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O que é violência doméstica para os adolescentes?

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 55-58)

Em relação ao conceito de violência doméstica, os adolescentes apontaram a violência física e a violência psicológica com uma maior facilidade. Vale ressaltar que violência doméstica é compreendida como qualquer ação violenta onde o agressor conviva ou tenha convivido com a mulher, englobando a violência física, psicológica, sexual, moral e patrimonial (BRASIL, 2011b).

Entre os desenhos solicitados no inicio do grupo focal expressando cenas de violência doméstica, sete deles apresentavam contextos de violência física - definida como qualquer conduta que ofenda a integridade corporal, segundo a Lei Maria da Penha (Brasil, 2011b) - representados por tapas, socos, uso de facas, tacos ou armas de fogo nos desenhos dos adolescentes.

Um estudo da Vigilância de Violências e Acidentes (2010) confirma que os meios mais utilizados para agressão em geral são: força corporal/espancamento (61,7%), objeto perfuro cortante (26,8%) e arma de fogo (13,8%), corroborando com o fato de se constituírem os meios mais expressos ao falar de violência.

A violência psicológica foi retratada através de xingamentos em apenas um dos casos pelos adolescentes e refere-se a qualquer conduta com diminuição da autoestima, como por exemplo, ameaças, humilhações e manipulações (BRASIL, 2011b). Os demais adolescentes justificaram que consideram essas ações como características da violência doméstica, mas as

agressões físicas são mais facilmente reconhecidas, muitas vezes deixam marcas pelo corpo e eles acreditam que esses atos são mais repudiados pela sociedade em geral. A fala do participante 08 “(...) o xingamento não chega a ser um crime” manifesta a tendência de minimizar a violência psicológica.

O estudo de Deeke (2009) também demonstrou que os homens tendem a relatar uma menor periodicidade de comportamentos violentos em relação às mulheres, por exemplo, em relação à violência verbal, 48,3% das mulheres relataram sofrê-la diariamente e somente 20,7% dos homens indicaram perpetuá-la com essa mesma periodicidade.

Sabe-se que a violência física geralmente é acompanhada da violência psicológica e, juntas, totalizaram 84,7% dos casos de notificação de violência doméstica, no Brasil, em 2013 (BRASIL, 2013a).

A violência moral foi ilustrada no desenho do participante 10: “[Desenhei] uma mulher que foi violentada e está com uma plaquinha escrita propriedade privada, como se ela fosse só daquele homem, uma placa tipo um cachorro”. Calúnia, difamação ou injúria são exemplos de ações de violência moral (BRASIL, 2011b) e têm punição na Lei Maria da Penha.

De acordo com o Observatório Brasil da Igualdade de Gênero (BRASIL, 2015), 956 homens admitiram ter xingado (53%), ameaçado (9%) e humilhado mulheres em público (5%), entretanto eles acreditam que para esse tipo de violência não são necessárias denúncias.

A violência moral, somada com a psicológica, são consideradas violências invisíveis e representam 10,22% das notificações na Central de Atendimento à Mulher – disque 180 (BRASIL, 2013a). As situações de violência psicológica e moral também causam danos à saúde das mulheres, incluindo depressão e ansiedade, como demonstrado no estudo de Adeodato et al. (2005), onde 75% das mulheres vítimas de violência apresentaram sintomas depressivos, porém como essas situações são mais toleradas socialmente, tornam-se mais passíveis de subnotificação.

A violência sexual apareceu com pouca expressão na discussão, insinuando que ainda é necessário desvendar mais sobre o tema. A violência sexual é entendida como qualquer conduta que a constranja a vítima em presenciar, manter ou participar de uma relação sexual não desejada (BRASIL, 2011b).

Esse tópico gera um debate muito delicado, no qual, geralmente, a vítima é vista como provocadora do episódio. Segundo Nascimento e Ricardo (2010), homens e mulheres têm opiniões parecidas sobre o fato de acreditarem que quando uma mulher é estuprada é porque ela se colocou de alguma forma nessa situação, o que reforça a ideia de que é necessário

conscientizar tanto os homens quanto as mulheres. Nesse mesmo estudo, houve um consenso de que se a mulher não resistir fisicamente o ato não pode ser chamado de estupro. Tal afirmação remete à indagação de que se não associam a falta de resistência física ao estupro, então não devem associar a possibilidade de estupro entre os parceiros íntimos, ato este incluso na definição de violência sexual e que deve ser debatido com mais ênfase.

