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Educação: a promoção da saúde e a prevenção como pilares da atuação

3.1 Desenvolvimento do Instrumento de Coleta de Dados sobre o saber-fazer

3.1.1 Verificação da análise evidência de validade de conteúdo dos itens que

3.2.1.2 Educação: a promoção da saúde e a prevenção como pilares da atuação

Nesta subcategoria, apresenta-se e analisa-se as questões relacionadas a educação voltada para a promoção da saúde e prevenção de agravos à saúde e doenças ocupacionais.

Nota-se o importante papel do enfermeiro do trabalho no desenvolvimento de atividades voltadas a promoção da saúde junto aos trabalhadores, configurando como um dos grandes pilares de atuação profissional.

A enfermagem do trabalho está voltada para a promoção e prevenção [...] Programas de promoção à saúde em relação a saúde ocupacional, saúde do trabalhador [...] todo mundo tem que baixar o peso né?! E aí? Eu vou dizer o seguinte: quem tiver o IMC acima de quarenta, não vai trabalhar mais em turno, não vai trabalhar em altura. É mesmo? E acontece o quê? Está todo mundo fazendo a redução de peso [...]. Eu estou fazendo promoção e prevenção não estou? (P.1)

A gente precisa investir de alguma forma na promoção da saúde dentro das corporações (P.4)

E quando você previne uma doença, você promove a sua saúde (P.3)

A gente oferece uma comida saudável, aqui olha pelo menos promovendo saúde, independente se a pessoa tem ou não colesterol alto ou hipertenso, isso é pra todo mundo [...] a questão de programas, de levantamentos epidemiológicos para a promoção da saúde dos trabalhadores (P.2)

A gente trabalha, também, fazendo prevenção não só de acidentes, mas de doenças, de problemas de saúde, tanto ocupacional quanto de uma forma geral. Então eu faço palestras semanais sobre hipertensão; diabetes; tabagismo; ergonomia; sobre obesidade. Então a gente faz todo um trabalho voltado também para a prevenção da saúde desses trabalhadores [...] eu consigo atuar na prevenção dos trabalhadores, eu consigo ver aqueles funcionários que eu faço o acompanhamento, que estão perdendo peso, aqueles funcionários que a hipertensão deles não estava controlada e a partir do meu acompanhamento ali junto do local dele de trabalho, ele tem melhorado, ele tem evoluído para melhor (P.6)

Então, assim, faz palestra também; câncer de mama; novembro Azul, todas essas questões, a gente faz, né?! (P.8)

No processo de formação do enfermeiro do trabalho a Associação Nacional de Enfermagem do Trabalho (2017) apresenta um currículo mínimo e, dentre as disciplinas destaca-se que o pós-graduando deverá ter contato com questões de enfermagem do trabalho com vistas a prevenção, promoção da saúde e recuperação da saúde do trabalhador. Neste sentido, desde o processo de formação o enfermeiro do trabalho terá forte influência de conteúdos voltados as questões de prevenção de doenças e agravos à saúde e promoção da saúde. Além disso, integra o escopo de atribuições profissionais a atuação no PCMSO que tem por objetivo a promoção e preservação da saúde dos trabalhadores (BRASIL, 1994;

LUONGO; FREITAS, 2012).

Para Carvalho (2014) os programas de prevenção em saúde configuram-se como uma estratégia a ser utilizada pelo enfermeiro do trabalho em integração com a equipe de saúde ocupacional, na busca de mudanças junto aos trabalhadores em relação ao estilo de vida, a fim de diminuir a incidência de doenças e agravos relacionados à saúde.

Cabe ao enfermeiro do trabalho atuar em programas de orientação, esclarecimento juntos aos trabalhadores, com vistas a incentivar a adoção de medidas preventivas por parte dos trabalhadores, ao extinguir acidentes de trabalho e manter o ambiente de trabalho seguro (CASTRO; SOUSA; SANTOS, 2010).

Ademais, integra as atividades educativas do enfermeiro do trabalho as ações de promoção da saúde, prevenção de agravos e educação permanente em enfermagem, por meio de campanhas, diálogos sobre saúde e segurança, e orientações de saúde do trabalhador/ocupacional (RODOFF et al., 2017).

A American Association of Occupational Health Nurses (2013) aponta que enfermeiros do trabalho são primordiais para a gestão econômica dos programas de saúde ocupacional e ambiental no local de trabalho. Dentro do escopo das práticas o enfermeiro deverá colaborar com empregadores, trabalhadores e demais membros da equipe na identificação das necessidades de saúde e segurança no local de trabalho, priorizar intervenções e desenvolver programas de saúde.

Em relação aos programas de saúde considera-se que estes deverão ser estabelecidos com vistas a assistir os trabalhadores, acompanhá-los e prestar a assistência aqueles que possuem comorbidades crônicas, abrangendo temáticas como imunizações, conservação auditiva, doenças transmissíveis, vigilância epidemiológica e ergonomia, educação em saúde com enfoque na obesidade, diabetes, tabagismo, entre outros (HAGG, 2001).

