• Nenhum resultado encontrado

As relações de poder no contexto científico 43

No documento Divulgação científica (páginas 44-49)

2.1. Ciência: desconstrução teórica 36

2.1.1. As relações de poder no contexto científico 43

O saber, desde os tempos remotos, sempre ocupou um lugar de destaque no meio social. Mesmo nas sociedades menos hierárquicas, é possível notar que a

posição ocupada pelo sábios não é arbitrária e que estes exercem uma influência sobre os demais indivíduos da comunidade. Diante de um complexo sistema do saber, as relações de poder que se estabelecem são múltiplas. Identificar parte dessas relações é útil para este trabalho, à medida que possibilita reconhecer posições assimétricas e desnaturalizar as condições que o meio impõe.

Ainda que recusasse a atribuição de teórico do poder, não há como negar que os estudos de Foucault em muito contribuíram para formar uma concepção mais sofisticada sobre o poder. A sua abordagem rompeu com aquela visão tradicionalista de poder soberano, único, onipotente, onipresente.

Para Foucault, o poder encontra-se difuso nas relações; não é privilégio de parâmetros que têm como base posições hierárquicas. "O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui e ali, nunca está em mãos de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede" (FOUCAULT, 1989, p.

183). O poder está espargido nas menores ações, por mais cotidianas e banais elas possam ser. "Assim, quando Foucault fala das relações de poder, ele se refere à experiência que os indivíduos fazem do exercício de sua liberdade, chegando mesmo a dizer que quando não existe tal consciência não existe relação de poder"

(MARINHO, 2008, p. 15). Tal afirmação remete a ideia de que o poder não é algo dado, propriamente constituído e que possa ser compreendido como um objeto.

Em vez de coisas, o poder é um conjunto de relações; em vez de derivar de uma superioridade, o poder produz a assimetria; em vez de se exercer de forma intermitente, ele se exerce permanentemente; em vez de agir de cima para baixo, submetendo, ele se irradia de baixo para cima, sustentando as instâncias de autoridade; em vez de esmagar e confiscar, ele incentiva e faz produzir (ALBUQUERQUE, 2008, p. 109).

Portanto, o poder "é uma prática social e, como tal, constituída historicamente” (FOUCAULT, 1979). Isso implica dizer que se manifesta em "formas díspares, heterogêneas, em constante transformação". Sob esse construto, para entender as relações de poder, é preciso conhecer o contexto em que estão inseridas.

Uma das características do ser humano é sua capacidade de se expressar. E é isso que nos diferencia dos animais. Aqui não se descarta a possibilidade de comunicação pelos animais, mas apenas está sendo pontuado que sua forma de expressão é restrita a condições fisiológicas, ligadas ao seu instinto. O homem, por

sua vez, se constitui socialmente. “Somente o homem é um ‘animal político’, isto é, social e cívico, porque somente ele é dotado de linguagem” (CHAUÍ, 2010, p. 147).

Dessa forma, é possível perceber que a linguagem é um dos meios que direciona as relações de poder, sendo um instrumento valioso dos mecanismos de controle.

A dimensão ideológica da linguagem indica campos distintos – um de natureza aparente e outro de natureza profunda e arraigada. Com isso, há um processo de naturalização de níveis da realidade, sem que o interlocutor dê conta disso. “Somente o nível da aparência se dá a perceber imediatamente. Ele apresenta-se como a realidade da totalidade, o que denota que, no modo de produção capitalista, a aparência é vista como a totalidade da realidade” (FIORIN, 1990, p. 28). Esse ponto é crucial para a compreensão de ideologia, enquanto um conjunto de ideias e representações que explicam – e justificam – a ordem social, bem como as condições de vida do homem e as suas relações sociais. O próprio Karl Marx chegou a assinalar que a ideologia é fruto da 'consciência prática' dos homens, entendendo que a consciência só se realiza enquanto produto social e não individual, tendo em vista que as circunstâncias sociais em que se exerce a atividade dos indivíduos condicionam a sua percepção do mundo em que vivem (GIDDENS, 1994, p. 78). Cabe aqui salientar que não existe uma forma de ideologia, pois são várias as visões de mundo. No entanto, há sempre aquela que prevalece em determinado contexto, já que compreende a do grupo dominante.