Um estudo multicêntrico da Organização Mundial da Saúde (OMS) comprovou que a violência sexual praticada por um parceiro em algum momento na vida de mulheres até 49 anos é mais frequente que a praticada por estranhos. Por exemplo, nos Estados Unidos, a maioria das vítimas conhece o estuprador, sendo 43% dos casos perpetrado por seus parceiros íntimos (OMS, 2012).

A violência patrimonial não foi citada na discussão entre os adolescentes, mas também merece relevância. Pressupõe-se que muitas mulheres não sabem que a retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos pessoais é considerada um crime previsto na lei Maria da Penha, consequentemente ocorre uma subnotificação dos casos. De acordo com a Central de Atendimento à Mulher (BRASIL, 2013a), são registrados 1,85% de denúncias contra a violência patrimonial entre os casos de violência doméstica. A violência patrimonial raramente se apresenta separada das demais, servindo, quase sempre, como meio para agredir física ou psicologicamente a vitima (PEREIRA, R. C. B. et al., 2013).

Portanto, nota-se que a mulher vítima de violência doméstica tem o funcionamento de

“manter sua integridade física e psíquica” prejudicado, fato que agrava a realização de outros funcionamentos básicos, pois se a mulher vítima de violência doméstica apresenta lesões corporais, dor e/ou depressão ela terá maior dificuldade para manter-se empregada, o que acarretará em menor renda e, consequentemente, prejuízo na capacidade de manter-se nutrida, por exemplo.

Manter a integridade física e psíquica é um funcionamento básico que deve ser preservado em todos os ambientes, seja ele familiar ou público, pois as mulheres estão vulneráveis a agressão, assédio ou estupro e, de acordo com uma perspectiva moral de respeito universal, todos os indivíduos são igualmente objeto de respeito, possuidores de um valor intrínseco e devem ser reconhecidos como fins em si mesmos.

Já em relação à pergunta “existem justificativas para que ocorra a violência doméstica?”, os adolescentes foram enfáticos na resposta negativa a essa questão. A frase do participante 08 representa bem o pensamento do grupo: “não existe nenhum motivo para agir com violência [contra a mulher].” Já na pesquisa de Segundo, Nascimento e Ricardo (2010), eles

identificaram 21% de homens adultos que acreditam que há situações nas quais a mulher merece apanhar e, surpreendentemente, 8,5% das mulheres concordam com tal afirmação.

Afirmativa esta que interpreta a violência física como algo “pedagógico”- como forma de ensinar a mulher o que é correto - ou ainda, a violência é usada como forma de resgatar a

“honra masculina”, em situações de ciúmes ou traição.

Diferentemente das respostas encontradas em trabalhos com homens adultos, os adolescentes não veem justificativa para as agressões, sejam elas por ciúmes ou traição, sinalizando pequenas mudanças na percepção sobre igualdade de gênero.

Rosa et al. (2008), em seu grupo focal com homens agressores, em Santa Catarina, encontrou que os sujeitos centralizam na companheira os motivos da agressão, caracterizados como ações ou atitudes inadequadas. Eles consideram atitudes inadequadas o descuido com os filhos e a necessidade de controlar o parceiro.

O fato de associar o cuidado dos filhos à mulher e não permitir que ela participe das

“regras” do relacionamento remete a uma concepção tradicional de gênero, na qual a mulher fica responsável pelos cuidados domésticos, pertencendo aos parceiros a função de chefiar e sustentar a casa.

Quando o motivo da agressão é atribuído ao próprio agressor eles mencionam o uso de bebidas alcoólicas, como forma de minimizar a culpa (ROSA et al, 2008). Entre os adolescentes da pesquisa não se admitiu a bebida como forma de justificar o ato agressivo.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 55-58)