Aldana (2001) em um estudo de revisão de literatura sobre a capacidade dos programas de saúde na redução de custos e na diminuição do absenteísmo dos trabalhadores, evidenciou que tais programas estão relacionados a redução do absenteísmo e consequentemente na redução de custos com assistência à saúde.

Baicker, Cutler e Song (2010) corroboram ao afirmarem que os programas de prevenção de doenças no trabalho e bem-estar para melhorar a saúde, reduzem gastos médicos e diminuem custos com o absenteísmo. Neste sentido, os investimentos em tais programas trazem benefício econômico e produtivo as empresas, além de melhorar as questões de saúde dos trabalhadores.

Os mesmos autores ao analisarem os programas de bem-estar desenvolvidos por grandes empresas americanas evidenciaram que os principais métodos aplicados se baseiam:

na avaliação de risco à saúde; materiais de educação e autoajuda; aconselhamento individual;

aulas, seminários e atividades em grupo (BAICKER; CUTLER; SONG, 2010).

Para a American Association of Occupational Health Nurses (2013) o desenvolvimento e implantação de programas de saúde ocupacional e ambiental promovem melhoria na saúde dos trabalhadores, diminuem os custos e absenteísmo, aumentam a produtividade, bem como facilitam a continuidade dos cuidados relacionados a saúde dos trabalhadores.

Thompson e Wachs (2012) ao discorrerem sobre a prática de enfermeiros de saúde ocupacional dos EUA, apontam que estes profissionais possuem uma diversidade de atuação, sendo fundamentais aos programas de promoção da saúde e nos serviços de prevenção de doenças e lesões, contribuindo, de sobremaneira, para o controle de custos e na manutenção da saúde dos trabalhadores nas empresas.

Estudo japonês, em um jornal com trabalhadores acerca da promoção da saúde, evidenciou que uma filosofia empresarial baseada na promoção da saúde e na prevenção primária e secundária foram mais efetivas que as ações focadas na prevenção terciária. As enfermeiras de saúde ocupacional desenvolveram suas ações pautadas no ambiente de trabalho e na participação do trabalhador, isto é, os ambientes de trabalho devem contribuir positivamente para a saúde dos trabalhadores, que devem ser estimulados a promoverem sua própria saúde. Dentre as atividades executadas destacam-se: reuniões com trabalhadores com enfoque na educação em saúde voltada ao trabalho, orientações e trocas de experiencias e ideias junto aos trabalhadores (ARIYOSHI et al., 2010)

Nota-se que os participantes do estudo compreendem que dentre as atribuições práticas do enfermeiro do trabalho está atuação na promoção da saúde e na prevenção de doenças e agravos relacionados à saúde, embora, nas falas não apontem diretamente os programas de saúde, porém, é evidente que desenvolvem atividades de educação em saúde na perspectiva da promoção e prevenção, com enfoque no trabalhador e na segurança. Dentre as atividades apontadas destacam-se a execução de palestras e orientações voltadas ao comportamento e hábitos de vida com vistas a promoção da saúde, prevenção e segurança no trabalho.

No entanto, infere-se que a promoção da saúde presente nas falas dos participantes remete aos modelos pautados nos efeitos nocivos dos comportamentos e hábitos de vida, seguindo uma normativa positivista.

Conforme apontado por Rogers (1997), as ações de promoção da saúde e prevenção pauta-se por vezes, nos modelos de Leavell e Clark (1976) baseado no conceito de níveis de prevenção; Green e Kreuter (1991) onde a promoção baseia-se na combinação de apoios educativos e ambientais, partindo da premissa de que as pessoas passam a dominar os fatores que determinam sua saúde; O’Donnel (1989) refere que a promoção consiste em ajudar as pessoas a mudarem o estilo de vida por meio da conscientização e da criação de ambientes que permitam práticas de saúde; entre outros.

Rogers (1997) traz também os conceitos de Nola Pender (1987) que distingue a promoção da saúde e a prevenção. O Modelo de Pender baseia-se no comportamento que leva

a promoção da saúde e nos fatores que irão influenciá-lo. A promoção da saúde consiste em aumentar o nível de bem-estar de indivíduos, famílias e comunidade (PENDER, 1987;

VICTOR; LOPES; XIMENES, 2005).

Corrobora com o exposto, as falas abaixo relacionadas a segurança do trabalho, tendo como viés a promoção da saúde e a prevenção, bem como a utilização de estratégias de ações voltadas a promoção da saúde, prevenção e segurança do trabalho.

Não, é isso vai até além né?! Nem é questão só de saúde, é questão de segurança, né?! [...] É! mas quando você mexe na segurança, que também acontece lá a questão do IMC maior do que quarenta. Que impede o embarque, por que que tem tanta força? Porque é questão de segurança [...] não vai aguentar o peso da pessoa, muitas vezes não é de saúde, por que o cara tá com trinta e nove IMC a trinta e nove vírgula nove ele vai embarcar entendeu?!, mas o quarenta não. A visão é na segurança [...] é uma técnica, na verdade é quase uma nova técnica, é uma norma de poder atuar dentro, baseado na segurança (P.2)

A visão é na segurança (P.4)

O viés tá na totalidade é a estratégia...é estratégia ...Sabe por quê?...A gente cansou.