Seguindo esse raciocínio, o discurso compreende estratégias dos interlocutores, às quais resultam do jogo de forças e das disputas sociais. A essência do poder está na sua capacidade de produzir eixos assimétricos do campo de forças, “que se exerce permanentemente, dando sustentação à autoridade, e que funciona positivamente, dinamizando, incrementando as forças e recursos existentes” (ALBUQUERQUE, 1995, p. 109). O tripé poder-discurso-ideologia demarca uma tipologia das formas de dominação e controle. No campo científico, é visível essa aliança tríplice. "Todo campo, o campo cientifico por exemplo, é um campo de forças e um campo de lutas para conservar ou transformar esse campo de forças" (BOURDIEU, 2004, p. 22). Em 'A arqueologia do saber', Foucault expõe que

Um saber é aquilo que podemos falar em uma prática discursiva que se encontra assim especificada: o domínio constituído pelos diferentes objetos que irão adquirir ou não um status científico (a saber da psiquiatria no século XIX, não é a soma do que se acreditava fosse verdadeiro; é o conjunto das condutas, das singularidades, dos desvios de que se pode falar no discurso psiquiátrico); um saber, é também, um

espaço em que o sujeito pode tomar posição para falar dos objetos de que se ocupa em seu discurso (neste sentido, o saber da medicina clínica é o conjunto das funções de observação, interrogação, decifração, registro, decisão, que podem ser exercidas pelo sujeito do discurso médico); é um saber é também um campo de coordenação e de subordinação dos enunciados em que os conceitos aparecem, se definem, se aplicam e se transformam (neste nível, o saber da História Natural, no século XVIII não é a soma do que foi dito, mas sim o conjunto dos modos e das posições segundo os quais se pode integrar ao já dito qualquer enunciado novo); finalmente, um saber se define por possibilidades de utilização e apropriação oferecidas pelo discurso (assim, o saber da economia política, na época clássica, não é a tese das diferentes teses sustentadas, mas o conjunto de seus pontos de articulação com outros discursos ou outras práticas que não são discursivas). Há saberes que são independentes das ciências (que não são nem seu avesso histórico, nem seu esboço vivido); mas não há saber sem uma prática discursiva definida, e toda prática discursiva pode definir-se pelo saber que ela forma (FOUCAULT, 1997, p. 206).

A partir deste fragmento, é possível notar que Foucault traz à tona uma ligação muito intimista entre saber e prática discursiva, colocando ambos sob uma relação de condicionalidade. Embora não seja específico da ciência, a associação que lhe é feita ao saber é muito recorrente, devido ao "status científico". A linguagem científica explicita um contexto próprio, está inserida em uma dinâmica institucionalizada e complexa. "Hoje, a ciência tornou-se poderosa e maciça instituição no centro da sociedade, subvencionada, alimentada, controlada pelos poderes econômicos e estatais" (MORIN, 2005, p. 19). A linguagem está muitas vezes distante de outros núcleos sociais; aliás, de alguma maneira, a intenção é se destacar, se diferenciar. "A linguagem científica é, por princípio, uma neo-linguagem.

Para ser entendido na cidade científica, é preciso falar cientificamente a linguagem científica, traduzindo os termos da linguagem comum em linguagem científica"

(BACHELARD, 1972, p. 27). Por isso, o discurso científico quase sempre está restrito a um público muito específico. "Os conflitos intelectuais são também, sempre, de algum aspecto, conflitos de poder. Toda estratégia de um erudito comporta, ao mesmo tempo, uma dimensão política (específica) e uma dimensão científica" (BOURDIEU, 2004, p. 41). Para acessá-lo, é necessário atingir pré- requisitos bem definidos. Há, ainda, a linguagem própria das áreas, em que cada qual tem suas particularidades e, neste caso, muitas disputas entram em cena. Os dilemas das Ciências Naturais e das Ciências Humanas e Sociais, das pesquisas de base e das pesquisas aplicadas, da formação teórica e da formação humanista, parecem explicitar, com bastante clareza, tais conflitos. A metalinguagem da ciência

