha 18 anos e ele me achava linda, maravilhosa. Ele era bem magrinho, daí eu comecei a me arrumar, a cuidar de mim, mas eu não emagreci. Ele me elogiava, então como meu corpo não chamava tanto a atenção eu comecei a me arrumar e ver esses outras coisas [apontando para os cabelos] e ele sempre me elogiava, sempre, sempre, sempre. Só que a partir daí eu continuei comendo e comendo, e daí a gente sai muito, nosso namoro era só para comer e sempre que a gente saia a gente comia muito. Então assim, ele nunca me chamava de gorda nem falava

54 Informação fornecida por Alice em entrevista.

que eu tava acima de peso, bem pelo contrário. Ele sempre falava que me achava linda (informação verbal)55.

Neste comparativo percebe-se claramente a mudança da imagem corporal da depoente. A imagem positiva frente ao seu corpo, sustentada pelo apoio do marido, confere-lhe também um incremento de sua auto-estima.

Essa assertiva é confirmada nos comentários de Guilherme que conta com o assentimento de sua esposa, inclusive no processo de emagrecimento, sentindo-se mais receptivo ao enfrentamento de um procedimento cirúrgico para conquistar uma vida mais saudável

Ela apóia que eu tenho e preciso emagrecer. Na verdade ela até ano passado era contra a cirurgia devido ao pós operatório e a dificuldade e sofrimento para quem faz. Ter que comer pouco mesmo tendo vontade de comer. Então na cabeça dela eu estaria sofrendo, mas eu passei para ela o meu ponto de vista e a comunicação em um relacionamento é importante e a gente tem esse relacionamento de compreensão. Então ela me apóia completamente, foi ela que foi atrás do médico conversar e ela sabe que eu emagrecendo vai melhorar muita coisa no nosso relacionamento. Desde relação sexual, desde relação com os filhos, desde o próprio esgotamento físico que existe (informação verbal)56.

A insatisfação com o corpo, apesar de presente, não prevalece nas entrevistas dos sujeitos que contam com o amparo de seus cônjuges.

Isso confirma a proposta de Barros (2001) que assevera que relacionar-se bem com as pessoas é crucial para os indivíduos obesos. É por meio desse bem-estar proporcionado por essas circunstâncias sociais que a imagem em cada um deles muda, estando os sujeitos cientes disso ou não.

O resultado é o seguinte: se estiverem bem com os outros, estarão bem consigo mesmos e, conseqüentemente, a imagem que possuem de seus corpos propende a ser mais positiva.

No documento Miquela Marcuzzo.pdf - Univali (páginas 98-102)