A visão são os dois, só que é o seguinte, sabe por que vou te dizer uma coisa. Ah!

faz cinco anos que a gente promove alimentação saudável, paga academia, não é?

Para o empregado baixar o IMC dele, tá bom; e ele não baixa, ele acha bom ir pra academia. Chega lá no final da noite come duas, três pizzas e tá tudo certo, entendeu?! Tá bom então? A gente faz, tá bom? Só que a gente quer, a gente criou um instrumento que force ele a fazer, a cuidar da sua saúde cara (P.1)

[...] se não houver a integração do que a gente chama do HSEQ, né, (que é Saúde, Segurança, Qualidade e Meio Ambiente) as coisas desandam, né, os acidentes aumentam (P.6)

Ainda, a segurança no local de trabalho constitui-se uma responsabilidade de todos os membros da equipe de saúde ocupacional e para Rogers (1997) as questões que envolvem a segurança e a saúde são essenciais para se prevenir acidentes de trabalho.

Rogers (1997) ao discorrer sobre a prática de enfermagem do trabalho sinaliza que o profissional atua na promoção, manutenção e restabelecimento da saúde dos trabalhadores, através da promoção da saúde e na criação de estratégias de prevenção, e para tal desenvolvem programas de segurança e saúde no local de trabalho.

Em relação ao papel do enfermeiro em saúde ocupacional destaca-se a prevenção de lesões e doenças ocupacionais por meio de estratégias voltadas para a saúde e segurança ocupacional. Cabe ao enfermeiro do trabalho atuar na promoção da saúde e na capacidade para o trabalho, abrangendo situações para além das condições ocupacionais, por compreender que determinadas problemas, embora não causados diretamente pelo trabalho, afetam diretamente a assiduidade e o desempenho do trabalhador (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2001).

Felipe-de-Melo et al. (2011) em estudo realizado com trabalhadores administrativos de uma indústria de petróleo sobre fatores associados à síndrome metabólica (SM) identificaram a alta prevalência da SM principalmente no sexo masculino, em trabalhadores com histórico de tabagismo e idade acima dos 40 anos. Tais resultados reforçam a necessidade de programas de saúde voltados a melhoria do estilo de vida, visando prevenção e controle de doenças cardiovasculares.

De’Angelis e Burgel (2013) em estudo sobre problemas de saúde e segurança ocupacional, realizado junto a American Association of Occupational Health Nurses, em relação as prioridades de avaliações de saúde apontaram o controle de peso, nutrição, saúde mental, alimentação saudável, atividade física, gerenciamento de estresse como fundamentais.

A Agência Europeia para a Segurança e Saúde no Trabalho (2010) sinaliza que a promoção da saúde no local de trabalho é uma ação abrangente e contínua, que integra empregadores, trabalhadores e sociedade, com intuito de incentivar trabalhadores a participarem de atividades saudáveis, bem como melhorar a organização do trabalho e do meio ambiente laboral, de modo, que as atividades de promoção da saúde no local de trabalho integrem as atividades de prevenção de riscos.

Ferreira e Matos (2013) consideram que as empresas devem investir em programas de promoção da saúde, haja vista, que estes investimentos trazem benéficos a empresa, ao sistema de saúde público e privado e a própria população. Além disso, algumas empresas utilizam o incentivo financeiro, por meio de bônus e reembolsos para estimular a participação dos trabalhadores (BAICKER; CUTLER; SONG, 2010).

Para Carvalho (2014) o planejamento dos programas de prevenção deverá compactuar com a filosofia da empresa, embora algumas empresas buscam apenas cumprir os requisitos legais estabelecidos na NR-7. No entanto, o autor sinaliza que outras poderão ir além do mínimo exigido em lei, avançando em ações preventivas baseados em evidências epidemiológicas, como a prevalência e incidência de doenças e fatores de risco ocupacional.

Soma-se a isso, o fato de que a utilização de dados epidemiológicos de acidentes e doenças ocupacionais subsidiam o planejamento de cursos e treinamentos junto aos trabalhadores (RIBEIRO, 2012).

Em contrapartida, as ações de saúde com vistas ao cumprimento de normas legais estão sendo superadas por não trazerem os resultados esperados. Embora os programas de promoção da saúde no ambiente de trabalho tragam benefícios para as empresas em relação aos custos, o fator econômico é apenas um dos muitos benefícios decorrentes de tais ações (OGATA, 2018).

A superação de modelos centrados no individuo e em partes isoladas, dão lugar a programas amplos solidificados numa cultura de saúde, integrando saúde e segurança, considerando, também, os determinantes sociais de saúde na ocorrência dos problemas de saúde (OGATA, 2018).

Neste sentido, observa-se nas falas dos participantes a importância da atuação do enfermeiro do trabalho na prevenção de doenças e agravos à saúde relacionados ao trabalho e na promoção da saúde do trabalhador, tendo, por vezes, o viés da segurança do trabalho.

Portanto, o saber-fazer do enfermeiro do trabalho na perspectiva da educação em saúde centra-se na tríade prevenção, promoção e segurança.