também mostra como seu núcleo é fechado: instrumentos metodológicos, formulação de teorias, bases tecnológicas. Esse conjunto de fatores é muito peculiar da linguagem científica. "A ideologia não exclui a cientificidade. Poucos discursos deram tanto lugar a ideologia quanto o discurso clínico ou o da economia política:

não é uma razão suficiente para apontar erro, contradição, ausência de objetividade no conjunto de enunciados" (FOUCAULT, 1997, p. 210). Ainda assim, tal dimensão ideológica vem de encontro à concepção de ciência enquanto uma linguagem pura e tecida fora da dinâmica social. "É preciso escapar à alternativa de 'ciência pura', totalmente livre de qualquer necessidade social, e da 'ciência escrava', sujeita a todas as demandas político-econômicas" (MORIN, 2005, p. 21). Aliás, outro fator que contribui para a constituição da linguagem científica está relacionado a sua representação social, ou seja, ao lugar que ela ocupa na sociedade.

Entender o funcionamento ideológico de uma ciência para fazê-lo aparecer e para modificá-lo não é revelar os pressupostos filosóficos que podem habitá-lo; não é retornar aos fundamentos que a tornaram possível e que a legitimam; é colocá-la novamente em questão como formação discursiva; é estudar não as contradições formais de suas proposições, mas o sistema de formação de seus objetos, tipos de enunciação, conceitos e escolhas teóricas. É retomá-la como prática entre outras práticas (FOUCAULT, 1997, p. 211).

Uma dicotomia clássica constantemente usada para explicar o discurso científico trata-se da contradição entre senso comum e saber científico. O conhecimento comum ou popular estaria no domínio cultural, que emana de um saber não sistematizado, geralmente passado de geração em geração ou que não tem comprometimento com uma matriz padrão. "O empirismo é a filosofia que convém ao conhecimento comum. O empirismo encontra aí sua raiz, suas provas, seu desenvolvimento" (BACHELARD, 1972, p. 45). O conhecimento científico, por seu turno, se apoia em uma âncora da razão. "Pela atividade cientifica, o racionalismo conhece uma atividade dialética que prescreve uma extensão constante dos métodos" (BACHELARD, 1972, p. 45). Como assinalado no início deste capítulo, o empreendimento da ciência sempre foi o de ruptura, seja a noções pré-concebidas e explicações míticas, seja a teorias sem fundamento racional e postulados do senso comum. A título de elucidação, Bachelard (1972) aponta um traço bem característico da linguagem científica: as aspas. É através deste sinal gráfico que se tem a possibilidade de demarcar enunciados, considerando a sua conjuntura. E nisso há uma separação muito clara para o saber popular, que muitas

vezes, inclusive por ter se consolidado na tradição oral, não considera as características de uma constatação (ou seja, não faz as perguntas elementares:

"quem?", "quando?", "onde?", "como?", "por quê?").

O termo entre aspas eleva o tom. Ele ganha, acima da linguagem comum, o tom científico. Desde que uma palavra da antiga língua é assim colocada, pelo pensamento científico, entre aspas, ela é o signo de uma mudança de método de conhecimento no que diz respeito a um novo domínio da experiência (BACHELARD, 1972, p. 28).

A linguagem da ciência é sempre remissiva, o cientista deve buscar referências outras, estabelecer paralelos, refutar ideias ou afirmar posições, com base em pensamentos já ditos anteriormente. Nesse sentido, contam também os créditos e os cânones de determinado enunciado. Os autores clássicos, por exemplo, atingiram um patamar que dificilmente será alterado, ainda que novas teorias sobre os tópicos por eles tratados surjam.

Portanto, a ciência estabelece diversos elementos de diferenciação. "Os próprios cientistas fazem suas ciências, seus discursos sobre a ciência, sua ética da ciência, sua política da ciência e, quando são de esquerda, suas críticas e autocríticas da ciência" (LATOUR, 1997, p. 25). Portanto, a ciência é um ciclo complexo, que abarca também pontos de conflitos e de tensões, bem como posições assimétricas e díspares.

No documento Divulgação científica (páginas 44-49)